sexta-feira, 14 de junho de 2024

Terra-mãe

Ontem visitei a minha mãe. Já não é a mesma que conheci quando eu crescia. O alpendre da avó foi com um vento, a eira do tio foi com uma enxurrada, da casa do bisavô não resta nada. E foi morrendo cada geração e ela ficou ali rapando o sol e mastigando o frio. Podia ser pior. Passa um trator com corta-mato e o tratorista acena a tudo o que mexe. A Sagrada Família ainda vai de casa em casa. Podia ser pior!... O doutor de letras restaurou a casa que herdou do pai. Isto vai! Digo que sim, respeitando quem o diz mas a minha mãe não tem a mesma alegria. Os filhos tiveram mais partidas que regressos. Vêm ver uns marcos e dar algum dinheiro para o andor. Deus Nosso Senhor lá sabe. A minha mãe tem a flor da pele marcada pela ausência das sombras das árvores que os incêndios levaram. A minha mãe tem os cabelos despenteados pelo fim dos arados que os tempos levaram. Já só a visito por ser mãe e folgo em saber que ela está para durar nem que seja só para enterrar os que vão morrendo. Outros destinos traíram-lhe o destino.

É claro que falo da minha terra-mãe que a do ventre já se foi e não viu isto. 

Dizia eu, em tempos, que quem perde as suas raízes, seca. Pois então falei a uma retro e a um camião e trouxe uma carrada de terra lá da terra e fiz um canteiro no meu quintal. Agora estou melhor! Tudo o resto são saudades e remorsos.
Eu devia ter sido pastor ou lavrador como os avós.
Mas não! Fui no engodo de que estudar é que era! Com a certeza de merda que qualquer cidade me daria mais. E olha agora, a minha terra-mãe a morrer e eu longe dela!

Toda a província padece deste mal. É bem feito em quem parte e em quem fica dizendo:
- O meu está muito bem, vive em Aveiro!
- O meu lá está para França e lá fez vida! 
- O meu neto está um homem, foi pró Dubai!
- A minha filha está tão contente desde que o filho arranjou emprego na Inglaterra!

Nas aldeias ninguém cria os filhos com projetos para que eles venham a viver nelas. Uma terra com os campos ao abandono não tem futuro. Um país que abandona as suas aldeias não tem futuro. Um Estado que fecha tudo o que é serviço público nas aldeias, não é um Estado é um bananal! Os pobres que ficaram nas aldeias a carpir por Salazar são bananas! ...Eu não sou nêspera!




terça-feira, 4 de junho de 2024

O meu companheiro da quarta classe

 


Ao longo da vida tenho reunido muitos diplomas mas só este teve direito a caixilho. Na quarta classe eu era o melhor na escola e o pior na bola e o Cuca era o melhor na bola e o pior na escola. Éramos só os dois.

Para fazer o exame, fomos os dois sozinhos, a pé, até Albergaria e apanhámos a camioneta para Pombal. Toda a gente dizia que eu ia dar um lindo padre (ia) e  fui todo o caminho a rezar ave-marias para o Cuca passar e eu não vomitar. Não me recordo mas a professora, que era da vila, devia estar à nossa espera e deve-nos ter acompanhado à escola grande onde prestámos provas. O facto de, da nossa escola, termos passado cem por cento, obrigava a professora a cumprir a promessa de nos levar ao castelo que só conhecíamos de ver ao longe. 

Para nós, poder tocar nas pedras dum castelo seria uma forma de realizarmos parte das fantasias que as imagens dos livros de História nos ofereciam.

Acontece que a professora, por estar nervosa com o período dos exames ou por outro período qualquer, disse-nos chorosa que estava com tamanha dor de barriga ou de cabeça, ou das duas coisas, que não conseguiria fazer tal passeio mas que ia pedir à mãe dela que fizesse as suas vezes.

E lá fomos os três, nós ligeiros de idade e felicidade, e a senhora a passo de bengala, ofegante mas segura no cumprimento da missão. Quem conhece sabe que o monte, subido a butes não é para qualquer idade ou condição e a pobre mulher  viu-se obrigada a desistir já se avistavam as portas:

- Os meninos vão lá que eu os amparo daqui com os olhos mas não entram que eu não os quero perder de vista!

E assim foi, chegámos à porta e meia volta. E assim continuou a minha amizade com o Cuca, volta e meia encontrávamo-nos, até que recebi a triste notícia que cinquenta por cento dos que fizeram comigo a quarta classe...

Desculpa lá, companheiro de classe, acabar a homenagem assim mas de ti irei guardar memórias de brincadeira da escola e de que eras um tipo lixado para a bola.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

 

A coisa começou a correr bem ao homem depois de 74: mais esperança, mais liberdade, menos medo, menos fiscalização, animaram a sua atividade de caixeiro viajante e os seus negócios começaram a prosperar.  

Sabia-se que, para tal sucesso, era necessário untar as mãos a guardas fiscais, republicanos e outros mais. Sabia-se que não trabalhava com letras, nem com cheques, nem com bancos. A massa viva  guardá-la-ia onde só Deus sabia mas, quando os maços começaram a ficar grossos, temendo um diabo que os levasse, começou a dar-lhes caminho fazendo anexos, muros e escadas, latadas, portões e arruamentos, valorizando assim o seu quintal, dando trabalho a alguns e vida à terra.

Pensava numa de noite e de manhã ia falar ao pedreiro e a uns jovens estudantes que gostavam de ganhar algum e... mãos à obra. A mim, talvez por me achar um trinca-espinhas, por me ter por contestatário ou por não engraçar comigo, nunca me falou para fazer nada. 

Sem nada para fazer, peguei na motorizada para dar uma volta e parei para apreciar os trabalhos e dar um ponto de conversa aos meus amigos. O muro estava praticamente acabado e, como alguns dos serventes já andassem de mãos penduradas e houvesse sobras de blocos, deu-lhes o homem o trabalho de fazerem mais duas fiadas sem cimento - pelo menos ficavam arrumados.

 - Ó homem, com a massa fresca e esse peso em cima não tarda muito isso desaba tudo!

- Rapaz, eu não te falei porque já sabia que és uma caga-agoiros, some-te daqui antes que leves uma pazada! 

Não tardou nada, o muro tombou e eu vi-me obrigado a rir. Antes que o homem descarregasse em mim a sua ira, sorte a minha, pára o jipe da GNR e foi com eles que ele desabafou do seu azar, enquanto a malta olhava para o bonito serviço e eu me dirigia para junto da minha motorizada. 

Entretanto aproximou-se de mim um guarda e perguntou-me pelos documentos e pelo capacete.

- Mas a mota está parada, o senhor não sabe nem se é minha nem se eu me desloco nela!

- Sou testemunha que a mota é dele e que ele aqui chegou nela sem capacete!  

Para acelerar a alhada que se estava a desenrolar, o filho do homem, que havia ido ao café buscar umas cervejas para o pessoal, chega a acelerar na sua Zundap e, para animar a história, também não trazia capacete. 

Bem podia eu animar ainda mais a história,  prolongar o texto com discussões fictícias mas a verdade é que, traído pela memória, pela imaginação, pelo jeito ou pela vontade, por mais voltas que dê pela tecleta (palavra criada agora mesmo da composição de teclado com caneta), não consigo desembaraçar-me da incoerência e chegar com pés e cabeça à frase final que tinha pensado:

- Não há gatos polícias.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Não gosto da vossa europa

- Eu queria uma Europa que não se armasse, que não desviasse a água do meu milho e que não me obrigasse, depois, a fazer guarda à eira.

Parece que ouço a minha mãe a dizer isto antes disto acontecer, antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga, quando eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo mê ti Sicrano, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do mê ti Sicrano - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!
Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.
Banho-me nesta infância, olho os senhores da europa e concluo: não sabem nada, andam todos à nora!

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Que os coletes verdes os salvem

 


Hoje em dia, o colete verde está para os peregrinos de Fátima como o colete encarnado está para os campinos.

Ir a Fátima a pé é uma nova forma de religiosidade que, na Fé do crente, redime o absentismo pelas práticas tradicionais do ir à missa ao Domingo e à confissão, por outras palavras, de andar à volta das saias do padre.

Fátima, à volta da Imagem da Senhora, tem-se “vaticanizado” e transformado numa sucursal da Praça de S.Pedro onde os leigos, cada vez mais pecadores, se ajoelham aos gestos do secular clero. Mas os padres de Fátima nunca foram bons anfitriões do peregrino pedestre e a hotelaria local nunca lhe suportou o chulé, embora, ambas as partes, os tolerem porque os reconheçam como um dos dentes da chave do negócio.

Vêm estes parágrafos, aparentemente inconsequentes, à razão, pelas razões que me atravessam a revolta quando vejo tanta gente caminhar perigosamente pelas estradas, respeitosamente por Fé, incompreensivelmente sem a devida atenção ou consideração pela parte das autoridades religiosas ou civis. Todo o apoio que encontram pelo caminho, nasce da iniciativa de organizações ou movimentos que nada têm a ver com os cofres ou com os lucros com que o negócio-milagre tão bem se alimenta.

Reconhece-se que o peregrino de Fátima, português, caminha, antes de mais nada, por penitência, que dispensa o conforto e tem Fé que do perigo a Sua Senhora o livrará. Mas não seria a altura, agora que a indumentária refletora esconde o Portugal pobre do século XX, dos chefes da Igreja e da governança terem uma pequena consideração por esta gente?!

Sensibilização seguida de encaminhamento para caminhos e trilhos que os desviassem do asfalto sem bermas, mapeamento de parques e albergues que lhes permitissem dignas paragens e, se mais não fosse, apenas isto: um parque de campismo e balneários na pequena cidade-fenómeno. Mas não, a Igreja reverteu todas as esmolas para a maior obra de culto que se fez em Portugal desde o Convento de Mafra: a nova Basílica. Não foi feita para o “pé de ténis chineses” de quem chega a pé, foi feita para os japoneses, brasileiros e portugueses que vêm com os pés limpos das alcatifas dos modernos meios de transporte e que melhor servem os  interesses do turismo religioso.

Nestes dias, entre os automóveis viram-se muitas tendas e coberturas de plástico. Ao menos um parque de campismo em Fátima! Nunca ninguém se lembrou!? É de bradar ao Céu!...

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Mães

Onde as mães se metem a História realiza-se.
As mães da Praça de Maio.
As mães de Kiev.
As mães do Terceiro Reich.
As mães de Gaza.
As mães de Bragança.
As mães de Abril.

Quando as mães nos chamam é para dar.
As mães, dão livros, filmes e à luz.
As mães dão orfãos, soldados e poetas.
As mães dão tudo de todo o coração.
As mães são assim.
As mães são menos que os filhos.
As mães são muitas.

Mãe há só uma e todos tiveram mãe.
As mães dos filhos da puta.
As mães dos meus amigos.
As mães das vítimas.
As mães dos recém nascidos.
As mães das mães.
As mães que morrem.

Numa noite de natal fiz uma mãe.
A mãe de Gorki.
A mãe pátria.
A mãe de todas as bombas.
A Mãe de Deus.
A mãe dele.
A minha mãe.

- Mãe! Oh Mãe!...

sábado, 4 de maio de 2024

Abdul Nawaf tem 12 anos e deixou de falar.

Abdul Nawaf, 12 anos, vivia com três primos num abrigo, entre ruínas, na cidade de Rafah. Há alguns meses que nenhum deles se afastava mais de cem metros do “lar”. Resistiam física e psicologicamente a cada dia, inventavam, naquele círculo, a sua sobrevivência e a sua razão de existir. Tinham receios mas não medos. Aliás, tinham medo de sair dali porque sentiam e pressentiam os acontecimentos da sua terra em guerra. Um estrondo daqui, um grito dacolá, a proximidade do ruído de um carro de combate, ao longe um vulto de arma içada, um avião israelita rasgando o céu, um cão farejando nas ruínas próximas, um gato morto…

Um dia Abdul Nawaf, fez-se às ruas transformando todos os medos em receios, e foi verificando como a cidade era feita de abrigos iguais aos seus, como eram iguais os métodos de sobrevivência dos seus semelhantes e como continuava igual a sua razão de existir. À medida que ia caminhando, ia perdendo a identidade, ia sentindo que não valia a pena viver em lado algum mas, pior que isso, que também não valia a pena morrer. Encontrou um meio-termo, deixou de falar. Continuou deambulando, entretido a observar os outros, evitando despertar olhares e foi neste passo que o narrador, que fazia a cobertura daquelas existências, lhe perdeu o rasto …

Como todos os narradores ele era incógnito e, morreu de romance ao meio, por não conseguir voltar a alimentar-se de Abdul Nawaf.

Quando os outros narradores voltarem à terra assassinada, já os jornalistas que, cá longe e em terra firme, operam as máquinas da opinião pública de cada dia, hão de ter cozinhado e servido a História que servirá aos vencedores. E nós, mais uma vez, ficaremos mais cultos quando virmos uma fita de cinema dessa guerra, bem narrada mas sem cheiro e abriremos as torneiras para os "macrons" lavarem as suas mãos.

(Quem está convencido que pertence a um povo escolhido por Deus, nunca conseguirá respeitar os outros povos como iguais.)



quarta-feira, 1 de maio de 2024

A morte saiu à rua

Singular, foi um homem singular. 

(Vou ter de me equilibrar evitando as três pessoas do singular, os egos de "eu",  lamechas de "tu" ou referindo-me a "ele").

Ele foi conhecido como militante do Partido Comunista Português. Tu foste um natural de Lisboa apaixonado por Ourém. Eu experimentei o sabor da tua amizade e vivi o interior desse triângulo em que tantos te reconhecerão: Amigo, Ourém, Partido.  

Sei que o coletivo fez e fará proveito da sua militância, do seu conhecimento e do seu legado político. Mais tarde ou mais cedo, a sua terra terá de engolir o preconceito e realizar atos de reconhecimento que não lhe fez em vida. Resta-me, portanto, dar testemunho daquilo que tantos receberam dele, a capacidade extraordinária de criar e alimentar a amizade.

Ele tinha idade para ser meu pai, mas nunca mostrou qualquer gesto de paternalismo. Pelo contrário, às vezes as coisas descambavam para a brincadeira e eu tinha a sensação de estar a conviver com um amigo da escola. 

- Vamos lanchar?

- Então telefono para  casa a dizer que não vou jantar! 

Dar a volta a todos os temas e assuntos, pôr a conversa em dia até chegar ao pleno da amizade plena: o tempo do silêncio com cada um a olhar para o seu lado, a mastigar as ideias ou as iscas. E à quinta:

- Este tipo que te veio cumprimentar é teu amigo?

- Conhecemo-nos, mas nunca bebi quatro imperiais com ele!

- Adotei também esse mínimo como critério de amizade.  Aprendi tanto contigo pá! Até a ser amigo!...

E depois, chega-se agora ao fim e tem-se a agradável sensação de não se estar só, de serem tantos os que passaram para além das quatro. Tantos os que conviveram com um "homem-centro-cultural",  que tiveram que responder à proposta  "temos de fazer coisas, pá", que sentiram nos ombros a palmada de incentivo " está porreiro aquilo que fizeste, pá" ,  que ouviram a referência a terceiros na forma "é um tipo extraordinário", que presenciaram o respeito pelo limite das idiossincrasias (um termo que usava). 

E, no entanto, ele cuidava de cada amizade com particular dedicação. Há três semanas, abraçou-me as mãos dizendo-me "gosto muito de vocês", trazendo para o afago a célula familiar.

- Falaste-me do provável caminho da demência e que já não te despertava interesse, nem a novela nacional, nem a situação internacional. Percebi que estava a viver uma despedida. Aquilo com que frequentemente enquadravas os milímetros da nossa existência nos quilómetros da História, era representado na tua fragilidade. A tua humanidade vai ter de dar-te mais uns milímetros, vamos recordar-te ainda por uns tempos Zeferino:

- Disseram em toda a parte o Sérgio morreu.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Vá, façam vocês em novembro!

Gosto de estar à beira mar sentado a observar, uma a uma, as pessoas a passar, de lhes medir os corpos, de lhes julgar o andar, de lhes estudar expressões e de especular acerca de quem são e de onde são.

Nada que não se possa fazer numa paragem de descanso de desfile de manifestação aos Restauradores. E estava eu ali sozinho nesse entretém quando uma senhora de 80 anos upa lá, de mala de senhora pela curva do braço, de vestuário bem encaixado na idade, muito mais baixa que eu, que não sou alto por aí além, encostou a sua isolação à minha e estendeu-me unicamente estas palavras, assim sem mais nem menos, sem boa tarde, sem adeus, ou quem és tu: 

- Eu nunca vi tanta gente em toda a minha vida! Ui Jesus, o povo que para aí vai! Venho lá de cima do Marquês e vem gente de todas as ruas, a Avenida é uma enchente, aqui é o que se vê! Credo Santo nome de Deus! Em toda a minha vida nunca vi tanta gente! 

E dito isto seguiu, de passos pequenos mas frequentes, para o Rossio. Não faço ideia de onde vinha, para onde ia ou porque estava ali. Nem sequer interessa se era manifestante, transeunte, se ia para sua casa que era logo ali, se dava a sua volta habitual ou se ia apanhar a camioneta para o Samouco. O que fiquei foi muito contente de ter visto aquela senhora entre tanta gente e de entre tanta gente ela me ter visto a mim e de ambos termos visto tanta gente como uma senhora nunca viu em 80 anos.

 




sexta-feira, 19 de abril de 2024

Tratem-me da saúde

A minha carteira tem cartão de condução, cartão do contribuinte,  cartão de eleitor, cartão do cidadão,  cartão de residente, cartão do banco, cartão de desconto, cartão de cliente, cartão de ponto, cartão de juventude, cartão do sindicato, cartão da associação, cartão do clube, cartão de utente, cartão de saúde!...

Enfim, sou tanta coisa e a minha identidade esta a rejeitar todos os cartões.

Sei bem onde tenho a carteira, desta vez não a perdi, ela é que me perdeu. Procuro-me e não me encontro! Já corri a estante, o quintal, os montes e vales das redondezas, a casa da Mariquinhas e, nada, não há sinais de mim! Se por acaso alguém encontrar um indivíduo com cara de mau e despenteado, desnorteado e sem centro, com ar desempregado, com carteira, sem cartões, sem saúde mental e sem dinheiro, devo ser eu. Nesse caso, é favor contactar-me através do número de telefone: 249001974.

Sem saber do meu paradeiro, dirigi-me ao Centro de Saúde. Achei muito estranho, estava tudo mudado, o balcão de atendimento, outros funcionários, etiquetas com preços por todo o lado... e atendeu-me uma senhora com um estranho soutien.

- Olhe minha senhora, eu concordo inteiramente com o princípio do utilizador-pagador, se você fumou e contraiu cancro, se comeu muito toucinho e teve um à você, se andava na azeitona e caiu de uma oliveira, porque diabo hão de os saudáveis pagar os seus descuidos!?  Um país não pode hipotecar a sua economia na prestação de serviços de saúde a quem não se cuida ou no prolongamento da vida de quem já nada pode dar à sociedade! Mas o meu caso é diferente, eu não estou doente por culpa própria! Foram os governos e as suas sociedades anónimas que me trataram da saúde e da identidade! Agora exijo que me informem do meu paradeiro, que me localizem, que identifiquem a minha situação, que me deixem viver sem cartões e que me atribuam um subsídio para a substituição das fitas coloridas do guiador da minha bicicleta!

- O sinhô é uma meda! Não pechebe nada! Isto  já não é um centlo de saúde! É uma loja de chineses!

- Ah é!? Se eu sou uma meda porque é que me comem todos os dias!? Querem cartões?!Querem identidades?! Para mim não existem chineses, nem pretos, nem brancos, nem teslas, nem bicicletas! Existem apenas porcos e suinicultores!

E, dito isto, num impulso de rara lucidez, peguei num monte de cartões de embalagens que estavam atados à entrada do edifício e fugi com eles em cima do guiador da minha bicicleta.

Já estou melhor, vendi os cartões, fiz algum dinheiro e pu-lo na carteira. Recuperei a identidade e a sanidade. Peço desculpa pela banalidade do texto, termina aqui. Tenho mais que fazer, vou às bombas beber um café, comprar tabaco e abastecer a bicicleta.

(Quem nunca viu um porco a andar de bicicleta?)


quinta-feira, 11 de abril de 2024

Antipático o raio que os parta!

O fotógrafo rabeava à minha volta no pequeno estúdio, dando jeitos em tripés, projetores e na minha pessoa: gola, cabelo, cabeça, ombros e o raio que o parta, nunca mais estava tudo bem.  E, na hora do passarinho, nem ele, nem a minha mãe, me conseguiram arrancar a expressão da lei: uma pessoa para ficar bem na fotografia tem de arreganhar.

Foi assim e assim continuou a ser em todas, conforme testemunha um quadro que tenho na sala com cartões de identidade da juventude: de estudante, da JCP, de militar, de sócio da ARCA, passageiro da CP, condutor de velocípedes e músico de cabaré.

Sou, portanto, um fulano sisudo, carrancudo, incapaz de responder com uma gargalhada a uma boa anedota, que só mostra os dentes se tirar a prótese.

A minha primeira foto tipo passe foi para tratar da documentação da matrícula no ensino preparatório. A minha mãe lá foi toda contente, comigo de má cara ao lado dela, e só voltou a dar um passo pelos meus estudos quando foi com o meu pai a Coimbra carregar o carro com as minhas gabardinas e sebentas. Foi então que me fez a pergunta: “Filho, que curso é que tiraste que as pessoas perguntam-me e eu não sei dizer?”.

E o meu pai virou-se para ela, apontou para mim e observou contente:

- Mulher, afinal ele ri! 

Já com o canudo, tentei candidatar-me a tudo e quando candidato à Junta da minha freguesia, ao fim de horas de sujeição à tortura fotográfica, nem um dente brilhou na objetiva, pelo que os responsáveis da lista desistiram de mim com o objetivo de não afastar os eleitores. 

Na verdade eu rio-me muito por dentro, a maior parte das vezes de mim próprio e nunca me conformei pelo facto de tanta vezes me dizerem, com descarada simpatia, que sou um mal-encarado. Também já me aconteceu rir com amizades novas que me revelam: enganaste-me bem, afinal és um monstro de simpatia.

A verdade é que o atributo de ter cara de poucos amigos, prejudicou de tal modo a minha carreira e a minha vida, a ponto de me ir reformar na mesma classificação em que comecei, cepa torta e de, com esta bonita idade, ainda não ter passado do primeiro casamento.

Na verdade… a verdade… mirando a foto e o espelho… eu era e sou bonito!

sexta-feira, 5 de abril de 2024

2ª feira da páscoa

 Lembro-me de, pixote, me interrogar do porquê de na minha aldeia, a Páscoa ser festejada na segunda-feira e concluir, infantilmente, que tal se devia às dificuldades de comunicação do princípio da Era que só permitiram que a notícia da Ressurreição chegasse no dia seguinte a lugar tão remoto.

Lembro-me de, pequenote, acordar todos os anos, nesse dia, com o ribombar da alvorada e levantar-me excitadíssimo com o entusiasmo de quem vai viver a data principal do almanaque do lugar.

Lembro-me de, já crescidote, tomar consciência de que a festa era diferente porque não metia padres e de ouvir a história da família excomungada porque permitiu que bailassem na sua eira.

Lembro-me de, rapazote, se ter de render favores ao mais rico para que ele cedesse a garagem para o baile.

Lembro-me de ir crescendo e vivendo com conterrâneos e contemporâneos num quotidiano em que era omnipresente o horizonte que iríamos atingir na próxima segunda-feira da Páscoa.

Lembro-me da festa começar a dar dinheiro e, como não é terra de santos nem os santos da terra vão com contas de vigários, se decidir que na terça-feira se esbanjaria em borlas de sardinha, broa, vinho, foguetes e concertinas, o líquido dos lucros da segunda.

Lembro-me de ganhar rédea a pisar povoações vizinhas e, ao dizer de onde era, se fazer conversa sobre uma festa única que qualquer amigo da folia conhecia.

 Que seja memória de todos que as Merendeiras ganharam fôlego de Festas com o 25 de abril. Com o 25 de abril nasceram coisas novas: esperança, força, união, povo, festa. Que tempos lindos esses, em que ainda mal se ouvia falar de futebol feminino e as festas da Cartaria começaram a ser animadas pelo jogo de futebol solteiras-casadas.



segunda-feira, 1 de abril de 2024

Deus está em todo lado, eu estou em alguns.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Cruzes canhoto que o mundo está tão triste que o melhor é rir.

O Evaristo, fabricante de pregos, falou com uma agência de publicidade para fazer um cartaz que aumentasse as suas vendas. E levou uma sugestão:

- Os senhores podem fazer um desenho com o Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, ilustrado com a frase: "Pregos Evaristo, os melhores há mais de dois mil anos!".
- Meu caro Evaristo, não acha que isso pode ser um pouco ofensivo para os cristãos? Não arranja outra ideia?

- Deixem-me pensar. Então e se for o Cristo caído junto à cruz com a frase: " Se tivessem usado pregos Evaristo, não tinha acontecido nada disto"?

- Evaristo, as mensagens publicitárias devem demonstrar entusiasmo e não tragédia ou derrotismo...

- Então... que tal um Cristo a correr para a cruz com a frase: " Com pregos Evaristo não há Cristo que resista!".

Não brinques com isso! Digo então:

Tanta celebração, tanta compaixão, tanto sofrimento por um homem que foi crucificado há dois mil  anos. E no mesmo tempo, tanto fechar de olhos, tanta cumplicidade, tanta normalidade em ver os homens e mulheres  que, nos dias de hoje, são vítimas das mais variadas formas de crucificação.

Isto já para não falar dos crucificados, embora com anestesia, com as inevitabilidades do capitalismo cristão e com a indiscutível legitimidade das democracias  panfletárias.

E assim se pousa sobre o peito a mão crente e se levanta a outra em saudação fascista, ao mesmo tempo que se finge ignorar que Jesus Cristo era palestino e não sionista.

quinta-feira, 28 de março de 2024

A última ceia

 


A última ceia só com pão e vinho?! Alguém aceita ou acredita que o petisco tenha sido sopas de cavalo cansado?! Não! Segundo o estudo de uma universidade norte-americana, basta dizer que é norte-americana para ser fidedigna, chegou-se à conclusão que comeram leitão. A investigação baseou-se na observação deste quadro descoberto num templo inca do princípio da era cristã.