terça-feira, 31 de dezembro de 2013
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
16 - A fábrica do Torneiras
- Como não viste?! Ficaste de cabeça no chão, virada para cima, mesmo debaixo das saias da senhora?!
- Pois fiquei mas não as vi porque ela não as trazia!...
- Pois fiquei mas não as vi porque ela não as trazia!...
Todos os operários bebiam os seus copos mas bêbado e tido como tal, só o Torneiras. Apesar disso era um dos homens mais qualificados na casa sendo que a sua especialização consistia basicamente em vigiar termómetros, pressostatos, relógios e outros instrumentos de medida analógicos e, sobretudo, abrir e fechar torneiras. Como as bebidas também saem de torneiras, e porque “homem que bebe muito anda sempre de torneira na mão”, a alcunha pegou-se-lhe que nem resina.
Torneiras começava pelas 10 horas da manhã a vasculhar as lancheiras dos mais distraídos para provar, meio a brincar, meio por necessidade, as pingas de cada um. Para avaliar o seu estado alcoólico bastava observar a posição da sua boina na cabeça: “completamente são” – pala alinhada com as sobrancelhas; “a um quarto” – ponto médio da pala entre o olho e a orelha direita; “a meio gás” – pala de lado; “completamente bêbado” – pala completamente virada para trás.
Estávamos nós – lembram-se, noite dentro na Fábrica!?... – a recordar, quando o Cossa me atira com a filha do Torneiras, que hoje é dentista. A filha do Torneiras tinha em comum comigo algumas coisas: tinha “jeito” para estudar, gostava de estudar, queria estudar, vivia numa aldeia em que eram raros os jovens que estudavam, a fábrica era-lhe familiar, era filha de um operário e continuavam a nascer-lhe irmãos. De diferente teríamos o sexo e o facto de eu tecer um fraquinho por ela que ela não tecia por mim.
A filha do Torneiras, em períodos de férias escolares, ia levar o almoço ao pai. Enquanto nós almoçávamos numa mesa corrida, se não fosse grande a pressa, as mulheres aguardavam, de pé, por ali à volta, o despacho da lancheira entre conversas cruzadas. A estudante raramente abria a boca.
- Mas tu abrias! Lembro-me bem! Mal ela disse ao pai que, na segunda-feira, tinha de ir a Coimbra tratar duns papéis para ir para a universidade e que precisava que ele a fosse levar de mota à estação, tu enfiaste logo:
- Por acaso também tenho de ir a Coimbra na segunda-feira!
- Conta-me lá: deste-lhe boleia na mota e depois?!
- Depois comprámos os bilhetes e fomos no comboio!
- Foram no comboio e depois?
- Não sabia nada de música nem de livros mas queria ser doutora!
- Então e foste sentado ao lado dela ou no banco da frente?
- Lembro-me lá eu disso!
- E chegaste a Coimbra e foste fazer o quê com ela?!
- Ela foi à vida dela e eu fui à minha! Disse-lhe que ia concorrer a um emprego nos correios e fui comprar uns livros e uns trinta e três rotações!...
- Quais trinta e rotações quais carvalho! Tu nem sequer tinhas tractor! Ela não era parva nenhuma, sabia bem que não tinhas nada para fazer em Coimbra! Andaste como ela pelos choupais e depois?!
- E depois apanhei uma seca por lá todo o dia à espera do comboio de regresso!
- Então e no comboio de regresso vinhas sentado ao lado dela ou no banco da frente!
- No comboio de regresso tive de engasgar-me entre mentiras de sonhos de carteiro e render-me à minha timidez e à minha impotência para lidar com o assunto!
- Porra! E ainda sofres disso?! Hoje há o viagra homem!
E assim começou e acabou o meu caso com a filha do Torneiras.
Já passa da meia-noite. Vamos comendo e bebendo, trabalhando e falando. O Cossa não pára, a fábrica não pára e eu também vou escrevendo.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Imagens de Natal
Só ouvirei as mensagens de Natal e Ano Novo do Primeiro Ministro e do Presidente da República quando a isso for obrigado.
"Portugueses e portuguesas ... bla!bla!...bla!bla!bla!...bla!bla!bla!bla!... foi um ano difícil bla bla... uma mensagem de esperança bla bla... sacrifícios bla bla... prosperidade bla bla... justiça, educação, economia, os mais pobres, criar riqueza, portugueses, europa, mundo blablablablablabla"
Passado um quarto de hora: "bla!bla!"; passada meia hora: "bla!bla!"; até ao fim: "bla!bla!"
Passado um quarto de hora: "bla!bla!"; passada meia hora: "bla!bla!"; até ao fim: "bla!bla!"
Mensagem de Ano Velho de Sua Majestade o Rei dos Leittões
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
15- A Fábrica noite dentro
- Vou ali ao carro, já venho!...
Por acaso até não me tinha esquecido, tinha no carro três garrafas da adega cooperativa para lhe oferecer. Para completar os seus desejos dei uma volta passando pela padaria e pelo talho. Quando regressei, o Cossa fez-me as perguntas esperadas, disse-me onde havia sal e deu-me ordens de preparação da brasa. Ele mesmo virou e revirou a assadura não sem que antes tivéssemos provado do famoso tinto que muito o entusiasmou.
Por acaso até não me tinha esquecido, tinha no carro três garrafas da adega cooperativa para lhe oferecer. Para completar os seus desejos dei uma volta passando pela padaria e pelo talho. Quando regressei, o Cossa fez-me as perguntas esperadas, disse-me onde havia sal e deu-me ordens de preparação da brasa. Ele mesmo virou e revirou a assadura não sem que antes tivéssemos provado do famoso tinto que muito o entusiasmou.
Do petisco prolongado surgiu-nos a ideia de telefonarmos para nossas casas inventando a desculpa de termos de chegar muito tarde por motivos de trabalho. Para que a mentira não o fosse realmente e para que a festa continuasse com todos os ingredientes era conveniente que também a fábrica não parasse. Não seria a primeira vez que o patrão, que nutria completa confiança pelo seu único operário, receberia um telefonema do mesmo informando-o de que seria preferível trabalhar noite adentro para queimar toda a resina das cubas de pré-aquecimento do que parar para, na manhã seguinte, repor em funcionamento toda a maquinaria e a caldeira central.
Da minha parte, além do convívio e do divertimento da aventura de voltar a sujar-me nestes trabalhos – obviamente que teria de colaborar nos serviços para os quais fosse solicitado pelo chefe Cossa – estava ali à mão da noite, a solução de desenterrar recordações que me servissem para continuar por mais duas ou três semanas as Fábricas da Quarta de que este blogue tanto precisa para se manter em laboração.
Estávamos ainda na fase da mastigação quando me lembrei que o melhor mesmo seria começar pelas “mamas da patroa”.
- Oh Cossa! Que história é essa que falaste há pouco (na Fábrica 14) de eu não poder contar “daquela vez em que apalpaste as mamas à patroa”?! Embora não me recorde nem da história nem dos mamilos, com a proibição, despertaste-me as vontades de contar e recordar!
Andariam meia dúzia de homens a carregar um camião com barris. A mulher do Senhor António, a patroa, apareceria por ali muito raramente e sempre à procura do marido. Naquela ocasião, ele não estava e ela decidiu aguardá-lo, entretendo-se junto dos trabalhadores com perguntas e observações diversificadas acerca disto e daquilo, próprias de mulher poderosa, curiosa, chata e carraça. O Cossa estaria a rebolar um barril quando, ao passar por ela tropeçou, deu três passos cambaleantes acabando por suster a queda meio agarrado à senhora. Meio agarrado, porque as mãos lhe pararam nos seios avantajados e, agarrar-se por inteiro seria abraçá-la toda o que não aconteceu. Caiu apenas ele, não por insuficiência do amparo mas porque foi repelido violentamente vindo a ficar deitado, de cabeça, virado para cima mesmo entre os dois artelhos da patroa.
- Ai este cabrão que me apalpou as mamas e me viu as cuecas!
E zás, um pontapé na cabeça do prostado e a promessa que “o meu António vai saber de tudo e dar-te-á o merecido castigo e o devido destino ao teu emprego”.
O Cossa levantou-se, com o rosto ensanguentado e as roupas decompostas, qual moço forcado que desiste da pega. Seguem-se os sururus e os movimentos esperados dos presentes.
Entretanto eis que chega o marido, um homem alto, trancudo e sagaz que lhe exclama à bruta:
- Então meu filho da puta! Isto é a da Joana!? Isto é o que se quer?! Eu estou ausente e fazes-me isto à mulher?!
O Torneiras sai em socorro do companheiro de trabalho:
- Este pobre diabo já anda bêbado desde manhã! Mal se tem em pé! Não foi por acaso que tropeçou mas também não foi de propósito!
As explicações do Torneiras, aqui abreviadas, terão contido a ira do Senhor António que partiu com a senhora sua esposa em direcção ao escritório.
O Cossa nunca foi homem de beber até cair e, na minha opinião, tudo não deve ter passado de um acidente de trabalho. Acontece que, passados estes anos, a vítima se gaba de que se tratou de uma aposta de cem mil réis que fez com o Torneiras em como era capaz de apalpar as mamas da patroa. Mais, que nunca exigiu o referido pagamento porque, se não tivesse sido a intervenção do outro apostador, teria passado por muito maus lençóis.
- Não vi cuecas!...
Da minha parte, além do convívio e do divertimento da aventura de voltar a sujar-me nestes trabalhos – obviamente que teria de colaborar nos serviços para os quais fosse solicitado pelo chefe Cossa – estava ali à mão da noite, a solução de desenterrar recordações que me servissem para continuar por mais duas ou três semanas as Fábricas da Quarta de que este blogue tanto precisa para se manter em laboração.
Estávamos ainda na fase da mastigação quando me lembrei que o melhor mesmo seria começar pelas “mamas da patroa”.
- Oh Cossa! Que história é essa que falaste há pouco (na Fábrica 14) de eu não poder contar “daquela vez em que apalpaste as mamas à patroa”?! Embora não me recorde nem da história nem dos mamilos, com a proibição, despertaste-me as vontades de contar e recordar!
Andariam meia dúzia de homens a carregar um camião com barris. A mulher do Senhor António, a patroa, apareceria por ali muito raramente e sempre à procura do marido. Naquela ocasião, ele não estava e ela decidiu aguardá-lo, entretendo-se junto dos trabalhadores com perguntas e observações diversificadas acerca disto e daquilo, próprias de mulher poderosa, curiosa, chata e carraça. O Cossa estaria a rebolar um barril quando, ao passar por ela tropeçou, deu três passos cambaleantes acabando por suster a queda meio agarrado à senhora. Meio agarrado, porque as mãos lhe pararam nos seios avantajados e, agarrar-se por inteiro seria abraçá-la toda o que não aconteceu. Caiu apenas ele, não por insuficiência do amparo mas porque foi repelido violentamente vindo a ficar deitado, de cabeça, virado para cima mesmo entre os dois artelhos da patroa.
- Ai este cabrão que me apalpou as mamas e me viu as cuecas!
E zás, um pontapé na cabeça do prostado e a promessa que “o meu António vai saber de tudo e dar-te-á o merecido castigo e o devido destino ao teu emprego”.
O Cossa levantou-se, com o rosto ensanguentado e as roupas decompostas, qual moço forcado que desiste da pega. Seguem-se os sururus e os movimentos esperados dos presentes.
Entretanto eis que chega o marido, um homem alto, trancudo e sagaz que lhe exclama à bruta:
- Então meu filho da puta! Isto é a da Joana!? Isto é o que se quer?! Eu estou ausente e fazes-me isto à mulher?!
O Torneiras sai em socorro do companheiro de trabalho:
- Este pobre diabo já anda bêbado desde manhã! Mal se tem em pé! Não foi por acaso que tropeçou mas também não foi de propósito!
As explicações do Torneiras, aqui abreviadas, terão contido a ira do Senhor António que partiu com a senhora sua esposa em direcção ao escritório.
O Cossa nunca foi homem de beber até cair e, na minha opinião, tudo não deve ter passado de um acidente de trabalho. Acontece que, passados estes anos, a vítima se gaba de que se tratou de uma aposta de cem mil réis que fez com o Torneiras em como era capaz de apalpar as mamas da patroa. Mais, que nunca exigiu o referido pagamento porque, se não tivesse sido a intervenção do outro apostador, teria passado por muito maus lençóis.
- Não vi cuecas!...
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
14- A Fábrica de antes de ontem
O poste que se segue apresenta linguagem capaz de incomodar alguns leitores. São relatados alguns diálogos com palavrões. Paciência, os seus actores/autores estão-se cagando para o portuguesmente correcto e não abdicam do quadro hiper-realista que compõem. A voz ao Cossa e a locução a mim, mero João, que aqui me tenho a escrever, inocentemente e felizmente, sem saber bem para quê, porquê ou para quem!
Prometido, devido e agora cumprido, que o destino da “laboração” da fábrica-história ficaria dependente de uma visita natal à fábrica-física que tem, actualmente, como único operário o único, polivalente e grande Cossa. De nada servirá esta introdução a quem só agora aqui chegou, a quem tem por hábito começar a ler os livros pelo meio e ao fim de duas folhas lidas vai espreitar o fim da história, a quem clica avidamente de blogue em blogue procurando encontrar os fins da blogosfera. Enfim, tudo isto para esclarecer eventuais forasteiros que o produto desta fábrica-história apenas se destina ao consumo dos fregueses habituais.
Aconteceu, antes de ontem, segunda-feira. Negociar com o Cossa o destino da fábrica – eis a esperança de manter a história da fábrica aberta por mais uns tempos.
Entrei fábrica adentro seguro do local onde iria encontrar o Cossa. Passei no corredor limitado pelas paredes velhas que separam a casa da velha caldeira, da caldeira nova que foi instalada e montada nos tempos em que aqueles espaços eram também meus. Passei entre as poeiras e detritos acumulados em trinta e muitos anos sem limpezas, entre os vapores familiares que sempre jorraram de juntas de tubagens mal vedadas, entre as teias e os pingos de água com décadas de actividade. Passei e, enquanto passava, fixava ao fundo, junto à boca da fornalha que se abria ao nível do chão, por onde entram de quarto em quarto ou de meia em meia hora pazadas de lenha para alimentar a máquina que dá vapor e vida á fábrica, o vulto do Cossa tal qual o esperado. Ele ali estava, com o cu num cepo e a marmita noutro, a “candeia” de sete e meio junto ao pé direito, a dizer-me que cheguei a boa hora. As mesmas botas, as mesmas calças, as mesmas camisolas, o mesmo cabelo esgalhufado. Por baixo do bigode, a mesma boca entreaberta deixando arejar os dentes semisorridentes sempre prontos para mandar as suas farpas tipicamente temperadas com as suas caralhadas e afins.
- Olha-me outra vez este caralho! E vem de malinha na mão!... Mas tu agora és testemunha de Jeová ou andas a vender banha da cobra?!
Não se levantou, não me estendeu a mão, limpou a boca azeitada com um pedaço de pão, deu uma “trombada”, limpou o gargalo com o punho em movimentos circulares e estendeu-me a sua garrafa de todos os dias.
- Tás com nojo?! Bebe comuna dum cabrão! Este é do meu! Não levou nada, é o puro sumo da uva, fruto da videira e do trabalho deste homem!
Dei um trago, expeli o “ahhh!...” de bom saborear e agradeci com o circunstancial “boa pinga!” e mais dois ou três considerandos acerca dos paladares do morangueiro.
- Mas que caralho trazes tu dentro da mala?! Não cabem aí as notas que me deves por tudo o que te ensinei quando eras pobre!
Sentei-me num outro cepo que por ali resistia à câmara de fogo e que evidenciava a função de dar assento a quem fizesse proveito do calor que ali era abundante. Saquei do portátil, liguei a pen da net móvel, inicializei a máquina preparando-me para a catadupa de reacções que o gesto, pela certa, iria despertar no anfitrião.
- Foda-se! Computadores!? Não me venhas para aqui com essa merda! Só se for para ver putas!
Para lhe amaciar a curiosidade e arranjar a cama para os meus objectivos, passei por uns sites com coisas mais expostas, demonstrei-lhe de passagem algumas potencialidades da internet, até surgir a esperada interrupção.
- Vai para o caralho com essa porra! Já me estás a distrair, tenho de ir ali ligar a bomba para a cuba e abrir o vapor para a serpentina! Mete-me mas é aí lenha na máquina se queres que eu tenha mais um bocado de tempo para te aturar!
Enquanto foi e veio, cumpri a sua ordem e preparei a abordagem do assunto que me trouxera ali.
- Mas tu trouxeste essa foda para quê?! Julgavas que eu nunca tinha visto a internet ou lá o que é essa porra?!
Falei-lhe do Rei dos Leittões e da história da Fábrica. Mostrei-lhe obliquamente algumas passagens discutindo de permeio algumas mentiras e verdades de laurindas, laurindos e outros que mais.
- Sabes o que te digo? Tu escreves essas merdas porque não tens mais nada que fazer! Tás-me a "precurar" a mim se tá bem, se tá mal, se deves continuar!? Vai prá puta que te pariu - fora a tua mãe que não tem a culpa! Não quero é aí “cossas” no meio!!!...
Fiquei em silêncio, com um sorriso insonso, enquanto ele partiu para mais uma volta dos seus deveres de maquinista. Aproveitei o momento e arrumei o portátil.
- Engoliste algum sapo?! Escreve para aí o que quiseres “hóme”! Não quero que percas a tusa por causa cá do paizinho! Podes falar de mim mas com uma condição, só falas bem e não contas daquela vez em que apalpei as mamas à patroa!... Mas continuo na minha, essa coisa dos bogues (blogues! - Corrigi!) é de quem não faz nada e não chega a casa cansado! Para a próxima vez, em vez de trazeres essa porra, traz mas é um naco de carne para assarmos aqui e um garrafão lá dos lados para onde vives que ouvi dizer que é bom e nunca o provei!
- Vou ali ao carro, já venho!....
Prometido, devido e agora cumprido, que o destino da “laboração” da fábrica-história ficaria dependente de uma visita natal à fábrica-física que tem, actualmente, como único operário o único, polivalente e grande Cossa. De nada servirá esta introdução a quem só agora aqui chegou, a quem tem por hábito começar a ler os livros pelo meio e ao fim de duas folhas lidas vai espreitar o fim da história, a quem clica avidamente de blogue em blogue procurando encontrar os fins da blogosfera. Enfim, tudo isto para esclarecer eventuais forasteiros que o produto desta fábrica-história apenas se destina ao consumo dos fregueses habituais.
Aconteceu, antes de ontem, segunda-feira. Negociar com o Cossa o destino da fábrica – eis a esperança de manter a história da fábrica aberta por mais uns tempos.
Entrei fábrica adentro seguro do local onde iria encontrar o Cossa. Passei no corredor limitado pelas paredes velhas que separam a casa da velha caldeira, da caldeira nova que foi instalada e montada nos tempos em que aqueles espaços eram também meus. Passei entre as poeiras e detritos acumulados em trinta e muitos anos sem limpezas, entre os vapores familiares que sempre jorraram de juntas de tubagens mal vedadas, entre as teias e os pingos de água com décadas de actividade. Passei e, enquanto passava, fixava ao fundo, junto à boca da fornalha que se abria ao nível do chão, por onde entram de quarto em quarto ou de meia em meia hora pazadas de lenha para alimentar a máquina que dá vapor e vida á fábrica, o vulto do Cossa tal qual o esperado. Ele ali estava, com o cu num cepo e a marmita noutro, a “candeia” de sete e meio junto ao pé direito, a dizer-me que cheguei a boa hora. As mesmas botas, as mesmas calças, as mesmas camisolas, o mesmo cabelo esgalhufado. Por baixo do bigode, a mesma boca entreaberta deixando arejar os dentes semisorridentes sempre prontos para mandar as suas farpas tipicamente temperadas com as suas caralhadas e afins.
- Olha-me outra vez este caralho! E vem de malinha na mão!... Mas tu agora és testemunha de Jeová ou andas a vender banha da cobra?!
Não se levantou, não me estendeu a mão, limpou a boca azeitada com um pedaço de pão, deu uma “trombada”, limpou o gargalo com o punho em movimentos circulares e estendeu-me a sua garrafa de todos os dias.
- Tás com nojo?! Bebe comuna dum cabrão! Este é do meu! Não levou nada, é o puro sumo da uva, fruto da videira e do trabalho deste homem!
Dei um trago, expeli o “ahhh!...” de bom saborear e agradeci com o circunstancial “boa pinga!” e mais dois ou três considerandos acerca dos paladares do morangueiro.
- Mas que caralho trazes tu dentro da mala?! Não cabem aí as notas que me deves por tudo o que te ensinei quando eras pobre!
Sentei-me num outro cepo que por ali resistia à câmara de fogo e que evidenciava a função de dar assento a quem fizesse proveito do calor que ali era abundante. Saquei do portátil, liguei a pen da net móvel, inicializei a máquina preparando-me para a catadupa de reacções que o gesto, pela certa, iria despertar no anfitrião.
- Foda-se! Computadores!? Não me venhas para aqui com essa merda! Só se for para ver putas!
Para lhe amaciar a curiosidade e arranjar a cama para os meus objectivos, passei por uns sites com coisas mais expostas, demonstrei-lhe de passagem algumas potencialidades da internet, até surgir a esperada interrupção.
- Vai para o caralho com essa porra! Já me estás a distrair, tenho de ir ali ligar a bomba para a cuba e abrir o vapor para a serpentina! Mete-me mas é aí lenha na máquina se queres que eu tenha mais um bocado de tempo para te aturar!
Enquanto foi e veio, cumpri a sua ordem e preparei a abordagem do assunto que me trouxera ali.
- Mas tu trouxeste essa foda para quê?! Julgavas que eu nunca tinha visto a internet ou lá o que é essa porra?!
Falei-lhe do Rei dos Leittões e da história da Fábrica. Mostrei-lhe obliquamente algumas passagens discutindo de permeio algumas mentiras e verdades de laurindas, laurindos e outros que mais.
- Sabes o que te digo? Tu escreves essas merdas porque não tens mais nada que fazer! Tás-me a "precurar" a mim se tá bem, se tá mal, se deves continuar!? Vai prá puta que te pariu - fora a tua mãe que não tem a culpa! Não quero é aí “cossas” no meio!!!...
Fiquei em silêncio, com um sorriso insonso, enquanto ele partiu para mais uma volta dos seus deveres de maquinista. Aproveitei o momento e arrumei o portátil.
- Engoliste algum sapo?! Escreve para aí o que quiseres “hóme”! Não quero que percas a tusa por causa cá do paizinho! Podes falar de mim mas com uma condição, só falas bem e não contas daquela vez em que apalpei as mamas à patroa!... Mas continuo na minha, essa coisa dos bogues (blogues! - Corrigi!) é de quem não faz nada e não chega a casa cansado! Para a próxima vez, em vez de trazeres essa porra, traz mas é um naco de carne para assarmos aqui e um garrafão lá dos lados para onde vives que ouvi dizer que é bom e nunca o provei!
- Vou ali ao carro, já venho!....
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
12- A fábrica ardeu
- A fábrica ardeu?! Faz-se outra!
E assim foi! Logo no dia seguinte ao incêndio, os operários transformaram-se em pedreiros, carpinteiros, serralheiros, canalizadores e em todos os demais ofícios necessários à reconstrução da fábrica.
Mas nem tudo foi lindo! Também, no dia seguinte, se assistiu à partida do meu amigo, da mãe e da tia. Iam de vez! Recordo-os a partirem pelo caminho que levava para a estação de caminhos de ferro. Laurinda com um lençol embrulhado às costas a fazer de saco com algumas roupas, Canicha com os tachos engatados uns nos outros com cordões e uns pares de calçado e Laurindo com uma saca com comida para a viagem. Despediram-se de todos lá na fábrica – não estava ninguém do patronato - e eu acompanhei-os a minha casa para se despedirem de minha mãe. Não vou contar mais nada se não choro!
Nunca percebi, ou não me apetece contar mais nada, se partiram por terem perdido o lar que o senhor António lhes oferecia ou se foi para salvarem o lar do senhor António!
De tempos a tempos o meu pai ia à Beira Baixa buscar resina na Scania, levava-me abraços para Laurindo e trazia-me em troca outros de lá. Um dia escrevi-lhe uma carta, o meu pai contou-me que lha leu mas não me foi capaz de contar mais nada! O meu pai também era muito chorão!
“Contar mais nada”, frase repetida nos três parágrafos anteriores – é sintomático.
Se bem se lembram, a Primeira Fábrica falava de um tal Cossa e da minha experiência como operário. Era por aí que pretendia desenvolver a história. Contudo achei devido, voltar um pouco mais atrás no tempo. Entusiasmei-me com a recordação de Laurindo e, entretanto, estendi-me perdido entre as personagens e acontecimentos sem nunca conseguir a coerência que se exigia. Cheguei a ser tentado a inventar sangue, sexo ou romance e, nada! Semana, após semana, ia planeando uma segunda parte em que, depois de um salto no tempo, eu, colega do Cossa, do Torneiras, do meu pai e outros mais, contaria as minhas memórias desse tempo. Comecei a cambalear na história, a enrolar-me na meada e decidi queimar a fábrica. Com a Fábrica queimada, estava decidido a acabar com a história. Acontece, no entanto, que no curso da presente redacção me achei pouco e voltei a pensar no Cossa. Vou visitar o Cossa, tenho de lhe dar alguma coisa pelo Natal, ele tem uma palavra a dizer, ele é que manda. O Cossa vai querer que a história vá mais longe. Até quarta.
E assim foi! Logo no dia seguinte ao incêndio, os operários transformaram-se em pedreiros, carpinteiros, serralheiros, canalizadores e em todos os demais ofícios necessários à reconstrução da fábrica.
Mas nem tudo foi lindo! Também, no dia seguinte, se assistiu à partida do meu amigo, da mãe e da tia. Iam de vez! Recordo-os a partirem pelo caminho que levava para a estação de caminhos de ferro. Laurinda com um lençol embrulhado às costas a fazer de saco com algumas roupas, Canicha com os tachos engatados uns nos outros com cordões e uns pares de calçado e Laurindo com uma saca com comida para a viagem. Despediram-se de todos lá na fábrica – não estava ninguém do patronato - e eu acompanhei-os a minha casa para se despedirem de minha mãe. Não vou contar mais nada se não choro!
Nunca percebi, ou não me apetece contar mais nada, se partiram por terem perdido o lar que o senhor António lhes oferecia ou se foi para salvarem o lar do senhor António!
De tempos a tempos o meu pai ia à Beira Baixa buscar resina na Scania, levava-me abraços para Laurindo e trazia-me em troca outros de lá. Um dia escrevi-lhe uma carta, o meu pai contou-me que lha leu mas não me foi capaz de contar mais nada! O meu pai também era muito chorão!
“Contar mais nada”, frase repetida nos três parágrafos anteriores – é sintomático.
Se bem se lembram, a Primeira Fábrica falava de um tal Cossa e da minha experiência como operário. Era por aí que pretendia desenvolver a história. Contudo achei devido, voltar um pouco mais atrás no tempo. Entusiasmei-me com a recordação de Laurindo e, entretanto, estendi-me perdido entre as personagens e acontecimentos sem nunca conseguir a coerência que se exigia. Cheguei a ser tentado a inventar sangue, sexo ou romance e, nada! Semana, após semana, ia planeando uma segunda parte em que, depois de um salto no tempo, eu, colega do Cossa, do Torneiras, do meu pai e outros mais, contaria as minhas memórias desse tempo. Comecei a cambalear na história, a enrolar-me na meada e decidi queimar a fábrica. Com a Fábrica queimada, estava decidido a acabar com a história. Acontece, no entanto, que no curso da presente redacção me achei pouco e voltei a pensar no Cossa. Vou visitar o Cossa, tenho de lhe dar alguma coisa pelo Natal, ele tem uma palavra a dizer, ele é que manda. O Cossa vai querer que a história vá mais longe. Até quarta.
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