sexta-feira, 1 de março de 2024

O analfabeto político

O pior analfabeto
é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
da renda, dos sapatos e dos remédios
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e incha o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pelintra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht (1898–1956)



quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Festa de anos entre os meus

Ainda ontem fiz cinquenta, hoje faço noventa - nem todos o poderão vir a dizer.

É fácil recordar aniversários idos. Um exercício mais arriscado será irmos ao futuro e relatar acontecimentos não vividos. E o melhor é fazê-lo já, antes que a lucidez nos limite a sua descrição ou que a morte provável nos impeça de bater no teclado. 

Faço noventa anos. A minha neta teve a ideia de reunir os meus amigos, de que lhe costumo falar, num restaurante aonde vou há muitos anos. Sabe que não gosto de festas surpresa nem de ter na mesma mesa gente que não pensa ou que pensa que eu penso com segundos interesses. Sou o mais velho na sala, posso dizer e fazer o que me apetece. Estão presentes, a minha viúva, dois colegas com quem trabalhei, três amigos com quem discuto há anos as questões curda e palestiniana,  a  redução da história à história da luta de classes, a adulteração do vinho com novas castas e a necessária abertura da sociedade à poligamia. Os restantes são gente mais nova que me acarinha a idade e me tem como uma espécie em vias de extinção ou, apenas, como um velho rabugento e ressabiado que, apesar de tudo, tem graça e não pode ouvir que lhe digam que diz umas verdades.

Falo já arrastadamente mas, como falo baixo e raramente, quando falo para um grupo toda a gente se cala ou baixa a voz, não sei se por respeito, se para me tentarem perceber, ou por me admirarem.

 E então digo:

- Parece impossível como uma canção de melodia tão pobre e banal, uma letra tão pobre e banal, seja o tema mais universal e mais cantado por toda a humanidade nos últimos noventa anos. Ainda por cima na versão portuguesa, ela não dispensou o " a você" brasileiro. Detesto essa música! Por favor, não ma cantem!

Começam a filmar.

- E por favor também não me estraguem a festa com câmaras de vídeo. Vivam os momentos, não os guardem para viverem depois ou para mostrarem a outros que estiveram presentes quando, afinal, não participaram neles porque deles se arredaram por detrás de objetivas. Enfiem os telemóveis e as tabletes no símbolo do cobre. (- Olha! Obedeceram-me!...)

E então, do alto dos meus noventa anos, subo para cima da mesa, parto dois ou três copos - coisa que não acontecia dantes - e começo a recitar a minha versão da Ceia dos Cardeais.

- E vós cardeal, nunca amastes?...

E, rezada a Ceia, bateram palmas que nem uns desalmados e eu desci da mesa amparado por três deles. Todos acharam muita graça à minha récita e todos perceberam que só a viveram porque desligaram as máquinas. 

No entanto, passados instantes, já todos estavam nas suas mensagens e a reclamar que eu soprasse velas e a oferecerem-me presentes embrulhados. 

- Estais preocupados com o ambiente? Então porque gastais papéis em embrulhos? E que prendas são estas que não são livros, nem vinho, nem azeite?! Parem com as fotos! Parem de me tratar como uma relíquia! Eu não sou nem mais velho, nem mais novo do que vós! Sou vosso contemporâneo!

 - Irra que o velho é mesmo rabugento!

Puxo duma colher de sobremesa e tento atacar o autor da frase.

- Homem tem calma! São jovens, não pensam!

 A minha neta segreda-me ao ouvido:

Rabugentos são os meus amigos! Avô, quando eu fizer noventa anos, vou fazer qualquer coisa parecida! E quando fizer cem, ainda estou para aprender com o que vais fazer!

E não é que eu ainda durei mais dez anos!...

Regresso ao presente e embirro com a prenda da foto, ao menos que soubesse escrever o meu nome: - É com “u” seus analfabetos!

Mas pronto, pelo menos acertaram na idade.



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Ai se o Zeca pudesse cá voltar!


Faz 37 anos hoje. No dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!

Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: na janela da automotora, a paisagem desse Além Tejo, ditou-me esta homenagem:

amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e muitos mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de maio cantiga
fazer de abril canção

amigo canto e sempre
até

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Este texto é para ti que não sabes ler

Vota sua besta!
Dá voz aos cinzéis que apunhalaram o século findo de cinzento,
Canta e ergue os hinos e bandeiras que condenaram à miséria os teus avós.
- A fome fez-lhes bem! - dirás.
- Não comeram coisas que lhes fizessem mal!...

Tu que és a raça pura duma pátria inventada e não queres cá misturas,
Besta seduzida pela palha adulterada que faz esbracejar Ventura,
Carrega a albarda que não podes ver porque estás sob ela, 
Exibe o teu geosaber com os nomes das cidades dos grandes clubes da bola,
Gaba-te de não leres, de odiares a escola e de ignorares o que se passa à tua volta,
Baba-te no crédito que isso dá à tua opinião!
- Tenho esse direito, não?
Perguntas tu, num espasmo de direito democrático à revolta. E claro, não precisas de dizer, o mais grave disto tudo é o Rendimento Social de Inserção!...

Tu, cuja alta cruz só te permite olhar para baixo no Natal, 
Serve-te do boletim para fazeres a cruz em que queres ser crucificado,
Abre às pazadas  a cova da ignorância em que vais ser enterrado.
 - Não digas a ninguém! O voto é secreto!...
Consola-te enquanto limpas o rabo e goza enquanto contemplas aquilo que fizeste, 
Orgulha-te do resultado de teres tido razão:
- Eu bem disse que os gajos iam subir outra vez!
As tuas capacidades de vidência são uma ternura.
 
Tu, tu, tu e tu, tu aí, tu e tu também! 
Eu não me importo de morrer antes de ti só para não viver o monstro protofascista onde a tua consciência vai desaguar.
És uma besta! Uma besta tal que não se reconhece como tal!
 
Conheço-te muito bem, tu cá, tu lá! 
Não me dês palmadas no dorso! Animal és tu! Eu sou da humanidade!
- O futuro é bom se for como o passado mas uso aquele champô novo que dá na televisão!
Pois, está explicado o estado da tua cabeça. Se houvesse medicina da consciência, para começar, recomendava-te que trocasses o aparelho por cânhamo e que lesses o Escuta Zé Ninguém. 

-Vai bardamerda pá! Não é por escreveres uma cruz que sabes ler!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Os eleitores do "chega" estão entre nós

Não são os militantes que saíram dos sótãos e das tumbas dos avós que lamberam as botas do fascismo, que por ora devemos enfrentar mas somente os eleitores que os alimentam.

Identificam-se facilmente, sentam-se na mesma mesa  que tu, ouvem a conversa que anima a discussão e, de regresso duma ida à retrete, antes de se sentarem, abrem a gabardine e grunham  num tom murcho e perverso:

- Mas ele diz uma coisa que é verdade!

Em casos mais perigosos podem ainda acrescentar que são todos iguais, que tanto se lhes faz que vão para lá estes como outros, que não há esquerda nem direita ou que não vão com política.. Têm um denominador comum: não se assumem!

São esses, que bebem dos mesmos jarros do que nós, que nesta hora nos devem preocupar. 

- E como combatemos um ser incapaz de interpretar o seu lugar, o tempo que vive ou as suas falsas referências?

De facto são situações em que não valem os argumentos. Eu, levando o dito, ‘Se há dez pessoas numa mesa, um fascista chega, senta-se e nenhuma pessoa se levanta, então existem onze fascistas numa mesa”, faço assim: levanto-me deixando perceber aos presentes as razões porque o faço e saio sussurrando, em modo audível uma quadra popular.  

Portanto, é muito simples: não conviverei, não me relacionarei socialmente com qualquer indivíduo que seja apoiante, simpatizante, eleitor, potencial eleitor, ou defensor dum mentiroso nato, "que diz uma coisa que é verdade"!...

E, por favor, não me atirem que corto relações com pessoas por razões políticas. Só não tenho amigos em todos os partidos porque os partidos são muitos e nunca fiz da política um critério de amizade. Mas não se trata de política, trata-se de valores civilizacionais e racionais, quanto a isso, não pode haver tolerância, o mal tem de ser cortado quando está a nascer.

(legenda: com deus me deito, com deus me agasalho, com uma mão no peito, outra no ...)





sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Texto para a gaveta

Escrever assim como neste preciso momento escrevo, como um homem que caminha sem destino; escrever só por escrever, como um homem que caminha só por gostar de andar mas que sabe que a algum lado há de ir parar; não escrever coisa com coisa; escrever como a viúva que monda a vinha sabendo que os filhos só bebem cerveja. 

Talvez na curva dum parágrafo apareça uma ideia a desenvolver, uma história que contribua para fazer mais humana a humanidade. Talvez fosse mais proveitoso ler em vez de escrever, com o conhecimento de que o conhecimento só vale alguma coisa se for para mudar o mundo. Entretanto ouço gritar o Almada na algazarra dos livros:

- Quando eu nasci, as frases que hão de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade. 

Escrever só por escrever também não tem sentido. Mas que hei de fazer então?

Os livros novos repetem as ideias e os ideais dos que já foram lidos. Em janeiro, na fazenda, não há nada para fazer, ainda é cedo para a poda, o gado está tratado; não vou à igreja e não gosto de futebol; já acendi a lareira. Na televisão sofrem zapping: uma série americana de fraca qualidade, um programa da tarde, de fraca qualidade, ao vivo numa cidade da província, uma mesa de esnobes conversando sabiamente das consequências mundiais das eleições americanas do próximo outono, sem nunca se falar de índios!

 Tal como quase toda a gente que lê por gosto, já não leio jornais. Que coisa esta o tédio do mês frio e pardacento – chamou-lhe Régio - ao menos que o toucinho não fosse proibido e eu pudesse comer e beber uns copos mas o doutor!...; ao menos que existissem por aqui pequenos para jogarmos à sardinha.

Provado, portanto, que estamos perante um texto para enfiar na gaveta; um texto de escrever só por escrever para dizer nada; um texto a não ler; mas olhem que não é só para passar o tempo que o tempo sempre passa, digamos que é uma tentativa gorada de escrever alguma coisa que alguém tivesse gosto em ler. Já sei, vou fazer companhia ao gato a olhar as chamas da lareira.

- Olha, é o melhor que fazes! - disse o eventual leitor apanhado que nem um rato na discorrência da presente prosa.

Peço desculpa, bem sei que não é a primeira vez que discorro sobre o tema mas, quando comecei a escrever, tinha esperanças que algo de novo, alguma ideia, alguma fantasia me tocasse e alguma coisa interessante me assaltasse. Tenho de reconhecer que me perdi, um dia destes hei de encontrar-me.

Arte de Rua por Banksy em Gaza, Palestina: https://streetartutopia.com/street-art-by-banksy-in-gaza.../

The Banksy Way : Por artistas trilhando um caminho semelhante

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O Homicídio do senhor Jesus

Acossado pelo espírito da homília dominical, arraigado da mais pura fé cristã, imbuído do verdadeiro espírito natalício, o senhor Jesus saiu da igreja determinado a seguir à letra a palavra do Senhor. Coisas bíblicas como o “se tem duas túnicas…”, “um camelo passar pelo buraco duma agulha…”, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro…” e, sobretudo, aquela do Menino ter nascido numa manjedoura, há muito tempo que atormentavam o homem e, aquele domingo de dezembro, apresentou-se-lhe como o dia da Revelação do Céu.

O senhor Jesus herdara e mantivera toda a vida a criação de gado do seu pai lavrador, abastado suficientemente para não deixar o filho solteiro.

Quando chegou a casa, por volta do meio-dia, e disse à mulher que ia soltar as vacas, ela pensou que fosse do estábulo para a cerca. Nem lhe passou pela cabeça que fosse da cerca para fora!

Depois do almoço começaram a aparecer vozes à porta:

- Ó senhor Jesus, as suas vacas andam soltas por aí!...

- As minhas vacas são também vossas vacas, cuidem também vocês delas!

- Passou-se! Disseram. Toda a gente deu o senhor Jesus como passado, incluindo a mulher que pediu às pessoas que a ajudassem na recolha da manada. O senhor Jesus não foi com eles e dirigiu-se à exploração. Aí chegado e com a ajuda de Deus - no seu ponto de vista- com a ajuda do Diabo – no ponto de vista do próximo - destruiu todas as portas e cancelas que cativavam as suas cabeças.

Quando o povo e a esposa irada chegaram com as primeiras vacas, benzeram-se em nome de Deus Nosso Senhor e a mulher rica viu-se obrigada a pedir à pobre gente para as distribuírem pelos seus pequenos currais já que ali já não existiam condições para guardá-las.

Contente por ter levado a sua avante o senhor Jesus correu para abraçar a mulher que, como resposta, o ameaçou de morte correndo atrás dele com uma forquilha em direção à vacaria.

Assustado, o homem escondeu-se no meio da palha duma manjedoura e, enquanto ela gritava de raiva em busca dele, pensava:

- Já que carreguei toda a vida indignamente o nome Dele, que nasci em berço de ouro, que vivi que nem um abade, que morra ao menos nas condições em que Ele nasceu!

E assim foi, trespassado pelos dentes da forquilha, ali morreu na manjedoura, confortado pelos remorsos da companheira de toda a vida que, caída em si, se fez de imediato arrependida.

A verdade histórica deveria revelar que a vaca faz parte dos presépios por uma história destas e não pelos acontecimentos narrados pelo evangelista - se iam de burro e foi numa estrebaria o que raio é que estava lá a fazer uma vaca!?...

- Não! Não é mau gosto! Quem assassina merece todos os nomes! Já é tempo da Igreja tomar uma posição e mandar retirar a vaca dos presépios. Só então terá autoridade para renegar o Pai Natal.



quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Odete Santos

Uma comunista tem de ser maior que a televisão para que a televisão dê notícia da sua morte. Da minha pequenez, direi apenas que Odete Santos foi grande até eu lhe perder a vista. E tenho a certeza que aqueles que a veem pequena é apenas devido às cataratas do preconceito anticomunista.

A primeira vez que senti Odete Santos em despedida foi em abril, abril de 2007 e registei:

Dela, guardarei as últimas palavras que disse no hemiciclo:
"Enquanto houver estrada para andar eu vou continuar!"
Não acredito que tenha sido pensada a frase ( duma canção de Jorge Palma com a merecida alteração do "eu" de ocasião em vez do "a gente") e ver Odete Santos citar Jorge Palma no Parlamento é para mim um sinal de esperança em Novos Tempos!

Agora não me vou despedir outra vez, era o que faltava! Nós vamos continuar, "subindo e descendo a calçada, as escadarias dos edifícios do poder e a avenida", enfrentando, como eu a vi um dia, o humor pequeno e inteligente do Araújo Pereira rendido à lagosta da burguesia, ocupando a tribuna da república para prostar pelo verbo a voz da mediocridade dos adoradores dos microfones da era da eletrónica, com um verbo de cada um mas com a razão coletiva.

Obrigado camarada Odete! Haja alguém que te atire uma pedra!



sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Dez mandamentos para a mesa de Natal

No caminho serão feitos os avisos para que este Natal não seja como outros que quase acabaram à lambada entre pais e filhos, maridos e mulheres, tios e tias, sobrinhos e afins.

1- Olha que tu não dizes que estás a viver com um rapaz sem seres casada!
2- Não te metas como de costume com o teu primo por ele ter aqueles gestos!
3- Não te armas em fidalga, comes couves como os outros!
4- Livra-te de começar a cantar o Quim Barreiros quando o bacalhau chegar à mesa!
5- Não voltas a fazer aquela cara ao bolo de nozes da tua tia!
6- Se o tio começar a cantar não digas que está com os copos!
7- Se a tia te perguntar se tens facebook diz que só tens twitter porque ela não sabe o que é!
8- Se alguém perguntar quanto custou o nosso carro digam que não sabem!
9- E tu vê lá se perguntas outra vez pelo ouro dos falecidos!
10- Se a conversa virar para a política tu cala-te por favor!

- Pronto, vou estar toda a noite ao telemóvel.
- Pronto, vou estar toda a noite ao telemóvel. 
- Se eu ouvir que o "Coiso" diz algumas verdades, não me calo!
- Porque não bebes uns valente copos como eu?

E pronto este Natal vai ser assim: comer,  beber, não embalar em conversas, está muito bom - como o fizeste?  é muito bom - onde o compraste? Felizes por obrigação, remediados por condição, pacientes porque revolucionários, cristãos culturalmente, naturalmente assim.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Natal em tempo de guerra

O Natal não é um direito nem um dever, não é um presépio nem um ato de fé, não é comer nem comprar, não é dar nem receber, nem é dó nem caridade, não são cartões recebidos ou enviados, nem luzes a apagar e a acender. 

O Natal não são pais, nem mães, nem meninos, nem meninas, nem burros, nem vacas, nem perus, nem leitões, nem bacalhaus. 

O Natal não são discursos de clérigos, de magistrados ou de estrelas, nem mensagens de boas festas de gente que se julga dona do nosso destino. 

- Já me estou a passar! Avé José Putin! Avé Maria Biden! Avé burro Zellinsky! Avé vaca Ursula von der Leyen! Avé peru Benjamin Netanyahu! Avé bacalhau Lagarde! Avé leitão Macron! – já me estou a passar! – Costa vai-te!... Marcelo desopila! Já me estou a passar! Esfolem o nado fascista! Acreditem no amor!

- Amor desliga-me essa porrra do noticiário! 

Lá se foi a presente mensagem de Natal! Descambou-me o texto, o pensamento, a intenção! Se calhar o Natal é tudo aquilo que eu disse que não era! Não sei o que é o Natal, é muito esquisito mas não sei o que é. Devolvam o Natal onde ele pertence, à Palestina.

- Muda para o dois que estão a dar bonecos!

- Vai mas é fazer o presépio!

- Não é preciso, vou imprimir esta foto!



sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

MAIS UM MILAGRE DA IMACULADA

A tia, já que não casou, entregou o seu coração à Fé, tornando-se tão beata que jamais poderá vir a ser santa. Por respeito à sua devoção à Virgem, o sobrinho, residente em Lisboa e de visita à terra, de passagem por Fátima, comprou-lhe uma santa. 

Entrou na loja e sentiu-se intimidado pelo olhar multiplicado das santas multiplicadas, intimidação essa, reforçada pela abordagem da lojista que lhe dirigiu a palavra em tom imaculado:

- Que virgem desejais senhor?!

- Com menos de meio metro e luminosa! É para a minha tia que já está de pés para o Céu e vê muito mal!

- Escolha daqui!

- Mas parecem-me todas iguais!

- Nesse caso tem a escolha facilitada!

- Já estão benzidas?!

A lojista sorriu por lhe ter descoberto o grau de prática religiosa - é óbvio que ninguém vende objetos religiosos já benzidos! Essa operação fica ao cuidado de cada um e foi coisa que, pela pressa, não consumou mas que fez questão de ocultar à tia que também lhe tem ocultado, com esperteza de sacristia, as contas bancárias e outros bens que ele espera herdar um dia. 

- Tia! Trago-lhe uma prenda! Olhe só para este olhar!... Benzida pelo cardeal de Cracóvia que esteve esta semana na Cova de Iria! 

Quando no domingo voltou a visitá-la para engraxar a despedida, estava a velha com toda a velha vizinhança, debitando o terço à volta da imagem colocada em cima de uma mesa na varanda virada ao sol. A chegada do sobrinho interrompeu o mistério e disse-lhe a tia:

- Filho, a santa chora!

- Nesse caso devolvê-la-ei! Ainda está na garantia!

- Cala-te homem do diabo! Olha! Vê!...

Para espanto do descrente era verdade demais, digno de ser fotografado, mas não o suficiente para lhe erguer a Fé - relembre-se o segredo de que não tinha havido tempo para ser benzida! 

E lá partiu de regresso para Lisboa deixando em paz a Fé dos que a cultivam mas assaltado por um combate interior que o obrigava a ir ao fundo da verdade e, por isso, parou novamente em Fátima.

- Minha senhora! Venho reclamar dum produto que adquiri aqui na passada sexta-feira!

- Lembro-me de si, levou uma Nossa Senhora luminosa! Não me diga que é daqueles que julgam que é preciso lâmpada!?

- Não. Repare nesta foto, a imagem chora e está a perturbar emocionalmente a pessoa a quem a ofereci! 

Da profissional do ramo, recebeu a explicação:

- Como as imagens são arrefecidas em água quando saem da máquina de intrusão, como só depois de cravados os olhos em cera se fecha a cabeça, é natural que com o calor alguma cera se derreta e deixe verter eventuais gotas de água que não tenham escorrido durante o processo de fabrico. 

É claro que será muito difícil convencer a tia e as suas vizinhas da razão do choraminguice. Resolveu pois não perturbar a Fé nem a versão do milagre. 

(Tão depressa não volto a bater na Senhora d’ Aire nem nas tias solteiras! Já é demais! A verdade é que nunca tive uma tia solteira e que as pedras da serra estão mesmo aqui à mão!)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Viva Portugal e a restauração

O puto já tinha ido onde o avô nunca fora: Paris, Londres, Praia, Rio e conhecia bem Portugal do eixo A1, A2, Lisboa e Albufeira. 

O avô encantara-se por Idanha-a-Velha porque os naturais, apesar do peso histórico da povoação, não se deixaram intimidar pelos turistas nem foram na cantiga de estudiosos e projetistas de terra alheia que lhe prometiam mudança de modos e rendimentos de vida. Nas ruas apertadas viam-se garrafas de gás com o tubo a entrar na parede de cozinha, aparelhos de ar condicionado a pingarem na calçada, tanques de lavar a roupa, estendais  e a venda, que resistia, tinha caricas de cervejas e beatas junto à porta de entrada, pormenores que o tinham feito gostar da vida viva da histórica aldeia.

Deram voltas por ruínas e muralhas e, com o meio-dia, o puto começou com o "tenho fome" e não se via sítio de matar a dita e a mulher da venda não tinha por negócio servir pratos.

- Mas a senhora não vende aqui latas de atum?

- Vendo.

- Não tem por aí uma cebola?

- Tenho.

- Um pingo de azeite?

- Também.

- Um pão?

- Também se arranja!

Bela refeição, bela a solução do avô, bela a mulher da venda e a venda. O puto indagou que ela não tinha ar de quem gostava de heavy-metal pelo que não percebia porque se vestia totalmente de preto.

De regresso a Lisboa, a avó fez questão de passar por Fátima para agradecer o dinheiro que tinha para passear por onde quisesse e a saúde que tinha para comer o que lhe apetecesse. O puto desconfiado da história e das crenças da mãe da mãe fez perguntas até chatear. 

- Cala-te! Não vês ali escrito "silêncio"?!

A avó a aproximar-se dum orifício com duas notas dobradas. O puto avança com ela.

- Com esse dinheiro bem podíamos ir a um restaurante e estávamos na mesma a ajudar! As gentes daqui são das que mais dão à Santa como forma de agradecer o sucesso dos seus negócios!  

 O moço que servia à mesa usava calças pretas e camisa branca.

- Meio viúvo? Morreu-lhe a namorada? 

Perguntou o puto acrescentando que o tipo não tinha pinta de gostar de heavy metal.

O moço era estagiário da Escola de Hotelaria de Fátima e tinha a simpatia e a educação suportadas na utilização abusiva de diminutivos.

 - Pretendem uma mesinha? Temos bifinhos, um bacalhauzinho, pãozinho, um vinhinho. A comidinha está boazinha? Uma sobremesazinha? E, no final, a continha: oitenta e cinco euros.

Se tivesse dito "eurinhos", o avô teria ido aos arames! 

Atum enlatado com cebola é bom. Não formatem o bacalhau, a sopa, os moços e as moças que nos servem e lembrem-se, lá prós lados de Idanha, a Senhora do Almortão também faz milagres: para o ano o puto quer passar de novo o Dia da Restauração com os avós e não quer ir ao Algarve nem a restaurantes com rapazinhos de fatinho.



sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Crónica cruel em dó maior para três irmãos pelo Natal

 


As aldeias desaguam nas ribeiras. Nas margens dos campos das ribeiras ficam os casais dos dois ou três mais abastados das aldeias.

Constantino é um desses dois ou três na sua aldeia, tem parcelas por tudo o que é ribeira, monte ou charneca, de modo que se diz, na aldeia, que não há quem não tenha um talho, pinhal ou olival que não confronte com ele com dois marcos.

Naquela aldeia, em mil novecentos e sessenta e dois, Constantino é o último homem que ainda usa barrete, que tem duas juntas, mula e burro e que vive exclusivamente da terra. Ainda assim, apesar da fartura, quando a mulher faleceu, em mil novecentos e quarenta e cinco, os filhos migraram para Lisboa.

Constantino não teve outro remédio senão casar-se com uma das criadas, a mais lerda, surda que nem uma porta que, talvez por assim ser, ou por adiantada idade, ou por consanguinidade de filhos incógnitos de antepassados, não lhe deu filhos sãos como os primeiros. Os três saíram com defeito de mentalidade. Mas pronto, ele polegar, a mulher mindinha, a família acabou por funcionar como os dedos duma mão.

Por desgosto, coincidência ou por capricho, Constantino foi a enterrar no mesmo dia de António de Oliveira Salazar, deixando os três faltados aos cuidados da também já faltada e cada vez mais mouca, segunda mulher.

Justina, a mais velha, falava, falava, falava se Deus a dava, falava de mais, falava a toda a gente das coisas que se passavam em casa, fazia correio da aldeia e até falava das suas menstruações. Dava-se de tal modo ao desrespeito que os rapazes rudes, que a cruzavam, a demandavam a respeito:

- Justina mostra-me a tua crica! Justina, fdes? Justina para que queres a crica se não fdes?

Cristiano, o do meio, era pacato, mas tinha desembaraço para tratar do gado e de toda a lavoura, nada que o livrasse da troça das gentes rudes de que era parte: provocavam-no acerca da coisa da irmã, tentavam embebedá-lo sem sucesso e, quando num grupo, a sua boina andava sempre de mão em mão.

Francisco, o mais novo, aprendera a ler e a escrever. A loucura só o apoderou já adolescente, talvez por consciência tomada do lar em que nascera, talvez por atos da mãe, talvez por maldição hereditária, o que é certo é que, diferentemente dos irmãos, com ele não se brincava, era violento, rangia dentes e não ria, lia o jornal e depois rasgava-o, não permitia que o atentassem com balolas.

Um dia, zangando-se com o Cristiano no meio duma lavoura, deu-lhe com a vara da arrelhada num sobrolho, destinando-o ao hospital. A vizinhança deu asas à sua crueldade e, de sua justiça,  amarrou-o durante horas, de cabeça para baixo, a uma oliveira centenária.

(A minha mãe levava-me pela mão, íamos a passar, não teve tempo para me ocultar a tortura, o cenário ficou-me gravado para sempre e nunca mais fui o mesmo. Ainda bem que vi. Não se deve esconder tudo das crianças.)

Familiares de Francisco, Justina e Cristiano, acabaram por hospedá-los na terra alheia em que residiam e, mais tarde, entregaram-nos a uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Tentaram vender a herança dos campos da ribeira, dos pinhais e olivais mas não apareceram compradores.

Nunca mais ninguém, na aldeia, viu os três irmãos e os três irmãos também nunca mais viram a aldeia. Terão morrido sem o conhecimento da aldeia embora se conste que terão morrido os três antes do Natal.

Isto já não há aldeias como antigamente, onde a gente podia nascer atravessado, viver assim assado e morrer descansado. Há sempre um hospedeiro, um hospital ou um hospício que nos irá manchar a harmonia do último Natal. É certo, se a morte é certa, isto não acabará bem para ninguém.


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Efeitos dos maus tempos

 O cão apareceu morto e caiu o vaso que estava no parapeito da varanda do quarto da avó que também já morreu.

Naturalmente que por uma questão de respeito não vou revelar aqui o nome do cão nem a natureza da planta. 

Dizem que o tempo chuvoso e as temperaturas altas desta altura do ano são propícias à ocorrência de tornados mas felizmente as forças de segurança estão atentas a todas as manifestações. 
Era um cão de família, não era um cão polícia e a natureza da planta quedada não está relacionada com a natureza deste desabafo.

Além do cão e do vaso que tombaram, também tombam folhas, bêbados e soldados. O governo abana mas não tomba. Às tempestades das ruas, avenidas e dos povos, suceder-se-á um inverno imprevisível. Nem o professor Marcelo, nem o Marques Mendes, nem o Paulo Portas, nem o Nuno Rogeiro sabem o que vai acontecer! Ninguém sabe o que vai acontecer! Sabe-se  apenas que a vida e o mundo vão mudar.

E agora vou trabalhar para o quintal. Vou enterrar o cão e pôr a planta a secar no chão da eira. Está um dia triste e eu estou contente. Logo à tarde vamos assar umas castanhas e provar o vinho novo.