quarta-feira, 25 de setembro de 2013

2 - A fábrica do meu pai

A aldeia, como quase todas as aldeias, fica numa encosta virada ao sol. No outro lado do vale, na encosta mais abrupta e mais sombria, vê-se desaguar, no ribeiro, um amontoado de barracões, depósitos, barricas e barris, submisso à altivez duma imponente chaminé de tijolo.
Acabei por conhecer o mundo virado para aquela fábrica. Era para lá que o meu pai ia desde que o sol nascia até se pôr. Foram até lá os meus primeiros passeios, ao colo ou à mão de minha mãe, porque era seu dever de mulher, ao meio-dia em ponto, chegar à fábrica com o almoço. Com o crescimento fui ganhando rédea e, por vezes, ficava por ali (-Vais ter à Terra Fria que eu ando lá a sachar milho!...) conhecendo as máquinas, os recantos e as arrecadações, travando conhecimento com os operários, com as funções de cada um, enchendo-os de perguntas em troca dumas graças que me arrancavam.

O fumo da chaminé vinha da fornalha que aquecia a caldeira que produzia o vapor essencial à laboração. Era junto a essa fornalha que eu acabava por pousar, por causa do frio, pela atenção que o Fogueiro me dava nas pausas do “dá-lhe lenha” mas, sobretudo, porque a lenha que se queimava eram restos de tacos, ripitas e tabuitas que vinham de serrações e carpintarias das redondezas. Estavam amontoados debaixo de um barracão anexo à casa da máquina e tornaram-se num stock infindável de “legos à moda da aldeia”. Eu podia permanecer ali, durante horas, construindo enormes castelos com os pedaços da madeira, réplicas em miniatura da fábrica ou até da aldeia, até que caísse um barrote bomba, lançado às escondidas por um brincalhão – quase pela certa o Torneiras que, por aquela hora, já andaria quente. Com o trabalho de horas destruído ia-me embora zangado, ter com minha mãe aos campos, deixando atrás o Torneiras divertido pela partida que me pregara.

Um dia a destruição acabou por dar em guerra. Andava sempre por ali um rapaz, bem mais velho do que o eu, que não trabalhava sem que eu ainda tivesse percebido porquê. Eu estava de cócoras, pousando os últimos tacos numa obra de arquitectura pronta para a contemplação, quando sinto o caminhar e a sombra de Laurindo nos limites do empreendimento. De repente, desata ao pontapé e à gargalhada, qual tufão destruidor. Torneiras, o cérebro da operação, assistia ao longe mijado de gozo.
Agarrei-me a Laurindo até ele cair sobre o chão de lenha e mordi-lhe na orelha até ela sangrar. Foi preciso o Fogueiro e o Torneiras virem em socorro para acabar com a zaragata, foi preciso o meu pai e o tio de Laurindo largarem o serviço no estaleiro e virem à casa da máquina fazerem curativos com mercúrio e dois pares de estaladas. Ao serão meu pai falou-me de Laurindo, eu prometi-lhe que ia ser seu amigo, e fui! …

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

1 - A fábrica do Cossa

O Cossa ganhou esta alcunha porque se coçava, mais por tique do que por comichão. Coçava o cabelo avantajado lavado todos os sábados, coçava a camisola de lã esburacada, coçava as canelas, a barriga, o traseiro e claro, as partes. E ficou Cossa com dois “esses” porque assim assinava lá na fábrica, nos recados de papel pardo que se postavam pelos postos, nos avisos de pincel e tinta preta que regulavam tarefas, nos baixos relevos dos riscos no cimento dos arrebates e paredes que, ano após ano, registavam o crescimento da fabriqueta.
Quando me fiz ao emprego, fui render o Cossa no trabalho do final de linha. Ele foi promovido a maquinista. Às cinco e meia da manhã ele lá estava para dar lenha à caldeira para que, às sete, quando a operação começava, houvesse vapor por todo o lado, pelos canos rotos, pelo pré-aquecimento da matéria prima, para aquecimento das cubas e, finalmente e em força, na serpentina de destilação.
Passou-me, em testamento, um carro de mão com duas rodas de pneus, adaptado ao serviço de levantar e transportar barris para a balança. Passou-me também o serviço de picar o produto ou atestar até à marca dos 250 quilos, de virar os barris com a ajuda da força, da inércia e de um cepo, de cu para o ar, de dar ar à bomba da pistola para marcar a tinta preta as iniciais da firma, o mês, o ano e o grau do pês, e para os transportar, no carro de mão de duas rodas, até ao parque de carga de onde seriam levados em camionetas, até ao cais da Matinha. Tiravam-se para aí 40, no máximo 60 barris por dia, no valor de 100 contos cada – fora a aguarrás que corria sempre em bica aberta com preço a dobrar a gasolina. Recordo-me, agarrado ao carro de mão de duas rodas, por piso incerto, com os cabrões dos barris de 250 quilos e a falar silenciosamente para eles com toda a minha força: és tu cabrão que vales 5 ordenados meus, eu vou-te entregar ao mundo!
O Cossa não me iniciou só no trabalho, o tema sexo para ele era omnipresente e, mesmo em assuntos de trabalho, não havia frase de cinco palavras sem três caralhadas pelo meio! O “já pintas”, “as mamas da patroa”, “o apalpo-te o cu”, o “a tua prima”, “as três punhetas” e “o caralho” saíam em catadupa da boca perversa do sempre erecto Cossa.
O Cossa, com vinte e tantos e ali crescendo desde a quarta classe, era o único capaz de enfrentar o patrão e mais que patrão, o dono e mais que dono, o senhor e mais que senhor, senhor António. E, no entanto, o senhor António adorava-o, até lhe pôs o nome nas listas do CDS para a Junta. Sim, porque o Cossa era muito político. Foi ele que, depois de conversas sérias e amigas que tivemos, determinou por insistência de chamada, que me começassem a chamar “o Comuna”.
O Senhor António, que tanto me considerava e me empregava acrescentando-me aos dias os descontos que eu não fazia, que me dispensava à segunda-feira por compreender os meus Domingos e saber que outro futuro me esperava, corrigia o Cossa paternalmente: Oh Cossa, o João não é comunista, é idealista!
A fábrica tinha para aí uma vintena de operários, uma centena de vidas rodando à volta dela e era, por isso, o centro da aldeia. Só emigrou quem não fazia graça ao Sr. António ou quem tinha por ambição mais do que o quase nada.
Evoluções, transformações e globalizações, trouxeram à fábrica uns compressores para a tinta, uns empilhadores para as cargas, automatismos para a caldeira, e a depressão. Já lá vão trinta anos e três donos e a fábrica funciona, agora, com um único operário: o Cossa desempenha com dedicação todas as profissões que ela precisa para operar.
Estacionei o carro, abri a porta, contemplei o tanta coisa que ainda é igual ou, pelo menos, faz lembrar, dei uns passos, e claro o vozeirão:
- Olha-me o caralho que aqui vem! …Oh comuna!... Isso é carro de comuna?!...Puta que os pariu, são todos iguais!...
E a conversa demorou por aí adiante: - Quantas dás por dia?...Tás magro! Nem cu tens!... Estou fodido! Não há meio de me ver daqui para fora! Cada vez tenho mais tesão!... Um grande abraço, és comuna mas não te esqueces da malta!
- Vai chamar comuna à tua prima! Fascista pobre!
- Comunista rico! O Senhor António já foi fazer tijolo! …Tive dois filhos!
E por aí adiante! E vamos ao café beber um copo! E bebemos dois… e bebemos três!... E já não sei se são dez horas e bebi sete se bebi dez e são sete horas! E hás-de lá passar por minha casa!...
- E, se não fosse eu, a fábrica já não trabalhava! E a China?!
- E, se não fosse a fábrica, onde é que tu trabalhavas?! E os filhos da puta do teu partido?!
E nestas trocas acesas, abraços de partir costelas e de chapadas de amizade, nos despedimos.