Nasceu-me um dente, precisamente no sítio onde o rio nasce. Mas não foi a coincidência dum dente me ter nascido no local onde o rio nasce todos os dias, há muitos anos, que me intrigou. O que foi estranho foi o dente me ter nascido nesta idade.
Intrigado com o estranho nascimento e sabedor de que Deus também tinha nascido fora de tempo, muitos anos depois de já se saber da Sua existência, dirigi-me à igreja matriz e perguntei-Lhe o que podia ter acontecido. A nave estava deserta mas, como eu falei em voz alta, apareceu de imediato o sacristão que cruzou o indicador sobre os lábios em sinal de xiu. Percebi que Deus estava a dormir a sesta, como sempre.
Se o Serviço Nacional de Saúde estivesse a funcionar normalmente, ter-me-ia dirigido ao médico de família e este ter-me-ia encaminhado para uma consulta de psiquiatria. Acontece que a ministra da Saúde não gosta de um serviço nacional de saúde e a ministra do Ambiente nunca bebeu água na nascente dum rio.
A quem vão pedir explicações os que morrem nos corredores dos hospitais, as populações do interior que só se percebe que existem quando há incêndios? A Deus, claro. Mas subestimam a humanidade do sacristão que é quem amassa o pão das hóstias e quem escolhe os que escolhem os ministros.
Abri a boca e pedi ao sacristão para ver o dente que tinha acabado de nascer e ele perguntou:
- O senhor comeu bacalhau ao almoço?
Só me faltava ter confundido a nascente do rio com a foz dos esgotos da cidade. O sacristão, que me observou a boca como um dentista, aconselhou-me a usar palitos: o dente era de alho.

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