segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Para que conste

Fez dia 4 de Janeiro, 41 anos que me enfiaram no já então velho navio Niassa e me mandaram para o norte de Moçambique, incumbido da superior missão de matar “a bem da Nação”. Caí em emboscadas, fui atacado e flagelado. Também, embosquei e ataquei, disparei e ordenei que disparassem as G3, as metralhadoras, o morteiro 60 e a bazuca. Tenho a reconfortante noção de, pessoalmente, nunca ter atingido um “inimigo”. É impossível descrever o sofrimento e as privações que eu, e os valentes que eu comandava, sofremos num meio e num clima hostis em que até a água não era mais do que lama. Prometi, em segredo, a mim próprio, na hora de embarque trazer de volta e com saúde todos os militares que comandava. Felizmente que o consegui, com orgulho, apesar dos muitos perigos a que fomos sujeitos e a que nunca virámos a cara. Mantenho com a esmagadora maioria dos meus então subordinados e camaradas, independentemente do posto, uma forte e, porque não dizê-lo, comovente relação de amizade. É sempre com grande prazer que encontro qualquer um deles.
41 anos é muito ano! Tenho saudades da forma física e da capacidade de resistir ao sofrimento de então. Estou a ficar velho é o que é. Este texto é sinal evidente de velhice. Desculpem lá mas o 4 de Janeiro de 1968 é um dia que nunca esquecerei porque, para mim determinou uma barreira: o antes e o depois de.
E observarão os mais atentos:
- Há qualquer coisa aqui que não bate certo nas histórias da personagem Pata Negra! Pelo que se deduz de anteriores testemunhos, o bácoro não terá idade para ter andado nesta guerra!
- Pois não! E depois?! Há algum problema nisso!? É que eu também sou feito do que são os meus amigos e, no caso, esta é a transcrição dum mail que me escreveu um amigo com o assunto "para que conste". Eu gostei do gesto, do testemunho e... postei. Há algum problema!? É que se há algum problema resolve-se já! Bom!... É melhor não me puxarem pelos nervos! Eu escrevo aquilo que quero e me apetece, verdade ou mentira, mal ou bem e ninguém tem nada a ver com isso! Bom!...

20 comentários:

salvoconduto disse...

Tem calma, não te enerves, vê-se mesmo que não andaste na guerra. Faz como o CR, dá uns chutos e diverte-te.

quink644 disse...

Deixa lá, o Sócrates também não... Já têm coisas em comum, vês...

joshua disse...

Ah, grande João! Guerreiro só das ideias, mas se a hora for grave, vamos juntos prá Rua mandar para a Rua quem nos monta covardolasmente Rodeo-norte-americano: com os colhões entalados.

Estamos noutra espécie de Ultramar. O Regime está UltraIndecente e remete-nos para a Ultra-indignação.

antonio - o implume disse...

Grunhidos resmungões a fechar um bom post, num excelente testemunho, é simplesmente proibido!

Tino no bácaro!
Também nós em tempos fomos americanos, à nossa medida, bem entendido.

Mariazinha disse...

Ah valente assim é que fala!

Não me digas que fazes anos dia 4 de janeiro?

Vê lá se arranjas um tempinho para vires confraternizares cá com a malta do deserto!

Beijokas

Camolas disse...

Haja liberdade de expressão! num país que anda controlado de mais para o meu gosto.

O Guardião disse...

guerra não deixa saudades a ninguém, penso eu, e nesse ano eu, que até por lá nasci, estava (por acaso) por aqui, e tinha viajado para cá no Pátria.
Cumps

polidor disse...

agora é que tramaste esta coisa, ficamos sem saber se és um cota ou se te armas em leitão...

abraço

Tiago R Cardoso disse...

pelo menos espero que um dia ainda tenhas forças para te juntares com o pessoal, o Implume, eu e o Jushua para um Leitão.

Compadre Alentejano disse...

Bom post. Não há dúvida que a nossa geração (década de 60) foi muito sacrificada.
Um abraço
Compadre Alentejano

Anónimo disse...

Eu assumo!
Fui eu que enviei ao Pata Negra e a mais uns quantos Amigos o texto que, um arrebatamento, me impeliu a escrever. Nessa noite demorei-me um pouco mais que o habitual a “surfar” na Net e, quando reparei, já estávamos no dia 4 de Janeiro. Data que nunca esquecerei pois foi o dia em que me enviaram para África só com bilhete de ida: o regresso, depois se via…
Decidiu o “Rei dos Leitões” postar o meu texto. Fico-lhe grato por isso.
Posso estar errado mas penso que só quem viveu aquela estúpida guerra perceberá completamente o que me levou, num ímpeto, a partilhar o que lá passei. E disso muito mais poderia contar, situações ora trágicas ora hilariantes. Talvez um dia destes.
JAL

Marreta disse...

Parece que está criada uma onda de histórias sobre o Ultramar por tudo quanto é blog! Será que vamos outra vez colonizar a Guiné e Angola?!
Das minhas 2 comissões (uma em Angola e outra na Guiné) não fiquei com saudades nenhumas, isto já para não falar do camadão de paludismo que por lá apanhei. Ainda a coisita melhor que recordo desses tempos foi um diamantezito que consegui sacar em Angola e trazer enfiado dentro da carne do braço.

Saudações ultramarinas do Marreta.

Zorze disse...

Pata Negra,

É assim mesmo, mostra a fibra de que és feito.

Em 1968, estava eu ainda no extrafísico a pensar. Vou nascer naquele lindo País, que se chama Portugal.
Quando cá cheguei, vi logo que me enganaram!

Nestas coisas não dá para voltar atrás. Tem que se aguentar. Agora olha, caramelos!

Abraço,
Zorze

Mariazinha disse...

Desculpa o mau portugues...
Queia dizer para "vires confraternizar"

Por vezes comento do trabalho e à pressa e é o que dá!

Beijokas

Pata Negra disse...

Salvoconduto
Não em enervo porquê?! Dizes que não andei na guerra, para eu jogar à bola e não queres que me enerve?!

Quink
Não me voltes a comparar com Sócrates, nem na nacionalidade!

Joshua
Mas eu já estou na rua!

António
Gruuuugruuuugruuu!
Grunhidos é isto??

Pata Negra disse...

Mariazinha
Cada um escrve cumo quer e lhe aptece. Nos comentários as gralhas e os erros são normais e compreensíveis, neste caso até recomendáveis - gosto mais da primeira forma

Camolas
Já lá vai o tempo em que nos tiravam liberdade de expressão, agora são mais subtis: tiram-nos a capacidade de expressão.

Guardião
A guerra não deixa saudades mas a idade....

Polidor
Eu, Pata Negra não sou uma pessoa, sou uma personagem. Como tal tenho o tempo e a idade, variáveis mas sobre controlo

Tiago
Forças tenho, tenho é medo de andar de comboio.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Todos somos um pouco de todos.
Pata Negra
A tua história podia ter acontecido. Muitas aconteceram. Fazem parte dum passado que se repete noutros lugares ainda que em diferentes contextos.
A guerra bruta que não serve ninguém a não ser os senhores da guerra. Deixo-te uma quadra do falecido maestro Belo Marques que me ocorreu quando te li.



Enganaram-te meu filho, tu não queiras/
levar a dor ao peito de outras mães/
em nome de rídiculas bandeiras/
inglórias fortunas que não tens.



Abraço pacifista

Pata Negra disse...

Compadre,
felizes aqueles que chegaram a tempo ao tempo de Sócrates para ainda poderem ter reforma.

JAL
Fica-te bem a autenticidade do post. Já não direi o mesmo da sinceridade com que o comentas: um homem que andou na guerra deve ter aprendido que nem toda a verdade é para ser dita.
Desminto: não foste tu que me enviaste o texto!

Marreta
A ordem é de novo:
Todos para Angola e em força!

Zorze
Oh puto, o país onde nasceste era tão lindo.

Um abraço a todos
num dia em que me achei mais pachorrento

Pata Negra disse...

Silêncio
A história aconteceu com o JAL e de certeza que ele vai gostar de ler os versos que deixaste.

Nocturna disse...

Que pode dizer uma mulher, que faz o possível para ser pacífica, acerca das experiências de
uma guerra ?
Tenho amigos que falam das grandes amizades feitas durante a guerra em condições difíceis, lembrando esses tempos com uma ponta de saudade, outros choram só de lembrar o horror que viveram e assistiram, outros ainda pior: não são capazes de falar desse tempo.
Para mim, as guerras são todas um horror a evitar, causam dano aos dois lados dos contendores, às suas famílias e amigos.
Talvez, quem o conseguir, deva ir escrevendo o que lhe for possível acerca de tão terrível experiência, até para os mais jovens terem consciência de que não há guerras justas e que os governantes mandavam/mandam os filhos dos outros paras as guerras (defender o solo pátrio),mas os filhos deles, ficavam por cá ou iam para o estrangeiro, onde ficavam a bom recato.
Um abraço fraterno e nocturno.