quarta-feira, 31 de março de 2010

16 - Os meus ténis Sanjo

- Olha, tenho ali no carro as fotografias! - Desculpa, não me lembro de ti! Quais fotografias!?
- Tu não és o organista que tocas descalço?!
O interlocutor era, pelo todo, filho de emigrantes que viera ao novo Agosto e que se abeirara da minha mesa de café pela hospitalidade que ela sempre emanava. Circunspectos ficaram também os meus companheiros de rodada, pela humildade do desconhecido que mandara vir mais uma, pela história do “eu descalçadinho” e, ainda mais, pela prova fotográfica que, depois de volta e meia à rua e ao carro, o fã ali trouxe. Passaram de mão e mão as fotos, provocando gargalhadas, o “olha aqui!”, o “lembras-te desta?”, o “que é feito desta?”, olha a Gibson! Porque diabo trocaram vocês a Gibson pela Fender e porque diabo estavas tu a tocar descalço?!

Tinha acontecido só naquele dia. Eu calçava os meus ténis brancos “sanjo” de verão, sujos e rotos, não sei se por desleixo, penúria, estilo, marca, mania ou ideologia – talvez fosse por estas coisas todas juntas! Eu tocava sentado e entretido e, na boca do palco, vieram sentar-se umas miúdas que trocavam os olhares entre o baile, entre si e para mim. Os meus pés, que eu não via porque estavam sob os teclados, estavam a escassos centímetros dos rabos das moças. Eram, de certeza, de Lisboa e andavam por ali a passar as férias grandes, bem vestidas, asseadas, divertidas, dentes brancos de sorrisos de fazer estremecer qualquer artista de província que arranhasse rhythm and blues e rock'n'roll. Eu não tinha vergonha, muito pelo contrário, sentia até orgulho dos meus ténis mas, naquele momento, senti-me traído por eles, eles não estavam à altura do que a coisa prometia. O fim-de-série era sempre ao fim de três ou quatro músicas, para a banda descansar, o bar trabalhar e a malta trocar as necessárias palavras. Fui atrás das colunas e descalcei-me. Actuei e andei o resto da noite descalço, fiquei nas fotos da noite descalço, as miúdas não conheceram os meus ténis sanjo mas também não me recordo de terem sido seduzidas pelos meus pés descalços. Mas também não são as meninas de Lisboa que vem aqui à história, a história pretende apenas revelar que estivemos muito perto do sucesso: um desconhecido, fotografias, a marca descalço…

Entrei em caminhos perigosos / a ficção começou a confundir-se com a realidade / entrei em caminhos perigosos / os velhos amigos e amigas que cruzam esta história não me deram autorização para tanto / estão demasiado perto de mim para que os dispa / estão demasiado perto de mim para que lhes vista outra roupa / receio que a história tenha falido / por minha culpa, minha tão grande culpa / deixo ainda um vídeo do princípio - de quando ainda não recebíamos um chavo / depois logo se vê / não gosto de deixar as coisas a meio mas nem por isso deixo de apreciar as capelas imperfeitas do mosteiro da Batalha sobretudo pelo facto de elas nunca terem sido concluídas / este blogue há-de um dia encontrar um rumo... e se não encontrar, que se lixe!

9 comentários:

salvoconduto disse...

O que mais me ressalta na vossa banda era o gajo do sax e como se agarrava a ele...

O Guardião disse...

Uma época em que dançar dava Km de prazer. Olhe que nem estou a fazer publicidade aos cigarros Kart, porque já nem sequer existem.
Encontrar o rumo? Andamos todos à procura dum rumo mas a incerteza sobre o futuro...
Cumps

antonio - o implume disse...

A excentricidade da inocência...

opolidor disse...

Rei Pata
isto foi filmado no Pav. Atlântico?
abraço

Marreta disse...

Os tenis Sanjo, um dos ícones da época, também tive bota e sapato!

Quanto à performance ao vivo descalço, se tivesses insistido talvez o sucesso tivesse chegado. No final de contas também o Ian Gillan cantava (canta) descalço!

Para além do pormenor visual faltaria talvez debruçares-te sobre a parte odorífica da questão...

Quanto ao vídeo terei que cá passar mais tarde, visto a entidade patronal não permitir visualização de vídeos pornográficos na hora de expediente.

Saudações do Marreta.

do zambujal disse...

Bestial. É isso mesmo.
Olha... que se lixe.
E continua nessa confusão entre o que foi real e o que é contado. Se houver sensibilidades beliscadas...
que se lixem.

E os pés estavam lavadinhos?, as unhas cortadas?

Um abraço

Gang of Four disse...

quem tem uns ténis sanjo, tem tudo! :)

Gang of Four disse...

[eu acho que com eles calçados o sucesso teria sido muito maior! ;)]

Anónimo disse...

EM DEFESA DAS SANJO PRETAS


Obrigado por se lembrar das sanjo!
Nesta história são um detalhe da maior importância.

Não há jovem português da década de 70 que não saiba o que isso era! ... e até o que significavam.

As sanjo não eram simples sapatilhas. Eram as sapatilhas da malta!
Iam bem com a ganga e com as T-shirts ou com as camisas simples que se usavam e o conjunto constituía o essencial da indumentária (ou seria uniforme?) que uma certa malta usava na altura. Para além disso eram bastante democráticas (quase toda a gente as podia comprar e até havia quem o fizesse em 2ª mão... Perdão, em 2º pé). É por isso que, para mim, nesta sua crónica, as sanjo, representam um detalhe da maior importância.

Para que se compreenda aquilo de que se está a falar, deve dizer-se que comparar umas «velhas Sanjo», daquele tempo, com as «All Stars» que hoje por aí vemos, é um pouco como comparar umas velhas Levis originais com os «amaricados» jeans (de ganga mole e cheia de floreados) dos tempos de hoje.

As sanjo foram daquelas coisas, não sei bem porquê, que nos ficaram na memória. E isso basta para que lhes atribuamos importância. De tal forma que, atrevo-me a dizer, deveriam tornar-se um «estudo de caso», não tanto para historiadores, mas talvez mais para sociólogos ou numa outra direcção para designers.

Pensando nos jovens que, naquela altura, usavam as sanjo e sabendo que havia quem gostasse e quem odiasse, ocorreu-me a seguinte imagem: Será que o Sócrates, enquanto jovem, alguma vez as terá usado? Duvido. Com base na actual imagem dele (género: alta costura), não consigo imaginar, não quero imaginar.

Ao pensar nas «velhas» sanjo, uma das primeira coisas que nos vem à memória são os cheiros. Naquela altura a indústria ainda não havia aprendido a mascarar os cheiros dos produtos novos e por isso o cheiro de umas sanjo novas, quando saiam da sapataria, era intenso (uma mistura de borracha, cola e fumo), mas era agradável!
O problema é que uma parte daquele cheiro permanecia sempre e, com o tempo (sobretudo no Verão), começava a surgir um inevitável conjunto de odores dificilmente suportáveis (que eu descreveria como próximos de cola com queijo estragado) e não replicáveis (na verdade nunca mais voltei a sentir odores como aqueles. Creio que apenas se poderiam voltar a criar a partir de um velho par de verdadeiras sanjo).

«Perfumes à parte», as sanjo originais eram pretas e os elementos em borracha (o rebordo estriado das solas e os círculos de marca com a palavra Sanjo) eram brancos. Mais tarde, apareceram as sanjo todas brancas mas eu mantive-me sempre fiel às originais, e por isso as minhas sanjo foram sempre as pretas: as verdadeiras.

Acontece que com o passar do tempo começavam a aparecer os vincos e era neles que o preto da napa mais «russava» e desbotava. O branco da borracha envelhecida, escurecia e as sanjo adquiriam, então, um aspecto harmonioso que muito nos agradava. Dado que as lavagens frequentes ajudavam a ignorar o tal cheiro, as sanjo, eram calçado tanto de Verão como de Inverno.
Aos nossos olhos, por mais velhas que estivessem, pareciam sempre (re)utilizáveis, e nesse sentido terão sido o primeiro (e único) calçado industrial com um uso verdadeiramente ecológico.

Ao terminar este meu exercicío de memória/reflexão peço-lhe que aceite um pequeno reparo, ou melhor, uma sugestão: A utilização, pelo jovem personagem músico, de umas sanjo brancas não resulta bem, pois estas eram mais «abetinhadas» (na altura o termo «betos» não se usava, dizíamos «queques»). Por isso calce-lhe umas verdadeiras sanjo pretas.

Em todo o caso, dado que o calçado em causa estava roto, aceita-se a opção literária.

Zerui