domingo, 16 de agosto de 2026

Mudam-se os tempos


No ano letivo 75/76, a turma começou a gostar de Física e Química, todos os alunos começaram a ter bons resultados e olhem que não era por favor, a malta aprendia mesmo. Um professor, como sempre houve muitos: carismático, sereno, inesquecível - Um Professor.

Fomos surpreendidos com a notícia de que o irmão Diamantino fora nomeado provincial dos Maristas e que, por tal motivo, iria deixar de ser nosso professor. Como uma das imagens do distinto mestre era rodar pelas mãos o pau de giz, a cana e o cigarro, decidimos oferecer-lhe uma peça de cerâmica com funções de cinzeiro e um Porto. Desembrulhada a lembrança de despedida, o felizardo sacou do maço e subiu as escadas do auditório distribuindo e acendendo um cigarro a um por um. Gesto bonito. Regressou ao estrado, acendeu o que lhe coube e deu solenidade ao momento com duas ou três palavras.

Olha se fosse hoje? Seria notícia nos telejornais, seria linchado nas redes sociais e apanharia um processo tal que nunca mais voltaria a ser nem bom nem mau professor.

Vivemos tempos melhores; será melhor assim; talvez não se poder fumar no jardim seja exagero; o sal e o tabaco fazem mal; comida saborosa e cigarros suaves sabem bem; vivemos satisfeitos por podermos fazer coisas que dantes nem pensar; morremos de saudade de não poder reviver coisas que já nem ao diabo lembram; lembrou-me a mim; também por esse gesto continuo a admirar o professor-irmão Diamantino; mudam-se os tempos e Camões não muda; já não sei se hei-de ir escrever um poema para o quarto ou hei-de ir fumar um cigarro para a varanda; cigarros amargos nunca deram bons versos; é preferível ficar a pensar na Física e na Química.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A incrível história do casal que ganhou o euromilhões.

“Sendo – quase ­– certo que nunca irá ganhar o primeiro prémio do euromilhões, viva ao menos essa experiência, lendo a incrível história dum casal que a viveu”

Eh pá! Desculpem lá aproveitar este meio para este assunto mas para um autor-menor ser lido vale tudo!

Publiquei mais um livro e quantos mais despachar melhor! 

Mensagem privada com a vossa morada. Todas as semanas vou ao correio despachar as encomendas, dão-me nove em vez de oito e recebem em casa "A incrível história do casal que ganhou o euromilhões".

Ou então na FNAC online ou na Bookmundo online, clicando nas ligações assinaladas.  

A sinopse reza assim:

"Francisca e Jacinto levam uma vida simples em Vale dos Ovos até descobrirem que ganharam o Euromilhões. A fortuna, porém, não lhes traz paz: pesa-lhes o segredo que decidem guardar para proteger a tranquilidade e evitar a cobiça alheia.

Forçados a abandonar o trabalho e a lidar com o vazio da ociosidade, veem-se obrigados a inventar desculpas para explicar o novo conforto financeiro e a construir uma teia de mentiras que, pouco a pouco, se torna o seu principal entretenimento.

No quotidiano em que se escondem, começam a questionar quem são e quem podem fingir ser. A riqueza expõe tensões, desperta consciências e mostra-lhes que o dinheiro não traz felicidade automática, mas oferece a liberdade – e a tentação – de reinventar a própria identidade.

A história transforma-se numa sátira social sobre inveja, classe e o preço absurdo de tentar viver como pobre quando se está podre de rico."




sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Emanuela 2

A poesia não gramatical, o livro sem autor, o vinho, a beata para dois, o grupo da erva, o sexo todo, o pequeno furto, ouvir Paco de Lucía e o que falava Zaratustra, vender flautas de cana na Praça 1º de maio, apanhar o autocarro para Mil Fontes. 

- Não me importo de quem tem carros, parelhas e montes!  

És cúmplice Emanuela! Afinal partilhámos os mesmos versos, a mesma ideia e o mesmo saco de cama.

Temos, portanto, de ir juntos até ao ponto de fuga da Avenida. Chegar ao fim da tarde, antes de arrumarem as mesas das esplanadas. Ainda a tempo de recordar a lista: tomar consciência de classe; tomar partido; tomar lugar; fazer a nossa parte. E depois beber o último trago na certeza, cada vez maior, que o mundo vai de mal para pior. Vencidos e invencíveis. Dependentes e independentes. Não há nada mais revolucionário do que ser tudo e o seu contrário.

Não, nunca tirámos uma selfie!



sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Sábado, o Domingo e a Autoestima

Albertino Rosa e Rosa Albertina conheceram-se por coincidências onosmáticas e daí ao enamoramento e ao casamento foi uma questão de tempo. A Rosa está desempregada. O Rosa opera numa fábrica de pastilhas.
O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.

Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.

A Autoestima é uma empresa que fabrica pastilhas para os travões das rodas dos carros que não têm travões de discos. Acontece que o governo decretou que a velocidade mínima dentro das localidades fosse reduzida para 30 km/hora; os condutores passaram a travar muito mais dentro das localidades; o consumo de pastilhas de travões teve um aumento acentuado. A produção tem de aumentar consideravelmente; tendo em consideração que não há condições para aumentar os custos com o trabalho, considera-se que os trabalhadores e/ou colaboradores têm de trabalhar e/ou colaborar mais. Mais ainda? De segunda a sexta não é possível! Que se trabalhe também ao sábado!

Todos dizem a Albertino Rosa, e Rosa Albertina concorda, que se assim não for, o mais certo é a empresa se deslocalizar e ele perder o emprego. Com um argumento destes não há Albertino nem Albertina que não seja tentado à rendição.

E é aí que Rosa pensa mais longe e põe a questão:
- Então e se se mantiver o número de atropelamentos? O governo irá decretar a velocidade mínima dentro das localidades para 10km/hora, deixaremos de poder ir à missa ao domingo pedir a Deus, unidos como Ele nos uniu,  trabalho e saúde para trabalhar.

Mas não é isso que faz pensar o Albertino, além de não ser judeu para ter que guardar o sábado, como cristão só vai à missa para satisfazer a mulher. O que o preocupa é que, com tanto consumo de pastilhas, os fabricantes de automóveis comecem a fazer só travões com discos! E pensa mais, que isto não vai parar e que mais do que lutar pelo que se tem, é preciso querer mais, como os que detêm os meios de produção.
É a luta de classes, carago!

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Às vezes é preferível não saberem o nosso nome.

Há uns anos eu frequentava uma graduação, já não me lembro em quê, e ao fim do primeiro ano a Diretora do Curso quis ouvir a opinião dos alunos acerca do modo como estavam a decorrer as atividades. Reunidos numa sala com as mesas dispostas em "O", chegou a vez de falar a moça mais verbal e despistada da turma que disse:

- Estou a adorar! Dou-me bem com todos os colegas. É um ambiente impecável! Só por isso já vale a pena andar aqui! Sei o nome de toda a gente. Só daquele colega de óculos ali é que ainda não sei o nome mas trato-o por "Amor", é um hábito meu, quando não sei o nome duma pessoa trato-a por "Amor"! 

E dito isto, apontando na direção da minha discreta figura, acrescentou:

- Mas já agora, peço desculpa, podes dizer-me o teu nome?

- Olha - também já não me lembro do nome dela - se não te importas eu prefiro que me continues a tratar por "Amor"!

E dito isto, a Diretora do Curso estoirou em ruidosas gargalhadas, no que foi seguida por todos os presentes. Não sei se riam por verem a Doutora a bandeiras despregadas se pelo motivo que a levou a desprender-se do seu estatuto. Como resultado outras colegas, por troça, brincadeira, ou por amor, também me começaram a tratar por "Amor".

Hoje, o meu filho, que teima em conservar uma postura de menino grande e não dispensa a sobremesa sempre que experimentamos um novo restaurante, viu-se assim agraciado pela mocinha que lhe pousou o gelado à frente: 

- Aqui tens, meu querido!

Olhámos em coro para a querida e, quando voltei a encontrar o olhar dele, confrontei-me com uma expressão vitoriosa à qual respondi com um ensinamento baseado na experiência:

- Sabes filho, por vezes é preferível que não saibam o nosso nome!... O gelado é doce?

- Não, pai, é querido!

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Emanuela 1


Não voltaremos às praias quentes do sul, nem voltaremos a dançar valsas no salão da associação.

Nunca mais chegaremos a casa de madrugada, procurando em todas as gavetas um cigarro vivo.

Não voltaremos a descer a avenida grande, ditando palavras de ordem, nem voltaremos a colocar-nos na frente do piquete de greve.

Os nossos corpos não tinham o direito de nos trair, mas nós não traímos os nossos filhos, como os nossos irmãos traíram os nossos pais.

Olha ó que nós chegámos, Emanuela. Se falarmos de paz à mesa de Natal, sentiremos o poder de fogo daqueles que cresceram na mesma lareira que nós. Por incrível que pareça, esta é a maior tragédia das nossas vidas: maior do que o ar de dor dos hospitais, maior do que a cruel consciência de que o fim está por detrás daquela nuvem em que nos fazemos transportar a cada dia. Afinal, nunca fomos deles, nem eles foram dos nossos.

Valha-nos termos lido o suficiente para aprender a tirar prazer da claridade, do silêncio das noites em que não dormimos, dos nossos filhos que ainda nos pedem embalo no berço. Mas o maior prazer que aprendemos juntos foi a gostar dos dias chuvosos:

- Que bom! Hoje não está nada bom para sair de casa...

Há uma parte em que sempre encontrámos o equilíbrio, nunca foste desbocada e macambúzia como eu. Sempre sorriste a toda a gente. Eu, não. Eu quero que eles se foam! 
E se um dia os vires tristes por eu morrer, a bordar elogios de crocodilo, põe o "d" onde ele falta e manda-os com as letras todas.



sábado, 4 de julho de 2026

Aguardente, aguarrás, água-pé e alcatrão

Os três quilómetros da ida eram percorridos direitinhos pela estrada de terra batida que atravessava o pinhal e levava à escola primária da vila. Mas o regresso era um tortuoso acontecimento de recreio, que deambulava por veredas de resineiros, caminhos de cabras e regatos sombrios. Demorávamos horas a chegar a casa porque não tínhamos pressa, porque o peso da sacola nos cansava, porque portas travessas se abriam e revelavam novos estímulos, porque uma discussão entre infantes era capaz de dar origem a uma briga demorada, porque éramos crianças com espaço fora do mundo dos adultos.

E, na ausência de um assunto que animasse os caminheiros, surgia sempre um líder espontâneo que recorria à receita de recurso e dava o mote à cantilena:

- Aguardente, aguardente, merda para quem vai à... frente!

Passado o suspense, o grupo inteiro voltava para trás, até que outro cantava:

- Aguarrás, aguarrás, merda para quem vai atrás!

E eram dados mais alguns passos em direção a casa, interrompidos por uma nova ordem:

- Água-pé, água-pé, merda para quem está em... pé!

E ficávamos todos espojados no chão, aguardando nova sugestão:

- Alcatrão, alcatrão, merda para quem está com os pés no... chão!

Não me recordo de outras ordens, mas é provável que outras fossem inventadas ao longo daquele caminho de pequenas passadas. O que sei é que adquirimos, nestas experiências, valiosas competências que a escola não nos dava.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pinheira

Chamam-me  poeta por eu chorar pequenas coisas e guardar luto de pequenas mortes. Mas ela não era uma árvore qualquer e deixou um vazio no meu  jardim e, assim sendo, também em mim. Após quarenta dias de exéquias, só hoje foi a enterrar, estando presentes, além do cangalheiro, eu e o meu vizinho Zé Luís. Tínhamos um projeto de fazer uma varanda no alto dos seus ramos principais para aí beber uns copos quando chegássemos à reforma.

Correu tudo mal, além da Pinheira falecer, o vinho acabou e médico assegurou-nos vamos morrer, só não sabe é quando. No dia 1 de janeiro de 2026 a pinheira deixou cair uma pinha a meu lado que me assustou. Roguei uma praga. Não durou um mês. Que vos sirva de aviso!

Dia do pai

Num 19 de Março, há muitos anos, a minha irmã ofereceu ao pai nosso um ramo de flores. Ele conformou-se com o facto de ela ter rompido com a prática anticonsumista seguida lá em casa e com preceito social de não se oferecerem flores a homens.

Durante o jantar, o acontecimento foi tema de conversa e, como nunca foi família de segredos no que toca a gastos e receitas, o preço do arranjo entornou-se na mesa como um copo de vinho. O pai nosso, surpreendido pelo valor da despesa, deixou escapar, sem ofensa:
- Por esse preço, bem que me podias ter oferecido um garrafão de tinto!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Um gesto solidário

Eu queria ser marinheiro. Depois de ter chumbado na admissão à Escola Náutica e à  Escola Naval, concorri à Marinha de Guerra. As provas foram na Base do Alfeite e, logo de manhã, fizémos análises clínicas. 

E estava eu com uma mão na coisa e outra no frasco, sem conseguir deitar pingo, quando aportou no urinol do lado um marinheiro raso e de farda encardida. Apercebendo-se que eu estava em dificuldades, atirou-me com jactância:

- Não consegues?

- ...

- Dá cá!... (Tcheeeeeee!) .... Toma lá!

 Nunca esquecerei o gesto solidário do soldado desconhecido num momento de inversa, ou perversa, aflição.

Chumbei nos testes por alegadamente ser daltónico. Explicaram-me que era um grau leve mas que, por exemplo, me poderia impedir de não distinguir ao longe se um navio era nosso ou do inimigo.

E eu que pensava que todos os barcos de guerra eram pardos e que iria ser eliminado pelos testes à urina.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A árvore mais amada

Não, não era só uma árvore grande que fazia sombra ao pequeno terraço onde acomodamos almoços, sestas e visitas. Era também a casa do casal de rolas que nos punha a cantar, uma paragem na rota do esquilo que nos visitava regularmente, um espaço de aventura para os homens de Ponte de Sor que todos os anos vinham colher as pinhas, a mãe-árvore do nosso jardim livre e selvagem. E, no entanto, nunca lhe demos nome, era apenas a Pinheira, sombra, verde e tema de tantas conversas feitas à volta de mesa onde já se comeram tantas azeitonas e se abriram ao mundo algumas garrafas.

A árvore da família, a árvore da nossa vida, uma árvore de companhia, uma árvore de estimação, uma árvore por quem se tem amor, uma árvore nascida antes de nós e que era para deixarmos aos vindouros, uma árvore de quem se chora a morte.

Espreitei a medo por entre as persianas para ver a dança do vento, via-a a abanar o  tronco, os braços e a copa e pensei para comigo: "abana mas não cai!"

Mas caiu. Nesse momento exacto, cinco e vinte da madrugada, como se algum deus quisesse desfazer as minhas certezas, tombou sobre o leito da terra firme e fria. 

Foi chorada! Apenas as lágrimas necessárias e suficientes que soltamos quando num segundo desfazemos o automóvel num acidente, vemos o velho gato morrer atropelado ou uma pessoa que amamos nos diz: acabou! 

Um dia, sete motoserras e sete bocas para um almoço no terraço, tranformaram-na em lenha para ser queimada. Agora, há que remover a enorme raiz para plantar outra no vazio que foi deixado.

Se está aqui alguém que alguma vez chorou a morte duma árvore, erga o punho.





terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Declaração de voto

Amigos que se contam pelos dedos de uma mão, por quem o telefone toca e apenas para conversas que não se têm com mais ninguém. Às vezes por coisas que ninguém liga como:

- Estou a ligar-te para saber em quem vais votar nas presidencias.

Não coincidimos no sentido de voto, mas alongámos essa reflexão para muito mais além, para outras dimensões, sem que a divergência pudesse perturbar a nossa relação intelectual e, muito menos, a da antiga amizade de convergências, cumplicidades e noites brancas. 

Entretanto, fora da regularidade esperada, a surpresa duma nova chamada:

- Ainda não fez um mês que falámos? Questões de amor ou dinheiro, não são certamente e não és daqueles que pega no telefone por toma lá-dá-cá um bom  Natal. 

- Espero que estejas bem! Estou a ligar-te para te informar que alterei a minha intenção de voto: vou votar no António Filipe!

- Até que enfim! Estava a ver que não chegavas lá!

O diálogo continuou e caiu, sem propósito, nas falas abertas pelos próximos travessões. Relatar a abordagem do assunto por escrito, pode tocar de modo desajeitado o perfil do candidato e trair uma certa forma de estar na política, mas não tenho por feitio fazer a centrifugação das ideias quando comunico pelo que, resultante do distanciamento da figura pública do António Filipe, a pergunta surgiu naturalmente fria e banal:

- Sabes que lhe morreu a mulher já depois de ser pública a sua candidatura?

- Não acredito! Ou melhor, se tu o dizes acredito! Porque não foi notícia? Se tivesse acontecido com qualquer outro candidato teria preenchido manchetes e abertura de telejornais! 

- O que deve ser motivo de reflexão é o carácter duma candidatura que não deixa espaço para que essa vivência perturbe uma campanha pessoal para um eleição! 

Na verdade, não me importa que esta crónica encerre numa contradição. A realidade foi: estive ao telefone com um amigo que me ligou para dizer que ia votar no António Filipe porque sabia que eu conhecia melhor o António Filipe do que ele. Os factos são: o António Filipe vai ter mais um voto do que eu esperava. A conclusão é: isto vai meus amigos, isto vai!



domingo, 21 de dezembro de 2025

Roubaram-nos uma refeição por dia

Quando a nossa classe trabalhava de sol a sol, tomava o café, o pequeno almoço ou nada, antes de partir para mais uma jornada. Por volta das dez, ou se ia buscar força na bucha que se levava ou o bom patrão dava o almoço para o trabalho render. A mesma conversa para o jantar do meio do dia. Foi nesta vida que sempre ouvi a minha mãe dizer "tenho de ir fazer o jantar para ires levar ao pai". À tarde era o "vamos comer a merenda" e à noite o "quando o  pai chegar a ceia já está fria". 

Mudam-se os tempos, os termos e a vida, os patrões transformaram-se em empresários, os trabalhadores colaboram e chegam ao emprego com a barriga cheia, o almoço roubou o lugar ao jantar, a  merenda é lanche rápido, "jantem à noite e esqueçam a ceia", os empresários não têm de sustentar colaboradores, dão o subsídio de refeição porque a lei obriga ou senhas de alimentação para contornar a lei.

Em conclusão roubaram-nos a ceia e, em protesto, eu não participo em qualquer jantar de Natal. Sem faca, só com garfo, o prato nos joelhos, não lhe chamo lareira, o lume é a minha televisão.

Conservador eu? Porrinha! Escrevi este texto no iPad!

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Bom Natal! Estão contentes?

- Temos de fazer o presépio!... Temos de fazer o presépio!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!... Se vem alguém a casa!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!...

- Se o queres, fá-lo tu!
- Eu vou pôr a roupa na máquina e limpar a casa de banho!...
- Podes ir às compras que eu trato disso tudo!

(E isto já foi há 8 anos. Não é hoje que vou lavar roupa suja, e há um jarro que se enche no chuveiro e que substitui o autoclismo há 8 natais.
Estamos orgulhosos: inventámos um novo conceito de presépio, em que as figuras se movimentam pela casa - e somos nós. Temos a Nossa, o São, o Menino; a vaca e o burro sou eu. Além de burro, sou também rei, anjo, estrela, algodão, frio, pastor, ovelha - sou tudo eu. E a árvore é o grande carvalho do nosso quintal, para onde mando toda a gente que me chateia a cabeça.)




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Uma ideia de prenda

O Natal dos nossos tempos cumpre-se com prendas. Quantos não vivem, nesta época, angústias por não saberem o que oferecer a determinadas pessoas? Mas que prenda é que eu vou dar a esta pessoa? Depois, o problema é que é difícil resistir à aparente inevitabilidade de ir ao centro comercial e engordar, com as nossas compras, o grande e insaciável “natal-capital”.

Por acaso, eu não tenho esses problemas. Para mim, prendas são garrafão de vinho, garrafão de azeite ou garrafão de literatura, adquiridos obrigatoriamente em mercados tradicionais ou paralelos.
O vinho e o azeite podem fazer mal à saúde; os livros, não.

Para mim, se não me oferecerem um livro, comprarem-me um ou dois já seria uma bela prenda.
Enviem-me a morada e ele vos chegará. Campanha de Natal — 10 euros a peça, incluindo portes.

Ou então compre na FNAC - online.







sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Nem todas as drogas são iguais


Toda a estratégia que países como Portugal têm seguido no combate à droga é um fracasso, porque nasce da ignorância e do preconceito, porque se apoia no desconhecimento e na arrogância, porque idealiza a vitória mas nunca o acordo, porque se dirige aos números e não às pessoas, porque privilegia a proibição e não a liberdade.

Não admira, portanto, que o Portugal da Europa dos “durões” e dos “costas” embarque nos porta-aviões com que os “guaidós” ameaçam de morte os bolivarianos, deixando para trás o direito internacional que tanto os escandaliza noutras fronteiras. O problema da droga, afinal, são os “maduros” que cavalgam os moinhos de vento de D. Quixote e o Sancho Pança que vende boliscos de burro.

Trago há muitos anos na memória esta história persa, que talvez nos ajude a pensar em não complicar o que é simples:

“Três homens intoxicados — respetivamente pelo álcool, pela heroína e pelo haxixe — chegam, durante a noite, às portas fechadas de uma cidade.
O alcoólico, tomado de raiva, grita: ‘Deitemos a porta abaixo. As nossas espadas conseguem fazê-lo sem dificuldade.’
‘Não’, responde o heroinómano. ‘Instalemo-nos aqui fora, descansamos até de manhã e logo veremos.’
O consumidor de haxixe, por sua vez, declara: ‘Que ideia mais absurda! Passemos todos pelo buraco da fechadura.’”

Não vou beber aguardente, não vou snifar, não vou fumar; quero só um copo de água. Estou cheio de sede: passei a tarde inteira a tomar banho na barragem, regressei a casa pelos cabos de energia e agora estou dentro da lâmpada da cozinha, sem conseguir sair. Alguém poderia concluir que bebi água demais, mas a verdade é que estou seco como um deserto e não sei o caminho para o interface entre a canalização elétrica e a canalização de água, para chegar ao lava-loiça e encher um copo. Vou partir a lâmpada, beber um copo de água e depois descansar — que é o que faço todos os dias. Será que ando drogado!?

Valha-me Santo Augusto Santo Silva! Tirem as mãos da Venezuela e enrolem um charro!