segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

3- Não encontro título

Não se sabe o que teria acontecido e também ninguém se preocupou em investigar mas a malta do circo nunca mais apareceu por aquelas bandas e a aldeia só voltou a ter serões de animação, uma década depois, quando Cipriano olhou para ela.

Cipriano, como muitos da sua geração, encontrou na França dos anos sessenta o caminho para se fazer a uma vida que, dificilmente, realizaria em Portugal. Por lá se fez músico e criou, com outros emigrantes, um grupo musical que se viria a tornar conhecido entre a comunidade portuguesa de Paris.

Já não vinha a Portugal há cerca de 10 anos quando, no Verão de 76, vem, com a sua banda, actuar em algumas festas da região. A “digressão” foi uma revelação. Música portuguesa, brasileira – Eh meu amigo Charlie!- anglo-saxónica e francesa, compunham um repertório que, facilmente, fez sucesso entre residentes e emigrantes. No ano seguinte voltaram e repetiu-se a receptividade.

Os tempos de esperança que então se viviam e o clima de entusiasmo que se criou à volta da banda de Cipriano levaram-no a decidir regressar definitivamente à sua terra com a sua família: reúne os melhores músicos das redondezas e dá uma nova formação ao seu conjunto, transforma a sua casa num salão de festas, revela a sua faceta de homem de sete ofícios, reclama melhores condições para a sua Terrinha, ajuda tudo e todos, vive rodeado de amigos, é um homem imparável.

É nesta altura que sou convidado para fazer parte do “conjunto dos putos” – assim era conhecida a segunda formação que assegurava os intervalos das actuações do grupo adulto e que tinha como atracção principal as qualidades musicais do seu filho Nini, de 12 anos. Não tardou que tomássemos o lugar da banda sénior. Seguiram-se os sete anos – com quase mil actuações anotadas na agenda que ainda guardo - em que privei de perto com o Cipriano, na sua vida familiar, em longas viagens, em arraiais, casamentos, bailaricos, palcos, trabalhos e sarilhos.

A sua casa foi, durante esse tempo, um autêntico centro recreativo e cultural, frequentado por velhos e novos, por forasteiros de ocasião e malta assídua, por músicos e curiosos de toda a espécie. A casa era de todos, o bar estava aberto até haver assunto, todos podiam tocar bateria, viola ou cantar, havia sempre música ao vivo, podia haver cinema, aos sábados dançava-se, falava-se de tudo e, às vezes, também havia porrada.

Espero que esta história caminhe por esses sete anos.


Os leitores já foram avisados que devem ouvir a música enquanto leêm, faz parte da história. Esta história já vem de trás e continuará para a semana se houver real vontade.

14 comentários:

salvoconduto disse...

Arago! Eh meu amigo, digo eu! Ou me estás a endrominar ou tens alguma escondida. A Tresinha esvaneceu-se?

E já agora, nunca te interrogaste pela figurinha que provavelmente fazias com uma mão na cintura e outra na cabeça a cantar esse tal de Eh meu amigo Charlie? Ou vocês eram mais para a desbunda?

antonio - o implume disse...

O Cipriano devia-te inspirar, contagiar-te com a sua energia, para que leves mais esta história a bom porto!

Mariazinha disse...

Faz-me lembrar os conjuntos musicais que a brilhantavam as matinés da minha juventude.
Essa do "Meu amigo Charlie" tras-me
à memoria os domingos em casa dos meus pais em que acordava estremunhada com as musicas do campo da bola do Cova da Piedade.

Marreta disse...

Epá isto é do best, o Pata Negra rei do showbiz! Então e chegaram a gravar um vinil, ou uma K7 pirata?
Que mais irá acontecer?
Já agora, o Cipriano tinha alguma filha?...

Saudações do Marreta e se já não nos birmos botos de um Vom Ano Nobo!

Meg disse...

Pata Negra, meu amigo,

Mas que grande animação... pensei que já se estava no reveillon...

O título é o menos importante, assim haja real gana para continuar a estória...que, como todas as tuas, promete...

A gente ainda se "vê"? Se não...

FELIZ 2010!!!!

Um abraço cansado de Festas...

opolidor disse...

nunca pensei que andasses a abrilhantar as romarias...haja alegrias.

abraço e saúde

Zorze disse...

Pata Negra,

Essa do "meu amigo Charlie Brown" tem muito que se lhe diga e ainda hoje muito usada essa expressão, para quem sabe.

Abraço,
Zorze

Camolas disse...

" Ò tempo volta par trás" e dá-me ganas para partir a corda que já ando peado a demasiado tempo.

post scriptum: Ainda conservo um autocolante da célebre banda

Pata Negra disse...

Salvo conduto:
A Teresinha voltará quando tiver idade para isso.
Um abraço e obrigado pelas sempre prestimosas contribuições

Antonio
E a ti, quem te inspira o verbo pensado?!
Um abraço da nossa carruagem

Mariazinha
Cova da Piedade, não! Mas andámos lá perto! Também dançavas?!
Um abreijo do Baile

Pata Negra disse...

Marreta, não tenhas pressa! Primeiro ouve a cassete, depois... talvez te calhe alguma coisa! Ajuda-me a compor a história porra! Tu tens ideias! Queres a filha do Cipriano?!...
Vou falar com ela!
Um abraço do sou bizzzz

Meg
Vê-mo-nos no Baile!
Até

Polidor
Alegrias não faltam , não querem é nada comigo!
Um abraço do andor

Pata Negra disse...

Zorze
Embora nunca o tenha visto, nem mais gordo, nem mais magro, estou marcado eplo Charlie.
Um abraço Brown

Camolas
Só tenho um mas está colado! Manda-me o que tens por e-mail mas com cola!
Um abraço e

A. João Soares disse...

Caro Pata Negra e visitantes,

A blogosfera não se resume a troca de ideias e de opiniões, mas também é um veículo de comunicação e de troca de afectos e votos amigos de um futuro melhor, de bons auspícios para 2010. Não se pode passar esta fronteira entre os dois anos sem manifestarmos o nosso desejo, a nossa esperança que a área em que entramos nos traga mais felicidade, para o nosso pequeno grupo, para os nossos compatriotas e para todos os seres viventes. Felicidades para todo o Mundo, depois desta migração para 2010.
Abraços
João

Milu disse...

Esta sua história reportou-me para aqueles tempos dos bailes nas associações e colectividades de bombeiros, nos quais actuavam as bandas que então faziam sucesso, por entre essas parvalheiras do nosso Portugalzinho. O elemento das bandas que mais atraía a atenção era sem dúvida o baterista! E quando eles davam aqueles shows a solo? As "garinas" ficavam todas malucas! Menos eu! Fosse pelo que fosse, a verdade é que não me deixava seduzir com estes acordes! Eu gostava era de andar por lá a dançar e sozinha! Às vezes via semblantes escandalizados das senhoras que se encontravam sentadas ao redor da pista de dança, criticavam-me e condenavam-me pela minha brutal mini-saia, o que ainda me provocava mais divertimento, afinal cada vez mais me convenço, de que eu é que estava certa, estava a viver em pleno a minha idade da inconsequência! Queriam, porventura, que com aquela idade, adolescente ainda, já tivesse postura de uma velha? Pois, lixem-me que eu deixo! Nestes "entretantos", quem se aproveitava fortemente do barulho das luzes, para umas roçadelas à socapa,eram as filhas destas mães, tão zeladoras da virtude! Moral da história: Quem tudo quer ver, não chega a ver nada!
Queria também dizer-lhe, Pata Negra, que nunca deixe de contar estas histórias, porque elas também são um pouco minhas, sou desse tempo, desse viver!
Já agora um título: "Um venturoso devir". É romântico, não é? Um título que promete muitas aventuras e segredos! Estou a brincar, é que hoje é um dia que se reveste de uma aura festiva, que esse espírito o acompanhe nesta longa noite! Um Ano cheio de sonhos e concretizações!
Milu.

André D'Abô disse...

caro pata:
cheguei aqui atrasado para os comentários. não posso me furtar de dizer, entretanto, que é uma beleza de história. sigamos sem título e esperemos por mais um passo para a próxima semana.
não preciso dizer que a canção muito me agradou... eeeehhhhh...
grande abraço.