segunda-feira, 4 de maio de 2026

Novo livro

“Sendo – quase ­– certo que nunca irá ganhar o primeiro prémio do euromilhões, viva ao menos essa experiência, lendo a incrível história dum casal que a viveu”

Eh pá! Desculpem lá aproveitar este meio para este assunto mas para um autor-menor ser lido vale tudo!

Publiquei mais um livro e quantos mais despachar melhor! 

Mensagem privada com a vossa morada. Todas as semanas vou ao correio despachar as encomendas, dão-me nove em vez de oito e recebem em casa "A incrível história do casal que ganhou o euromilhões".

Ou então na FNAC online ou na Bookmundo online conforme ligações no primeiro comentário.  

A sinopse reza assim:

"Francisca e Jacinto levam uma vida simples em Vale dos Ovos até descobrirem que ganharam o Euromilhões. A fortuna, porém, não lhes traz paz: pesa-lhes o segredo que decidem guardar para proteger a tranquilidade e evitar a cobiça alheia.

Forçados a abandonar o trabalho e a lidar com o vazio da ociosidade, veem-se obrigados a inventar desculpas para explicar o novo conforto financeiro e a construir uma teia de mentiras que, pouco a pouco, se torna o seu principal entretenimento.

No quotidiano em que se escondem, começam a questionar quem são e quem podem fingir ser. A riqueza expõe tensões, desperta consciências e mostra-lhes que o dinheiro não traz felicidade automática, mas oferece a liberdade – e a tentação – de reinventar a própria identidade.

A história transforma-se numa sátira social sobre inveja, classe e o preço absurdo de tentar viver como pobre quando se está podre de rico."




sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pinheira

Chamam-me  poeta por eu chorar pequenas coisas e guardar luto de pequenas mortes. Mas ela não era uma árvore qualquer e deixou um vazio no meu  jardim e, assim sendo, também em mim. Após quarenta dias de exéquias, só hoje foi a enterrar, estando presentes, além do cangalheiro, eu e o meu vizinho Zé Luís. Tínhamos um projeto de fazer uma varanda no alto dos seus ramos principais para aí beber uns copos quando chegássemos à reforma.

Correu tudo mal, além da Pinheira falecer, o vinho acabou e médico assegurou-nos vamos morrer, só não sabe é quando. No dia 1 de janeiro de 2026 a pinheira deixou cair uma pinha a meu lado que me assustou. Roguei uma praga. Não durou um mês. Que vos sirva de aviso!

Dia do pai

Num 19 de Março, há muitos anos, a minha irmã ofereceu ao pai nosso um ramo de flores. Ele conformou-se com o facto de ela ter rompido com a prática anticonsumista seguida lá em casa e com preceito social de não se oferecerem flores a homens.

Durante o jantar, o acontecimento foi tema de conversa e, como nunca foi família de segredos no que toca a gastos e receitas, o preço do arranjo entornou-se na mesa como um copo de vinho. O pai nosso, surpreendido pelo valor da despesa, deixou escapar, sem ofensa:
- Por esse preço, bem que me podias ter oferecido um garrafão de tinto!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Um gesto solidário

Eu queria ser marinheiro. Depois de ter chumbado na admissão à Escola Náutica e à  Escola Naval, concorri à Marinha de Guerra. As provas foram na Base do Alfeite e, logo de manhã, fizémos análises clínicas. 

E estava eu com uma mão na coisa e outra no frasco, sem conseguir deitar pingo, quando aportou no urinol do lado um marinheiro raso e de farda encardida. Apercebendo-se que eu estava em dificuldades, atirou-me com jactância:

- Não consegues?

- ...

- Dá cá!... (Tcheeeeeee!) .... Toma lá!

 Nunca esquecerei o gesto solidário do soldado desconhecido num momento de inversa, ou perversa, aflição.

Chumbei nos testes por alegadamente ser daltónico. Explicaram-me que era um grau leve mas que, por exemplo, me poderia impedir de não distinguir ao longe se um navio era nosso ou do inimigo.

E eu que pensava que todos os barcos de guerra eram pardos e que iria ser eliminado pelos testes à urina.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A árvore mais amada

Não, não era só uma árvore grande que fazia sombra ao pequeno terraço onde acomodamos almoços, sestas e visitas. Era também a casa do casal de rolas que nos punha a cantar, uma paragem na rota do esquilo que nos visitava regularmente, um espaço de aventura para os homens de Ponte de Sor que todos os anos vinham colher as pinhas, a mãe-árvore do nosso jardim livre e selvagem. E, no entanto, nunca lhe demos nome, era apenas a Pinheira, sombra, verde e tema de tantas conversas feitas à volta de mesa onde já se comeram tantas azeitonas e se abriram ao mundo algumas garrafas.

A árvore da família, a árvore da nossa vida, uma árvore de companhia, uma árvore de estimação, uma árvore por quem se tem amor, uma árvore nascida antes de nós e que era para deixarmos aos vindouros, uma árvore de quem se chora a morte.

Espreitei a medo por entre as persianas para ver a dança do vento, via-a a abanar o  tronco, os braços e a copa e pensei para comigo: "abana mas não cai!"

Mas caiu. Nesse momento exacto, cinco e vinte da madrugada, como se algum deus quisesse desfazer as minhas certezas, tombou sobre o leito da terra firme e fria. 

Foi chorada! Apenas as lágrimas necessárias e suficientes que soltamos quando num segundo desfazemos o automóvel num acidente, vemos o velho gato morrer atropelado ou uma pessoa que amamos nos diz: acabou! 

Um dia, sete motoserras e sete bocas para um almoço no terraço, tranformaram-na em lenha para ser queimada. Agora, há que remover a enorme raiz para plantar outra no vazio que foi deixado.

Se está aqui alguém que alguma vez chorou a morte duma árvore, erga o punho.





terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Declaração de voto

Amigos que se contam pelos dedos de uma mão, por quem o telefone toca e apenas para conversas que não se têm com mais ninguém. Às vezes por coisas que ninguém liga como:

- Estou a ligar-te para saber em quem vais votar nas presidencias.

Não coincidimos no sentido de voto, mas alongámos essa reflexão para muito mais além, para outras dimensões, sem que a divergência pudesse perturbar a nossa relação intelectual e, muito menos, a da antiga amizade de convergências, cumplicidades e noites brancas. 

Entretanto, fora da regularidade esperada, a surpresa duma nova chamada:

- Ainda não fez um mês que falámos? Questões de amor ou dinheiro, não são certamente e não és daqueles que pega no telefone por toma lá-dá-cá um bom  Natal. 

- Espero que estejas bem! Estou a ligar-te para te informar que alterei a minha intenção de voto: vou votar no António Filipe!

- Até que enfim! Estava a ver que não chegavas lá!

O diálogo continuou e caiu, sem propósito, nas falas abertas pelos próximos travessões. Relatar a abordagem do assunto por escrito, pode tocar de modo desajeitado o perfil do candidato e trair uma certa forma de estar na política, mas não tenho por feitio fazer a centrifugação das ideias quando comunico pelo que, resultante do distanciamento da figura pública do António Filipe, a pergunta surgiu naturalmente fria e banal:

- Sabes que lhe morreu a mulher já depois de ser pública a sua candidatura?

- Não acredito! Ou melhor, se tu o dizes acredito! Porque não foi notícia? Se tivesse acontecido com qualquer outro candidato teria preenchido manchetes e abertura de telejornais! 

- O que deve ser motivo de reflexão é o carácter duma candidatura que não deixa espaço para que essa vivência perturbe uma campanha pessoal para um eleição! 

Na verdade, não me importa que esta crónica encerre numa contradição. A realidade foi: estive ao telefone com um amigo que me ligou para dizer que ia votar no António Filipe porque sabia que eu conhecia melhor o António Filipe do que ele. Os factos são: o António Filipe vai ter mais um voto do que eu esperava. A conclusão é: isto vai meus amigos, isto vai!



domingo, 21 de dezembro de 2025

Roubaram-nos uma refeição por dia

Quando a nossa classe trabalhava de sol a sol, tomava o café, o pequeno almoço ou nada, antes de partir para mais uma jornada. Por volta das dez, ou se ia buscar força na bucha que se levava ou o bom patrão dava o almoço para o trabalho render. A mesma conversa para o jantar do meio do dia. Foi nesta vida que sempre ouvi a minha mãe dizer "tenho de ir fazer o jantar para ires levar ao pai". À tarde era o "vamos comer a merenda" e à noite o "quando o  pai chegar a ceia já está fria". 

Mudam-se os tempos, os termos e a vida, os patrões transformaram-se em empresários, os trabalhadores colaboram e chegam ao emprego com a barriga cheia, o almoço roubou o lugar ao jantar, a  merenda é lanche rápido, "jantem à noite e esqueçam a ceia", os empresários não têm de sustentar colaboradores, dão o subsídio de refeição porque a lei obriga ou senhas de alimentação para contornar a lei.

Em conclusão roubaram-nos a ceia e, em protesto, eu não participo em qualquer jantar de Natal. Sem faca, só com garfo, o prato nos joelhos, não lhe chamo lareira, o lume é a minha televisão.

Conservador eu? Porrinha! Escrevi este texto no iPad!

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Bom Natal! Estão contentes?

- Temos de fazer o presépio!... Temos de fazer o presépio!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!... Se vem alguém a casa!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!...

- Se o queres, fá-lo tu!
- Eu vou pôr a roupa na máquina e limpar a casa de banho!...
- Podes ir às compras que eu trato disso tudo!

(E isto já foi há 8 anos. Não é hoje que vou lavar roupa suja, e há um jarro que se enche no chuveiro e que substitui o autoclismo há 8 natais.
Estamos orgulhosos: inventámos um novo conceito de presépio, em que as figuras se movimentam pela casa - e somos nós. Temos a Nossa, o São, o Menino; a vaca e o burro sou eu. Além de burro, sou também rei, anjo, estrela, algodão, frio, pastor, ovelha - sou tudo eu. E a árvore é o grande carvalho do nosso quintal, para onde mando toda a gente que me chateia a cabeça.)




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Uma ideia de prenda

O Natal dos nossos tempos cumpre-se com prendas. Quantos não vivem, nesta época, angústias por não saberem o que oferecer a determinadas pessoas? Mas que prenda é que eu vou dar a esta pessoa? Depois, o problema é que é difícil resistir à aparente inevitabilidade de ir ao centro comercial e engordar, com as nossas compras, o grande e insaciável “natal-capital”.

Por acaso, eu não tenho esses problemas. Para mim, prendas são garrafão de vinho, garrafão de azeite ou garrafão de literatura, adquiridos obrigatoriamente em mercados tradicionais ou paralelos.
O vinho e o azeite podem fazer mal à saúde; os livros, não.

Para mim, se não me oferecerem um livro, comprarem-me um ou dois já seria uma bela prenda.
Enviem-me a morada e ele vos chegará. Campanha de Natal — 10 euros a peça, incluindo portes.

Ou então compre na FNAC - online.







sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Nem todas as drogas são iguais


Toda a estratégia que países como Portugal têm seguido no combate à droga é um fracasso, porque nasce da ignorância e do preconceito, porque se apoia no desconhecimento e na arrogância, porque idealiza a vitória mas nunca o acordo, porque se dirige aos números e não às pessoas, porque privilegia a proibição e não a liberdade.

Não admira, portanto, que o Portugal da Europa dos “durões” e dos “costas” embarque nos porta-aviões com que os “guaidós” ameaçam de morte os bolivarianos, deixando para trás o direito internacional que tanto os escandaliza noutras fronteiras. O problema da droga, afinal, são os “maduros” que cavalgam os moinhos de vento de D. Quixote e o Sancho Pança que vende boliscos de burro.

Trago há muitos anos na memória esta história persa, que talvez nos ajude a pensar em não complicar o que é simples:

“Três homens intoxicados — respetivamente pelo álcool, pela heroína e pelo haxixe — chegam, durante a noite, às portas fechadas de uma cidade.
O alcoólico, tomado de raiva, grita: ‘Deitemos a porta abaixo. As nossas espadas conseguem fazê-lo sem dificuldade.’
‘Não’, responde o heroinómano. ‘Instalemo-nos aqui fora, descansamos até de manhã e logo veremos.’
O consumidor de haxixe, por sua vez, declara: ‘Que ideia mais absurda! Passemos todos pelo buraco da fechadura.’”

Não vou beber aguardente, não vou snifar, não vou fumar; quero só um copo de água. Estou cheio de sede: passei a tarde inteira a tomar banho na barragem, regressei a casa pelos cabos de energia e agora estou dentro da lâmpada da cozinha, sem conseguir sair. Alguém poderia concluir que bebi água demais, mas a verdade é que estou seco como um deserto e não sei o caminho para o interface entre a canalização elétrica e a canalização de água, para chegar ao lava-loiça e encher um copo. Vou partir a lâmpada, beber um copo de água e depois descansar — que é o que faço todos os dias. Será que ando drogado!?

Valha-me Santo Augusto Santo Silva! Tirem as mãos da Venezuela e enrolem um charro!


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Querem acabar de vez com a segurança social

Quando não sei do telemóvel tenho uma técnica original e quase infalível que passo a revelar: pego noutro telemóvel cá da casa, ligo para o meu e pelo som consigo-o localizar. Normalmente ele revela-se em sítios normais como o bolso das calças, em cima do comando da televisão, ou até na minha mão. Mas também já aconteceu estar na gaveta das meias, na caixa dos estores da janela da cozinha e no sítio mais inesperado como na mesinha de cabeceira do quarto da vizinha. E ela, cínica, a bater à minha porta, a troçar do meu espanto:

- Mas como é que raio é que ele foi aparecer em sua casa se a senhora é nove um?!
- Deixe lá vizinho, se fosse o da sua esposa era mau sinal!
Ainda bem que a minha mulher não ouviu esta conversa, caso contrário teria ouvido mais uma discussão típica entre as duas:
- Cala-te que a tua gata é uma cabra!
- E a tua cabra é outra!
Mas quando me desaparecem os óculos, é que é o delas! Além de não dar para utilizar uma técnica, inteligente como esta, tenho dificuldade em vê-los sem os ter. 

Se, comprovadamente, estes desaparecimentos domésticos são sintomas de perda progressiva das minhas faculdades mentais, qual será a relação, que não encontro, entre os mesmos e a segurança social? É verdade que a segurança social participa no custo dos óculos e nos telemóveis não. Mas não deve ter sido por isso que me pus a escrever este texto...

Baixar a TSU, o IRC, a derrama e mais não sei o quê, oferecer pelo Natal um saco laboral e ainda sacar de mais uma aumento automático - agora são automáticos!!! - da idade da reforma, é o quê?  
 
Esta gentinha da esquerda da direita, da direita direita e da direita da direita não brinca com a segurança social, o serviço social ou o estado social, brinca com a nossa saúde mental!

A minha mulher diz: 
- Despareceram-te os óculos?! Ainda bem! Que assim não te vejo!

O meu vizinho, socialista e social democrata em alternância, diz que a segurança social vai acabar.

O filho do meu vizinho, que compra a roupa no pronto a vestir da classe liberal, diz que todo o serviço nacional que não dá lucro deve ser privatizado.

A minha vizinha, da direita coisa, diz que a Igreja assegura o Estado Social pela caridade e que deviam fazer com os contracetivos o que fizeram com o tabaco - impostos para cima! 

Mas está tudo doido?! 
Acham normal o telemóvel dum tipo aparecer na mesinha de cabeceira da   vizinha e a minha mulher não ter visto que eu tenho os óculos na cara, coisa que me apercebi agora mesmo?!

Acham normal que o analfabeto que foi meu companheiro de carteira da segunda classe se esteja nas tintas para a minha reforma, para a assistência social da minha tia ou para o tratamento da minha doença mental? E no final ainda tenha a coragem de me dizer que votou no André Ventura?!

Ontem fui informado que ultrapassei a idade da reforma e, como não a pedi na devida altura, já não tenho direito a ela! Eu tenho culpa de ter enlouquecido? 
Mas está tudo doido?!




sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Prefácio

O destino, caprichoso como é, decidiu mudar a vida de um casal simples, habituado ao pão contado e à vida discreta: ofereceu-lhes aquilo que muitos sonham e quase ninguém alcança – o primeiro prémio do Euromilhões.

O que poderia ser apenas uma história de riqueza fácil e ostentação transforma-se num conturbado enredo de segredos, lorotas e dissimulações. Cada justificação, cada meia palavra, cada aparência mantida é parte de um jogo delicado, em que a ganância alheia é sempre uma ameaça à espreita. Os protagonistas vão descobrindo que não é fácil ser rico às escondidas, ao mesmo tempo que vão mostrando que, por vezes, a maior riqueza não está nos números que brilham num talão premiado, mas na capacidade de reinventar a vida sem deixar rasto.

Este livro não é apenas a crónica de uma sorte improvável: é um retrato da condição humana, das máscaras que vestimos para proteger o que nos pertence, e das ironias que se podem esconder no diário de pessoas do nosso convívio. Um convite ao leitor para espreitar, com cumplicidade, os bastidores de uma vida dupla – simples por fora, literalmente rica por dentro.

Transformador Generativo Pré-treinado

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Ninguém me liga

 Ninguém me liga nada. Nem uma chamada, nem uma mensagem de SMS, no MSN,  no uótessape ou somente um láique na foto do prato de lentilhas que publiquei no feicebuque

Estou somente eu, olhando uma caixinha com um vidro fino, que outrora nunca sonhei ter e que não faço a mínima ideia de como funciona internamente. Deslizo o indicador sobre o que não me interessa, carrego no que me chama a atenção, uma foto duma amiga com fundo de mar, um vídeo de apanhados, o André Ventura  a arrasar um comuna,  uma frase dum poeta, um produto muito em conta para compra oneláine e porque não estou sempre nisto, desço as escadas para abrir a caixa de correio.

Nada. Não digo a fatura da água ou uma carta das finanças, mas ao menos um panfleto de aparelhos auditivos, um comunicado do presidente da câmara ou um desdobrável das Testemunhas de Jeová! Faz muitos anos que não recebo uma carta ou um postal dum amigo a dizer "espero que estejas bem que nós por cá todos estamos bem graças a Deus".

Ninguém me liga nada!  Nunca fui de igrejas, nem de partidos, nem de causas, teatros, futebóis ou associações! Não sou de livros, não percebo os escritores nem o que eles escrevem. Hoje em dia a música é só barulho, o cinema é só tiros e putedo, Cristinas Baiões Gouchas e Quitérios é só maricagem.

Família? Chega uma vez por ano no Natal! Falam, falam, falam e ninguém liga nada ao que eu digo.

Vou ao supermercado, três produtos para não ter de comprar saco. Um fingiu que não me viu, outra acenou-me apenas a cabeça, não encontro ninguém nem para um, nem para dois, nem para três dedos de conversa. O jovem da caixa disse-me com simpatia, nos devidos tempos, bom dia, quatros euros e quatro cêntimos, bom dia e obrigado.

 Ninguém me diz nada. Tocam à campainha: 

- Era  só para lhe dizer que deixou o vidro do carro aberto!

- Só isso? E não me quer dizer mais nada? - digo para comigo enquanto digo "obrigado".

Sento-me e tento reanimar-me. Sinto-me jovem. Só me sinto bem ao telemóvel!


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Os livros não voam

Sempre simpatizei com ladrões de livros. Se um livro não é lido, mais vale que seja roubado.

Tendo passado um bom bocado de vivência, escorreita e banal, com a historieta doméstica do meu desaparecido berbequim Bosch, insisti no teste, mas agora com um livro.

O berbequim demorou três anos a desaparecer do muro de entrada do meu quintal, onde foi pousado. O livro, porém, pousei-o junto à vieira, cartão de visita da casa, e não sobreviveu lá três dias!

Dizem as línguas que comigo coabitam que já ninguém rouba livros; dizem que voou. Ora, é das leis da física que, se os porcos não voam, os livros também não; quando muito, podem-nos fazer voar.

Por outro lado, as leis da República proíbem a publicidade dissimulada. Mas o livro tem de vender!


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A cabeça do berbequim


Em 2022 publiquei aqui um texto com o título O teste do berbequim. Para quem não se quer dar ao trabalho de seguir a hiperligação para mais uma leitura, contarei, em resumo, que abandonei - pousei, coloquei - um berbequim avariado no muro de entrada do meu quintal, com três propósitos: testar se passavam ladrões à minha porta; testar se as pessoas me estimavam a ponto de me alertarem de que me tinha esquecido ali do berbequim; e testar se o conjunto - o muro de pedra antiga, a máquina de bricolage ao relento e a envolvente - poderia configurar uma instalação artística capaz de captar as sensibilidades de amigos que apreciam essas dimensões do visível.

Os meses passavam e ninguém me levava a peça, julgando-a funcional; ninguém me alertava para o suposto esquecimento da cabeça que ali a deixara; ninguém me dirigiu um comentário sobre o facto de o berbequim ficar ali mal ou ficar ali bem.

Até que, ao fim de três anos, o súbito desaparecimento do aparelho agitou o agregado familiar. Teria sido "o de mau aspeto" que deixara a última encomenda? O cão zarolho da vizinha, que o confundiu com presunto? Uma visita amiga que quis brincar e o levou para o seu muro, esperando que, quando eu lhe retribuísse a visita, nos ríssemos em coro da surpresa? Pensou-se em muitas hipóteses, mas, claro, sem dramatismos - já era tempo de acabar com a história que, de tantas vezes contada, já perdera a graça.

Eis senão quando, e apesar da dieta, não resistindo ao convite do meu vizinho Zé Luís para provar a sua água-pé nova, dou de caras com o Bosch verde, num novo poiso e numa nova morada.

- Então, porque é que trouxeste o meu berbequim para aqui?
- Para ver se lhe conseguia tirar a cabeça, para aproveitar para outro!

A pureza e a autenticidade da resposta desarmaram-me. Eu nem sabia que os berbequins tinham cabeça! Nada do que era previsto aconteceu e a peça teve o seu melhor destino: foi parar às mãos de alguém que ainda lhe poderá dar algum proveito.

Mesmo que acabe por permanecer mais anos do que no muro, tenho de reconhecer que, como instalação, está muitos pontos acima daquela que ousei criar. 

(Listagem: berbequim Bosh, pedaço de sabão azul, tábua de cozinha, esparavel, isqueiro, lanterna, sobre prateleira de mármore de Estremoz e cobertura de duas águas em chapa da sucata.)


sábado, 11 de outubro de 2025

Porque ninguém se preocupou com as maças!


- Filho, se tiveres fome, podes roubar fruta, mas nunca roubes uvas, porque dão muito trabalho e são para fazer vinho!

E nós andávamos por lá, ao Deus dará, saltando regatos, espreitando ninhos, descobrindo buracos e paladares dos vales. Qualidades de maçãs não tinham conto: de três ao prato, de inverno, do pipo, de esmolfe, bravas, verdeais, azedas, camoesas, reinetas, riscadinhas, eu sei lá! Golden? Isso é nome que se dê a uma maçã? Isso é uma apple!

A desertificação dos meios rurais, a praga dos incêndios e a sociedade do rentável acabaram com dezenas de espécies de macieiras. O desaparecimento de numerosas qualidades de maçã, que não se enquadraram na obrigatória cultura do pomar, de curas químicas e câmaras de frio, ou nas calibragens e brilhos comerciais, condenou-nos à nostalgia dos sabores.

Mas que prazer pode ter uma criança de hoje em roubar fruta se tem uma mãe que lhe descasca e parte em quatro a maçã Golden, e há na mesa da sala uma taça com fruta de plástico?

E assim chegámos aos tempos em que somos indiferentes a tudo menos à diferença.

Que se lixem as maçãs de antigamente e, se para vencer os mongóis for necessário o apocalipse nuclear, que venha ele e que a gente morra logo, para não ter de sofrer com ele. Seja como for, a morte é certa e, se já não pode haver maçãs com bicho, está tudo perdido.

Há meia dúzia de anos era assunto central a preservação do ambiente, a ecologia e o aquecimento global. Os governos da “Europa” rica, a reboque das opiniões públicas, anunciavam medidas, canalizavam milhões e prometiam um planeta verde sobre azul.

Num abrir e fechar de anos, as opiniões públicas, a reboque dos governos da pobre “Europa”, já se estão marimbando para o plástico, a poluição e o calor. Não faz sentido falar nisso em tempos de guerra, de fumo negro, de destroços e de enterros. Ah! E depois de 80 anos a dizer Nuclear Não, se tiver de ser, que experimentem lá essas bombas maravilhosas! Afinal de contas, Hiroshima e Nagasaki continuam a ser cidades, e os generais desse crime não perderam as  medalhas!

Que se lixem as maçãs de antigamente e, se para vencer os mongóis for necessário o apocalipse nuclear, que venha ele e que a gente morra logo, para não ter de sofrer com ele. Seja como for, a morte é certa e, se já não pode haver maçãs com bicho, está tudo perdido. (Este parágrafo foi propositadamente repetido.)