quinta-feira, 2 de maio de 2013

Haja memória mas haja também futuro

Foste embora! É natural, tantos se vão embora!...
Mas no teu caso existiam tantas coisas que ainda tinhas para me ensinar e, modéstia à parte, tantas coisas que precisavas de aprender comigo!....
Quando eu te fazia perguntas, não me respondias e ficavas com aquele ar de quem já leu tantos livros que não responde a perguntas banais. Eu gostava de te falar de acontecimentos públicos ou privados porque, embora me ouvisses com toda a atenção, o teu silêncio era a garantia de que não contarias a ninguém o meu desabafo ou o meu falar dos outros. 
Quantas vezes corremos pelos campos, eu atrás de ti, gritando "é prá aqui e é prá ali!" julgando que era o teu guia mas, afinal, era eu que era conduzido pela liberdade dos teus passos...
Foste embora! Logo agora que a luta vai exigir tanto de mim e que outros porcos mais altos se levantam, tu deixas-me mesmo sabendo que para vencer dois porcos maus são necessários dois mil porcos porcos bons. No fundo, "de porco e louco todos temos um pouco", diz o povo, não é?!
É natural que tenhas levado contigo uma parte de mim e que tenhas deixado comigo uma parte de ti!
Fica sabendo que não comerei nem uma peça do teu toucinho! Nunca se mata um porco com seis meses, porque um porco com seis meses nem é leitão, nem está em acção de matar! Afinal o Zé do Espeto não passa ele também dum porco, porque é um homem do povo, é um porco bom, porque é um homem que serve o sistema, é um porco mau! Quero dizer, é um porco assim assim! Não tem memória e por isso aceita o futuro como uma fatalidade! Aceita os porcos maus com naturalidade! E, por isso, acha natural matar um porco de meia idade - há quem diga que os porcos nunca têm meia idade - que me ensinou tanto e de quem eu era amigo.
em memória de um porco autêntico que foi menos porco do que qualquer ministro

8 comentários:

cid simoes disse...

Aguarelas de grande frescura.

Rogério Pereira disse...

Um texto
de respeito...
Quem era quem se foi nem te pergunto
Mas conta comigo
Do entrecosto ao presunto,
em estado vivo

O Puma disse...

Só os porcos amigos têm boas memórias

para construir amanhãs

Olinda disse...

Aceitar esta porca de vida,que nos proporciona uns porcos fascistas,sem nos indignar,nao ê prôprio de porcos inteiros e dignos.Texto engracado!...

recalcitrante disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Meg disse...

Sempre presente, mesmo na aparente ausência...nas entrelinhas nos encontramos de há muito...
Um abraço rec....

M A R I A disse...

Lamento por si e por quem foi.
Ainda lhe sobram muitos aviões de combate para atacar de surpresa e rompante a porcaria :-)o que tornará mais eficaz a acção contra tudo o que nos vem asfixiando . Mas tem muitos ainda a combater consigo há muito, há tanto , tanto tempo.
Por isso, não sinta a ilusão de que está só no seu combate. É um combate de todos nós.
Eu não posso e nem pretendo suprir a falta do que lhe falta , pois só me tenho a mim e desarmada pois não aprecio o uso de material bélico. Contudo, estou aqui, nunca deixei de estar, e enquanto houver batalha, sabe que visto a farda do seu regimento :-)

Um beijinho sempre amigo

Maria

José Lopes disse...

Uns partem outros ficam mas a memória consegue sempre manter a evocação de todos.
Cumps