domingo, 30 de junho de 2019

O Pensador da esplanada do Samambaia


Quando Egídio virou urbano, assentou praça numa grande esplanada da base de um prédio médio, num bairro com pequenas moradias. Foi lá que ganhou o hábito do galão e da torrada, do café com cheiro, da imperial com tremoços e do jornal diário. A princípio a mesa era só sua mas, com o andar do tempo, das conversas triviais, do futebol, da esquerda, da direita, dos livros, dos poetas, das histórias, dos filmes, dos discos, dos espectáculos, a mesa encheu e estendeu-se a outras ao lado. Egídio fez amigos, grandes amigos que com ele na esplanada planeavam frentes de salvação nacional, negócios, sonhos mas sobretudo saídas e noitadas e, às vezes, também se estudava.

Egídio estava a crescer. O pai, agricultor, pagava-lhe a vida ali para ele ser doutor. Não poderia adivinhar ou entender que já era muito mais do que isso, um homem pensador.

Com o andar dos anos os amigos começaram a partir e a casar e Egídio começou a ficar só com o Casimiro que fazia acrobacias com a bandeja. A namorada de Casimiro ganhou caminho para o quarto arrendado do Egídio e acabaram ambos por levar um enxerto de porrada.

Para evitar Casimiro e esconder os hematomas dos outros clientes da esplanada, planearam ambos arrendar um T2 num bairro do outro lado da cidade mas Egídio, pensador, não adivinhou novos amigos nem uma esplanada como aquela em que a bandeja vazia caía umas vezes pelo falhanço de uma acrobacia outras vezes porque Casimiro gostava de chamar a atenção. Dados os factos, acabaram-se as brincadeiras e se, a Casimiro não faria mossa ter uma namorada que fumava muito, que teve um deslize e que tinha muito horror aos bois e ao campo, já o pai de Egídio, camponês, nunca suportaria mulheres que fumassem e em segunda mão. Mas mais dia, menos dia, exigiria de tanta mesada, ao menos, a ponta dum canudo!

Sem curso, sem amigos e sem namorada, Egídio voltou ao pai...
- Isto na cara?! 
- Foi um professor que me bateu!
.. e à terra demonstrando os seus conhecimentos de Coimbra. Ainda tentou a lavoura adquirindo um tractor em troca dos bois mais uns fundos cee. Ainda foi três meses professor de português. Ainda quase casou com uma professora de Francês.

Mas, com o andar dos anos, Egídio habitou-se à pequena esplanada dum café, que fica no largo grande da pequena aldeia e voltou a falar de coisas triviais, de futebol, da esquerda e da direita, de livros, de poetas, de histórias, de filmes, de discos e espectáculos e, se alguém lhe prolonga a atenção, saca dos grandes amigos do passado - alguns grandes senhores agora! - diz que vai fazer vida com uma brasileira, que vai montar "negócio de fartura", que isto vai dar fome, que o português matou a agricultura - não amanhou, agora que se amanhe!

Enfim, um pensador! 
PS: Todos nós temos uma esplanada e conhecemos um Egídio. Porque todas as vidas são grandes, só se pode falar delas em síntese, como me aconteceu agora neste texto pequeno e trivial. Hoje fui ao funeral do pai do Egídio, estive na esplanada do café da terra e diziam as bocas, que falam com espuma de cerveja, que o filho não quer é trabalhar, que tem uma grande vida e que acabará por morrer não se sabe como. - Ora! Nem eu!
Pensemos: Desde quando é que pensar não é trabalho!? Desde quando é que viver não é mais do que pensar!

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Todos menos eu


Se lá, dos microfones e alto-falantes dos media, os comentadores, do alto da sua superioridade intelectual, nos tentam convencer que a sua opinião terá de ser a nossa; 
Se lá, dos media e dos seus troninhos, os governantes, à guarda da sua pretensa legitimidade eleitoral, se acham no direito de falar por nós; 
Se lá, dos seus palanques e em nome dos seus donos, os candidatos se sentem com mandatos, antes de serem eleitos;
Declaro que não reservo aos ditos o direito de fazer a minha opinião, de falar por mim, ou de tomarem como certa a minha concordância;
Não, senhores comentadores, governantes e aspirantes a uma e outra coisa, é ridículo, abusivo e anti-democrático, repetirem:

"os portugueses desejam...
os portugueses querem...
os portugueses gostam...
os portugueses adoram...
os portugueses confiam...
os portugueses devem...
os portugueses precisam...

os portugueses percebem...
os portugueses sabem...
os portugueses estão...
os portugueses vão...
os portugueses são.. 
os portugueses assim... 
os portugueses assado!..."

não sou nenhum de vós nem considero algum,
não sou senso comum, digam, pelo menos:
- Todos os portugueses menos um...

terça-feira, 14 de maio de 2019

E quem emprestou o dinheiro ao gajo? Não tem nome?



Joe!
És o maior.
Eles não te perdoam...
Aos 19 anos, percebeste que ser trolha não dava nada e foste da Madeira para a África do Sul, para te juntares aos teus 2 irmãos mais velhos, que tinham umas cantinas nos bairros pobres do Cabo, onde vendiam enlatados, sumos e bananas madeirenses, à população negra.
Levavas as calças rotas no cu.
Fizeste o mesmo percurso que fizeram outros milhares de madeirenses: 
África do Sul, Venezuela e Américas.
Por lá “labutaste” quase 40 anos.
Das cantinas, “dizem” que passaste para os “diamantes”, num tempo em que “eles” se “transacionavam” de todas as maneiras, a todas as horas e por todo o lado… 
Há uma dúzia de anos, aportaste à capital do império. 
Escorriam-te dólares e diamantes dos bolsos.
Falavas um português mascavado e provocavas apenas gargalhadas. 😀
Mas eles não sabiam que o último a rir, é aquele que ri melhor.
Desataste a ”comprar” tudo:
Vinhas, jornais e pinturas.
Impingiam-te serigrafias e gravuras e garantiam-te, serem raras “obras de arte”. 😂
Ofereceste os teus vinhos de marca, a políticos, jornalistas, pintores e administradores de bancos...
Embriaguês coletiva.
Tinhas que “construir” uma imagem. Aconselharam-te a “comprar” umas entrevistas, em jornais de “referência”. 
Assim o fizeste.
O Expresso e o Público prestaram-se à “coisa”.
A jornalista encartada perguntou-te:
“Senhor comendador 😂 onde é que arranjou tanto dinheiro?”
Respondeste:
Oh baby, sabes, um dia a minister dos diamantes da África do Sul, mandou-me chamar e disse-me:
Oh Joe, my friend,
tenho umas minas de diamantes abandonadas, tu não “quereres” tomar conta daquilo? 
Eu “querer” e fiz aí a money, much money.... 🙄
Em Portugal leram esta “coisa” e o país inteiro, em vez de se rebolar no chão a rir, dividiu-se em 2. 
Os néscios, acreditaram. 
Os “outros” fingiram acreditar. 
Nos teus bolsos brilhavam diamantes… 💎
E continuaste a ”comprar”:
Quintas, bacalhaus, bacalhoas, consciências, silêncios, budas e ações. De Azeitão ao Bombabarral, ninguém te levava a mal...
Joe, you are a best, more best 
E quando “nomeaste” o teu “advogado” minister, houve alguns que perceberam, que o teu money pagara a campanha eleitoral do Sócras e outras...
E que a “coleção” que te impingiram, que pouco vale, havia de ser avaliada em 400 milhões e te haviam de oferecer o CCB.
De mão beijada
Yes, minister...
o céu era o teu limite...🎆
Money, much money...
Joe, tu és muito à frente.
Fizeram-te comendador 
“three times”.
Tu agradeceste à Minister:
Oh baby! Thanks...
Ela riu-se muito...🌝
Com o teu minister no bolso e o 1° minister no colo, iniciaste o teu reinado.
Tu não “tinhas” nada, “tinhas” apenas o grande talento de fingir que “tinhas”.
O Alves dos Reis ao pé de ti era um amador...
Desataste a pedir 1000 milhões ao erário público, CGD, para comprares one bank… 
Nem aí a malta percebeu.
Ontem, na AR, quando te riste à gargalhada, eles finalmente perceberam que quem ri por fim, é quem ri melhor...😀
Agora é tarde, muito tarde...
Joe, my frend, tu és um show men. Ainda está para nascer, quem te faça o ninho atrás da orelha.
Só te falta a estátua. 
Ainda guardas as calças rotas no cu, com que foste para a África do Sul?
Não te rias...😊
I like Your smile .
Money...Very money...


domingo, 12 de maio de 2019

EU?



Um pouco mais de europa – e somos nada,
Um pouco mais de espanha – e mais ninguém.
Para atingir, votámos na pior cambada...
Se ao menos soubéssemos votar bem... 

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Pegar ou largar? Em vão... Tudo é uma cota
Numa grande europa virada a outros mundos; 
E o grande país perdido em fundos,
O grande país - ó mar! - quase europa... 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o progresso, quase a porta e a panaceia, 
Quase o princípio e o fim - quase a salvação... 
Mas no meu país tudo se remedeia... 
Entanto tudo não passou duma ilusão! 

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve marca UE ... e tudo aproveitou... 
- Ai o desejo de ser - quase, igual aos alemães...
Nós falhámos entre nós, falhámos por vinténs,
Terra que não parou mas não avançou... 

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Anos de esperança que desbaratámos... 
Cidadanias que sonhámos alcançar... 
Direitos que perdemos sem os experimentar...
Tratados que nos trataram e não votámos...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Desse continente, encontro só imagens... 
Terras do interior – vejo-as defraudadas; 
E carteiras de políticos, sujas, recheadas, 
Passou o argumento de que eram só vantagens... 

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Numa esperança imberbe acreditando em tanto, 
Tudo construímos sem pensar pra quê... 
Hoje, resta-nos o betão do desencanto 
Das coisas que de tão grandes ninguém vê... 

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Listas de candidatos avançam sobre mim a fustigar-me
em luz.
Todo confuso, quero escolher... Onde votar-me? 
Um boletim para uma cruz
Que me leve, e eu escolho ficar...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Não é necessário lembrarem-me que não chego aos calcanhares de Mário de Sá Carneiro!
E eu quero por força ser burro...Que a um porco nada se recusa!!

sábado, 4 de maio de 2019

A colossal mentira dos 600 milhões

Uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser aceite como verdade. Estou assustado porque quase ninguém a desmente. Registo ESTA exceção.


Contas do governo:

600 milhões / 100 000 professores / 14 meses = 428 euros de aumento mensal, em média, para cada professor.

Desmontemos a mentira com cálculos simples: não chegam a 100 mil os professores na carreira; a diferença média líquida entre escalões não chega aos 100 euros; a parte ilíquida retorna na prática aos cofres do Estado; a parte líquida, transformada em consumo ou em depósitos, também terá uma parcela convertida em impostos; os professores do 1º escalão e do 2º não terão todo o tempo para recuperar; existem milhares de docentes travados no 4º e no 6º escalão;  milhares de professores serão aposentados sem usufruir da recontagem porque o "tempo e o modo" é para "arrastar" por alguns anos...
Sem dados técnicos que nos permitam avaliar o valor destas variáveis atenuantes, que será significativo, não os tenhamos em conta. Tomando como referência a progressão máxima que poderá estar em causa e que só tocará a alguns, a subida de dois escalões, façamos um cálculo, acessível a qualquer leigo:

2 escalões x 100 euros x 14 meses x 100000 professores = 280 milhões

Mas atenção, não foi aprovado "o tempo e o modo", isto é, não se compreende onde é  que a lei quer chegar, não se percebem os tons vitoriosos dos representantes da classe, a birra do governo é uma encenação.

Sabe-se uma coisa e essa não se pode admitir: são mentirosos!

Por isso, Senhor António Costa, da minha parte, pode até substituir o Brandão pela Maria de Lurdes: ACABOU!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Dia do colaborador


Então ó santos silva limpopó, não arranjaste nenhum guaidó prá china?

Por vezes a hipocrisia vai mesmo longe: o que vêem estes senhores na democracia chinesa que não conseguem ver na venezuelana?

Sinónimos de "santos silva": revolucionário de ocasião, chuchalista, filho da puta, colaborador.

Colaboradores o carvalho! Trabalhadores! Caralh.!

(alternativa na informação: https://www.youtube.com/watch?v=BRPtKbFVF_8&feature=share)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de abril - precisa-se



Ano após ano, abril vai-se-nos sumindo por entre documentários, testemunhos e comemorações; vai-se-nos sumindo por entre as leis, o poder e os governantes; vai-se-nos sumindo por entre os papéis, as máquinas e as portas dos locais de emprego; vai-se-nos sumindo nas escolas, nas repartições e nas ruas; vai-se-nos sumindo entre os dedos – o 25 de abril não é para guardar entre mãos, é para agarrar! Está escorregadio?! Untemos as mãos com as areias que nos atiram para os olhos! Dói? Não tivéssemos permitido que o untassem com manteiga!

Todos cantam o Grândola, é uma vergonha! A televisão, pela espuma dos lábios dos netos bastardos de Salazar, reescreve a história e reinventa os heróis; qualquer indício duma ventosidade duma quadrilha de fascistas é imediatamente e mediaticamente espalhada aos quatro ventos; o menino querido do último ditador é omnipresente e presidente; o governo é uma filial de Bruxelas; a moeda é alemã; a soberania vai-se-nos sumindo entre os dedos - este não é povo unido nem de abril, não dá graças aos anjos nem aos soldados! O nosso anjo da guarda é o FMI!

Só festejarei o 25 de abril com outro 25 de Abril, tudo o resto ou é fachada ou é saudade.

domingo, 21 de abril de 2019

Vamo lá?

Hoje, como todos os domingos, acordei com a voz da tratorinha do Tó Zé:
Tram!Tam!Tam!Tam! Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!
...não tem o chiar das rodas dos carros de bois de antigamente mas tem mais melodia que o zunir dos carros transpondo o viaduto;
Tram!Tam!Tam!Tam! Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!
...não lembra o “pouca-terra” dos comboios de outrora mas tem a muita vida que o Tó Zé transporta:

mudar umas forquilhadas de estrume para o talho de baixo;
Tram!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...

- É assim a vida do home pobre!
... trazer uma paveia de mato para o ganau
Tram!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam! Tam!Tam!Tam!Brum!!!...

- A vida está é para os empregados do estado!
... ir à vinha pôr líquido e queimar vides
Tram!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...

- Vamo lá?!... Ele tem que se beber senão tem de se entornar!...
uma macheia de pasto prás ovelhas

Tram!Tam!Tam!Tam!Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...

- A minha vontade é matar o gado todo! ...
ir buscar farinha ao Zé do Vale

Tram!Tam!Tam!Tam! Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...

- Amanhã vai-me nascer um bonito borrego! … 
Vamo lá!...

(e eu contente de viver no campo e de ouvir e ver passar o dia inteiro a tratorinha, o cumprimento das palavras do Tó Zé / não ouço no sacho as cantadeiras nem provo a bucha sob o carvalho velho mas ouço "Brrum!Tam!Tam!", o Tó Zé pensando e, “vamo lá”!

Tram!Tam!Tam!Tam!Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...
ai ai ai o campo e este canto do céu que tenho na Terra, aqui /
gostava de não ser empregado, não ter carro e ter uma tratorinha e também a vontade de mudar o mundo do Tó Zé)

Tram!Tam!Tam!Tam! Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...
- A minha vontade é matar o gado todo, plantar eucaliptos e deitar-me à sombra!
… Tem boa cor não tem?!
... Não levou nada!
... Ele tem de se beber senão entorno-o!
... É o segundo hoje!... 
... É quase noite!... 
... Um caldo e não tardo lá, em cima dela, que amanhã tenho que galgar às seis da matina!

a voz da tratorinha sabe bem
Tram!Tam!Tam!Tam!Tram!Tam!Tam!Tam!Tam! Brum!!!...


e depois, durante o último, este pormenor da parede da adega do Tó Zé / não há anos nem calendários que vençam esta vontade de viver / viva a vida!

sábado, 20 de abril de 2019

Primeiro de maio


Estou muito baralhado com o calendário católico desde que ousaram fazer-me trabalhar no dia de Todos os Santos. Vão vender natais, páscoas, trezes de maio e dia dos defuntos para o raio que vos parta! Eu vou mas é ao futebol!

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Santa sexta-feira

Ressuscitarei

Sexta-feira Santa. O que contam para mim estas datas do calendário católico? - Contam!

Não tenho segredos no que toca à minha relação com Deus!
- Deus?! Oh Deus! Que Fé a minha! Estamos cá, é Páscoa!

Não sei se acredito no Deus dos Judeus, ou noutro, mas uma coisa que não sou é "católico não praticante"! Quando muito sou "culturalmente católico". De outra forma não estaria aqui a recorrer a imagens para assinalar este tempo. Não me vou esticar mais, a minha vida pessoal, o ponto em que estão as minhas batatas, a minha triste conta bancária, não são para aqui chamados!
Sou pacato, tenho sido um livro aberto revelando as páginas esborratadas, amarrotadas, dobradas, sublinhadas, enfim, abertas.

E, nesta parte, como tenho pecado um pouco pela ingenuidade, direi apenas, respeito! Respeito tanto, que me limito às imagens.

Esta imagem é uma repostagem - repostagem, palavra nova! - talvez a imagem seja suficientemente expressiva para revelar a minha relação com a Páscoa.
E se não revelar? O que é que isso importa?
O tempo da semana que mais gostamos é sexta-feira à noite! Santa sexta-feira!

terça-feira, 16 de abril de 2019

Feios, porcos e maus



Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva
Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Filha da puta da máquina


Os senhores podem portajar,
as estradas, os túneis e as pontes,
as fontes, os rios e as praias, 
os campos, as manadas e os estrumeiros,
as saias da vossa mãe e o cu dos vossos santos tios.

Podem portajar também senhores,
os castelos, os palácios e os museus
as igrejas, os túmulos e os mausoléus, 
os hospícios, os hospitais e os parques,
as hortas, os tomates e os céus.

Ponham portagens em todos os carreiros,
nas "ás", nas "bês" e nas "icês", 
para vespas, cavalos e ovelhas.
Mas não me acabem com os portageiros, 
nem me ponham chips nas orelhas.

É que eu gosto da oralidade de dizer e ouvir "bom dia" durante a viagem
e, só para isso, vale a pena encontrar uma portagem.

E hoje aconteceu-me isto:
Fui surpreendido com uma máquina no lugar onde, ainda há pouco tempo, estava uma pessoa de carne e osso que me falava. E não é que a puta da máquina começou também a falar comigo: enfie o título... meta o cartão... cartão mal introduzido... e eu às aranhas com a bicha que estava atrás de mim...
Estava eu quase para sair do carro a desapertar as calças e a perguntar ameaçador:
- Queres que te enfie, te meta e te introduza o quê?!
E eis senão quando se abre a cancela enquanto a puta da máquina, já saciada, diz:
- Pagamento efectuado, obrigado e boa viagem!
- E tu vai à merda!...
A puta da máquina até pode ser muito educada mas se fosse o portageiro ter-me-ia respondido.
E perguntam vocês porque não saí de calças na mão:
- Por causa da bicha que estava atrás! Sabem como são as bichas!...

domingo, 7 de abril de 2019

Eles que regressem!

Cinco quartos, quatro quartos de banho, três salas, duas cozinhas, uma churrasqueira, varandas, muros e mais janelas – grande como os sonhos. Ao lado, uma casa de duas águas cujo alçado principal deixa adivinhar o interior. Frente a uma das duas janelas, num banco de pau marcado por estios e invernos, está sentado um homem, marcado pela idade, com a mesma vontade de falar que outros homens e mulheres da sua idade que sentam em lugares idênticos.

-  Naqueles anos ele tirava mais de duzentos contos por mês nas obras. Comprou um carro novo e pensou em fazer a casa para ver se arranjava mulher. Depois a coisa virou para o torto e teve de ir, os bancos não perdoam! ...

Conheço bem ambos. Do pai, foi minha mãe que me falou em tempos, quando na idade das perguntas a interroguei sobre a alcunha do Mato Grosso. Foi para o Brasil novinho e sozinho e voltou três anos depois tísico e teso que nem um carapau. Não o quiseram para a tropa e os pais arranjaram-lhe uma alcofa que o veio a safar.
Ela tinha muitas vinhas mas também bebia muito vinho, por isso e por casar com ele ficou-lhe a matar o nome de Grossa. Foi-se cedo e deixou o viúvo atado com o cachopo que, talvez pela vida e morte da mãe, demorou a tomar corpo e a falar direito. Na escola chamávamos-lhe o Tó Espinhas.

Quando saí do carro para cumprimentar o Ti Mato Grosso ele estava a pensar no filho. Imaginava-o a marinheiro num porto de Luxemburgo; imaginava-o num país tão grande como o Brasil a julgar pela gente da terra que para lá está; imaginava-o a arranhar no francês e a arranjar mulher; via-o a regressar contente num valente carro e com a situação resolvida; via-o a regressar de mãos a abanar como ele próprio regressou do Brasil; via-o sempre e era dele que gostava sempre de falar.

- Tu é que estás bem na vida! Quando ele andava contigo na escola, eu dizia-lhe sempre “estuda como o João! junta-te com o João! olha para o João!” … não quis e agora olha! Só gostava que ele cá estivesse quando eu morrer!...

- As coisas não são bem assim Ti Mato Grosso! Sabe que também eu tive muita vontade de emigrar!
Mas fiquei sempre muito agarrado ao meu país!

- Pois é isso que eu não espero dele! Que não se agarre por lá! Que volte! Parece que agora o governo até lhes vai pagar se regressarem! Que puta de políticos os nossos, vem um e diz vão, vão que isto não dá para todos! Outro dia vem outro e diz, venham, venham que são cá precisos! Vá lá a gente entender esta gente!....

sábado, 6 de abril de 2019

Manifesto das coisas


do baú

 A Humanidade, os povos, as sociedades, de vez em quando dão uns tombos, mudam as agulhas das vias e a vida, a História, como que recuam para tomar balanço. Estamos em tempos de voltar atrás mas poucos querem  ver definido o rumo revolucionário do curso do progresso.

Faz parte da essência das coisas da vida em sociedade, os povos fazerem destas coisas: mudar a vida dos centros das cidades para os centros comerciais; dar três caminhos aos filhos: ou doutor ou programador ou cristiano; escolher para governo os mais espertos em comunicação; trocar a música dos artistas pelo catapum electrónico; ver novelas brasileiras e filmes americanos e deixar de ler; jogar consola e não saber o que é um pião – mas tudo bem, todo o mundo é composto de mudança, as coisas retomarão o reequilíbrio!

As coisas mudam também um pouco através de movimentos cívicos, de palavras ou mensagens de homens de palco ou de tribuna, de revoluções românticas ou armadas! Mas a história tem-nos dito que, apesar de nada ficar como antes, tudo acaba por ser sol de pouca dura. Por outro lado, está vazio, um certo espaço, deixado pela religião e outras utopias.

Estes tempos de cultura da crise, do culto financeiro, do não há alternativa ao capitalismo, poderiam servir para retomarmos o equilibro, para incentivar novos processos revolucionários mas parece que perdemos a consciência da necessidade duma vontade coletiva que dê justiça ao nosso destino comum.

O Homem inventou a roda e a religião, inventou a máquina a vapor e a cidadania, inventou o transístor e a democracia mas inventou também a web e a escola.

A web é aqui, na escola está a solução. Os professores, por condição, têm a faca e o queijo na mão. Espera-se que sejam os professores uma das classes mais bem informadas e com maior consciência do que se passa à sua volta, espera-se que sejam os professores aqueles que mais devem questionar os decisores e, ao mesmo tempo, aqueles que melhor podem ensinar os mais novos a pensar. Num tempo em que deliberadamente são acossados na sua dignidade pela face mais vil dos poderosos, espera-se que reajam: a revolução está nas suas mãos. O seu dever, não é servir o poder, é servir um futuro comum mais justo e mais fraterno. Estamos a viver uma oportunidade única – há crises que vêm por bem!