Fomos surpreendidos com a notícia de que o irmão Diamantino fora nomeado provincial dos Maristas e que, por tal motivo, iria deixar de ser nosso professor. Como uma das imagens do distinto mestre era rodar pelas mãos o pau de giz, a cana e o cigarro, decidimos oferecer-lhe uma peça de cerâmica com funções de cinzeiro e um Porto. Desembrulhada a lembrança de despedida, o felizardo sacou do maço e subiu as escadas do auditório distribuindo e acendendo um cigarro a um por um. Gesto bonito. Regressou ao estrado, acendeu o que lhe coube e deu solenidade ao momento com duas ou três palavras.
Olha se fosse hoje? Seria notícia nos telejornais, seria linchado nas redes sociais e apanharia um processo tal que nunca mais voltaria a ser nem bom nem mau professor.
Vivemos tempos melhores; será melhor assim; talvez não se poder fumar no jardim seja exagero; o sal e o tabaco fazem mal; comida saborosa e cigarros suaves sabem bem; vivemos satisfeitos por podermos fazer coisas que dantes nem pensar; morremos de saudade de não poder reviver coisas que já nem ao diabo lembram; lembrou-me a mim; também por esse gesto continuo a admirar o professor-irmão Diamantino; mudam-se os tempos e Camões não muda; já não sei se hei-de ir escrever um poema para o quarto ou hei-de ir fumar um cigarro para a varanda; cigarros amargos nunca deram bons versos; é preferível ficar a pensar na Física e na Química.

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