segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sete Pés Onze


Esperaria que se vestisse e aguardaria por ele lendo literatura na sala de convívio. Já averiguara a existência dum centro comercial, numa estação ferroviária, ali perto, onde teria de existir um lugar para jantarem - o centro da cidade ainda era longe.


De saída para o jantar, no jardim do albergue, Marie passou a máquina a Pé de Atleta e solicitou-lhe que lhe tirasse uma foto junto à estátua que representa um peregrino de tempos idos, com uma malga de sopa na mão, em posição mendicante, dirigindo-se a uma mulher piedosa. Enquanto a modelo tomava expressão e posição, Pé Ante Pé pensou nas diferentes eras e nos caminhantes de cada uma delas. Perguntou aos seus pares: seremos nós ainda peregrinos?!
Quando foi reconhecida a ordem de clicar, a resposta surgiu em coro com o flash:
- Somos turistas à procura do destino.
Fraco!... - pensou Pé Chato - Fraco pensamento!... E a foto?! - viu no visor – Fraca!... Pediu por isso nova pose. Enquanto Pé de Atleta procurava novo enquadramento viu Marie a ensaiar papéis com as figuras da estátua, viu Marie servindo sopa, viu Marie pedindo a sopa, viu-se no lugar do peregrino estátua, viu-as naturalmente nuas e sedutoras, viu ambas chamando por ele para que se aproximasse como se estivessem num leito. Acordou das visões quando Marie se aproximou para ver as provas e foram.

O alimento e o ambiente foram bem piores que na noite anterior em Redondela - pizza numa esplanada de centro comercial de gare?! Talvez pelo cenário, contrariamente ao que Pé de Atleta desejava, não se aprofundou a relação e acabaram a refeição como desconhecidos unidos à força pelas circunstâncias.

O diálogo de ferros quebrou de surpresa ao chegarem ao parque do albergue. Havia movimento junto à entrada e estavam estacionadas duas carrinhas. Tinham escrito nas laterais: Paróquia de Santiago de Litém.
Pé Descalço nem se esforçou pelo francês e exclamou desanimado:
- Só me faltava esta!
Marie tentou percebê-lo enquanto ele se explicava, preso ao português por exaltação:
- São de certeza dessa gente que faz o caminho alternando discursos ao telemóvel com ave-marias, com carros de apoio a cozinhar feijoadas pelo caminho, trazem cajados envernizados e usam bonés com publicidade a salsicharias ou aos USA!
Estão fartos de ir a Fátima pelas estradas nacionais, de não obterem resposta da Virgem aos seus pedidos de saúde e boa vida e, com as graças das mudanças trazidas pela CEE, descobriram que o mundo não acabava na Serra de Aire e que por cá também existem santos. No caso, S.Tiago, com muito mais currículo de milagrosas curas e satisfação de desejos.

Não fossem os factos com que se deparou quando entrou no albergue e Marie não teria compreendido patavina do que o companheiro dissera. O albergue estava cheio, pior que isso, a camarata cheia de catequistas, beatas, livros de cânticos e virgens.
- Virgens?! Oh Deus! Fujam, eu sou Filho da Puta! Como poderei eu aproximar-me da enxerga da santa que me cuida dos pés?! Lá se estragou mais uma promissora oportunidade!
E estes eram os pensamentos com que preparava a noite que se esperava triste! Bem, pelo menos não seria o ressonar de Água Pé que iria perturbar a especial zeladora! Não lhe faltariam outras ondas ruidosas ao sono por parte daquela indesejada expedição de ratas e ratos de sacristia.
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Todas as segundas feiras. Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

9 comentários:

antonio - o implume disse...

O peregrino e os tempos. Não terão os homens o direito a serem peregrinos? Tudo o resto são os trajes da época.

Pena que não seja desta que Sete-Pés nos brinda com um momento de conquista.

opolidor disse...

Rei Pata
ou muito me engano, mas estou convencido de que o Sete ainda come a francesa...

samuel disse...

Não é para admirar.
As beatas, catequistas e demais subprodutos, cumpriram mais uma vez a sua função... :-)))

Abraço.

MARIA disse...

Majestade, tenho para mim que
a vida é um aprendizado que se faz a partir da experiência e/ou do erro, numa grande medida.
Logo, logo "7 Pés" aprenderá que as oportunidades não se perdem nem se aproveitam, criam-se, fazendo pés ao respectivo caminho.
Posso imaginar, com tantos pés desorientados as muitas oportunidades de festa perdidas por ele.
Mas, relevante foi ter partilhado com os seus seguidores e amigos mais um texto de grande excelência, porque no mais, a perda dessa oportunidade não derrubará o nosso herói. Quando ele verdadeiramente quiser alguma coisa de que sinta real falta, vai ver como ele põe a caminho todos os pés, e até o corpo todo.
:)

Um beijinho amigo

Maria

Zé Povinho disse...

Os sete pés estão lixados com os ratos e ratas de sacristia, mas ainda há-de dar um pontapé no azar e caminhar na rota da sorte e dos desejos.
Abraço do Zé

Camolas disse...

Não percamos a fé nas Maries deste mundo, sem elas a vida era uma enorme xatice.
Bjs à Marie!

Compadre Alentejano disse...

Deixa-te de rodriguinhos e come a francesa...
Abraço
Compadre Alentejano

Sérgio Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kássia Kiss disse...

Pobres pés, que vão ficar sem tratamento! Peregrino sofre!