terça-feira, 4 de setembro de 2007

Os Pobres que Paguem a Crise

Este texto, de Alfredo Barroso, nunca poderia ter sido escrito por mim: nunca me revi nesses punhos que se transformaram em rosas e além disso nunca conheci pobre nem famoso com o apelido Barroso. Porque estou convencido que parte dos viajantes que por aqui passam não são leitores do Sol, calhou-me à mão a transcrição da abordagem. Mas atenção, não me confundam, o homem é famoso Barroso dos famosos Barrosos, famílias pelas quais não teço qualquer simpatia e além disso, também eu, não leio o Sol. Recebi a coisa por e-mail, neste dia abafado de Setembro em que mais nada me apetece senão citar.

O ESTADO de completa devastação ideológica em que se encontra o PS pode ser avaliado pelos resultados obtidos ao cabo de dois anos de governação. Empenhado em meter o país nos eixos, o Executivo chefiado pelo sempre severo e temível engenheiro Sócrates cometeu uma proeza (in)digna de qualquer partido socialista que se preze: uma redução rápida e brutal do défice do orçamento do Estado e uma subida vertiginosa das desigualdades sociais; um aumento algo pindérico da taxa de crescimento do PIB e uma diminuição bastante significativa do poder de compra dos trabalhadores. Mais: enquanto o desemprego se situa a um nível muito alto e a precariedade se generaliza, as grandes fortunas prosperam, tendo crescido 35,8 por cento em relação a 2006. Um escândalo. Se estes são resultados dignos de um governo socialista, vou ali e já venho.
BEM PODEM tentar desqualificar-me, chamando-me «esquerdista», «demagogo» e «populista». Os números são bastante claros, não fui eu que os inventei. «Esquerdista» é o Instituto Nacional de Estatística, «demagogo» é o Instituto do Emprego e Formação Profissional, «populista» é o Eurostat. O certo é que as diferenças de rendimentos entre ricos e pobres, em Portugal, atingiram uma dimensão inédita, batendo um novo record: ao contrário da tendência que se regista na União Europeia, o fosso salarial entre ricos e pobres alarga-se e situa-se, agora, duas vezes e meia acima da média comunitária. Além disso, Portugal é o país europeu que menos investe em segurança social.
O desemprego de longa e muito longa duração cresceu assustadoramente e já representa quase metade do total de 470 mil desempregados. Há 250 mil desempregados com menos de 35 anos e 124 mil com mais de 44 anos. O PS bem pode limpar as mãos à parede.
PARECE ABSURDO que o combate à crise económica e financeira, levado a cabo por um governo pretensamente socialista, em nome dos superiores interesses do país, resulte em maiores desigualdades sociais, mais precariedade, mais desemprego e mais pobreza, ao mesmo tempo que as grandes fortunas aumentam vertiginosamente. Mas, como dizia Napoleão, «em política, o absurdo não é um obstáculo». Não se contesta o papel crucial da propriedade privada e do capital no desenvolvimento de uma sociedade aberta, livre e democrática. Mas é legítimo perguntar que contribuição têm dado os mais ricos para combater esta crise tão grave. Queixam-se de que o Estado os estrangula, mas a verdade é que as suas fortunas crescem a olhos vistos, ao mesmo tempo que as classes médias empobrecem e os trabalhadores sofrem os efeitos da técnica da banda gástrica que este Governo decidiu aplicar-lhes para lhes reduzir o apetite. O que é indecente.
É VERDADE que a devastação ideológica que se verifica no PS remonta ao tempo do inefável engenheiro Guterres. Mas o «pico do incêndio» só foi atingido agora, sob a égide do intratável engenheiro Sócrates. A perda de quaisquer estímulos ideológicos na luta política gerou um vazio ao nível das ideias, das convicções e dos princípios, dando lugar a uma nova classe de políticos mais sensíveis a motivações materiais, a interesses pessoais e de poder. Foi a vitória do sentido de oportunidade (para não lhe chamar outra coisa mais feia) e do pragmatismo sem princípios.
AS CHAMADAS «práticas clientelares» (mais evidentes ao nível autárquico) e de «governo paralelo» (das grandes empresas e interesses financeiros) impõem-se, hoje, aos partidos do «bloco central». Por isso, não espanta que a passagem do poder do PSD para o PS (e vice-versa) não seja mais do que «saltar do lume para a frigideira». Dizem as boas línguas que o Governo do engenheiro Sócrates tem feito «reformas muito corajosas». Eu, que sempre fui má-língua, limito-me a perguntar: é preciso coragem para exigir aos pobres que paguem a crise?!
«Sol», 1 de Setembro de 2007

7 comentários:

Zé Povinho disse...

O Sol já me chegou algumas vezes à mão, e outra vezes ao écran do PC. Não faço intenções de o comprar muitas vezes. Quanto a "este Barroso", um pouco esquecido pois não refere quem foi o primeiro socialista que meteu de facto o socialismo na gaveta, veio afora dizer o que já circula pela blogosfera há gastante tempo. Chegou tarde, porque o pessoal por cá anda atento.
Abraço do Zé

MARIA disse...

O que me parece verdadeiramente visionário é o modo como o Senhor vê o "sempre severo e temível engenheiro Sócrates"...
Afinal, sempre se confirma, até as vozes mais críticas o afirmam : não é simplesmente engenheiro... não, pois que é também severo e também temível...
Não sei, mas que de facto tenho sentido que entra severamente no meu bolso e temo cada dia mais desgostos, lá isso é verdade...

Metralhinha disse...

Custa-me concordar com AB, mas não se vislumbra alternativa ao saltar da frigideira para o fogo.
A verdade é que os governos não mandam na economia, aliás já não mandam, são mandados!

martelo disse...

o tal temível e impiedoso conseguiu uma habilidade espantosa e que se resume numa decisão pelo menos para alguns mais lúcidos: não tornará a ter uma maioria absoluta pela simples razão de que vai "levar" com a moca de Rio Maior...nas próximas eleições; isso não altera a asneira e os que engorduraram as carteiras bem lhe podem agradecer o jeito.

Kaotica disse...

O levantamento levado a cabo por esse tal de Barroso, cuja opinião o semanário "Sol" tão oportunisticamente divulgou nas suas páginas (atenção que ele há poderes que não dão ponto sem nó!, está muito certa e se peca é por omissão. Por que será que esse senhor só acusa o PS e o governo PS (embora faça também uma alusão à responsabilidade dos governos de alterne PS/PSD)? Por que se esquece este senhor de referir de onde vêm estas políticas que uns e outros praticam? Por que não se refere às directivas da UE? Às políticas hiper-capitalistas da globalização? Ao clube Bilderberg? Quem tem razão é o metralhinha: estes governos são apenas uns paus mandados! Aconselho uma visita ao Pafúncio para ler e apoiar o apelo lançado pelo POUS (de que não sou militante!)
Que há quem aponte o caminho há mas o povo português que é lorpa prefere votar nos que já lhe deram provas mais do que suficientes que governam para se governar!

Um abraço

Watchdog disse...

Não é de admirar que depois se assaltem bancos...

João Rato disse...

zé povinho
pelos vistos estamos de acordo no que toca à legitimidade das ideias destas gente de boas famílias

maria
visionário eu? o sócrates está em toda a parte, chega a fazer concorrência ao próprio Deus! A diferença é que Deus é sempre visível para quem acredita e sempre ausente para quem não crê. Sócrates aparece e desaparece de modo calculista entre a cobardia e a vaidade.
não fui claro mas também já não consigo ser, é melhor ficar por aqui
bjs

metralhinha
a questão é:
custa-nos mais a nós concordar com ele ou a ele concordar connosco?

martelo
isso é que eu já não estou seguro!
pelo nosso eleitorado eu não ponho as mãos no lume! Para haver uma maioria basta que votem três, faço-me entender?

Kaótica
partilhamos as mesmas dúvidas e interrogações, vejo. Lá passarei pelo Pafúncio.
bj