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À parte meia dúzia de carvalhos centenários, a cerejeira era a árvore mais imponente da aldeia. Ainda por cima, por casualidade, era a única da espécie no povoado, o que fazia dela uma atração - toda a gente gosta muito de cerejas.
O dono da cerejeira era um homem seco, rijo e frio, feio, magro e alto, de poucas falas e poucos amigos, de barba de dias exceptuando aqueles em que a fazia, remendado dos fundilhos aos joelhos, chapéu desabado e queimado do sol, para quem não havia domingo, casado com mulher que com ele condizia e de filhos já partidos para paragens melhores.
Para além dos talhões que tinham à porta e que davam para a sopa, outro rendimento não tinham senão o dos tremoços que a mulher vendia à saída da missa e o do trabalho do homem, seco, rijo e frio, que era a quem se falava para abrir um poço. Trabalho duro e sazonal para que nasceu talhada a figura, capaz de aguentar horas no fundo do buraco, cavando, cavando e enchendo o caldeiro, solitário e ao fresco, lançando apenas as palavras necessárias para a luz cá de cima onde teriam de estar outros dois ao sarilho. E pronto, as cerejas, vendidas como os tremoços à saída da missa, também davam algum - toda a gente gosta muito de cerejas e aquela cerejeira dava cerejas para roubar e vender!
Os mais velhos, de dezasseis, dezanove ou mais, faziam os assaltos com algum profissionalismo, iam em bando já noite avançada, ficaria alguém à porta do dono para dar o alarme se o homem-fera ou a megera dessem sinais de acordar, outro alguém no caminho que levava a cerejeira, mais dois ou três junto ao tronco enquanto os demais subiam à árvore e faziam a colheita.
Mas nós, de doze ou catorze, com horas de recolher, teve de ser mais cedo, e era a primeira, foi de entrar a matar. Silenciosos, é certo, mas sem outros cuidados, descalçámo-nos para subir a árvore, primeiro o tronco e depois, espalhados pelos ramos, macaquinhos, macacões, comíamos as cerejas que vinham dar às mãos, ninguém levara saco, tratava-se de consumo imediato.
Eis senão quando a voz do dono se fez ouvir cá em baixo, primeiro alto, depois só resmungando, palavras impercetíveis que nos fizeram tremer os pés descalços. Por intuição animal, camuflámo-nos, quietinhos, caladinhos, cada um juntando o seu tronco ao tronco que empoleirava para que, com a ajuda da noite, o homem não identificasse vivalma.
Ao fim de alguns minutos de resmunguice e de rodeios no terreiro da copa, a fera retirou-se e sentimos a porta da sua casa a bater. Foi-se embora?! Perguntámos baixinho e permanecemos imóveis durante um tempo, não voltasse ele armado para nos correr à pedrada, à paulada ou até à caçadeira! O mau génio daquele homem era um risco o que, por contradições da natureza humana, aguçava mais o desafio e a vontade de o roubar e tornava ainda mais apetitosas as cerejas.
Não voltou. Cumprido o tempo de segurança, descemos um a um com a digestão interrompida, e com os pés na terra demos por nós vencidos. Tamancos? Chinelos? Sapatos? Sapatilhas? Viste-los! O Torto, que era pé descalço, era o único que ria!
Não havia maneira de no dia seguinte, em cada lar, cada um contar senão a verdade! Mesmo que um inventasse uma mentira convincente, não se conseguiria enganar tanta mãe junta, elas falariam umas com as outras e a alhada viria sempre ao de cima.
Comigo foi assim.
- Antes que o teu pai saiba, vais já comigo por aqui abaixo a casa do ti Manel!... A partir de hoje, à noite só para as descamisadas!...
E lá fui eu puxado pelo braço, a tentar acompanhar o passo da mãe educadora, com um puxão mais violento cada vez que tentava a minha defesa com argumentos como o de "roubar para comer não é pecado", "não fui só eu", só comi pra aí meia dúzia"...
- Garanto-te que se ele não te der os sapatos vais começar a andar descalço como o Torto!
...
- Manel! Peço-te perdão por este desgraçado! Manel sabes como é a canalha! Manel ando aqui com uma dor há meses e nem dinheiro tenho para ir ao doutor Teixeira! Manel o meu homem também está a pensar em ir para França e depois havemos de fazer um poço! Manel este gatuno, ainda hoje o vou obrigar a ir à confissão!.... Dá-lhe os sapatos Manel e diz-me quando precisares que eu venho um dia para o teu sacho sem ter de ser à troca!...
Seco, rijo e frio, tirava água a balanço para a horta, sem nunca tirar os olhos do poço, do balde e do regueiro mas, quando a minha mãe parou com a ladainha, atirou seco, rijo e frio.
- Ele que vá confessar-se mas quem lhe dá a penitência sou eu! Ele que agarre em dois baldes que estão ao pé da cerejeira, que suba a ela e que os encha! Quando os tiver cheios venha aqui ter comigo e pode ir para casa calçado!
Se bem me lembro, creio que os outros companheiros recompraram o seu calçado. Eu fiquei honrado de ter tido tratamento diferenciado e passei a admirar mais o Torto e a minha mãe porque não me obrigou a ir à confissão!
Nota: Sei que ficaria bem na história contar que continuo a gostar muito de cerejas. Acontece que ainda o Cavaco desgraçava o país como primeiro ministro, ouviu-o declarar que gostava muito de cerejas e que muitos dos seus admiradores lhe enviavam caixotes de cerejas - continuei a gostar de cerejas mas nunca voltaram a ter o mesmo gosto!
Nota: Sei que ficaria bem na história contar que continuo a gostar muito de cerejas. Acontece que ainda o Cavaco desgraçava o país como primeiro ministro, ouviu-o declarar que gostava muito de cerejas e que muitos dos seus admiradores lhe enviavam caixotes de cerejas - continuei a gostar de cerejas mas nunca voltaram a ter o mesmo gosto!