domingo, 2 de maio de 2021

Dia das Mães

Retreating MemoriesArshile Gorky (Armenia United States),
The Artist and His Mother, ca 1926-1936~
O leito, a derradeira doença, a história da nascença pobre, a orfandade completada aos nove anos, o andar descalço, a bicha do pão, a sardinha para três, o ser criada, as desfolhadas, a azeitona, a resina, o sacho, as cantigas, as desgarradas, os bailes, a pobreza, a alegria e... o leito final...
- Sabes João, a gente era pobre mas parece-me que éramos mais felizes que vocês! Vocês vêm aqui todos asseados, de carro, os meninos tão espertos, mas a vossa expressão é insaciável, eu não sei o que é que vocês veem nos ricos para quererem ser como eles!

Veio aqui a doutora de letras - nem o bacio estava arrumado - vê lá tu que querem umas poesias minhas para um livro que a Junta quer fazer com uns poetas da terra! A professora José, a dona José, o padre José, o doutor José, o José da Venda fazem parte do rol. Tira aí da gaveta do guarda vestidos um bloco de cartas e vê se há para aí rimas que sirvam para livro!

A casa não era casa de segredos para o rol de filhos, o sítio do dinheiro, o dinheiro que havia, os papéis importantes, os papéis de memórias eram assuntos de todos. Não sabia da existência daquele manuscrito, ela teria arrancado da memória os versos idos e, na convalescença, cravou-os no papel com a suas grafias de terceira classe de instrução. Ao filho tido por mais instruído coube-lhe a função de seleccionar!
- Tá bem mãe! Eu levo, vou passar a computador todas mas para publicar eu mandava esta... esta... esta... e esta!...
- Oh rapaz! Essa não!
- Porquê mãe? É tão engraçada!
- Não tem jeito! O teu pai já morreu!

Com a esperteza que dela herdei, entre tentos e argumentos lá a convenci. Essa fez mesmo parte das seis ou sete poesias que registam a mãe poeta no livro "Sopros de Poesia" que a Junta editou fazendo as honras aos poetas populares da freguesia. Coube-me até, na cerimónia do lançamento representar a acamada no estrado do sucesso. Eu que sou tão avesso a essas vaidades, pela mãe, e só pela mãe, sacrifiquei-me aos flashes e posei com duas ou três palavras, com as devidas palmas e o conforto de ter vestidas as únicas calças de ganga e a desgravata da circunstância.
O "éramos mais felizes" de minha mãe duraram pelos sessenta e mais. Nesses anos, a França, aliviava a pobreza extrema e os pais jovens reviviam em festas o sucesso de oferecerem às suas crianças a pobreza não extrema!

Pelos tempos passados, a mãe não surpreendeu - diz a memória do eu pequerrucho - esperou uma volta de tons do acordeão e entrou com o seu fado. A roda de vinte ou de trinta, a voz da gaiteira, uma mão no menino, o marido de frente, as palmas a ritmar e versos ao sucesso.

Essa aldeia, da paródia, das festas sem palco, do espontâneo, da farra, do actor revelação e do actor do costume, de vez em quando, ainda acontece. A minha mãe já não acontece mas acontece que poucos se referem a mim pelo meu nome e mais por um dos filhos dela!

E é assim que eu decidi blogar o dia da mãe, com estas palavras dela que tanto me orgulham:

Como é dia festejado
vou aqui cantar um fado
escutem é divertido
Hoje como estou contente
vou fazer pra esta gente
as queixas do meu marido
Dá-ma tanta coisa boa
já me levou a Lisboa
e quer-me levar ao Porto
Nunca me deu nem fez falta
uma palavra mais alta
nem um pequenino soco

E quando vai passear
gosta bem de me levar
seja qual for a jornada
E como toda a gente sabe
pra me levar à vontade
comprou a motorizada

Cá a respeito ao comer
não é do que apetecer
do que se pode também
E a respeito ao trabalho
faço aquilo que quiser
pra ele está tudo bem

Ouro deu-me quanto eu quis
uns sapatos de verniz
e uma saia plissada
Uma vez pelo ano "bão"
quis oferecer-me um fogão
não me queria defumada

Mais dia sim dia não
vai dar-me uma televisão
não me quer faltar com nada
Oh mulher para que te zangas
tens um casaco sem mangas
diz-me ele quando estou zangada

Não posso passar sem rir
a zanga pega a fugir
acaba por não ser nada
Deu-me um casaco sem pele
dá-me tudo quanto quero
em casa não falta à hora

Não me irrita com ciúme
não passa pla moraria
nem tem amantes por fora

Quando chega ao fim do dia
se chega com alegria
num beijo só mata a fome
Isto não é só garganta
mas é preciso ser santa
para calhar assim com homem
1964

sábado, 1 de maio de 2021

maio maduro maio

1.º de Maio - Dia do Colaborador
Colaborador, o carvalho que os cousa! Colaborador era a tia da vossa prima!
- Valha-nos o português! Reparem nas palavras: "o carvalho" - da família das quercus- "a cousa" - da família do coiso- "o cosa" - do arremendado - ou "o coza" - do cozido - "a tia da prima" - pode ser a mãe ou a tia solteira...

Colaborador, o carvalho que os cousa! Colaborador era a tia da vossa prima! - Colaborador - masculino - tia feminino - colaborador - funcionário - empregado - assalariado - mal pago - TRABALHADOR - Valha-nos o português! Valha-nos a língua! Valha-nos a língua portuguesa! Valha-nos o português! Valha-nos o trabalhador português! Valha-nos o carvalho! - o carvalho da família das quercus!

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Sócrates leva o seu golpe de misericórdia

Já não me apetece escrever sobre o assunto mas... ainda me lembro. 
Ah! Mas ainda tenho mais asco por aqueles que matam o mensageiro pela má mensagem. Pobre Ivo, de repente apareceu um país de magistrados de quarta classe e mais animador ainda: afinal, milhões de portugueses que não liam mais que as manchetes do Correio da Manhã ou os slides ilustrados do Facebook, tudo indica que leram 6000 páginas dum processo.
E pronto, deixo prosa, já mastigada, sobre o assunto e sobre o figurão:


Não, não foram os homens de Costa que desligaram a máquina a Sócrates. O golpe de misericórdia foi dado hoje, pela sua ex-namorada Fernanda Câncio, num "artigo de confissão" (ou será de traição?) que acaba por provar quanto estavam bem um para o outro.

Sócrates já mete dó. Afinal ele acaba por se tornar vítima daqueles que lhe deram os seus tempos de glória, da amante que lhe fazia festas nos cabelos, dos correligionários que o seguiam, dos jornalistas que o apoiavam, dos comentadores que o elogiavam, dos eleitores que o escolhiam e até do sistema judicial que, pelo menos parcialmente, teve nas mãos.

Ninguém me provou ainda que Sócrates é um criminoso mas já tenho a certeza de que ele é uma vítima.

Pois é minha gente, quando ele recebia vivas dos carapaus e dos armadores, não por dar de comer aos peixes mas por oferecer as redes, não por fazer bem a uns mas por fazer mal a alguns, quando ele era o salvador que aniquilava as corporações de preguiçosos bem pagos, enquanto a Fernanda dormia com ele, nós outros lutávamos nas ruas para que o seu reinado chegasse ao fim. A nós ninguém nos pode acusar de o ter apoiado.

Que Vinicius de Moraes me perdoe assim como aqueles para quem me repito. Ficam aqui as palavras dum ataque de fúria que em 2009 me deu:

Sai, Sócrates
Desaparece, parte, sai deste povo
Volta a Vilar de Maçada onde te esperam
As ossadas dos teus avós, de que és
A herança perversa. Vai, foge do povo
Monstruosa farsa, hediondo
Ministro do faz conta, boy bóbó
Coito interrompido! Sai, Sócrates
Fato cagão, cueca suja como guardanapo,
Gravata de prepúcio, câncio homo-nada
Que empestas as passerelles da vidairada
Com teu petulante abanar de ancas
Enquanto largas traques sobre as palmas
Tuas encomendas aos boys-todo-o-serviço
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de marketing de plástico
Tu e teus telepontos
Tu e teu discurso cheio de nada
E pede perdão ao filósofo
Cujo nome roubaste. Deixa os portugueses em sossego
Odioso falozinho; fecha o fecho
Das tuas peles destomatadas
Secretárias, ministrinhas, directoras, jotas de saia curta
Movendo-se à volta da tua merda, como moscas
varejeiras que depois pousam nas mesas e nas camas,
Sai, Sócrates
Arruma as botas e diz adeus ao tacho
Em saudação fascista; galga, vasa,
Contra o teu próprio umbigo
E vai viver do teu próprio valor
Na poeira suja que se acumula no teu currículo.
Adeus
Recheador de ricos, multiplicador de pobres, tu
Com quem ninguém quererá jamais aprender nada.
Parte, punheta estéril, andate via
A23, destino Covilhã,
Experimenta viver igual às tuas vítimas.
Não tens mais estômago do que o homem da rua!
Cretino só, pinóquio de esparguete, que prescreves
A crise do país sem a experimentares, só
cretino, políticu, xuxalista...
Desanda, arruma as malas, toma banho,
E telefona para a empresa de mudanças!

IV
Há 1 trabalhador que foi para o desemprego
Há 2 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 16 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 256 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 65.536 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4.294.296 trabalhadores que foram para o desemprego

VI
— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que a empresa não precisa mais dos seus serviços...
— Meu caro senhor, tenho de comunicar-lhe que está despedido...
— É, infelizmente a empresa diminui os lucros. É impossível manter o seu posto de trabalho...
— É a crise, meu amigo. Vá para casa...
— Você é um homem forte, com certeza que arranjará outro emprego...
— Sua folha de serviço é exemplar, dar-lhe-emos uma carta de recomendação...
— Veja, você já não tem nada para dar à empresa... talvez com formação...
— Compreendo que não tenha outro rendimento. Sou seu patrão, não sou seu pai...
— Há muito operário na mesma situação. Você não está só...
— Era o nosso melhor colaborador. Mas a crise é internacional e não perdoa...
— Qual quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Ainda tem uma vida à sua frente...
— Parece que o engenheiro também vai fora...
— Uma trabalhadora exemplar... E depois, tão linda...
— Que coisa! Logo agora que empresa estava cheia de encomendas...
— Se não aceitar as condições, somos obrigados a despedi-lo...
— Não me diga? A auto-europa...
— Não só... e a general motors?...
— E atenção para a última notícia. Mais três mil trabalhadores despedidos esta tarde...

— SÓCRATES ESTÁ DESPEDIDO

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nunca minto.


Nunca minto! Posso enlear-me nas teias da ficção, encarnar um suíno, ou dizer que navego em águas turvas quando, na verdade, não sou barco nem peixe, mas nunca minto!


Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, eu não acrescento mais um, mas proponho uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Talvez por ser 19 de março

Não era camionista, era chofer, nesse tempo era o verbo mais corrente. Chofer da fábrica do senhor António. Nos anos cinquenta, para um aldeão, ter a carta de condução era um mestrado. Era o mais letrado e mais remunerado  depois do escriturário. E tinha um ajudante para a cargas e descargas, para as manobras, para perguntar nos cruzamentos por onde é que se ia para onde se queria ir, para enfiar paus nos rodados quando a Scania se atolava, para fazer de rádio na cabine porque não o havia. O Zé era um fiel amigo. Era como se fosse da família.

Conheci o meu pai nos anos sessenta. Raramente o sentia sem ser ao serão e ao domingo. O horário de trabalho começava entre as três e as seis, conforme o itinerário era traçado e o regresso era já noite feita. Conversa e meia a ceia e no final o terço, no qual era sua a lei que o primeiro a abrir a boca, de castigo, ia para a cama - era sempre ele. A cozinha, a roupa, a casa, os filhos, o gado, o mato, as sementeiras e as colheitas eram com a mãe. Com ele era a força de trabalho em troca do salário. Trabalhador, foi assim sempre que olhei para o meu pai.

Rijo e meigo, nervosamente sossegado, riso de não mostrar os dentes, uma humildade de meter respeito, as mãos calejadas, ai e os beijos que encontravam sempre os picos da barba por fazer. Gente dura. Começou aos dez anos como criado na quinta das Caldas do senhor Terrinha. Eu segui-lhe os passos e aos dez anos pus-me a andar. Mostrava vaidade por dizer que tinha um filho que andava a estudar para padre.

Depois veio 74 e tempos novos, horário de trabalho, o respeitinho do patrão por quem trabalha, três meses de vencimento em agosto que isso de gozar férias era para gente da cidade e de pequena prole, a motorizada a dar lugar ao carocha em terceira mão... e a vida continuou. O mesmo pai mas eu já varão e noutros territórios. Uma Scania nova com rádio, o Zé na Suíça, o salário sempre magro, o trabalho sempre pesado, a vida sempre dura, o mesmo riso de lábios encostados, os mesmos olhos verdes claro, a mesma força de trabalho.

Que grande herança: o grande orgulho de pertencer à classe trabalhadora!


sexta-feira, 12 de março de 2021

As figuras do PSD


Já não sei se são as figuras que fazem o PSD ou as figuras que o PSD faz. Anda tudo desorientado.

O Marcelo pensa que é Primeiro Ministro,
O Rio está convencido que é líder do partido,
O Cavaco julga que ainda é vivo,
O Santana já não percebe nada disto.

O Marques Mendes sua por imitar o Marcelo-comentador,
O Passos Coelho espera que o Chega o tome,
A Ferreira Leite acha-se um Senhor
E até o Sá Carneiro, que Deus o tenha, pergunta a Deus por que diabo há tantas ruas com o seu nome!  

- Esqueci-me de alguém? Não, enquanto não cheirar a caldeirada, parecerá não haver ninguém!




segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de março - Dia de Portugal

Dedico àquela que foi encarregada pelo médico de me vigiar um sinal nas costas.
desenho de Álvaro Cunhal


No dia do Pai , lembro-me dos que não têm pai;
No dia da Mãe, lembro-me dos que não têm mãe;
No dia da Mulher, lembro-me dos homens;
No dia dos Animais, lembro-me dos homens;
No dia da Árvore, lembro-me dos homens e dos ninhos;
No dia da Água, lembro-me do vinho;
No dia Sem Carros, lembro-me dos cavalos;
No dia do Não Fumador, lembro-me de fumar;
No dia do Consumidor, lembro-me dos tesos;
No dia da Europa, lembro-me de África;
No dia de Portugal, lembro-me dos que não são portugueses;
No dia de Camões, lembro-me de Bocage;
No dia da Liberdade, lembro-me da prisão:
No dia do Trabalhador, lembro-me dos desempregados;
No dia da Defesa, lembro-me de atacar;
No dia das Mentiras, lembro-me da verdade;
No dia de Todos os Santos, lembro-me de todos os pecadores;
No dia de Natal, lembro-me do Ano Novo.
No dia da República, lembro-me do Rei.
No dia de Reis, lembro-me do Rei dos Leitões
No dia dos namorados, lembro-me dos que não têm namorada.
Mas a verdade é que geralmente não me lembro de nada.
A não ser quando tenho comichão mas costas:
- Ó amor chega aqui!
- Só se me disseres que dia é hoje!...
- Segunda!
- Dia de Portugal!...
- Da mulher!...
- De quem?!...
- Puta que a pariu!
- Quem?
- A idade!
- Que dia é hoje, hem?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Nestes últimos tempos

Nestes últimos tempos
O Serviço Nacional de Saúde tem revelado alguns dos seus defeitos e fragilidades mas tem resistido e tem provado que sem ele a tragédia não teria comparação;
O governo tem errado muito ao sabor de pressões e de agendas de propaganda mas é difícil imaginar como seria gerida a epidemia com qualquer um dos últimos dez ministros da saúde;
A oposição tem feito aproveitamento político da desgraça e do descontentamento mas tem sido, de um modo geral, responsável e demonstrado serenidade nas críticas que faz;
O povo nem sempre tem acatado as indicações das autoridades e tem atirado culpas a tudo o que mexe mas tem revelado compreender a gravidade do momento com muita paciência;
Quem tem estado mesmo muito mal é a comunicação social: a fomentar o pânico e a desinformação, a dar voz a especialistas de garagem, a ser a voz do dono que quer um povo de mão estendida, uma oposição bonita, um governo às direitas e um sistema de saúde nas suas mãos.
Eu calo-me e nem sequer os oiço, sei do ditado que esta é a situação em que todos ralham e ninguém tem razão.




terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Dia das maculadas


Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

dezembro

 Dezembro. Estou completamente dezembrado. Inverno e chuva. Morte aqui e acolá. Dizem que é uma pandemia. A República é um autêntico pandemómio. O presidente da república  é um pândego fascinado pela ereção dos seus próprios mamilos. O primeiro ministro dá-nos as suas palavras de cada dia como um padre que do púlpito interroga a sua própria fé. Há que inventar frutos proibidos para que a populaça se iluda que o que se pode fazer, está a ser feito. É só fumaça. Não encham os hospitais. Crê-se que os cemitérios não esgotarão a sua capacidade.

A televisão não cumpre o seu papel, delira com números, especialistas, estudos, previsões e profecias. Os comentadores choram os que caiem nas margens da pobrezas ao mesmo tempo que batem em tudo o que cheire a organização de trabalhadores. Os capitalistas mudam as agulhas à cata de novos investimentos, os apologistas do privado apelam ao estado.

Os serviços de saúde cumprem o seu papel, profissionais esquecem as humilhações e tratam dos doentes. Os comentadores pedem palmas aos da linha da frente, assim lhe chamam eles, ao mesmo tempo que batem em tudo o que se refira a empregados do estado. Os capitalistas também querem ganhar com a doença mas avançam que o setor privado não existe para tratar pandemias.

Entretanto é-nos anunciado o Natal. Só nos faltava o Natal. Pois eu que não vou de simpatias com os presidentes e ministros da república, com o jornalixo da televisão, com o Natal de paixão pela mesa cheia e compaixão com os pobrezinhos, não me incomodo. E também gosto de ficar em casa a escrever, mesmo que saia um texto sem grande sentido e sem grande razão, como é o caso.


domingo, 29 de novembro de 2020

Dia da Restauração



DIA DA RESTAURAÇÃO.
Não têm clientes mas têm um Dia.
A pandemia, a falta de apetite e os carcanhóis estão a dar cabo do setor da Restauração.
Voltem espanhóis! Mas apenas e só pela comida!...
No dia da Restauração: solidariedade com a Catalunha!

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A propósito do congresso do PCP

A porca pariu doze bácoros. Fez criação. O tio Abílio não vinha cá há doze anos e trouxe a prima Augusta que nunca tinha vindo a Portugau. Depois do leite, os leitões foram tratados com lavadura, melão porqueiro e farinha pouca. Ficaram todos para engorda menos um. Mereciam os emigrantes um jantar de boas vindas que reunisse a família e assim se fez. Quando se trata de comer a malta está-se nas tintas para os vírus. O forno foi aquecido com lenha miúda de oliveira, o leitão foi morto com a faca de matar porcos, temperado e assado à moda da Boavista e saiu bem tostado. À mesa éramos doze e só eu era comunista. Seríamos treze se a prima Augusta não fosse vegetariana e tivesse estômago para olhar o  corpo e a face do pequeno porco, morto, pousado sobe a mesa, pronto a ser devorado pelos familiares que acabara de conhecer.

- E o Bolsonaro? Alguém disse e todos concordaram que em família não se fala de política. 

A prima Augusta chegou à mesa quando a carne já estava toda nas barrigas e ninguém ousou questioná-la pela mesma razão de que nunca se fala a um muçulmano em porco.

Na televisão barafustava-se contra a realização do congresso do PCP. O assunto saiu do écran para a mesa e todos barafustaram em favor do que era dito e houve até quem não resistisse a manifestar o seu conhecimento sobre a pandemia na Coreia do Norte. Ouvi também que um congresso não é a mesma coisa do que uma convenção.

Creio que estavam à espera que eu falasse mas eu, velho em conversas, apenas pensei para comigo: é preciso paciência!

Se eu não gostasse tanto de leitão nunca teria participado naquele jantar! Também gostava de conhecer e ouvir a Augusta, a prima das causas toleradas. Quem sabe, ao menos com ela, eu tivesse alguma hipótese!

Tirei daí a ideia e fui sozinho para casa a pensar: se eu por acaso apresentar alguns sintomas não me irão poupar!...

-Os comunistas! Os comunistas!... e lembrei-me dessa canção do Caetano Veloso... 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O vale tudo

 Aqui neste vale sem nome onde o rio só corre quando chove, de onde se vê ao longe um povoado grande que é aldeia e mais perto um sítio com capela e dez ou doze casas e, de resto, a vista se enche com olivais, vinhas e pinheiras - aqui vivo.

Aqui há campo, ovelhas, gatos sem dono, cães vadios, milharolas, popas, cobras, as uvas pisadas com os pés, água pé e azeite sem rótulos, a omnipresente tratorinha do Tó Zé sempre a assapar e a conversa por entre um tinto de descanso:
o tempo, por quem dobraram os bombeiros, de que família era o falecido, porque não deram os tomates este ano, o pó ideal para o corcomilho e "o que eles querem agora"…
Querem que o Tó Zé tire um curso para ter uma carteira que o habilite a tratar do gado de que sempre tratou desde criança! Querem que ele diga onde põe o estrume dos animais!
- Na terra! Ora que porra! Onde é que eu o havia de pôr?!

Para isto ser verdadeiramente campo inteiro só falta um burro. Ando a pensar em criar condições para ter um burro, espero que não seja necessária carta para o montar, toda a família está de acordo, um burro comporia muito as nossas vidas! Se não houver maneira de levar o projecto por diante - sim, porque até já para ter um burro é preciso um projecto! - nem que faça eu de burro para completar a harmonia!
E o Tó Zé a malandrar:
- Mas tu não és porco lá na "internete" ou lá o que isso é!? Afinal agora queres ser burro!?
O Tó Zé não me trata como um animal, não me diz: asta pra lá, tens fome, estragaste a palha toda, estás triste, falta-te o macho e outras longas conversas que ele trava com o gado. Fala assim para mim, por amizade e porque me acha estranho.
- Já chega por hoje Zé, nem mais um, não bebo mais, sinto-me estranho! Vou estranhar!...

sábado, 14 de novembro de 2020

A "comparação" é o verbo do povo - Ricardo Araújo Pereira


Tão grave como o PSD fazer um acordo com o Chega é Ricardo Araújo Pereira ter no seu  Governo Sombra o João Miguel Tavares.

Ricardo Araújo Pereira é uma espécie de Cristiano Ronaldo do humor. Admiramos de tal forma o que eles fazem e os estatutos que daí lhes advêm, respeitamos de tal modo a sua fama e a sua fortuna que somos incapazes de os pôr em causa, antes os bajulamos e temos como intocáveis. Quando muito, podem existir alguns que lhes dedicam aquela consideração que tantas vezes ouvimos: "José Saramago é um grande escritor mas não aprecio a maneira como escreve".

Ricardo Araújo Pereira pode ridicularizar qualquer personalidade de proa, fazer-nos rir dos figurões nacionais, troçar até mais não do mais alto magistrado da nação. Todos dão o "e oito tostões" para se sentarem à sua frente, com o convencimento, é certo, de que se vão sair como porreiros e que vai ser fácil a entrevista porque já lhe foram antecipadamente facultadas as questões. E é sempre fácil porque o humorista quer apenas ser um tipo engraçado e dar-se bem com toda a gente - é assim que ganha a vida.

É assim que Ricardo Araújo Pereira vai timidamente à Festa do Avante ao mesmo tempo que não recusará uma galhofa com o Chicão, um beijo na mão às Mortáguas, um abraço ao Rio, um jantar com o Costa ou uma condecoração do Balola da República.

Reconheça-se que já deu a entender que com Ventura nem uns "bons dias". Fez mais contra o Chega nos dez minutos que dedicou à sua convenção no seu programa dominical, que milhentas provas das mentiras e contradições que ao Chega dão o sucesso, que horas e horas de comentários de TV sobre novos populismos, que páginas e páginas de intelectuais democratas sobre os perigos que a democracia corre.

Mas Ricardo Araújo Pereira está num palco perigoso. Contracenar com um cabeça rapada de óculos azuis, ampliar o alcance do cronismo de direita que o quotidiano do Público concede ao seu menino, tentar fazer graça com um porteiro do fascismo, não tem graça nenhuma e talvez lhe venha a sair tão caro como o caso dos Açores ao Rui Rio.

Ainda que em diferentes papéis, João Miguel Tavares é tão perigoso como André Ventura. Ricardo Araújo Pereira estará a pecar mais do que Rui Rio, partindo do princípio que o seu humor inteligente não é assim tão ingénuo ou inocente.

domingo, 25 de outubro de 2020

O Espírito Santo e os Pink Floyd

Parte I

Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro era o grande investimento da sua vida, o cumprimento de um sonho comum. O passeio seria o primeiro da família em automóvel e o destino o cumprimento de uma promessa antiga.

Quando jovem, fora de comboio três temporadas fazer rancho para a faina do arroz. Sentira o cheiro do suor dos trabalhadores que, com ele, faziam a faina do arroz. Sentira o cheiro do dinheiro do banqueiro Espírito Santo nas lamas da faina do arroz. Ao fim de tantos anos, voltar à herdade da Comporta, era o pagamento de uma dívida que tinha com a sua memória, uma obrigação de testemunho que devia ao filho, uma aventura que lhe poderia facultar o prazer de reencontrar velhos amigos que ficaram sadinos.

Em troca das velhas histórias que fez ouvir durante a viagem, teve de gramar com as músicas do filho que explorava a novidade do gravador de cassetes. Em cada trinta quilómetros a cassete  pirata era virada ou substituída: Atom Heart Mother - Pink Floyd; Close to the Edge – Yes; Deja Vu - Crosby, Stills, Nash and Young; Rattus Norvegicus - Stranglers.

Chegados, tiveram casa porque Carminda Rego reconheceu o velho amigo e o velho amigo reconheceu Carminda Rego. “Tu a certa altura desapareceste!...”;“Fui presa!...”; “Isto ainda é do Espírito Santo?”; “ Isto agora é nosso, companheiro! Foi nacionalizado!…”

De regresso à terra contente de rever e de cumprir, orgulhoso do comportamento da família e do carro calhou dizer “ eu posso não voltar mais, mas este carro...”

Parte II

Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro fora o grande investimento da vida de seu pai. Estimara-o após a sua morte e por ele se fez sócio do Automóvel Clube de Portugal. Este era o tempo de voltar com ele a Comporta, de poder voltar a ouvir as velhas cassetes, de fazer transferir, via pai, memórias de avô para neto.

Entusiasmaram-se com a aventura de ir tão longe no velho carro, gramaram ouvir as velhas cassetes, encheram-se de histórias de arroz e alojaram-se no aldeamento Casas da Comporta. Não encontraram sinais de Carminda Rego mas viram o poder do Espírito Santo.


Regressaram hoje a casa, de comboio.
- Pai! Não penses mais nisso! Já estava tão velho!
- Estou velho demais para me preocupar com o carro! Já nem me lembro da marca dele! Eu estou aqui é a pensar no que é que o Mistério da Santíssima Trindade tem a ver com o regresso do Espírito Santo à Comporta!...
- Pai!...
- Filho!...
E dito isto benzeu-se em voz alta e pensou que era Abril.

Parte III

Se hoje voltassem à Comporta por certo já não veria sinais do Espírito Santo. Por ironia também não veriam sinais de que a herdade era do povo. Será de quem? De outros espíritos iluminados, de outros santos...
- De quem é a herdade da Comporta? Eis a questão.

(A Herdade da Comporta é a maior herdade privada existente em Portugal)