O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.
Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.
Todos dizem a Albertino Rosa, e Rosa Albertina concorda, que se assim não for, o mais certo é a empresa se deslocalizar e ele perder o emprego. Com um argumento destes não há Albertino nem Albertina que não seja tentado à rendição.
E é aí que Rosa pensa mais longe e põe a questão:
- Então e se se mantiver o número de atropelamentos? O governo irá decretar a velocidade mínima dentro das localidades para 10km/hora, deixaremos de poder ir à missa ao domingo pedir a Deus, unidos como Ele nos uniu, trabalho e saúde para trabalhar.
Mas não é isso que faz pensar o Albertino, além de não ser judeu para ter que guardar o sábado, como cristão só vai à missa para satisfazer a mulher. O que o preocupa é que, com tanto consumo de pastilhas, os fabricantes de automóveis comecem a fazer só travões com discos! E pensa mais, que isto não vai parar e que mais do que lutar pelo que se tem, é preciso querer mais, como os que detêm os meios de produção.
É a luta de classes, carago!


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