terça-feira, 5 de outubro de 2021

Viva a República!


Vive cá em casa uma republicana que faz anos a 5 de outubro e essa é uma das razões porque sempre me deu um jeito do caraças este feriado - à falta de ideias, a prenda de almoçar fora, funciona sempre. Chateia-me aquela obrigatoriedad
e burguesa de ter de oferecer prendas em função do calendário católico: porque é natal, porque é dia da mãe, porque é dia do pai, porque é dia dos namorados, porque faz anos, porque faz anos que, qualquer dia serve de pretexto para responder à fúria consumista que alimenta a goela insaciável dos santos soares e azevedos belmiros.
 
- Se eu for à feira ou ao monte e reconhecer uma lingerie ou uma papoila do teu agrado, com certeza que te farei um presente mas não me peças palha por dá cá aquele dia!

Troça de mim perante todos os amigos porque a primeira prenda que lhe dei foi um baralho de cartas! Mas não conta que o “burro em pé” queimava os intervalos dos domingos e serões em que os beijos eram tantos, que uma cartada ajudava a retomar fôlegos!

Pronto, hoje vou dar-lhe uma prenda, já sei qual é, uma solução fácil e que funciona sempre: aquela coisa que nós oferecemos aos sobrinhos que já têm tudo!
 
Além de querer acrescentar que tenho saudades do escudo, era só isto que eu queria dizer sobre a república.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Não, não são todos iguais nem dizem todos a mesma coisa!

 


A malta estava naquela idade do "não é nem deixa de ser", em que o maior divertimento da festa deixara de ser apanhar as canas dos foguetes e em que já se podia desempenhar a tarefa de andar a colar os cartazes do programa da Festa da Nossa Senhora lá da terra.

A nossa energia e habilidade deve ter sido reconhecida por um filho de gente bem parecida lá da terra, estudante em Lisboa, que nos deu uns trocos para que colássemos, pelas paredes lá da terra, uns cartazes dum movimento revolucionário do proletariado cujo símbolo tinha uma foice e, se não me falha a memória, um martelo.

E nós, já noite feita como nos tinha sido recomendado, cumprimos a missão com o mesmo entusiasmo e com a mesma inocência com que tínhamos colado os cartazes da Festa da Nossa Senhora, apenas com a pequeníssima diferença de que agora não era Deus que nos pagava mas um rapaz filho de gente bem parecida.

Durante o caminho de regresso do trabalho ficámos surpreendidos porque todos os cartazes tinham voado - vento não estava e era boa a cola, de modo que ali teria havido mão do diabo.

Na noite seguinte, o gadelhudo mal parecido filho de gente bem parecida, veio ter connosco, espetou-nos uma carga de porrada e espetou-nos na mão mais uma carga de cartazes para que desta lhe fizéssemos a encomenda e que se não a fizéssemos levávamos mais.


E quando íamos a meio da penitência, surge-nos um outro filho de gente bem parecida lá da terra, reconhecido militante dum partido, cujo símbolo tinha, se não me falha a memória, umas setas e espeta-nos uma carga de porrada.


Vi há pouco o cartaz dum bando de candidatos, cujo símbolo agora também não interessa nada, e distingui entre os figurões, ombro a ombro e em versão envelhecida, a cara de ambos os agressores desta história.

A conclusão do Zé será a de dizer que são todos iguais. Felizmente a minha não é essa. O episódio da minha adolescência, aqui narrado, levou-me a tomar opções que me permitem afirmar alto e claro: não sou igual aos outros nem aos que dizem que são todos iguais e depois...

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O candidato que não quis ser figurão


Nunca se vira noutra. O homem nunca fora daqueles que se tinha a si próprio como o melhor de todos, nunca tivera ambições de exercer poder, era incapaz de em alguma circunstância se dirigir a uma assembleia eleitoral e dizer "escolham-me a mim!".
Contudo, entenderam os pares que, naquela circunstância, ele era o melhor para derrubar, democraticamente, o poder que punha em perigo a democracia e elegeram-no cabeça de lista.

Nunca se vira noutra. O homem teve três acidentes em três dias, em três rotundas diferentes, o último dos quais com alguma gravidade, porque se desonrientou ao deparar-se com a sua própria imagem no outdoor
Quando se teve de sujeitar às centenas de flashes do fotógrafo, aguentou. Quando soube do preço da campanha, aguentou. Quando lhe pareceu que a frase de campanha surpreendia tanto como o nome de qualquer telenovela, aguentou. Aguentaria tudo imbuído de espírito de missão. Nunca pensou é que o facto de se deparar com a sua própria imagem em cartaz, perturbasse o seu equilíbrio emocional a ponto de o atirar para a cama do hospital. 

Segundo o psiquiatra hospitalar, não foi tanto o impacto do "efeito espelho" que o atormentou mas mais a circunstância de se ver lado a lado com os adversários que abomina, estivessem eles sós de meio corpo, aos pares de corpo inteiro, ao monte, em bando ou em matilha, sobre fundos verdes, azuis ou branco sujo, com frases ocas, vazias ou que nada dizem. Sentiu-se igual a eles, sentiu-se um deles e, mais grave ainda, deixou de reparar na moça de biquini que faz jus ao protetor solar melhor de todos.

Assim sendo, caso a força política em causa o queira manter como cabeça de cartaz, dadas as circunstâncias, terá de retirar todos os outdoors, colocar a juventude a colar cartazes nas paredes e a pintar murais, substituir as frases curtas por frases longas e contar apenas com o candidato para apresentar o projeto coletivo.

É claro que nestas circunstâncias é mais difícil ganhar mas também é verdade que não será tão fácil perder a face ou a cabeça, em sentido figurado ou num acidente.  

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Dias de festa

 Nós cá em casa gostamos muito de receber amigos de outras terras e dos fazer observar o valor do trabalho de ferro do candelabro da nossa sala de jantar, a vista única do nosso terraço ou as respostas pavlovianas do nosso cão, o Faro. É normal as visitas acabarem com serenas discussões sobre a questão afegã, a castidade ou a cantar o Cantar de Emigração ou então, simplesmente a abrir garrafas para apreciar o design das impressões das rolhas de cortiça. Não somos muito de os levar às voltas da vila medieval, da paisagem rural da Serra d' Aire ou da garganta funda do Nabão. 

Desta vez, o amigo, solteirão por opção, na conversa da religião, confessou com frouxo orgulho o facto de nunca ter ido a Fátima. Espanto nosso. Credo! Então?

- Não sou muito de religiões!

- E então?

Meia volta e lá fomos à volta. A arquitetura da nova basílica, a expressão dos crentes ajoelhados na capelinha, o poder do silêncio, as casas dos pastorinhos nos Valinhos, o negócio da bonecada, o altar húngaro, símbolo maior dos meandros políticos da mensagem e, no final, um "valeu a pena, gostei, se bem que não seja muito diferente do que já vi em televisão".

De novo na mesa do terraço e em nova conversa:

- Nunca fui à Festa do Avante! 

- Outra? Olha-me esta! Não acredito!

- Sabes, não quero nada com política!

Por regra nossa, quando nos deparamos com um adulto que nunca foi à Festa do Avante, tem de se analisar o caso. E  este, não seria por estar imerso no anticomunismo mais primário, por comodismo de sofá, por não gostar de boa música ou de outras artes, dos pratos portugueses ou de fobia de ter de recorrer a sanitários públicos com fila. Ainda mais não tinha sido daqueles que, há um ano atrás, fora na onda de estrear o seu perfil de facebook na coisa política, atacando com piadas pouco inteligentes a realização da festa com regras excecionais.

Milagre? Não diria tanto mas, três horas depois, estávamos os dois em plena quinta.

Espaço aqui, concerto acolá, copo daqui, petisco dali, cena bonita ali atrás, pessoas felizes ali à frente, por todo o lado gente, em toda a parte festa.

- Nunca pensei que fosse assim! Não percebo porque é que a televisão não mostra estas partes! Agora eu percebo aquela frase do "não há festa como esta". Pró ano cá estaremos! 

A alegria espelhada nas fotos do Egídio Santos não deverá incomodar ninguém, antes deverá fazer compreender a gratidão do meu amigo por eu o ter levado onde nunca tinha ido.



quinta-feira, 15 de julho de 2021

Parábola para quem não entende o que é um boicote



Porque sempre fora assim, por temor, devoção, ou desejo perverso de ser dominada, aquela família, proprietária das fazendas mais férteis da ribeira, era das que mais contribuía para a fartura da abadia. Era, diz-se bem, porque quando Simão tomou o lugar de seu pai, nem mais um serviço, moeda, alqueire, almude ou oração, saiu daquela casa para os rabos ou barrigas da igreja.
Claro que, juntamente com os seus, teve rapidamente a resposta esperada: hereges, danados,  almas do diabo, cacodoxos, malditos e outros nomes mais, além de ostracizados, amaldiçoados e devidamente excomungados.

Em conformidade com "os livros dos livros" das orações e regras dos mitras, seria justo, respeito pela fé de cada um, pelo direito que cada um tem ao que é seu, à sua vida e sua opinião mas não: clamado, pregado e com sentença, dito e redito dos púlpitos e altares, que nenhum freguês poderia comprar trigo daquelas terras, ai de alguém que lhes vendesse um grão de arroz, que ficasse mudo quem dirigisse aceno ou palavra aquela gente. Exceção se faria, apoio e acolhimento, a alguém da prole que confessasse arrependimento ou vontade de matar o patriarca.

Perante o afrontamento, a família de Simão reagiu unida e com orgulho, com o seu suor, a sua vontade, a sua razão, foi resistindo ao monstruoso poder que emanava das naves clericais. Não sem que a certa altura se começasse a notar que alguns rabos da família já não enchiam as calças, que algumas crianças traziam o pipi e pirilau ao léu, que com tamanha força não se notasse algum desânimo, que alguns sobrinhos mais manhosos não começassem a mexer os cordelinhos das ceroulas do abade e a denunciar  insatisfação.

Nas homilias já se podia demonstrar: vejam o que acontece a quem não obedece a Deus, vejam como estão sozinhos os que não ouvem os santos, vejam a miséria a que chega quem não traz pão nem vinho à igreja, morrem de fome os que não reconhecem a autoridade dos pastores do rebanho. Vós cristãos tendes o dever de dar a esmola a essa gente, convertei pela caridade os mais famintos, mostrai-lhes como são grandes as obras que andamos a fazer para elevar a torre e dotá-la de mais sinos.
Simão e os seus mandavam à merda estas oferendas e iam aguentando dizendo, a quem os pudesse ouvir, que tinham esperança que outras famílias boas a eles se juntassem contra os poderosos e pelo direito a não ter religião.

E como tais declarações, embora silenciadas nas assembleias, chegassem à sacristia, de imediato se fez um levantamento das famílias menos católicas e se decidiu intervir junto das mesmas, para que não tomassem o mesmo caminho e, a bem ou a mal, seguissem as orientações da santa madre igreja, trabalhassem muito, contribuíssem com oferendas, cultivassem a pobreza e a castidade ...
- Ai isso é que não! - disse o benjamim de Simão.

(dedicado aos povos que, hoje mesmo, resistem às ofensivas do imperialismo)

domingo, 11 de julho de 2021

Não compreendo a praia

Eu tive oito tetravós, posso adivinhar que algumas teriam o nome de Maria mas não faço ideia do sítio onde nasceram ou morreram. Terão sido, porventura, contemporâneas de Karl Marx e, como cristãs, se lhes tivessem explicado bem,  acreditariam que um dia seria possível o comunismo. Não lhes custaria acreditar também que, pelas máquinas que se começavam a inventar, mais século, menos século, os homens iam conseguir andar de balão ou passarola. Apesar duma história de muitos trambolhões, hoje os aviões cruzam os céus quase com o mesmo à vontade da passarada e, mais século, menos século, depois de muitos trambolhões, vai acabar por ser possível encontrar o caminho da utopia duma sociedade sem exploradores nem explorados.

Se, por uma concretização do impossível, elas pudessem agora voltar à luz do mundo, obviamente que estariam sem fechar a boca dias seguidos, que ficariam espantadas com o admirável mundo novo das tecnologias, que dariam pouca importância ao facto de ainda existirem muitos pobres a servirem homens muito ricos e iriam, com certeza, experimentar um passeio de avião. 

E então, bastaria sobrevoarem a costa portuguesa de Caminha a Vila Real de Santo António, no mês de agosto, para gritarem lá dos céus: 

- Ai meu rico Santo António! Mas o que fazem estas multidões ali na areia? Que faina é a deles? Uns quais lagartos apanhando sol, outros feitos ao mar sem rede nem linha! Meu Deus! Estão quase como Deus os trouxe ao mundo! Eu compreendo todas as transformações que aconteceram! Mas isto? O que é isto? 

No fim de escrever isto sinto-me mais aliviado, as minhas tetravós iriam compreender porque não me sinto bem na praia. Fazer praia, não é a minha praia. E quase que consigo ouvir a voz da minha tetravó Maria Qualquer Coisa a perguntar-me:

- Tetraneto João, credo! Fazer praia? Que é isso fazer praia? Para que é que isso serve?



quinta-feira, 8 de julho de 2021

Vejam isto por favor

"Vejam isto por favor!", "Vale a pena ler!", "Fulano arrasa sicrano!", "Toda a verdade num minuto!". Estou farto destes títulos típicos das redes sociais, embora nunca chegue a ir ler o conteúdo. 

Pobres daqueles que baseiam as suas verdades nas manchetes do Correio da Manhã, nos clips de José Gomes Ferreira (não confundir: o pequeno!), Camilo Lourenço, Paulo Morais, André Ventura, Miguel Sousa Tavares e outro tantos pequenos de quem nem sequer retenho o nome. Arrasam sempre mas é a canelada. Tanto podem agir pelo seu ego, como apenas obedecer à voz do dono; conseguem apresentar-se como especialistas em tudo, tudólogos, mas em particular, não sabem nada; experimentaram todas as drogas mas nunca provaram um palhete; já foram vistos nos melhores restaurantes mas nunca viram a mesa duma família operária; são muito viajados mas nunca os vi na minha aldeia;  apenas pensam pela própria cabeça porque acreditam apenas neles; rejeitam as ideologias mas têm bandeiras; dizem eles que não são de direita nem de esquerda; são tão perigosos como o ódio que exploram; eles não vão mudar, não podemos deixar que mudem os outros; chega!

 

sábado, 3 de julho de 2021

Do amor e do trabalho

Só mais um verso! Pedi-te eu depois de apagares o candeeiro. E adormeceste. Soube mais tarde que te dedicaste a uma carreira. É assim, quem foge do amor tem de se esconder atrás do trabalhinho, quem o procura tem de dedicar-se à noite e ao excesso. 
Foi nessa entrega que encontrei os versos que faltavam ao poema. Foi duro, tive de cantar muitas cantigas:
- Ai eu coitado, como sou um desgraçado!
- Ai eu contente, como sou o diferente!
E nada! Até que um dia...

Ganhei-te. Nenhum lugar de topo ou fama pública que façam os outros dizer "venceu na vida!", vale tanto como a poesia que se fecha num círculo duma lareira ou numa mangueira que chega a todas as árvores dum quintal. Nunca dei nada por quem muito trabalha. Dou mais para o lado de quem colhe amoras e, quando muito, trata a seara e a vinha apenas com o fim de saborear os seus frutos.

Dos versos seguintes, dos versos que faltavam não te falo. Era o que faltava!...

domingo, 2 de maio de 2021

Dia das Mães

Retreating MemoriesArshile Gorky (Armenia United States),
The Artist and His Mother, ca 1926-1936~
O leito, a derradeira doença, a história da nascença pobre, a orfandade completada aos nove anos, o andar descalço, a bicha do pão, a sardinha para três, o ser criada, as desfolhadas, a azeitona, a resina, o sacho, as cantigas, as desgarradas, os bailes, a pobreza, a alegria e... o leito final...
- Sabes João, a gente era pobre mas parece-me que éramos mais felizes que vocês! Vocês vêm aqui todos asseados, de carro, os meninos tão espertos, mas a vossa expressão é insaciável, eu não sei o que é que vocês veem nos ricos para quererem ser como eles!

Veio aqui a doutora de letras - nem o bacio estava arrumado - vê lá tu que querem umas poesias minhas para um livro que a Junta quer fazer com uns poetas da terra! A professora José, a dona José, o padre José, o doutor José, o José da Venda fazem parte do rol. Tira aí da gaveta do guarda vestidos um bloco de cartas e vê se há para aí rimas que sirvam para livro!

A casa não era casa de segredos para o rol de filhos, o sítio do dinheiro, o dinheiro que havia, os papéis importantes, os papéis de memórias eram assuntos de todos. Não sabia da existência daquele manuscrito, ela teria arrancado da memória os versos idos e, na convalescença, cravou-os no papel com a suas grafias de terceira classe de instrução. Ao filho tido por mais instruído coube-lhe a função de seleccionar!
- Tá bem mãe! Eu levo, vou passar a computador todas mas para publicar eu mandava esta... esta... esta... e esta!...
- Oh rapaz! Essa não!
- Porquê mãe? É tão engraçada!
- Não tem jeito! O teu pai já morreu!

Com a esperteza que dela herdei, entre tentos e argumentos lá a convenci. Essa fez mesmo parte das seis ou sete poesias que registam a mãe poeta no livro "Sopros de Poesia" que a Junta editou fazendo as honras aos poetas populares da freguesia. Coube-me até, na cerimónia do lançamento representar a acamada no estrado do sucesso. Eu que sou tão avesso a essas vaidades, pela mãe, e só pela mãe, sacrifiquei-me aos flashes e posei com duas ou três palavras, com as devidas palmas e o conforto de ter vestidas as únicas calças de ganga e a desgravata da circunstância.
O "éramos mais felizes" de minha mãe duraram pelos sessenta e mais. Nesses anos, a França, aliviava a pobreza extrema e os pais jovens reviviam em festas o sucesso de oferecerem às suas crianças a pobreza não extrema!

Pelos tempos passados, a mãe não surpreendeu - diz a memória do eu pequerrucho - esperou uma volta de tons do acordeão e entrou com o seu fado. A roda de vinte ou de trinta, a voz da gaiteira, uma mão no menino, o marido de frente, as palmas a ritmar e versos ao sucesso.

Essa aldeia, da paródia, das festas sem palco, do espontâneo, da farra, do actor revelação e do actor do costume, de vez em quando, ainda acontece. A minha mãe já não acontece mas acontece que poucos se referem a mim pelo meu nome e mais por um dos filhos dela!

E é assim que eu decidi blogar o dia da mãe, com estas palavras dela que tanto me orgulham:

Como é dia festejado
vou aqui cantar um fado
escutem é divertido
Hoje como estou contente
vou fazer pra esta gente
as queixas do meu marido
Dá-ma tanta coisa boa
já me levou a Lisboa
e quer-me levar ao Porto
Nunca me deu nem fez falta
uma palavra mais alta
nem um pequenino soco

E quando vai passear
gosta bem de me levar
seja qual for a jornada
E como toda a gente sabe
pra me levar à vontade
comprou a motorizada

Cá a respeito ao comer
não é do que apetecer
do que se pode também
E a respeito ao trabalho
faço aquilo que quiser
pra ele está tudo bem

Ouro deu-me quanto eu quis
uns sapatos de verniz
e uma saia plissada
Uma vez pelo ano "bão"
quis oferecer-me um fogão
não me queria defumada

Mais dia sim dia não
vai dar-me uma televisão
não me quer faltar com nada
Oh mulher para que te zangas
tens um casaco sem mangas
diz-me ele quando estou zangada

Não posso passar sem rir
a zanga pega a fugir
acaba por não ser nada
Deu-me um casaco sem pele
dá-me tudo quanto quero
em casa não falta à hora

Não me irrita com ciúme
não passa pla moraria
nem tem amantes por fora

Quando chega ao fim do dia
se chega com alegria
num beijo só mata a fome
Isto não é só garganta
mas é preciso ser santa
para calhar assim com homem
1964

sábado, 1 de maio de 2021

maio maduro maio

1.º de Maio - Dia do Colaborador
Colaborador, o carvalho que os cousa! Colaborador era a tia da vossa prima!
- Valha-nos o português! Reparem nas palavras: "o carvalho" - da família das quercus- "a cousa" - da família do coiso- "o cosa" - do arremendado - ou "o coza" - do cozido - "a tia da prima" - pode ser a mãe ou a tia solteira...

Colaborador, o carvalho que os cousa! Colaborador era a tia da vossa prima! - Colaborador - masculino - tia feminino - colaborador - funcionário - empregado - assalariado - mal pago - TRABALHADOR - Valha-nos o português! Valha-nos a língua! Valha-nos a língua portuguesa! Valha-nos o português! Valha-nos o trabalhador português! Valha-nos o carvalho! - o carvalho da família das quercus!

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Sócrates leva o seu golpe de misericórdia

Já não me apetece escrever sobre o assunto mas... ainda me lembro. 
Ah! Mas ainda tenho mais asco por aqueles que matam o mensageiro pela má mensagem. Pobre Ivo, de repente apareceu um país de magistrados de quarta classe e mais animador ainda: afinal, milhões de portugueses que não liam mais que as manchetes do Correio da Manhã ou os slides ilustrados do Facebook, tudo indica que leram 6000 páginas dum processo.
E pronto, deixo prosa, já mastigada, sobre o assunto e sobre o figurão:


Não, não foram os homens de Costa que desligaram a máquina a Sócrates. O golpe de misericórdia foi dado hoje, pela sua ex-namorada Fernanda Câncio, num "artigo de confissão" (ou será de traição?) que acaba por provar quanto estavam bem um para o outro.

Sócrates já mete dó. Afinal ele acaba por se tornar vítima daqueles que lhe deram os seus tempos de glória, da amante que lhe fazia festas nos cabelos, dos correligionários que o seguiam, dos jornalistas que o apoiavam, dos comentadores que o elogiavam, dos eleitores que o escolhiam e até do sistema judicial que, pelo menos parcialmente, teve nas mãos.

Ninguém me provou ainda que Sócrates é um criminoso mas já tenho a certeza de que ele é uma vítima.

Pois é minha gente, quando ele recebia vivas dos carapaus e dos armadores, não por dar de comer aos peixes mas por oferecer as redes, não por fazer bem a uns mas por fazer mal a alguns, quando ele era o salvador que aniquilava as corporações de preguiçosos bem pagos, enquanto a Fernanda dormia com ele, nós outros lutávamos nas ruas para que o seu reinado chegasse ao fim. A nós ninguém nos pode acusar de o ter apoiado.

Que Vinicius de Moraes me perdoe assim como aqueles para quem me repito. Ficam aqui as palavras dum ataque de fúria que em 2009 me deu:

Sai, Sócrates
Desaparece, parte, sai deste povo
Volta a Vilar de Maçada onde te esperam
As ossadas dos teus avós, de que és
A herança perversa. Vai, foge do povo
Monstruosa farsa, hediondo
Ministro do faz conta, boy bóbó
Coito interrompido! Sai, Sócrates
Fato cagão, cueca suja como guardanapo,
Gravata de prepúcio, câncio homo-nada
Que empestas as passerelles da vidairada
Com teu petulante abanar de ancas
Enquanto largas traques sobre as palmas
Tuas encomendas aos boys-todo-o-serviço
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de marketing de plástico
Tu e teus telepontos
Tu e teu discurso cheio de nada
E pede perdão ao filósofo
Cujo nome roubaste. Deixa os portugueses em sossego
Odioso falozinho; fecha o fecho
Das tuas peles destomatadas
Secretárias, ministrinhas, directoras, jotas de saia curta
Movendo-se à volta da tua merda, como moscas
varejeiras que depois pousam nas mesas e nas camas,
Sai, Sócrates
Arruma as botas e diz adeus ao tacho
Em saudação fascista; galga, vasa,
Contra o teu próprio umbigo
E vai viver do teu próprio valor
Na poeira suja que se acumula no teu currículo.
Adeus
Recheador de ricos, multiplicador de pobres, tu
Com quem ninguém quererá jamais aprender nada.
Parte, punheta estéril, andate via
A23, destino Covilhã,
Experimenta viver igual às tuas vítimas.
Não tens mais estômago do que o homem da rua!
Cretino só, pinóquio de esparguete, que prescreves
A crise do país sem a experimentares, só
cretino, políticu, xuxalista...
Desanda, arruma as malas, toma banho,
E telefona para a empresa de mudanças!

IV
Há 1 trabalhador que foi para o desemprego
Há 2 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 16 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 256 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 65.536 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4.294.296 trabalhadores que foram para o desemprego

VI
— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que a empresa não precisa mais dos seus serviços...
— Meu caro senhor, tenho de comunicar-lhe que está despedido...
— É, infelizmente a empresa diminui os lucros. É impossível manter o seu posto de trabalho...
— É a crise, meu amigo. Vá para casa...
— Você é um homem forte, com certeza que arranjará outro emprego...
— Sua folha de serviço é exemplar, dar-lhe-emos uma carta de recomendação...
— Veja, você já não tem nada para dar à empresa... talvez com formação...
— Compreendo que não tenha outro rendimento. Sou seu patrão, não sou seu pai...
— Há muito operário na mesma situação. Você não está só...
— Era o nosso melhor colaborador. Mas a crise é internacional e não perdoa...
— Qual quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Ainda tem uma vida à sua frente...
— Parece que o engenheiro também vai fora...
— Uma trabalhadora exemplar... E depois, tão linda...
— Que coisa! Logo agora que empresa estava cheia de encomendas...
— Se não aceitar as condições, somos obrigados a despedi-lo...
— Não me diga? A auto-europa...
— Não só... e a general motors?...
— E atenção para a última notícia. Mais três mil trabalhadores despedidos esta tarde...

— SÓCRATES ESTÁ DESPEDIDO

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nunca minto.


Nunca minto! Posso enlear-me nas teias da ficção, encarnar um suíno, ou dizer que navego em águas turvas quando, na verdade, não sou barco nem peixe, mas nunca minto!


Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, eu não acrescento mais um, mas proponho uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Talvez por ser 19 de março

Não era camionista, era chofer, nesse tempo era o verbo mais corrente. Chofer da fábrica do senhor António. Nos anos cinquenta, para um aldeão, ter a carta de condução era um mestrado. Era o mais letrado e mais remunerado  depois do escriturário. E tinha um ajudante para a cargas e descargas, para as manobras, para perguntar nos cruzamentos por onde é que se ia para onde se queria ir, para enfiar paus nos rodados quando a Scania se atolava, para fazer de rádio na cabine porque não o havia. O Zé era um fiel amigo. Era como se fosse da família.

Conheci o meu pai nos anos sessenta. Raramente o sentia sem ser ao serão e ao domingo. O horário de trabalho começava entre as três e as seis, conforme o itinerário era traçado e o regresso era já noite feita. Conversa e meia a ceia e no final o terço, no qual era sua a lei que o primeiro a abrir a boca, de castigo, ia para a cama - era sempre ele. A cozinha, a roupa, a casa, os filhos, o gado, o mato, as sementeiras e as colheitas eram com a mãe. Com ele era a força de trabalho em troca do salário. Trabalhador, foi assim sempre que olhei para o meu pai.

Rijo e meigo, nervosamente sossegado, riso de não mostrar os dentes, uma humildade de meter respeito, as mãos calejadas, ai e os beijos que encontravam sempre os picos da barba por fazer. Gente dura. Começou aos dez anos como criado na quinta das Caldas do senhor Terrinha. Eu segui-lhe os passos e aos dez anos pus-me a andar. Mostrava vaidade por dizer que tinha um filho que andava a estudar para padre.

Depois veio 74 e tempos novos, horário de trabalho, o respeitinho do patrão por quem trabalha, três meses de vencimento em agosto que isso de gozar férias era para gente da cidade e de pequena prole, a motorizada a dar lugar ao carocha em terceira mão... e a vida continuou. O mesmo pai mas eu já varão e noutros territórios. Uma Scania nova com rádio, o Zé na Suíça, o salário sempre magro, o trabalho sempre pesado, a vida sempre dura, o mesmo riso de lábios encostados, os mesmos olhos verdes claro, a mesma força de trabalho.

Que grande herança: o grande orgulho de pertencer à classe trabalhadora!


sexta-feira, 12 de março de 2021

As figuras do PSD


Já não sei se são as figuras que fazem o PSD ou as figuras que o PSD faz. Anda tudo desorientado.

O Marcelo pensa que é Primeiro Ministro,
O Rio está convencido que é líder do partido,
O Cavaco julga que ainda é vivo,
O Santana já não percebe nada disto.

O Marques Mendes sua por imitar o Marcelo-comentador,
O Passos Coelho espera que o Chega o tome,
A Ferreira Leite acha-se um Senhor
E até o Sá Carneiro, que Deus o tenha, pergunta a Deus por que diabo há tantas ruas com o seu nome!  

- Esqueci-me de alguém? Não, enquanto não cheirar a caldeirada, parecerá não haver ninguém!




segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de março - Dia de Portugal

Dedico àquela que foi encarregada pelo médico de me vigiar um sinal nas costas.
desenho de Álvaro Cunhal


No dia do Pai , lembro-me dos que não têm pai;
No dia da Mãe, lembro-me dos que não têm mãe;
No dia da Mulher, lembro-me dos homens;
No dia dos Animais, lembro-me dos homens;
No dia da Árvore, lembro-me dos homens e dos ninhos;
No dia da Água, lembro-me do vinho;
No dia Sem Carros, lembro-me dos cavalos;
No dia do Não Fumador, lembro-me de fumar;
No dia do Consumidor, lembro-me dos tesos;
No dia da Europa, lembro-me de África;
No dia de Portugal, lembro-me dos que não são portugueses;
No dia de Camões, lembro-me de Bocage;
No dia da Liberdade, lembro-me da prisão:
No dia do Trabalhador, lembro-me dos desempregados;
No dia da Defesa, lembro-me de atacar;
No dia das Mentiras, lembro-me da verdade;
No dia de Todos os Santos, lembro-me de todos os pecadores;
No dia de Natal, lembro-me do Ano Novo.
No dia da República, lembro-me do Rei.
No dia de Reis, lembro-me do Rei dos Leitões
No dia dos namorados, lembro-me dos que não têm namorada.
Mas a verdade é que geralmente não me lembro de nada.
A não ser quando tenho comichão mas costas:
- Ó amor chega aqui!
- Só se me disseres que dia é hoje!...
- Segunda!
- Dia de Portugal!...
- Da mulher!...
- De quem?!...
- Puta que a pariu!
- Quem?
- A idade!
- Que dia é hoje, hem?