sexta-feira, 3 de junho de 2022

Do pretensiosismo dos que dizem que pensam pela sua própria cabeça

Quem afirma com inusitado orgulho "eu penso pela minha própria cabeça!", ainda que sem consciência, quer deixar a ideia que, comparativamente a outros que por desinteligência, seguidismo ou inépcia, vão atrás de lideranças, coletivos ou ondas de pensamento, ele, o sujeito eu, está dotado dum cérebro superior, para decidir ele próprio o que está certo ou errado, o que é e o que não é, a razão do problema ou a sua solução.

Como se a raiz do nosso pensamento não estivesse no berço em que nascemos, no que desde cedo aprendemos com os nossos próximos. É por aí que começamos a pensar, depois com professores, catequistas e amigos, livros de pensadores, partilhas, tertúlias, campanhas, discussões, paisagens, ruas, luas,  marés e marinheiros!.... É com isso que pensamos! O nosso eu pode acrescentar coisas ínfimas mas é sempre insignificante. Um pensamento relevante é sempre resultado dum processo histórico, coletivo ou de comunhão.

Sim tenho cabeça! Mas o que ela pensa é, sobretudo, resultado do pensamento de outros! E digo de experiência vivida, não há coisa com mais humanidade, com mais valor, com mais razão, do que uma pessoa pensar com outros e com eles sintetizar uma ideia ou um caminho. E digo com orgulho, normalmente não penso com a minha própria cabeça! Os espertos pensam mas eu sou burro!

Por falar em burros, já verificaram que praticamente, em Portugal, já não há burros a puxar carroças? Mas há espertos que gastam muito dinheiro no cabeleireiro a cuidar do aspeto da sua cabeça!

- Eu penso pela minha própria cabeça!

- Então arranja uma frase mais original!

Desculpem lá, isto dos que pensam que pensam pela própria cabeça dá cabo da minha própria cabeça!

2 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Não pude deixar de sorrir. Há muitos anos que, volta e meia, tenho esta mesmíssima conversa com os meus botões...

Abraço!

Rogério G.V. Pereira disse...

Eu, por meu turno
digo com orgulho,
raramente penso
com a minha própria cabeça
tudo o que dê que pensar!

Ó meu amigo
nada como fazer parte
de um colectivo
Né?