domingo, 21 de outubro de 2018

Os vencidos da vida



Os olhos verdes, pequenos e distantes, vistos de perto, como tudo o que é verde, todas as coisas pequenas e todos os olhos devem ser vistos. Eram os teus olhos.

As mulheres frágeis, vazias e amantes, como todas as mulheres que o homem desejava deviam ser. E tu não eras.

Os passos dos homens de sucesso e elegantes como todos os dos que dizem vencer na vida devem ser. Não era eu.

- Que importa esta conversa?! Que interessa o resto?! São frias e mundanas todas as coisas!

Os campos, verdes, grandes e gigantes, vistos de longe, que só não são céu porque existe o horizonte. E no horizonte oposto estamos nós.

O eco dos tratores cantando canções dantes e a visão das ceifeiras aos volantes.
Mas nós continuamos a trabalhar para o pão nosso de cada dia!...

Os dentes dos poderosos e importantes e os bicos das suas damas. Nós seus serventes. 
Tu, a outra, o outro e as mamas da puta desta vida.

Sim, fui traído como o espermatozóide que saiu por uma punheta! Pela porta da traição só entram ou saem os vencidos.

Quero todos os campos cobertos de videiras! Quero todos os olhos pequenos! Quero tudo com vinho!

(um porco pode usar óculos mas nunca poderá fazer uma poema)

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O rebanho dos zé-ninguém, as ovelhas, os cães, os lobos e os cabrões.


Não devo ser o único que reteve o nome de Wilhelm Reich por ele ter escrito um livro com o nome, arriscado para a época, " A função do orgasmo". Também não devo ser o único que já ouviu falar do livro mas nunca o leu. No meu caso a temática diz-me pouco, sobre o ponto de vista intelectual, é claro.

Acontece que vim a travar conhecimento do autor através duma obra com o título traduzido, "Escuta Zé Ninguém" e que li, assim num só jogo, num dia cinzento de janeiro de 79. Na altura a leitura marcou-me tanto que a recordo mais que o meu primeiro orgasmo que me acontecera alguns anos antes. Aliás, desse episódio, retenho fraca memória, não me lembrando sequer se ocorreu sozinho ou com companhia.


Do "Escuta Zé Ninguém" ficou-me o hábito de fazer uma auto-crítica contínua de modo a ter consciência dos atos ou opinões em que estou a ser um zé-ninguém. 


Se não fossemos todos uns zé ninguém, poderíamos ter mais controlo sobre o nosso destino e sobre a História. Mas não, não passamos dum rebanho conduzido pelos latidos dos cães que agem às ordens do grande monstro capitalista. Os pastores existem apenas no nosso imaginário religioso. Umas centenas de indivíduos anónimos, põem e dispõem do nosso quotidiano, tendo ao seu serviço os políticos e as instituições que nos governam. As pessoas do povo não passam de ovelhas, cabras, carneiros, cordeiros ou cordeirinhos mansos. Existem também as ovelhas negras, que barufastam mas não fazem mossa; os lobos que causam prejuízos aos donos disto tudo, fazem frente aos cães mas não poupam o rebanho. 



Retiro o que disse: não sou um zé-ninguém, não sou caprino ou canino. Embora dominado, o serviço que farei aos cães da frente e aos senhores, sim aos senhores, do mundo, será sempre ser porco, porco para com eles, bácoro para o povo e rei para os leitões.  Com isto tudo já me esquecia de chamar aos capitalistas, cabrões.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Bichinho do Teatro


Carlos Bicho, Carlitos no meio familiar, Bichinho entre os colegas, já tinha tido a experiência de actor na peça os Três Porquinhos, em pequenino mas era agora, já de buço, a primeira vez que pisava palco com pano e luzes numa sala de plateia cheia e às escuras.

O pai fizera-se à mãe, quando jovens se encontraram a sós num recanto dos bastidores do teatro da colectividade, ele ponto, ela contra-regra e honraram esse encontro mesmo depois de extinta essa actividade, participando como público em tudo o que era teatro, fosse na aldeia, na cidade, no Carmo ou no Trindade.

A professora Gertrudes era professora de português e honrava a sua profissão como especialista em Maias de Essa, amante de Camões e mulher de Gil Vicente. Da mesma forma que só lavava com Omo, só barrava o pão com Planta e só bebia Sagres, limitava orgulhosamente a sua cultura literária a este trio.

Há muitos anos que encenava com os seus alunos o Auto da Barca. Um lençol branco e outro vermelho a cada um dos cantos do palco; cada um com três cantos presos, um em cima e dois em baixo, de modo a fazerem vela triangular; na base deles mais dois lençóis castanhos presos a três cadeiras e a formar arco faziam as barcas; uma moça meiga em fato de comunhão solene a fazer de anjo; um moço espevitado, com rabo e cornos de diabo; o resto da turma nos restantes papéis; com jeito ou sem jeito, com brancas ou com rimas e “ó da barca” soavam as pancadas.

O pai do Carlos além de se auto-considerar com currículo de espectador, suficiente para desprezar as competências da professora encenadora, recomendou ao filho a recusa do papel secundário que lhe fora anunciado e acrescentou:

- Tu dizes-lhe que, em vez de participares na peça, preferes fazer uma recitação poética no final! Ela que não se preocupe com a escolha que eu trato disso!

Realizados o auto e os aplausos, Carlitos foi apresentado e apresentou-se sozinho, frente à ribalta, focado por um potente projector.

Todo ele e tudo nele abanava. De voz a abanar tentou começar. Nos rápidos pensamentos que lhe abanavam a cabeça pensou no que o pai, espectador, estaria a pensar. Não o conseguiu distinguir na penumbra da assistência repleta de olhos escuros e faces sombrias. Tentou novamente a primeira palavra. O olhar da professora Gertrudes à frente da fila da frente cortou-lhe a primeira sílaba. Sentiu um líquido viscoso escorrer-lhe pelas calças abaixo. Era o golpe final. Só lhe restava desistir corajosamente. Deu meia volta em direcção ao fundo do palco, esperou risos de troça e só ouviu silêncio, convenceu-se que com a luz intensa toda a gente via as calças claras com a mancha escorreita e escura e num acesso de raiva, virou a cara ao público e declamou:

- Caguei para isto tudo!

E dito isto, saiu das luzes com uma bomba de gargalhadas a estoirar entre estilhaços de palmas a aplaudir.

A professora Gertrudes que além de Essa, Camões e Gil Vicente também adorava microfones, subiu ao palco, cantou desculpas por esta mas também por outras quaisquer coisinhas e chamou ao palco a directora, o presidente, a vereadora, o pároco e a senhora que emprestara os lençóis.

Fora de cena, sob o fundo dos discursos que duravam mais tempo do que a própria peça, sob as salvas pedidas a este e àquilo, que eram mais devidas que aos actores, pai e mãe consolavam o filho:

- Estiveste bem! Foste verdadeiro e ninguém viu! Foste o verdadeiro actor! O público aplaudiu! Que mais queres tu?
- Quero ir para casa para mudar de calças!

NOTA: Se essa o incomoda leia os comentários.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Tenho muito a fazer pelo Brasil mas só isto a dizer...


isto não é um poema

desabafo
que não pude não
fazer e não pude fazer
de outra forma
que não fosse
assim
fatiando as frases
no espaço
aqui
hoje
eu vi
aterrorizado
um artista assassinado
Moa do Catendê,
mestre de capoeira,
autor do Badauê —
por conta de uma divergência política num bar
da Bahia
depois corri o dedo
sobre a tela e
vi e ouvi
arrepiado
Luiz Melodia
(também negro e compositor,
também com o cabelo rastafari,
como a vítima do post anterior)
cantando
“no coração do Brasil”
e repetindo muitas vezes
esse refrão
“no coração
do Brasil”
“no coração do Brasil”
que tento sentir
pulsar ainda
entre a luz de Luiz
e a treva
desse buraco vazio
que não pulsa mais no peito
de Moa do Catendê
e “não existe amor em SP”
ou “no coração do Brasil”
fraturado
nesses dias
brutos
de coturnos
chucros
a chutar a cara
de quem
ama
arte
cultura educacão
liberdade de expressão
diversidade
cidadania
solidariedade
democracia
mas não se dá
a mínima
o que importa é se subiu
a bolsa
caiu
o dólar
se todos vão prosseguir
seguindo
docilmente para o abismo
nessa insanidade coletiva
em que o Brasil nega
qualquer Brasil
possível
cega
qualquer futuro possível
e o ódio
o horror e o
ódio
e nada que se diga faz sentido
mais
para quê
expor na cara desses caras
a palavra explícita
(gravada em vídeo e repetida, repetida, repetida)
do seu “mito”
dizendo
“eu apoio a tortura”
“eu defendo a ditadura”
“eu vou fechar o congresso”
“não servem nem para procriar”
“não te estrupro porque você não merece”
“a gente vai varrer esses vagabundos daqui”
“o erro foi torturar e não matar”
“viadinho tem que apanhar”
etc etc etc etc etc
e tudo mais
que repete incansavelmente
há anos
ante câmeras e microfones
para quê mostrar de novo
e de novo
o mesmo nojo
se é justamente
por isso
que o idolatram?
e sempre haverá
os que vêm disfarçar
dizendo:
“estamos entre dois extremos”
“sim, mas veja a Venezuela”
“é para acabar com a corrupção”
“nós queremos segurança”
ou
“não é bem assim...”
enquanto constatamos cada vez mais
que sim,
é assim
mesmo, é assim
que é
mas
como li por aí:
“como explicar a lei Rouanet para quem
ainda não assimilou a lei Áurea?”
ou: como explicar a lei da gravidade
para quem ainda crê
que a terra é plana?
e querem defender sua ignorância com dentes
e garras
querem
matar atirar vingar
a quem?
em nome de quem?
(pátria, família, propriedade, segurança?)
se nessa seara não há direitos
nem respeito
ensino ou dignidade
só horror e
ódio, ódio
e horror
as palavras perdem a clareza
os valores perdem o valor
a vida perde o valor
Marielle
remorta remorrida rematada
por sua placa
rompida rasgada desonrada
pelas mãos truculentas de
brutamontes prepotentes
com suas camisetas estampadas
com a face do coiso
que redemonstra sua monstruosidade
quando vende
em seus próprios comícios
camisetas de outro
ultra-monstro
ustra

aquele que além de torturar
levava crianças para verem
suas mães torturadas

e esses mesmos
abomináveis
que, diante de uma claque vergonhosa,
se orgulham
de terem
rasgado as placas
com o o nome Marielle Franco
estão sim
agora
eleitos
satisfeitos
mas não saciados
de todo o sangue
de inocentes
que há de correr
só por serem
diferentes
excitando em outros
o desejo de exercer
seu obscuro
poder
de milícia polícia esquadrão da morte
e o anúncio da Rocinha metralhada
como solução
a barbaridade finalmente
institucionalizada
como diversão
o Brasil finalmente
sem coração
fora da ONU
e dos acordos internacionais pelo
meio-ambiente
sem controle
de sensatez ou mentalidade
sem limite humanitário
“não vai ter ong!”
“não vai ter ativismo!”
“não vai ter mimimi!”
bradam
cheios de si e de ódio
criminosos contra o crime
opressores pela família
amorais pela moral
apesar de todos
os alertas
da imprensa internacional
de esquerda, de centro, de direita
só não vê quem não quer
a tragédia anunciada
divulgada
não como boato
mas escancarada
-mente
enquanto
empoderados pelo discurso
de ódio
de horror e ódio
seus eleitores
já saem pelas ruas
dando tiros
e gritos
enxurradas de fakes
suásticas nazistas gravadas com canivete
na pele da menina
que usava “ele não” estampado na blusa
e a promessa de violência desmedida
se concretizando
antes mesmo de começar o segundo turno
e nem um centímetro de terra para os índios
e nem um pingo de direitos civis ou humanos
e a volta da censura e o ódio,
o ódio, o horror
e o ódio
pra encerrar de vez
o sonho de uma nação
que tem a chance
de dar ao mundo
sua contribuição
original
agora fadada a repetir o que de pior já houve
na história
sem história agora
sem Museu Nacional
nem cultura nem educação
abolir filosofia e arte
em seu lugar:
moral e cívica
escola militar
religião
geografia dos lucros e dividendos
massacre das minorias
horror e ódio
e ódio
e horror
crescente permanente enquanto dure
pois ninguém larga o osso assim tão fácil
depois de um golpe
que precisa parir outro golpe
ou autogolpe
alimentado por todas as fakes e facas
contra as costas de artistas
como Moa
mas na cabeça de quem apóia
tudo se justifica:
o fascismo
a tortura dos presos
o sumário julgamento sem juri
autorização dada à polícia
para matar
e o ódio aos pobres
as blitzes ostensivas
a guerra declarada
dos que aceitam assassinos para combater bandidos
se está tudo invertido mesmo
pobre elegendo milionário,
pelo avesso e ao contrário
então se autoriza a sórdida
barbárie
dos fortes contra os fracos
algo está muito doente
no Brasil
no descoração do Brasil
que mente, se omite, agride, regride
para avançar sem freios
em direção ao fascismo
seguindo a música hipnótica do
ódio,
horror e ódio
pregados em igrejas
em nome de Deus
e de Cristo
só desamor em nome de Cristo
violência e brutalidade em nome de Cristo
armas e tortura
e preconceito em nome de Cristo
de Deus e de Cristo
armar a população
para metralhar os adversários
os diferentes
os miseráveis
os favelados
os do outro lado
os que se manifestam
ou contestam
ou pensam de outra forma
ou se vestem
de outra cor ou tem
outra cor ou
qualquer pretexto
que se crie
para espalhar o ódio, o horror
e o ódio
do machismo ao estupro
da mentira ao linchamento
do homicídio ao genocídio
(“tinha que ter matado pelo menos trinta mil!”)
já sem democracia
palavra vazia
em boca
de quem compactua
(e não são poucos)
pensando ser
possível
alguma forma de
neutralidade
nesse momento
como Pilatos
lavando as mãos
a chamada mídia
tenta fazer média
ao dizer que os dois lados são igualmente
extremistas e perigosos
mas então
onde estavam nos últimos três mandatos
e meio
antes do pesadelo Temer?
estavam numa ditadura comunista
e não sabiam?
na verdade
todos sabem muito bem
que o extremismo
vem de um só
lado, que
quer se eleger para acabar
com eleições
e que o grande perigo é mesmo
esse jogo
de equivalências que,
na verdade
serve ao monstro
pois a omissão é missão impossível
neste agora
impossível
mascarar o sol
da ameaça
hostil e explícita
do nazismo
crescente
com a peneira furada
de um bom senso
mediano hipócrita indiferente
que sempre
vai dizer:
sim, mas a Venezuela...
como se não tivéssemos ouvido exatamente isso
em 64,
quando diziam:
— Sim, mas Cuba...
para justificar a ditadura militar
que tanto elogiam
hoje em dia
e que o atual
presidente
do nosso Supremo Tribunal Federal
decidiu
que agora vai chamar
de “movimento”
em vez de
“golpe militar”
para adoçar um pouco a boca
amarga
do sangue
impregnado
que não vai sumir assim
mudando a nomenclatura
desnomeando a já tão dita
“ditadura”
mas esse des-
-equilíbrio
ético
que diz
preferir uma autocracia
perfeita
a uma
defeituosa
democracia
esse
erro
que nenhum arrependimento será
capaz de reparar
quando for tarde
demais
ainda dá
para evitar
ainda
é tarde
de menos
para
conter
ainda dá                     
para conter o ódio
o horror e o ódio
ainda dá

Isto não é um poema - Arnaldo Antunes / Tribalista

humildemente transposto d"as palavras são armas"

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Chouriço do Custódio



Albertina casou tarde e enviuvou cedo sem que lhe tenha vingado prole. Deixou-lhe o falecido, gado e fazenda suficientes para não morrer de fome e trabalho para não ter tempo para encantar outro de companhia.
Eram os dias em que teria de levar a porca ao porco e o porco mais falado daquele ano, era o do Custódio, casado e sem filhos, o qual levava por emprenhamento um chouriço por cria.

Levou, ciosa, o cio da porca aos currais do cobridor, com um baraço, uma verdasca e uma saca de milho para lhe acertar o caminho. Custódio abriu a porta, ajudou a empurrar a porca para dentro e fechou o ferrolho. Ambos ficaram de braços na cerca, de olho no entusiasmo do macho e no jeito da fêmea mas nada acontecia.

- Ó homem vai lá tu! - queria dizer ela encaminhar o porco ou ajeitar o rabo à porca...
 E, quando acabou de insistir pela terceira vez, riu-se de embaraço por ter reparado na asneira que repetira. Reparou também que Custódio desapertara o cinto e rogou-lhe por Deus:
- Ó homem não castigues o animal!
Quando o viu baixar as calças pensou para consigo:
- Ai este raio que me vai dar cabo da porca! Eu nem quero pensar o que ela pode parir!

Albertina resistiu por instinto mas acabou rendida pelo desejo sobre um carro de rodas onde ambos se envolveram em duas valentes...  - faltou-me agora o termo... ou rima!... mas já  agora que, como narrador, pus o bedelho no enredo, aproveito para um conselho:
- Albertina, lá por não os haver, não quer dizer que não te tenhas metido em maus lençóis!

Consumado o ato  humano, ainda em recomposição, espreitaram para o lado de dentro do curral onde, agora sim, os animais faziam a sua parte num infindável coito que ambos classificariam, em pensamento, como invejável.

As coisas aconteceram, as coisas acontecem e, ao fim de doze semanas, a porca pariu doze bácoros. Custódio não reclamou a dúzia de chouriços.
Ao fim de seis meses Albertina foi aos Doze com os leitões. Custódio, encontrou-a e disse-lhe:
- Albertina, que barriga é essa?!
Albertina, cúmplice do seu estado, fez silêncio.
Ao fim de doze meses, tinha o menino, portanto, já três meses, envergonhada por ter copulado com homem casado, Albertina continuava a recusar identificar o nome do pai, o que muito irritava os curiosos e ainda mais o padre que, como ministro da confissão, se achava no direito de tudo saber.

Mas, ao fim de trinta e um meses,  na Festa de Santa Madalena, deu-se o trinta e um:
Custódio, dirigiu-se a ela e referindo-se ao menino que  trazia ao colo:
- Então, como é que se porta o chouriço?!
Albertina, recordando o modo submisso com que se entregou sobre o carro de rodas, insubmissa, atirou de alto e em som para que toda a gente ouvisse
- Não me fodes outra vez! Um grande chouriço me saíste tu! Agarra-o que é teu filho!

Custódio ficou com o menino nos braços e chorou. A mulher dele, dando de caras com a cena, largou-lhe uma deixa de palavras coradas:
- Aí tens nas mãos o que eu, pelos vistos, não te consigo dar!

E o arraial animou-se de tal forma que ninguém foi julgado ou foi juiz, Custódio continuou a viver com a mulher, a mulher continuou amiga de Albertina, o padre renunciou ao celibato e casou com Albertina.

Hoje em dia, na aldeia, já ninguém vai com a porca ao porco, já ninguém vai estudar para padre e toleram-se com mais abertura certas paixões de ocasião. Contudo, mudados os tempos, o puto nunca se livrou de ter como alcunha "O Chouriço do Custódio".


domingo, 7 de outubro de 2018

Não tenho pena de Cristiano Ronaldo



Ó menino Cristiano, isto dos problemas na vida não pode calhar sempre aos mesmos! Preocupam-me muito mais os resultados eleitorais no Brasil do que o teu caso com a justiça americana! Registo apenas que entre tu e essa mulher, um dos dois é vítima e um dos dois está a mentir! Mas olha, é o que acontece a quem goza dos belos prazeres entre a gente rica americana, a quem dorme em luxuosos hotéis e anda em altos carros!
Tivesses tu um velho volkswagen carocha e podia ser que a justiça resolvesse o caso assim:

A moça recorreu à justiça, acusando o namorado de a ter violado.
- Diga-me lá menina o que lhe aconteceu.
- Então o meu namorado convidou-me para dar um passeio no seu carocha...
- E a menina foi?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência, fui!...
- E conte lá, depois...
- Depois parou o carro numa mata...
- E a menina não disse nada?
- Ó senhor juiz, eu na minha inocência, pensei...
- Sim, mas conte lá...
- Depois começou a fazer-me umas festinhas...
- E a menina não reagiu?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência...
- E depois, que lhe fez ele mais?
- Tirou-me as cuequinhas e....
- E a menina deixou?...
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência deixei...
- Então e a seguir?
- A seguir mandou-me ir para o banco de trás...
- E a menina foi?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência fui!
- Foi e depois?
- Depois abriu-me as pernas...
- E a menina não estranhou?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência...
- Abriu as pernas e?...
- Disse-me para as estender e enfiou-me cada um dos pés naquelas pegas que estão por cima das portas.
- E a menina não resistiu?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência ...
- Ó menina vá-se embora que inocente sou eu que há vinte anos que tenho um volkswagen e ainda não tinha percebido para é que servem as pegas!!!

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Marcando o ponto


Reparei hoje, há um mês que não escrevo na pocilga, na corte, neste reino. De facto, não tenho sentido impulso, predisposição ou paciência para mandar larachas para a fogueira. Este verão morno, a ciática e o vinho alentejano floresceram-me o tédio.

E, depois, não tem havido incêndios. Antes que o Costa venha gabar-se das medidas tomadas, deixem-me deixar a minha opinião: acho que o verão passado foi tão infernal que até os incendiários já têm medo de queimar os dedos.

Justifico-me ainda pela vida familiar e profissional que não são, por princípio, presença aqui e muito menos motivos para prosa mas que têm atazanado a minha disponibilidade intelectual para estender períodos e orações.

Registando as reflexões possíveis, saibam que me preocuparam muito as palavras dum Feio do CDS que, na TV, deu os parabéns ao PCP pela realização da Festa do Avante. Oh camaradas, cuidado, qualquer coisa menos boa  se anda a passar com a Festa para se ser atacado com um elogio destes!

Registo também o ponto em que, como revolucionário, tenho de conter a revolta perante o enxovalho a que os professores portugueses estão a ser sujeitos. Nem a dona Maria de Lurdes, nem o Crato foram tão longe como Brandão! Nem o Sócrates, nem o Passos foram tão longe como o Costa! Recorrer tão descaradamente à mentira porque se sabe que, mesmo desmentida, ela surte efeito, na minha opinião, é filha da putice suficiente para justificar a explosão da geringonça. Ver professores, desesperados, publicando a sua folha de vencimentos nas redes sociais, não percebendo que os clientes das manchetes do Correio da Manhã ou da Globo/SIC consomem as verdades imediatas dos seus títulos, só não me faz explodir de revolta porque sou um revolucionário. Isto, depois da conta dos 600 milhões e da carreira automática, é suficiente para considerar irmãos, filhos da mesma puta, Sócrates, Passos e Costa.

Depois poderia falar da Síria, da Líbia, do Iraque, da Ucrânia, da Catalunha, da Venezuela, do Brasil, eu sei lá!... Mas a política nunca foi tema que me fizesse discorrer a pena com facilidade. Costumava, isso sim, deixar por aqui umas histórias que, manifestavam-se alguns, eram do seu agrado.

Mas o Rei não está morto, nem nu, nem em cuecas, tem apenas os pés de molho. Um dia destes rebento por estas páginas digitais adentro e dou de mim tudo o que tenho, dos pés ao coração, ao fígado e aos rins, conto-me todo, canto o passado, visto o futuro  e dispo o presente, vestido ele que está de costas e marcelos, de europas e de américas, de tragédias e de sucessos, de... eu sei lá!

Desculpem lá, isto não passará duma página dum diário dum homem comum, dum rei do acaso. Rom, rom!...

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A ponte sobre o Tejo, a ponte de Salazar e a ponte 25 de Abril


Havia um passadiço para quem não queria molhar a barriga das pernas mas as bestas de carga, os carros de bovinos e equinos e até os automóveis, transpunham a ribeira se não houvesse cheia ou grande lamaçal. Entretanto, já eram tempos de se poder construir uma ponte em cimento armado que unisse as duas margens e o presidente da câmara, nomeado pelo regime, vinha ao lugar para dar nota que a obra iria para a frente assim que houvesse disponibilidade orçamental.

Apareceu então, assessorado, num carro preto de modelo da altura mas, quando já tinha quase vencida a travessia, ficou atascado e, por mais pedras, paus e mato que os naturais enfiassem por debaixo dos rodados era só patinanço, afundanço e enlameanço, de tal forma que a comitiva nem do veículo podia sair, sob pena de dar cabo do lustro dos sapatos e dos fatos finos próprios dos seus ofícios.

Ordenou a autoridade municipal aos aldeões que arranjassem uma saída para o incidente e era se desejavam alguma vez ali ter ponte! Com humilde respeito e obediência, foram uns homens buscar a junta mais possante engatado-a ao carro para o libertar do atoleiro. Não parecia a força da parelha ser a solução, ou porque estranharam a natureza da carga ou porque ela fosse demais, teimosos que nem burros, os bois não se mostraram tão servis como os boieiros.

Por feliz ou infeliz coincidência, quis o destino que o presidente fosse tratado por Engenheiro Falcão e que pelo mesmo nome respondesse um cão, o Falcão, que ali estava acompanhando o dono. Pois não é que, tendo ouvido em tons diversos o vocábulo, o cão se atiçou aos dois animais e estes, espantados, desataram com força incontrolável em incontrolável corrida, arrastando o veículo em balanceante andamento até o fazer tombar na primeira curva!

Acalmou o gado e acalmaram-se os presentes mas não o presidente e os seus que, sentindo o embaraço do ridículo numa visita de onde deveriam ter saído vitoriosos e aclamados, informaram o povo que aquela ponte só seria feita se houvesse uma revolução.

Sentida, a boa gente, pela vingança declarada e pelo mau feitio dos administradores, assim que viram partir o carro mal tratado a bater latas, decidiram logo ali, em informal assembleia popular, que sim, a ponte seria feita, nem que nesse ano não houvesse dinheiro para o andor, nem para a banda, nem para os foguetes, nem esmola para a Santa Ana ou para missas.

Fez-se a ponte com a força, os pedreiros, os serventes e os dinheiros da terra e acharam por bem os voluntários batizá-la de Ponte do Falcão, não para lembrar o autarca não grato mas como sinal de gratidão ao cão Falcão.

Quem não ficou muito contente foi o prior, tendo até ameaçado fazer excomunhões, tendo-se apenas conformado quando alguns, mais tementes aos Céus, levaram a sua avante e foram com ele benzer a obra e gravar nela o nome de Ponte de Santa Ana.

Veio a Revolução e, sendo conhecida a história no concelho, veio o primeiro presidente eleito à povoação e, por justiça da história, quis ressarcir o povo da quantia despendida e mais algum ainda, que era merecido pela coragem demonstrada. Sempre presentes e convidados, os representantes do clero nestas ocasiões, quando chegou a vez do prior dizer as suas, dirigindo-se ao político e aos cristãos, fez a sua proposta de bradar aos céus: que, se o erário estava assim aberto, seria justo reconhecer que a dívida era para com a Igreja, mais particularmente para Santa Ana que quase não teve festa no ano da construção da ponte.

Ao fim de alguma discussão chegou-se a acordo, e acordado foi que, se o dinheiro fosse aplicado no largo da capela, que era do uso de todos, e o padre reconhecesse que já não havia dívida para com a Santa,  poderia ser esse o destino do montante, desde que se mudasse o nome da ponte para Ponte do Povo.

Acontece que hoje, passados tantos anos, coexistem os que a referem como Ponte do Falcão, Ponte de Santana ou Ponte do Povo e, sinais dos tempos, os mais jovens começaram a chamar-lhe a Ponte dos Três Nomes.

domingo, 5 de agosto de 2018

As pessoas comuns são as que mais gosto

As pessoas são comuns quando já não querem ser outras.
As pessoas comuns só querem que não as chateiam e mais nada.
As pessoas comuns não esperam pela esperança.

Ela espera sempre e nunca é esperada,
Ela faz-se adulta mas é sempre criança,
Ela é maior mas é sempre pequena,
Ela é amante antes de ser amada,
Ela é oficial e age como ordenança,
Ela é profissional  e pagam-lhe como amadora,
Ela é mestre e ouve como discente,
Ela é doutora e tratam-na como paciente,
Ela é mãe sem deixar de ser filha.

Ele nunca é observador é sempre observado,
Ele nunca é escritor é  sempre leitor,
Ele é o ator que atua na plateia.

Ele queria ser flor e foi sempre mato,
Ele queria ser poema e não passou de letra,
Ele não conseguiu ser fadista nem letra de fado,
Ele queria ser marinheiro e foi faroleiro,
Ele queria ser pastor e foi sempre ovelha,
Ele queria ser dono e foi sempre um animal,
Ele queria ser agricultor  mas limitou-se a comer,
Ele nunca tratou da vinha e não lhe faltou de beber,
Ele queria ser eleito e foi sempre eleitor,
Ele queria um mundo melhor mas

Ele queria ser outro e foi ele mesmo,
Ele queria ser rico e foi sempre pobre,
Ele queria ser história e só teve nome,
Ele queria ser herói e é
O meu herói:
O homem comum

Ele foi sempre limpo e não passou de porco,
Ele queria ser lúcido e foi sempre louco,
Ele queria ser muito e foi sempre pouco,
Ele sonhava o futuro e só teve o presente,
Ele queria viver para sempre e morreu,
Comumente

- Que é isso de vencer na vida, ó vós incomuns?

domingo, 29 de julho de 2018

A árvore que mais amei

Era uma figueira de porte que excedia a normalidade. Debaixo da sua copa só a hortelã se dava. Roubava espaço ao talho da horta e ao socalco das ervilhas, fazia sombra ao terreiro da nora e ao poço ao qual devia a sua frondosidade. Do seu tronco principal, que junto ao solo não se abraçava, nasciam vários ramos de diâmetro da largura dum tronco de criança, desses derivavam outros com grossura de perna ou braço de homem, desses outros de dedo polegar ou de mindinho, enfim, uma árvore, uma figueira grande.

Segredou-me minha mãe, um certo dia, que, quando eu era mesmo pequeno e ela tinha de ir tratar de coisas à vila, me deixava preso a ela com uma corda das ovelhas, me deixava uns cacos e uns cavacos para eu brincar, um naco de pão com marmelada dentro dum tacho para o guardar das formigas - vinte minutos para lá, vinte minutos lá, vinte minutos para cá, uma hora e eu permanecia sempre entretido sem uma lágrima no olho.
- Ai se fosse agora e alguém soubesse! Vinham os da Protetora e eu seria notícia, crucificada e julgada pelos adeptos das creches de vinte e quatro horas.

Já de idade maior e com habilidade de trepador, tratando da horta, mandava-me com uma saca colher figos. Então eu começava nos troncos principais, uns mesmo à mão, outros esticando-me, outros mais longe, onde um adulto nunca poderia chegar, as pontas da árvore a abanar, mas eu lá ia, recolher mais dois ou três, até onde houvesse ramos com força para me suportar.  Que bom era sentir-me macaco!
E, cheia a saca, descia e ia vitorioso mostrá-la à mãe que abria regos para os feijões.

- Desce a ladeira e vai dá-los à dona Henriqueta que não conheço pessoa que goste mais de figos pingo mel! Mas traz a saca!...
- Ai meu menino! Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Voltava ao quintal e "filho vai encher outra" e "ó mãe já está".
- Filho sobe o monte e vai levá-los à tia Engrácia ela vai ficar muito agradecida! Mas traz  a saca!
- Ai meu menino! Que Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Nova corrida, nova viagem, rica figueira, está carregada, "apanha mais uma para a tua avó! Mas traz a saca! "
Atravessar o Vale da Carreira, sempre a correr, a avó Gracinda:
- Meu santo filho que casou tão bem! Não tenho nada para te dar mas diz à tua mãe que eu lhe agradeço!

- Apanha só mais uma para a senhora Teodora, bate à porta e mostra respeito ao pedir a saca!
- Ó João Trinca Espinhas, a tua mãe é tonta, eu gosto deles é comidos da árvore, mas está bem, dá cá!
- A senhora gostava era de estar escarrapachada nos ramos a roçarem-lhe a crica!
(Há coisas que só se pensam e não se devem dizer ou escrever).

- Agora brinca! Não vás pró pé do poço, não saias da sombra da figueira, quando o sol se for chegará o pai.
Ele, pesado do trabalho, pesado demais para subir à figueira, punha-me às cavalitas, tira este ali, estão mesmo bons, vê se consegues agarrar aquele, ainda tem leite, olha aquele ali, que boa passa. E, já satisfeito, com peito para um bagaço, descia-me dos ombros, punha as mãos ao bolso e dava-me dois rebuçados de meio tostão.

Até que um dia, eu já maiorzito... amanhã vamos cortar a figueira, as raízes estão a dar cabo das paredes do poço, sem a sua sombra podemos ter mais dez regos de feijões e livrar-mo-nos do mosquedo de setembro!

Então, com machados, machadas, serras, serrotes e pedoas, nos fizemos ao monstro e o despedaçámos. Custou-me muito, mais do que ver o avô a enterrar, ver o tio embarcar ou matar o porco!
- Esta lenha não vale nada, não chega aos pés do pinho ou do carvalho!
- Se é assim porque carvalho a traçamos e não a damos à cabra da dona Teodora?
- Que raio de ideia a tua, foste logo pensar na única pessoa do lugar que não tem gado e, além disso, as cabras só comeriam as folhas!

As figueiras nunca foram árvores amadas, talvez pela história de Judas, talvez pelas suas raízes atrevidas... mas os figos! ai os figos! chamava-lhe um figo! diz o povo e não por acaso!
E, ainda hoje, passados mais de oitenta anos, quando eu vou à terra para ver se os marcos estão no sítio, abeiro-me do poço para ver a altura da água, sinto o cheiro da hortelã que não sobreviveu à falta que a sombra da figueira lhe deixou e regresso a casa desejoso de figos pingo mel.



sábado, 21 de julho de 2018

Ebrionário

Ébria pose, ébria postura, olhar ébrio, gestos ébrios, frases ébrias, palavras que se atropelam entre si, ideias sentidas sem sentido, uma irrequietude quieta de quem soletra sílabas que se arrastam nos olhos de quem nos vê e não nos ouve. Versos ébrios? Ah isso não existe! Ah, nenhum tratamento, nenhum vento, nenhuma marcha, nenhuma frente ativa nos poderá trazer a sobriedade com que entrámos na escola com uma sacola de pano, com um caderno e uma pedra de ardósia. Querer conhecer o código dos símbolos do alfabeto, aprender a ler e a escrever, numa ânsia de, vindos à luz, tudo querer saber.

Saber ler, falar corretamente, citar poetas e escrituras, escrever cartas e discutir filosofias de caserna ou academia; interpretar o mundo, as razões dos homens e das mulheres, a história, as religiões, as revoluções, as utopias e dar por ela, ao fim duns longos anos, que em curtos dias a última garrafa  está vazia. E, por incrível que pareça, não é a nossa cabeça que anda à roda, é o mundo que roda à nossa volta, não são os nossos olhos que veem tudo enublado, é a realidade que é nebulosa. Não, não foi o álcool, nem o fumo do cânhamo que nos afastou da realidade, o que nos intoxicou foram os fumos dos automóveis que nos guiam, das ondas eletromagnéticas dos telemóveis que nos socializam, da worl wide web que nos ensina tudo em código binário, o código mais simples que existe e que o homem simples não entende. 

Impossível voltar à realidade. Tanto que eu gostava de voltar à realidade, reaprender a lucidez, pousar os pés na terra, cheirar o alecrim, ser como o meu avô, embora não dispensando o último livro que li, o banho de água quente, o frigorífico e um blogue de que gosto muito mas que não me lembro agora o nome - esqueço-me muito! - e um bom tinto!

Ébrio! Ou apenas um bocado arrebatado! Sem paciência para a televisão nem para os telespetadores, para os comentadores e para os comentados, para o governo e para os eleitores, para os reformados e para os empregados, para os alunos e para os professores, para os filhos e para os pais, para as crianças e para os anciãos,  para os brigadeiros e para os soldados,  para os juízes e para os julgados, para os exploradores e para os explorados, para os polícias e para os os ladrões, para os patrões e para os sindicatos, para os médicos e para os doentes, para os lúcidos e para os dementes, para os bêbados e para os que só bebem água. 
- Eu, são e lúcido? Seria o homem ideal!  


Assim, sou só um proco.. pcorco.. porco - consegui, apesar da cabra... da ciática!...
Gostava de ficar conhecido como o porco que inventou o termo "ebrionário".

terça-feira, 5 de junho de 2018

Senhores professores desmontem o senhor Costa

Diga lá outra vez senhor Costa: 600 milhões?
Nós sabemos como surgiu esse número:
- Ó pá dizemos 1000 milhões!
- Ó pá esse é um número muito elevado, da ordem das fraudes bancárias!
- Então dizemos 200 milhões!
- Isso soa a pouco, parece mais um ordenado de administrador!
- 600 milhões?
- Parece-me bem! Agora arranjem variáveis para alcançar esses resultado!

Diga lá outra vez senhor Costa: 600 milhões só este ano?
Dos 120 000 professores não chegarão a 100 mil os que estão na carreira, sendo que alguns destes estão presos em alguns escalões por questões de avaliação e existência de vagas. 

600 milhões a dividir por 100 mil, dá 6 mil euros por ano, 500 por mês! Quererá dizer portanto que os professores, se não lhe roubassem tempo de serviço, teriam em média um aumento de 500 euros por mês por subirem, em vez de um, dois escalões. Ora, como a variação entre escalões anda, em média à volta dos 160 euros ilíquidos, como o descongelamento é apenas de 25%, os 160 passam a ser só 40. Como parte é devolvido às contas públicas através de impostos, vamos falar com os poucos professores que já receberam mais algum:

- Com que então seu privilegiado, já te descongelaram o salário?
- Grande coisa, fiquei a receber mais 20 euros!

Senhor Costa: 20x12x100000 dá 24 milhões!

É claro que as minhas contas podem não ser muito rigorosas porque não disponho de dados exatos. No entanto servem para provar que a vossa mentira é grande demais para não saberem que estão a mentir. Pior ainda, sabem que o povo acredita!

Que roubem, ainda é como o outro, agora que roubem e mintam, já me parece demais.

Por isso, Senhor António Costa, da minha parte, pode até substituir o Brandão pela Maria de Lurdes: ACABOU!




domingo, 27 de maio de 2018

Lição de português

- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!

Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!

Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.


Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!

Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Serei procurado pela Brigada de Trânsito?

Ontem o meu irmão mais novo fez anos. Para assinalar o aniversário ofereceu um porco no espeto a toda a malta da Terrinha. Bebi a seiva das minhas raízes entre laços e entrelaços, entre conversas e desconversas, entre escárnios e cantigas.
Escusado será dizer que houve festa até às tantas e que às tantas dei por mim com uma "porca" de todo o tamanho.
No regresso, já perto de casa, fui mandado parar pela BT...
Num estado lastimável, saí do carro e vi três polícias a pedirem-me para soprar no balão...
Felizmente, do outro lado da estrada surge um camião que subiu a divisória, capotou e espalhou uma carrada de tijolos pela estrada. Ao verem isto os polícias começaram a correr em direcção ao sinistro e mandaram-me embora.
E eu lá peguei no carro e vim todo contente a dar graças à minha sorte.
Hoje acordei com a minha mulher a perguntar-me:
- Olha lá! O que é que faz um carro da Brigada de Trânsito na nossa garagem???!!!!

terça-feira, 22 de maio de 2018

A propósito do Sporting

Sob a influência da leitura de «Monsieur Gurdjieff», de Louis Pauwels


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O desporto - mentira máxima dos humanistas - não se destina a desenvolver a máquina e a coordenar-lhe harmoniosamente as funções mas apenas a fazer dela a máquina de competições» que sirva nas pistas e estádios + ou - olímpicos.
O desporto, no clima de alienação geral, é apenas uma fábrica de mitos com que se jugulam massas ou se estabelece competição de homem para homem, de região para região, de cidade para cidade, de país para país, de continente para continente.
O desporto é mais uma forma (uma força) de alienação, uma forma de distrair e adiar, de adiar e distrair, de tornar dóceis grandes massas humanas para os fins últimos que as potências se propõem, de as escravizar à vontade dos que (hipocritamente em nome delas) delas decidem.
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Texto completo aqui