A aldeia, como quase todas as aldeias, fica numa encosta virada ao sol. No outro lado do vale, na encosta mais abrupta e mais sombria, vê-se desaguar, no ribeiro, um amontoado de barracões, depósitos, barricas e barris, submisso à altivez duma imponente chaminé de tijolo.
Acabei por conhecer o mundo virado para aquela fábrica. Era para lá que o meu pai ia desde que o sol nascia até se pôr. Foram até lá os meus primeiros passeios, ao colo ou à mão de minha mãe, porque era seu dever de mulher, ao meio-dia em ponto, chegar à fábrica com o almoço. Com o crescimento fui ganhando rédea e, por vezes, ficava por ali (-Vais ter à Terra Fria que eu ando lá a sachar milho!...) conhecendo as máquinas, os recantos e as arrecadações, travando conhecimento com os operários, com as funções de cada um, enchendo-os de perguntas em troca dumas graças que me arrancavam.
O fumo da chaminé vinha da fornalha que aquecia a caldeira que produzia o vapor essencial à laboração. Era junto a essa fornalha que eu acabava por pousar, por causa do frio, pela atenção que o Fogueiro me dava nas pausas do “dá-lhe lenha” mas, sobretudo, porque a lenha que se queimava eram restos de tacos, ripitas e tabuitas que vinham de serrações e carpintarias das redondezas. Estavam amontoados debaixo de um barracão anexo à casa da máquina e tornaram-se num stock infindável de “legos à moda da aldeia”. Eu podia permanecer ali, durante horas, construindo enormes castelos com os pedaços da madeira, réplicas em miniatura da fábrica ou até da aldeia, até que caísse um barrote bomba, lançado às escondidas por um brincalhão – quase pela certa o Torneiras que, por aquela hora, já andaria quente. Com o trabalho de horas destruído ia-me embora zangado, ter com minha mãe aos campos, deixando atrás o Torneiras divertido pela partida que me pregara.
Um dia a destruição acabou por dar em guerra. Andava sempre por ali um rapaz, bem mais velho do que o eu, que não trabalhava sem que eu ainda tivesse percebido porquê. Eu estava de cócoras, pousando os últimos tacos numa obra de arquitectura pronta para a contemplação, quando sinto o caminhar e a sombra de Laurindo nos limites do empreendimento. De repente, desata ao pontapé e à gargalhada, qual tufão destruidor. Torneiras, o cérebro da operação, assistia ao longe mijado de gozo.
Agarrei-me a Laurindo até ele cair sobre o chão de lenha e mordi-lhe na orelha até ela sangrar. Foi preciso o Fogueiro e o Torneiras virem em socorro para acabar com a zaragata, foi preciso o meu pai e o tio de Laurindo largarem o serviço no estaleiro e virem à casa da máquina fazerem curativos com mercúrio e dois pares de estaladas. Ao serão meu pai falou-me de Laurindo, eu prometi-lhe que ia ser seu amigo, e fui! …
Acabei por conhecer o mundo virado para aquela fábrica. Era para lá que o meu pai ia desde que o sol nascia até se pôr. Foram até lá os meus primeiros passeios, ao colo ou à mão de minha mãe, porque era seu dever de mulher, ao meio-dia em ponto, chegar à fábrica com o almoço. Com o crescimento fui ganhando rédea e, por vezes, ficava por ali (-Vais ter à Terra Fria que eu ando lá a sachar milho!...) conhecendo as máquinas, os recantos e as arrecadações, travando conhecimento com os operários, com as funções de cada um, enchendo-os de perguntas em troca dumas graças que me arrancavam.
O fumo da chaminé vinha da fornalha que aquecia a caldeira que produzia o vapor essencial à laboração. Era junto a essa fornalha que eu acabava por pousar, por causa do frio, pela atenção que o Fogueiro me dava nas pausas do “dá-lhe lenha” mas, sobretudo, porque a lenha que se queimava eram restos de tacos, ripitas e tabuitas que vinham de serrações e carpintarias das redondezas. Estavam amontoados debaixo de um barracão anexo à casa da máquina e tornaram-se num stock infindável de “legos à moda da aldeia”. Eu podia permanecer ali, durante horas, construindo enormes castelos com os pedaços da madeira, réplicas em miniatura da fábrica ou até da aldeia, até que caísse um barrote bomba, lançado às escondidas por um brincalhão – quase pela certa o Torneiras que, por aquela hora, já andaria quente. Com o trabalho de horas destruído ia-me embora zangado, ter com minha mãe aos campos, deixando atrás o Torneiras divertido pela partida que me pregara.
Um dia a destruição acabou por dar em guerra. Andava sempre por ali um rapaz, bem mais velho do que o eu, que não trabalhava sem que eu ainda tivesse percebido porquê. Eu estava de cócoras, pousando os últimos tacos numa obra de arquitectura pronta para a contemplação, quando sinto o caminhar e a sombra de Laurindo nos limites do empreendimento. De repente, desata ao pontapé e à gargalhada, qual tufão destruidor. Torneiras, o cérebro da operação, assistia ao longe mijado de gozo.
Agarrei-me a Laurindo até ele cair sobre o chão de lenha e mordi-lhe na orelha até ela sangrar. Foi preciso o Fogueiro e o Torneiras virem em socorro para acabar com a zaragata, foi preciso o meu pai e o tio de Laurindo largarem o serviço no estaleiro e virem à casa da máquina fazerem curativos com mercúrio e dois pares de estaladas. Ao serão meu pai falou-me de Laurindo, eu prometi-lhe que ia ser seu amigo, e fui! …