terça-feira, 15 de dezembro de 2009

1- A aguardar título

Eu, menino de 2ª classe, era um exímio caçador de grilos. O meu sucesso não tinha origem no tradicional método da palhinha mas resultava da técnica da rendição do insecto por asfixia: despejava um lata de água no buraco e, passados instantes, contava mais um. Cheguei a ter mais de um quarteirão de grilos enclausurados em gaiolas, latas e frascos - uma verdadeira grigricultura.

Depois trocava-os por folhas de alface e outros géneros (a minha mãe proibiu-me de recorrer à horta), com outros meninos. Não era grande negócio, a moeda de troca, não se traduzia em lucro, assegurava apenas a manutenção da exploração. Além disso tinha sempre reclamações: ou porque não cantavam, ou porque não se calavam, ou porque morriam passadas algumas horas. Eu tentava esclarecer os clientes com teorias sobre a vocação artística dos grilos e com a lei da vida mas nem sempre era convincente.

Que gaita, um grilo não serve só para cantar! A morte dos grilos era a coisa mais natural, eu próprio geria um cemitério desse seres de Deus, com pequenas cruzes sobre cada pequena campa, nas imediações do complexo de gaiolas, latas e frascos!

Teresinha veio a minha casa e ficou encantada com a grigricultura, provavelmente, também com o grigricultor e fizemos negócio. A troco de 10 grilos, deu-me um tractor de plástico, daqueles que eu tão bem conhecia da “feira dos 12” mas que minha mãe sempre se recusara a comprar:
- Não ligues a essa porcaria filho! Isso não vale nada, é só plástico! Para que queres tu um tractor se tens uma junta de bois!?
Para quem não é da zona do pinhal, saiba-se que uma junta de bois eram duas pinhas atadas por um cordel que as crianças arrastavam atrás de si, com um pau às costas e a dizer “anda bórisca!”.

Mas quem era Teresinha para tanto se interessar por grilos em cativeiro e poder para me oferecer em troca um tractor que tanto jeito me daria para o transporte das gaiolas, latas e frascos?! A Teresinha poderiam ser úteis os cantadores para um novo número de circo. Ela queria alargar a sua actividade artística de pequena e aplaudida contorcionista dos saltimbancos que, uma vez por ano, abancavam no largo da aldeia.

história para continuar se me der na real gana

11 comentários:

antonio - o implume disse...

Espero que a real gana te leve a continuá-la! Regressaste ao teu melhor!

Ex-Marreta disse...

'Tá bem, exímio caçador de grelos! Já estou a ver a historieta, do mesmo calibre da de Coimbra...

Saudações de um ex-Marreta!

belmonte disse...

Com que então a Teresinha encantada com o grigricultor. É pá és mesmo convencido.
Mas venha de lá essa história. Ficaremos à espera.

salvoconduto disse...

Vai lá vai, uma lata de água no buraco! Tinhas assim a água sempre à mão... Confessa lá, quantas vezes mijaste no buraco?

Milu disse...

Olá Pata Negra!
Folgo em ver que nos vais ofertar mais uma das tuas histórias que reflectem as tuas vivências e sensibilidade.

Só quem viveu a infância verdadeiramente, tem histórias destas para contar. Se isto digo é porque penso que actualmente as crianças não vivem emoções susceptíveis de no futuro serem recordadas. Como se pode vivenciar experiências emocionantes, estando fechado em casa permanentemente agarrado ao computador? O meu filho é disto prova, frequentemente diz-me que não se lembra de nada de quando era pequenino, ou então, lembra-se difusamente de uma ou outra coisa sem qualquer graça. Mas eu, que fui criada ao Deus dará tenho muitas histórias. E adoro contá-las e fazer rir as pessoas com as minhas peripécias e desventuras.

Pois Pata Negra, sei muito bem o que é andar aos grilos, essa também foi uma actividade a que me dediquei na minha infância. Havia um terreno bem extenso defronte da minha casa logo ao atravessar da estrada principal, lá do lugarejo que me viu crescer. Umas vezes ia com o meu irmão mais velho, outras vezes ia mesmo sozinha. Por entre pedras, arbustos, carrascos e até por entre as poias que o meu pai por ali largava a esmo, já que adorava fazer do ar livre a sua retrete, agachava-me de palhinha na mão e toca de picar a loca, à espera que o grilo me viesse ter às mãos. Por vezes apanhava cada cagaço... É que, entretanto, distraía-me a ouvir os sons da natureza, o trinado de algum pássaro que por ali havia pousado, o esvoaçar destrambelhado de alguma ave assustada e quando tornava a olhar para a loca do grilo, em vez de grilo havia saído um asqueroso corta-dedos, que era assim que chamávamos a um bicho com muitas pernas mas que não era nenhuma centopeia, era mais assustador. Não sei se cortava ou não os dedos, porque de imediato eu dava um salto que mais parecia uma gazela, o coração quase na boca e aos saltos, mas o curioso é que não desistia. Afastava-me para outro local e retomava a minha brincadeira.

Espero que continues esta história que a adivinhar pelo início irá ser deliciosa.
Um abraço.

Zé Povinho disse...

A ver vamos se o grilo continua a cantar e a interessar-nos...
Abraço do Zé

opolidor disse...

assim é que é, só continuas se quiseres e quando quiseres, até pareces o Sócrates,salvo seja...
abraço e um apertão à Teresinha que já deve ser grande.

Abrenúncio disse...

Um título: "Peguei no teu grilinho, peguei, peguei."

Cumptos.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Sabes que também eu tive a mania de ter grilos numa gaiola? E bichos da seda e outras coisas assim? Eram outros tempos em que se trocavam estes e outros tesouros e nos sentiamos ricos por dentro porque havia amigos, chão para saltar à corda ou jogar à bola.
As tecnologias ainda não tinham chegado com os seus prazeres solitários e com as suas exigências a imporem consumos e comparações.
Eram outros tempos estes dos grilos.

Abraço

Fliscorno disse...

"anda bórisca!"? Que giro. Lá na minha terra dizia-se "eixe cabana" ou "anda castanha" conforme o animal e o verbo que apetecesse.

Quanto a títulos, há o óbvio "O caçador" mas não me cheira que seja o adequado. Sem saber mais do que aí vem, arrisco pela fantasia: "Salto pelas estrelas". Para me meter ainda mais na história que não me pertence, este seria o título da história do grilo que brilhou no estrelado saltimbanco :)

Compadre Alentejano disse...

A Teresinha pretendia domesticar os grilos, para um número de circo?
Abraço
Compadre Alentejano