sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Nestes últimos tempos

Nestes últimos tempos
O Serviço Nacional de Saúde tem revelado alguns dos seus defeitos e fragilidades mas tem resistido e tem provado que sem ele a tragédia não teria comparação;
O governo tem errado muito ao sabor de pressões e de agendas de propaganda mas é difícil imaginar como seria gerida a epidemia com qualquer um dos últimos dez ministros da saúde;
A oposição tem feito aproveitamento político da desgraça e do descontentamento mas tem sido, de um modo geral, responsável e demonstrado serenidade nas críticas que faz;
O povo nem sempre tem acatado as indicações das autoridades e tem atirado culpas a tudo o que mexe mas tem revelado compreender a gravidade do momento com muita paciência;
Quem tem estado mesmo muito mal é a comunicação social: a fomentar o pânico e a desinformação, a dar voz a especialistas de garagem, a ser a voz do dono que quer um povo de mão estendida, uma oposição bonita, um governo às direitas e um sistema de saúde nas suas mãos.
Eu calo-me e nem sequer os oiço, sei do ditado que esta é a situação em que todos ralham e ninguém tem razão.




terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Dia das maculadas


Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

dezembro

 Dezembro. Estou completamente dezembrado. Inverno e chuva. Morte aqui e acolá. Dizem que é uma pandemia. A República é um autêntico pandemómio. O presidente da república  é um pândego fascinado pela ereção dos seus próprios mamilos. O primeiro ministro dá-nos as suas palavras de cada dia como um padre que do púlpito interroga a sua própria fé. Há que inventar frutos proibidos para que a populaça se iluda que o que se pode fazer, está a ser feito. É só fumaça. Não encham os hospitais. Crê-se que os cemitérios não esgotarão a sua capacidade.

A televisão não cumpre o seu papel, delira com números, especialistas, estudos, previsões e profecias. Os comentadores choram os que caiem nas margens da pobrezas ao mesmo tempo que batem em tudo o que cheire a organização de trabalhadores. Os capitalistas mudam as agulhas à cata de novos investimentos, os apologistas do privado apelam ao estado.

Os serviços de saúde cumprem o seu papel, profissionais esquecem as humilhações e tratam dos doentes. Os comentadores pedem palmas aos da linha da frente, assim lhe chamam eles, ao mesmo tempo que batem em tudo o que se refira a empregados do estado. Os capitalistas também querem ganhar com a doença mas avançam que o setor privado não existe para tratar pandemias.

Entretanto é-nos anunciado o Natal. Só nos faltava o Natal. Pois eu que não vou de simpatias com os presidentes e ministros da república, com o jornalixo da televisão, com o Natal de paixão pela mesa cheia e compaixão com os pobrezinhos, não me incomodo. E também gosto de ficar em casa a escrever, mesmo que saia um texto sem grande sentido e sem grande razão, como é o caso.


domingo, 29 de novembro de 2020

Dia da Restauração



DIA DA RESTAURAÇÃO.
Não têm clientes mas têm um Dia.
A pandemia, a falta de apetite e os carcanhóis estão a dar cabo do setor da Restauração.
Voltem espanhóis! Mas apenas e só pela comida!...
No dia da Restauração: solidariedade com a Catalunha!

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A propósito do congresso do PCP

A porca pariu doze bácoros. Fez criação. O tio Abílio não vinha cá há doze anos e trouxe a prima Augusta que nunca tinha vindo a Portugau. Depois do leite, os leitões foram tratados com lavadura, melão porqueiro e farinha pouca. Ficaram todos para engorda menos um. Mereciam os emigrantes um jantar de boas vindas que reunisse a família e assim se fez. Quando se trata de comer a malta está-se nas tintas para os vírus. O forno foi aquecido com lenha miúda de oliveira, o leitão foi morto com a faca de matar porcos, temperado e assado à moda da Boavista e saiu bem tostado. À mesa éramos doze e só eu era comunista. Seríamos treze se a prima Augusta não fosse vegetariana e tivesse estômago para olhar o  corpo e a face do pequeno porco, morto, pousado sobe a mesa, pronto a ser devorado pelos familiares que acabara de conhecer.

- E o Bolsonaro? Alguém disse e todos concordaram que em família não se fala de política. 

A prima Augusta chegou à mesa quando a carne já estava toda nas barrigas e ninguém ousou questioná-la pela mesma razão de que nunca se fala a um muçulmano em porco.

Na televisão barafustava-se contra a realização do congresso do PCP. O assunto saiu do écran para a mesa e todos barafustaram em favor do que era dito e houve até quem não resistisse a manifestar o seu conhecimento sobre a pandemia na Coreia do Norte. Ouvi também que um congresso não é a mesma coisa do que uma convenção.

Creio que estavam à espera que eu falasse mas eu, velho em conversas, apenas pensei para comigo: é preciso paciência!

Se eu não gostasse tanto de leitão nunca teria participado naquele jantar! Também gostava de conhecer e ouvir a Augusta, a prima das causas toleradas. Quem sabe, ao menos com ela, eu tivesse alguma hipótese!

Tirei daí a ideia e fui sozinho para casa a pensar: se eu por acaso apresentar alguns sintomas não me irão poupar!...

-Os comunistas! Os comunistas!... e lembrei-me dessa canção do Caetano Veloso... 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O vale tudo

 Aqui neste vale sem nome onde o rio só corre quando chove, de onde se vê ao longe um povoado grande que é aldeia e mais perto um sítio com capela e dez ou doze casas e, de resto, a vista se enche com olivais, vinhas e pinheiras - aqui vivo.

Aqui há campo, ovelhas, gatos sem dono, cães vadios, milharolas, popas, cobras, as uvas pisadas com os pés, água pé e azeite sem rótulos, a omnipresente tratorinha do Tó Zé sempre a assapar e a conversa por entre um tinto de descanso:
o tempo, por quem dobraram os bombeiros, de que família era o falecido, porque não deram os tomates este ano, o pó ideal para o corcomilho e "o que eles querem agora"…
Querem que o Tó Zé tire um curso para ter uma carteira que o habilite a tratar do gado de que sempre tratou desde criança! Querem que ele diga onde põe o estrume dos animais!
- Na terra! Ora que porra! Onde é que eu o havia de pôr?!

Para isto ser verdadeiramente campo inteiro só falta um burro. Ando a pensar em criar condições para ter um burro, espero que não seja necessária carta para o montar, toda a família está de acordo, um burro comporia muito as nossas vidas! Se não houver maneira de levar o projecto por diante - sim, porque até já para ter um burro é preciso um projecto! - nem que faça eu de burro para completar a harmonia!
E o Tó Zé a malandrar:
- Mas tu não és porco lá na "internete" ou lá o que isso é!? Afinal agora queres ser burro!?
O Tó Zé não me trata como um animal, não me diz: asta pra lá, tens fome, estragaste a palha toda, estás triste, falta-te o macho e outras longas conversas que ele trava com o gado. Fala assim para mim, por amizade e porque me acha estranho.
- Já chega por hoje Zé, nem mais um, não bebo mais, sinto-me estranho! Vou estranhar!...

sábado, 14 de novembro de 2020

A "comparação" é o verbo do povo - Ricardo Araújo Pereira


Tão grave como o PSD fazer um acordo com o Chega é Ricardo Araújo Pereira ter no seu  Governo Sombra o João Miguel Tavares.

Ricardo Araújo Pereira é uma espécie de Cristiano Ronaldo do humor. Admiramos de tal forma o que eles fazem e os estatutos que daí lhes advêm, respeitamos de tal modo a sua fama e a sua fortuna que somos incapazes de os pôr em causa, antes os bajulamos e temos como intocáveis. Quando muito, podem existir alguns que lhes dedicam aquela consideração que tantas vezes ouvimos: "José Saramago é um grande escritor mas não aprecio a maneira como escreve".

Ricardo Araújo Pereira pode ridicularizar qualquer personalidade de proa, fazer-nos rir dos figurões nacionais, troçar até mais não do mais alto magistrado da nação. Todos dão o "e oito tostões" para se sentarem à sua frente, com o convencimento, é certo, de que se vão sair como porreiros e que vai ser fácil a entrevista porque já lhe foram antecipadamente facultadas as questões. E é sempre fácil porque o humorista quer apenas ser um tipo engraçado e dar-se bem com toda a gente - é assim que ganha a vida.

É assim que Ricardo Araújo Pereira vai timidamente à Festa do Avante ao mesmo tempo que não recusará uma galhofa com o Chicão, um beijo na mão às Mortáguas, um abraço ao Rio, um jantar com o Costa ou uma condecoração do Balola da República.

Reconheça-se que já deu a entender que com Ventura nem uns "bons dias". Fez mais contra o Chega nos dez minutos que dedicou à sua convenção no seu programa dominical, que milhentas provas das mentiras e contradições que ao Chega dão o sucesso, que horas e horas de comentários de TV sobre novos populismos, que páginas e páginas de intelectuais democratas sobre os perigos que a democracia corre.

Mas Ricardo Araújo Pereira está num palco perigoso. Contracenar com um cabeça rapada de óculos azuis, ampliar o alcance do cronismo de direita que o quotidiano do Público concede ao seu menino, tentar fazer graça com um porteiro do fascismo, não tem graça nenhuma e talvez lhe venha a sair tão caro como o caso dos Açores ao Rui Rio.

Ainda que em diferentes papéis, João Miguel Tavares é tão perigoso como André Ventura. Ricardo Araújo Pereira estará a pecar mais do que Rui Rio, partindo do princípio que o seu humor inteligente não é assim tão ingénuo ou inocente.

domingo, 25 de outubro de 2020

O Espírito Santo e os Pink Floyd

Parte I

Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro era o grande investimento da sua vida, o cumprimento de um sonho comum. O passeio seria o primeiro da família em automóvel e o destino o cumprimento de uma promessa antiga.

Quando jovem, fora de comboio três temporadas fazer rancho para a faina do arroz. Sentira o cheiro do suor dos trabalhadores que, com ele, faziam a faina do arroz. Sentira o cheiro do dinheiro do banqueiro Espírito Santo nas lamas da faina do arroz. Ao fim de tantos anos, voltar à herdade da Comporta, era o pagamento de uma dívida que tinha com a sua memória, uma obrigação de testemunho que devia ao filho, uma aventura que lhe poderia facultar o prazer de reencontrar velhos amigos que ficaram sadinos.

Em troca das velhas histórias que fez ouvir durante a viagem, teve de gramar com as músicas do filho que explorava a novidade do gravador de cassetes. Em cada trinta quilómetros a cassete  pirata era virada ou substituída: Atom Heart Mother - Pink Floyd; Close to the Edge – Yes; Deja Vu - Crosby, Stills, Nash and Young; Rattus Norvegicus - Stranglers.

Chegados, tiveram casa porque Carminda Rego reconheceu o velho amigo e o velho amigo reconheceu Carminda Rego. “Tu a certa altura desapareceste!...”;“Fui presa!...”; “Isto ainda é do Espírito Santo?”; “ Isto agora é nosso, companheiro! Foi nacionalizado!…”

De regresso à terra contente de rever e de cumprir, orgulhoso do comportamento da família e do carro calhou dizer “ eu posso não voltar mais, mas este carro...”

Parte II

Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro fora o grande investimento da vida de seu pai. Estimara-o após a sua morte e por ele se fez sócio do Automóvel Clube de Portugal. Este era o tempo de voltar com ele a Comporta, de poder voltar a ouvir as velhas cassetes, de fazer transferir, via pai, memórias de avô para neto.

Entusiasmaram-se com a aventura de ir tão longe no velho carro, gramaram ouvir as velhas cassetes, encheram-se de histórias de arroz e alojaram-se no aldeamento Casas da Comporta. Não encontraram sinais de Carminda Rego mas viram o poder do Espírito Santo.


Regressaram hoje a casa, de comboio.
- Pai! Não penses mais nisso! Já estava tão velho!
- Estou velho demais para me preocupar com o carro! Já nem me lembro da marca dele! Eu estou aqui é a pensar no que é que o Mistério da Santíssima Trindade tem a ver com o regresso do Espírito Santo à Comporta!...
- Pai!...
- Filho!...
E dito isto benzeu-se em voz alta e pensou que era Abril.

Parte III

Se hoje voltassem à Comporta por certo já não veria sinais do Espírito Santo. Por ironia também não veriam sinais de que a herdade era do povo. Será de quem? De outros espíritos iluminados, de outros santos...
- De quem é a herdade da Comporta? Eis a questão.

(A Herdade da Comporta é a maior herdade privada existente em Portugal)

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O barbeiro toca sempre duas vezes

 Augusto nasceu ali, no sítio onde a ribeira ganha caudal para ter direito a nome, nos campos onde regatos juntam forças para fazer corrente, na vizinhança mais próxima da fonte onde se enchiam os cântaros que acrescentavam sensualidade às ancas.  Nunca teve sonhos de marinheiro, contentou-se sempre com a água que ia ao seu moinho, ao seu milho, ao seu chuveiro.


Augusto cresceu ali aprendendo dos mais velhos a lição que quem tem muita água ao pé da porta, é rico. Prendeu de tal forma a terra ao seu destino que aceitou, fechada a escola, o centro de saúde, a mercearia e a freguesia, que a mulher e as duas filhas fossem viver para um apartamento na cidade. - Meia volta elas cá, meia volta ele lá, hoje em dia a distância não é nada!...
Quem ia à fonte da Mindrica, trocava com ele um aceno longo, mudo e respeitável, conforme impunha a lide do tractor do dono daquelas terras. Sim, em tempos idos vê-lo-íamos criança com uma cesta a apanhar peixes de brincar, já rapazote a puxar a junta de bois do seu pai mas agora ele era o homem do tractor. 

Tudo ia assim até que o irmão, residente na cidade e funcionário da câmara municipal foi na conversa do presidente e decidiu vender o seu quinhão de terra à autarquia. Vieram máquinas e ali se fez a exploração de  água suficiente para acabar com o problema de abastecimento à rede da cidade.
Secou a fonte, secaram os regatos, secaram as represas e o rio deixou de o ser no verão. 
Naquele dia, uma comitiva de políticos, técnicos e engenheiros, vinha visitar as novas instalações. Avistou-se ao longe a nuvem de pó provocada pela fila de carros na terra batida. Augusto aguardava-os atrás de um dos grandes depósitos cilindricos pintados de branco de caçadeira na mão. 

(Abre-se um parêntesis, antes que a história acabe e o título perca o sentido, para ir três horas adiante do facto em relato, ao apartamento da cidade onde a mulher, ausentes as filhas, pelos vistos, o enfeitava. Tocou a campainha. Pensou, não é o Barbeiro porque ele toca sempre duas vezes! Este toque de três só pode ser do Amadeu da Funerária Boa Nova!)

Augusto morreu ali.

sábado, 17 de outubro de 2020

Terra do Não

Lembras-te irmão, de quando eras flor...

e chamavam por ti e não respondias,

pela simples razão de que as flores não falam nem ouvem?

- Ah, agora eu compreendo:
o pai nunca mais cortou as uvas
desde que a mãe morreu!
De então para cá:
eu fui a Primavera do Sol desonrado
com a putez impotente do avô materno,
eu fui o Verão frio nas praias do mal,
o Outono assassino da tal lucidez...
e vem aí o Inverno,
e eu ainda não acredito no Natal...
- Não! Da vingança humilde aos cornos de marfim
e das rosas que deixei cair, não me arrependo!
- Quem pode acreditar que no sangue do amor navegue o ópio,
ou que na seiva das plantas o Sol se esconda para dormir a Noite?

- Eis-me chegado à Terra do Não.
Traído dei por mim no mar turbulento da civilização,
e naufraguei aqui,
Terra do Não...
- Aguardando a chegada de algas marinhas,
morrendo de mão dadas aqui,
Terra do Não...
Não!

domingo, 4 de outubro de 2020

No Jardim

 Outubro Outono.


O velho do banco em frente ao lago
já traz um sobretudo...

Um cão sem dono.

O breve voo das folhas
faz-me pensar o Verão...

Um sorriso é o jardim.

Certas árvores caducas partiram.
Que seria de mim sem o tabaco?!...

O último pataco dá pra um copo.

Esta época o tio António não precisou de mim para as vindimas!
Não me importo!

Há um pato no lago.


Tenho fome.

Pró ano vou para o Alentejo guardar gado.
Doméstico, claro!

E era só!
Vou perguntar ao velho se tem nome!

(5 de Outubro? - Viva a República! Viva o Rei!... dos Leittões!...)

sábado, 3 de outubro de 2020

Em quem eu voto, às paredes não confesso

Antonio Berni, Manifestación, 1934


Em quem eu voto às paredes não confesso. No entanto, saibam que não votarei para presidir à República, em quem foi ao Congresso de Aveiro para bufar,  em quem foi apadrinhado pelo estertor da Segunda República, em quem foi escolhido pelos balsemões do poder mediático para ser comentador num novo formato das conversas em família, comendador-familiar-amigo de nobres banqueiros que venderam a República ao desbarato. Não votarei em quem, levado a Presidente, nunca assumiu o seu velho passado, nem no palácio deixou de ser comentador, em quem nunca percebeu o limite das suas funções, confundiu selfies e beijinhos com estar ao lado do povo e dos seus direitos, nunca deixou de ser o que sempre foi: o menino de bem do Estado Novo. Mas, bem vistas as coisas, ele está-se lixando para a direita que o pariu! 

- O menino gosta é de si próprio e é pelo seu ego que se move!

Saibam que não votarei para presidir à República, na Menina Rabina que Pintava Paredes - MRPP! Arnaldo Matos - Grande Educador da Classe Operária! Durão Barroso! MRPP/PPD! Nunca me enganaram! Em nome de quem agia a revolucionária nesses tempos? Porque veio para o PS que a põe na borda do prato? A menina burguesa, que rasgou as bandeiras vermelhas para fazer um vestido de casino, mandou lixar a Revolução! 

- A menina gosta é de ir à televisão e é por capricho que se candidata!

Saibam que não votarei para presidir à República, na moça que é da esquerda que acha velha a luta de classes, que acha chiques as causas fraturantes, que ondula os cabelos nas manifestações da avenida, sem nunca saber quão negro é o óleo das máquinas das fábricas, quão dura é a terra que dá os tomates. Quem financia os seus outdoors luminosos? A quem obedece o chefe de redação que a põe sempre no ar? Eis a questão.

- A menina pode ser muito engraçada mas não faz a minha graça!

Também não votarei noutros tinos e desatinos, noutros egos que terão a sua linha no boletim de voto porque, francamente, não sei ao que vêm.

No Coiso, ficar-me-ia mal estar aqui a justificar-me porque não voto nele: 

- Fascismo nunca mais! - uma frase que terá de voltar para as paredes.

- Não confesso? Confesso? Ah! Já lá chegaram: por exclusão de partes. Não, não é por exclusão de partes, há gestos que têm de ser correspondidos:

Há uns tempos, eu estava no Chico de Santo Amaro no aniversário dum amigo comum e o João Ferreira pagou-me uma imperial sem me conhecer de lado nenhum. Foi um gesto de classe! Portanto, vou votar nele porque se trata duma candidatura de classe!

João Ferreira não é candidato pelo seu ego, não escolheu ser candidato, foi escolhido e indicado para ser candidato, para representar aquilo, aqueles que nenhum dos outros tem massa corporal para representar.

- Não vai ganhar? Cum caetano! Ganha o Marcelo? Mal menor! Antes ele do que o abcesso dele, o Coiso! Que importa isso? Como dizem os outros, ganhamos sempre! Sim, já ganhámos por termos uma candidatura e um candidato... de classe! E é bom rapaz!...


domingo, 30 de agosto de 2020

Os anti-comunistas que se assumam

Longe vão os tempos em que se decretaram limitações aos direitos e liberdades sem que as discordâncias fossem noticiáveis. Ainda não passaram seis meses. Olhando para trás, começamos a interrogar-nos se tinha de ser assim. Mas quem era alguém para dizer o contrário?  Começam a ser esquecidos, ou pelo menos lembrados como ridículos, os desentendimentos e exaltações contra o facto de alguns parlamentares se reunirem para não se esquecerem que era abril ou de alguns trabalhadores se juntarem para lembrarem que era maio.  

Entretanto, quase todos os ativos já aceitaram que a vida tem de continuar, com as devidas regras e cautelas. Lá se foi à festa de aniversário onde seria desfaçatez ter usado máscara, já se passou por Fátima a pedir contas à Senhora e estavam muitos fiéis, teve de se admitir que o tempo esteve bom mas que estava muita gente na praia naquela semana, mostrou-se preocupação por o mais novo ter ido ao festival de verão que afinal sempre houve, e ninguém contesta que daqui a duas semanas centenas de milhares de jovens e adultos se vão juntar, por todo o país,  dentro de escolas superlotadas, sem que o governo tenha tomado uma única medida concreta que obrigue a algum cuidado especial tirando a óbvia obrigatoriedade do uso de máscara.

Ao longo destes meses muitos de nós já se confrontaram presencialmente com discursos indignados de alguém que apontava todos os dedos a esta e aquela situação em que se violavam os necessários cuidados sanitários. Nessas situações, em que raramente não me contenho, muitas vezes tive de dizer:

- Então e o que estamos nós  a fazer?

Também agora me rebenta a contenção:

- Bem sei que as manchetes à "correio da manhã", as frases dos retângulos do facebook e as notícias furtivas da televisão é que formam a vossa opinião - mas perdi a paciência, vão não sei para onde com a Festa do Avante!...

Tenho coragem, vou à Festa para dizer Não!

Papalvos: esta imagem serve ambos os lados! 

  


sábado, 15 de agosto de 2020

Intolerante aos coisos, aos chegas....

 Em fevereiro, antes da pandemia, estava num jantar de amigos e em conversa disse:

- Já avisei a família, se estivemos numa mesa onde alguém se pronuncie a favor do "chega" e eu saia, já sabem do que se trata, ou saem comigo ou me ligam para depois os ir buscar.

Imediatamente um dos convivas deu de si: 

- Mas ele diz algumas verdades!".

Levantei-me e saí. Portanto, é muito simples: não conviverei, não me relacionarei socialmente com qualquer indivíduo que seja apoiante, simpatizante, eleitor, potencial eleitor, ou defensor dum mentiroso nato "que diz umas verdades"!...

E, por favor, não me atirem que corto relações com pessoas por razões políticas. Só não tenho amigos em todos os partidos porque os partidos são muitos e nunca fiz da política um critério de amizade. Mas não se trata de política, trata-se de valores e, quanto a isso, não pode haver tolerância, o mal tem de ser cortado quando está a nascer.

sábado, 4 de julho de 2020

25 de abril, 1º de maio e Festa do Avante


25 de abril, 1º de maio e Festa do Avante - a polémica comum que tem sido gerada à volta destas festas, à boleia dos atuais condicionamentos da vida social, vem pôr em evidência aquilo que os principais animadores da mesma andam, há anos, a escrever História para o negar: há um triângulo com estes vértices. 

Podem ir repetindo que o 25 de abril se resumiu a um processo de abertura à democracia e não foi um uma revolução popular de cariz socialista, podem ir tentando transformar o Dia do Trabalhador em dia do colaborador, podem fingir que a Festa do Avante não causa incómodo e repetir com satisfação que "aquilo não são só comunistas". A verdade é que são cravos e bandeiras com uma cor comum contra a qual investem fazedores de opinião acossados pelos seus donos, saudosistas da outra senhora, meninos que foram ao sotão buscar a raiva dos avós salazaristas e gente que tem medo, não só do vírus mas de todas as forças e manifestações associadas a ideais de transformação da sociedade.

E foi por isso que, aprisionados nos seus lares com os seus fantasmas, depois de saberem que o número de pessoas que iam estar na Assembleia no dia 25 de abril era semelhante aos dos outros dias, não conseguiram dar a mão à palmatória e continuaram a protestar. Foi por isso que, depois de terem verificado que as manifestações do 1º de maio decorreram de forma exemplarmente organizada, respeitando as regras de distanciamento físico, não se calaram e continuaram a barafustar. Foi por isso que, a mais de três meses da Festa do Avante, sem ninguém lhes dizer em que modos e condições a mesma se poderá realizará, sem sequer fazerem ideia da evolução da pandemia e quais as regras a exigir, não hesitaram: - É vermelho, é para... (falha do teclado)!

Não os incomodou que o Balola da República fosse à arena do Campo Pequeno anunciar, entre milhares de pessoas, que o Dia de Portugal seria assinalado por oito pequenas almas; ficaram de bico calado quando o Raça de Coiso (que também é contra as três coisas) se juntou com as da sua raça numa vergonhosa manifestação; não se erguem contra as condições em que viajam diariamente para o trabalho os servos da Lisboa chique, não, nada disso surge aos seus olhos como vermelho.
Caiu-lhes a máscara!

Uma coisa é certa, sem haver festas, falou-se mais este ano em 25 de abril do que em outros anteriores; as manifestações do 1º de maio de 2020 deixam para o futuro imagens históricas, a Festa do Avante, habitualmente silenciada e ignorada pela comunicação social, nunca foi tão falada e já tem publicidade para os próximos anos.
- Atão e a Festa do Avante, pá!?