Para dar tempo ao tempo duma espera de família, entrei na tasca do Buraca, sentei-me na mesa junto à porta e, numa atitude "pessoana", pus-me a bebericar uma imperial e a mordiscar uns tremoços. Ao balcão estavam dois ou três grupos de homens a bebericar umas imperiais e a mordiscar uns tremoços. Reparei que alguns deles falavam ou estavam entretidos com os seus telemóveis. Um desconhecido retirou-se do seu grupo e, de passagem para a rua, dirigiu-me a palavra:
- Os meus amigos não falam comigo! Estão todos com o telemóvel! Estou sozinho! Olhe, vou também fazer uma telefonema! Mas vou lá fora!...
Quando voltou a entrar o homem reparou que os seus amigos continuavam todos ao telemóvel e voltou a dirigir-me a palavra:
- Porra para os gajos! Isto é que eu tenho uns amigos!? O senhor dá-me licença que me sente aqui consigo?!
E então, como não éramos conhecidos nem amigos e aquele era o assunto que nos juntava, começámos a conversar acerca do uso dos telemóveis, até eu receber uma mensagem do familiar a dizer que já estava pronto e, quase ao mesmo tempo, ele receber uma chamada, dum dos amigos que estava ao balcão, a perguntar-lhe onde é que estava.
