quinta-feira, 15 de julho de 2021

Parábola para quem não entende o que é um boicote



Porque sempre fora assim, por temor, devoção, ou desejo perverso de ser dominada, aquela família, proprietária das fazendas mais férteis da ribeira, era das que mais contribuía para a fartura da abadia. Era, diz-se bem, porque quando Simão tomou o lugar de seu pai, nem mais um serviço, moeda, alqueire, almude ou oração, saiu daquela casa para os rabos ou barrigas da igreja.
Claro que, juntamente com os seus, teve rapidamente a resposta esperada: hereges, danados,  almas do diabo, cacodoxos, malditos e outros nomes mais, além de ostracizados, amaldiçoados e devidamente excomungados.

Em conformidade com "os livros dos livros" das orações e regras dos mitras, seria justo, respeito pela fé de cada um, pelo direito que cada um tem ao que é seu, à sua vida e sua opinião mas não: clamado, pregado e com sentença, dito e redito dos púlpitos e altares, que nenhum freguês poderia comprar trigo daquelas terras, ai de alguém que lhes vendesse um grão de arroz, que ficasse mudo quem dirigisse aceno ou palavra aquela gente. Exceção se faria, apoio e acolhimento, a alguém da prole que confessasse arrependimento ou vontade de matar o patriarca.

Perante o afrontamento, a família de Simão reagiu unida e com orgulho, com o seu suor, a sua vontade, a sua razão, foi resistindo ao monstruoso poder que emanava das naves clericais. Não sem que a certa altura se começasse a notar que alguns rabos da família já não enchiam as calças, que algumas crianças traziam o pipi e pirilau ao léu, que com tamanha força não se notasse algum desânimo, que alguns sobrinhos mais manhosos não começassem a mexer os cordelinhos das ceroulas do abade e a denunciar  insatisfação.

Nas homilias já se podia demonstrar: vejam o que acontece a quem não obedece a Deus, vejam como estão sozinhos os que não ouvem os santos, vejam a miséria a que chega quem não traz pão nem vinho à igreja, morrem de fome os que não reconhecem a autoridade dos pastores do rebanho. Vós cristãos tendes o dever de dar a esmola a essa gente, convertei pela caridade os mais famintos, mostrai-lhes como são grandes as obras que andamos a fazer para elevar a torre e dotá-la de mais sinos.
Simão e os seus mandavam à merda estas oferendas e iam aguentando dizendo, a quem os pudesse ouvir, que tinham esperança que outras famílias boas a eles se juntassem contra os poderosos e pelo direito a não ter religião.

E como tais declarações, embora silenciadas nas assembleias, chegassem à sacristia, de imediato se fez um levantamento das famílias menos católicas e se decidiu intervir junto das mesmas, para que não tomassem o mesmo caminho e, a bem ou a mal, seguissem as orientações da santa madre igreja, trabalhassem muito, contribuíssem com oferendas, cultivassem a pobreza e a castidade ...
- Ai isso é que não! - disse o benjamim de Simão.

(dedicado aos povos que, hoje mesmo, resistem às ofensivas do imperialismo)

domingo, 11 de julho de 2021

Não compreendo a praia

Eu tive oito tetravós, posso adivinhar que algumas teriam o nome de Maria mas não faço ideia do sítio onde nasceram ou morreram. Terão sido, porventura, contemporâneas de Karl Marx e, como cristãs, se lhes tivessem explicado bem,  acreditariam que um dia seria possível o comunismo. Não lhes custaria acreditar também que, pelas máquinas que se começavam a inventar, mais século, menos século, os homens iam conseguir andar de balão ou passarola. Apesar duma história de muitos trambolhões, hoje os aviões cruzam os céus quase com o mesmo à vontade da passarada e, mais século, menos século, depois de muitos trambolhões, vai acabar por ser possível encontrar o caminho da utopia duma sociedade sem exploradores nem explorados.

Se, por uma concretização do impossível, elas pudessem agora voltar à luz do mundo, obviamente que estariam sem fechar a boca dias seguidos, que ficariam espantadas com o admirável mundo novo das tecnologias, que dariam pouca importância ao facto de ainda existirem muitos pobres a servirem homens muito ricos e iriam, com certeza, experimentar um passeio de avião. 

E então, bastaria sobrevoarem a costa portuguesa de Caminha a Vila Real de Santo António, no mês de agosto, para gritarem lá dos céus: 

- Ai meu rico Santo António! Mas o que fazem estas multidões ali na areia? Que faina é a deles? Uns quais lagartos apanhando sol, outros feitos ao mar sem rede nem linha! Meu Deus! Estão quase como Deus os trouxe ao mundo! Eu compreendo todas as transformações que aconteceram! Mas isto? O que é isto? 

No fim de escrever isto sinto-me mais aliviado, as minhas tetravós iriam compreender porque não me sinto bem na praia. Fazer praia, não é a minha praia. E quase que consigo ouvir a voz da minha tetravó Maria Qualquer Coisa a perguntar-me:

- Tetraneto João, credo! Fazer praia? Que é isso fazer praia? Para que é que isso serve?



quinta-feira, 8 de julho de 2021

Vejam isto por favor

"Vejam isto por favor!", "Vale a pena ler!", "Fulano arrasa sicrano!", "Toda a verdade num minuto!". Estou farto destes títulos típicos das redes sociais, embora nunca chegue a ir ler o conteúdo. 

Pobres daqueles que baseiam as suas verdades nas manchetes do Correio da Manhã, nos clips de José Gomes Ferreira (não confundir: o pequeno!), Camilo Lourenço, Paulo Morais, André Ventura, Miguel Sousa Tavares e outro tantos pequenos de quem nem sequer retenho o nome. Arrasam sempre mas é a canelada. Tanto podem agir pelo seu ego, como apenas obedecer à voz do dono; conseguem apresentar-se como especialistas em tudo, tudólogos, mas em particular, não sabem nada; experimentaram todas as drogas mas nunca provaram um palhete; já foram vistos nos melhores restaurantes mas nunca viram a mesa duma família operária; são muito viajados mas nunca os vi na minha aldeia;  apenas pensam pela própria cabeça porque acreditam apenas neles; rejeitam as ideologias mas têm bandeiras; dizem eles que não são de direita nem de esquerda; são tão perigosos como o ódio que exploram; eles não vão mudar, não podemos deixar que mudem os outros; chega!

 

sábado, 3 de julho de 2021

Do amor e do trabalho

Só mais um verso! Pedi-te eu depois de apagares o candeeiro. E adormeceste. Soube mais tarde que te dedicaste a uma carreira. É assim, quem foge do amor tem de se esconder atrás do trabalhinho, quem o procura tem de dedicar-se à noite e ao excesso. 
Foi nessa entrega que encontrei os versos que faltavam ao poema. Foi duro, tive de cantar muitas cantigas:
- Ai eu coitado, como sou um desgraçado!
- Ai eu contente, como sou o diferente!
E nada! Até que um dia...

Ganhei-te. Nenhum lugar de topo ou fama pública que façam os outros dizer "venceu na vida!", vale tanto como a poesia que se fecha num círculo duma lareira ou numa mangueira que chega a todas as árvores dum quintal. Nunca dei nada por quem muito trabalha. Dou mais para o lado de quem colhe amoras e, quando muito, trata a seara e a vinha apenas com o fim de saborear os seus frutos.

Dos versos seguintes, dos versos que faltavam não te falo. Era o que faltava!...

domingo, 2 de maio de 2021

Dia das Mães

Retreating MemoriesArshile Gorky (Armenia United States),
The Artist and His Mother, ca 1926-1936~
O leito, a derradeira doença, a história da nascença pobre, a orfandade completada aos nove anos, o andar descalço, a bicha do pão, a sardinha para três, o ser criada, as desfolhadas, a azeitona, a resina, o sacho, as cantigas, as desgarradas, os bailes, a pobreza, a alegria e... o leito final...
- Sabes João, a gente era pobre mas parece-me que éramos mais felizes que vocês! Vocês vêm aqui todos asseados, de carro, os meninos tão espertos, mas a vossa expressão é insaciável, eu não sei o que é que vocês veem nos ricos para quererem ser como eles!

Veio aqui a doutora de letras - nem o bacio estava arrumado - vê lá tu que querem umas poesias minhas para um livro que a Junta quer fazer com uns poetas da terra! A professora José, a dona José, o padre José, o doutor José, o José da Venda fazem parte do rol. Tira aí da gaveta do guarda vestidos um bloco de cartas e vê se há para aí rimas que sirvam para livro!

A casa não era casa de segredos para o rol de filhos, o sítio do dinheiro, o dinheiro que havia, os papéis importantes, os papéis de memórias eram assuntos de todos. Não sabia da existência daquele manuscrito, ela teria arrancado da memória os versos idos e, na convalescença, cravou-os no papel com a suas grafias de terceira classe de instrução. Ao filho tido por mais instruído coube-lhe a função de seleccionar!
- Tá bem mãe! Eu levo, vou passar a computador todas mas para publicar eu mandava esta... esta... esta... e esta!...
- Oh rapaz! Essa não!
- Porquê mãe? É tão engraçada!
- Não tem jeito! O teu pai já morreu!

Com a esperteza que dela herdei, entre tentos e argumentos lá a convenci. Essa fez mesmo parte das seis ou sete poesias que registam a mãe poeta no livro "Sopros de Poesia" que a Junta editou fazendo as honras aos poetas populares da freguesia. Coube-me até, na cerimónia do lançamento representar a acamada no estrado do sucesso. Eu que sou tão avesso a essas vaidades, pela mãe, e só pela mãe, sacrifiquei-me aos flashes e posei com duas ou três palavras, com as devidas palmas e o conforto de ter vestidas as únicas calças de ganga e a desgravata da circunstância.
O "éramos mais felizes" de minha mãe duraram pelos sessenta e mais. Nesses anos, a França, aliviava a pobreza extrema e os pais jovens reviviam em festas o sucesso de oferecerem às suas crianças a pobreza não extrema!

Pelos tempos passados, a mãe não surpreendeu - diz a memória do eu pequerrucho - esperou uma volta de tons do acordeão e entrou com o seu fado. A roda de vinte ou de trinta, a voz da gaiteira, uma mão no menino, o marido de frente, as palmas a ritmar e versos ao sucesso.

Essa aldeia, da paródia, das festas sem palco, do espontâneo, da farra, do actor revelação e do actor do costume, de vez em quando, ainda acontece. A minha mãe já não acontece mas acontece que poucos se referem a mim pelo meu nome e mais por um dos filhos dela!

E é assim que eu decidi blogar o dia da mãe, com estas palavras dela que tanto me orgulham:

Como é dia festejado
vou aqui cantar um fado
escutem é divertido
Hoje como estou contente
vou fazer pra esta gente
as queixas do meu marido
Dá-ma tanta coisa boa
já me levou a Lisboa
e quer-me levar ao Porto
Nunca me deu nem fez falta
uma palavra mais alta
nem um pequenino soco

E quando vai passear
gosta bem de me levar
seja qual for a jornada
E como toda a gente sabe
pra me levar à vontade
comprou a motorizada

Cá a respeito ao comer
não é do que apetecer
do que se pode também
E a respeito ao trabalho
faço aquilo que quiser
pra ele está tudo bem

Ouro deu-me quanto eu quis
uns sapatos de verniz
e uma saia plissada
Uma vez pelo ano "bão"
quis oferecer-me um fogão
não me queria defumada

Mais dia sim dia não
vai dar-me uma televisão
não me quer faltar com nada
Oh mulher para que te zangas
tens um casaco sem mangas
diz-me ele quando estou zangada

Não posso passar sem rir
a zanga pega a fugir
acaba por não ser nada
Deu-me um casaco sem pele
dá-me tudo quanto quero
em casa não falta à hora

Não me irrita com ciúme
não passa pla moraria
nem tem amantes por fora

Quando chega ao fim do dia
se chega com alegria
num beijo só mata a fome
Isto não é só garganta
mas é preciso ser santa
para calhar assim com homem
1964

sábado, 1 de maio de 2021

maio maduro maio

1.º de Maio - Dia do Colaborador
Colaborador, o carvalho que os cousa! Colaborador era a tia da vossa prima!
- Valha-nos o português! Reparem nas palavras: "o carvalho" - da família das quercus- "a cousa" - da família do coiso- "o cosa" - do arremendado - ou "o coza" - do cozido - "a tia da prima" - pode ser a mãe ou a tia solteira...

Colaborador, o carvalho que os cousa! Colaborador era a tia da vossa prima! - Colaborador - masculino - tia feminino - colaborador - funcionário - empregado - assalariado - mal pago - TRABALHADOR - Valha-nos o português! Valha-nos a língua! Valha-nos a língua portuguesa! Valha-nos o português! Valha-nos o trabalhador português! Valha-nos o carvalho! - o carvalho da família das quercus!

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Sócrates leva o seu golpe de misericórdia

Já não me apetece escrever sobre o assunto mas... ainda me lembro. 
Ah! Mas ainda tenho mais asco por aqueles que matam o mensageiro pela má mensagem. Pobre Ivo, de repente apareceu um país de magistrados de quarta classe e mais animador ainda: afinal, milhões de portugueses que não liam mais que as manchetes do Correio da Manhã ou os slides ilustrados do Facebook, tudo indica que leram 6000 páginas dum processo.
E pronto, deixo prosa, já mastigada, sobre o assunto e sobre o figurão:


Não, não foram os homens de Costa que desligaram a máquina a Sócrates. O golpe de misericórdia foi dado hoje, pela sua ex-namorada Fernanda Câncio, num "artigo de confissão" (ou será de traição?) que acaba por provar quanto estavam bem um para o outro.

Sócrates já mete dó. Afinal ele acaba por se tornar vítima daqueles que lhe deram os seus tempos de glória, da amante que lhe fazia festas nos cabelos, dos correligionários que o seguiam, dos jornalistas que o apoiavam, dos comentadores que o elogiavam, dos eleitores que o escolhiam e até do sistema judicial que, pelo menos parcialmente, teve nas mãos.

Ninguém me provou ainda que Sócrates é um criminoso mas já tenho a certeza de que ele é uma vítima.

Pois é minha gente, quando ele recebia vivas dos carapaus e dos armadores, não por dar de comer aos peixes mas por oferecer as redes, não por fazer bem a uns mas por fazer mal a alguns, quando ele era o salvador que aniquilava as corporações de preguiçosos bem pagos, enquanto a Fernanda dormia com ele, nós outros lutávamos nas ruas para que o seu reinado chegasse ao fim. A nós ninguém nos pode acusar de o ter apoiado.

Que Vinicius de Moraes me perdoe assim como aqueles para quem me repito. Ficam aqui as palavras dum ataque de fúria que em 2009 me deu:

Sai, Sócrates
Desaparece, parte, sai deste povo
Volta a Vilar de Maçada onde te esperam
As ossadas dos teus avós, de que és
A herança perversa. Vai, foge do povo
Monstruosa farsa, hediondo
Ministro do faz conta, boy bóbó
Coito interrompido! Sai, Sócrates
Fato cagão, cueca suja como guardanapo,
Gravata de prepúcio, câncio homo-nada
Que empestas as passerelles da vidairada
Com teu petulante abanar de ancas
Enquanto largas traques sobre as palmas
Tuas encomendas aos boys-todo-o-serviço
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de marketing de plástico
Tu e teus telepontos
Tu e teu discurso cheio de nada
E pede perdão ao filósofo
Cujo nome roubaste. Deixa os portugueses em sossego
Odioso falozinho; fecha o fecho
Das tuas peles destomatadas
Secretárias, ministrinhas, directoras, jotas de saia curta
Movendo-se à volta da tua merda, como moscas
varejeiras que depois pousam nas mesas e nas camas,
Sai, Sócrates
Arruma as botas e diz adeus ao tacho
Em saudação fascista; galga, vasa,
Contra o teu próprio umbigo
E vai viver do teu próprio valor
Na poeira suja que se acumula no teu currículo.
Adeus
Recheador de ricos, multiplicador de pobres, tu
Com quem ninguém quererá jamais aprender nada.
Parte, punheta estéril, andate via
A23, destino Covilhã,
Experimenta viver igual às tuas vítimas.
Não tens mais estômago do que o homem da rua!
Cretino só, pinóquio de esparguete, que prescreves
A crise do país sem a experimentares, só
cretino, políticu, xuxalista...
Desanda, arruma as malas, toma banho,
E telefona para a empresa de mudanças!

IV
Há 1 trabalhador que foi para o desemprego
Há 2 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 16 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 256 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 65.536 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4.294.296 trabalhadores que foram para o desemprego

VI
— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que a empresa não precisa mais dos seus serviços...
— Meu caro senhor, tenho de comunicar-lhe que está despedido...
— É, infelizmente a empresa diminui os lucros. É impossível manter o seu posto de trabalho...
— É a crise, meu amigo. Vá para casa...
— Você é um homem forte, com certeza que arranjará outro emprego...
— Sua folha de serviço é exemplar, dar-lhe-emos uma carta de recomendação...
— Veja, você já não tem nada para dar à empresa... talvez com formação...
— Compreendo que não tenha outro rendimento. Sou seu patrão, não sou seu pai...
— Há muito operário na mesma situação. Você não está só...
— Era o nosso melhor colaborador. Mas a crise é internacional e não perdoa...
— Qual quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Ainda tem uma vida à sua frente...
— Parece que o engenheiro também vai fora...
— Uma trabalhadora exemplar... E depois, tão linda...
— Que coisa! Logo agora que empresa estava cheia de encomendas...
— Se não aceitar as condições, somos obrigados a despedi-lo...
— Não me diga? A auto-europa...
— Não só... e a general motors?...
— E atenção para a última notícia. Mais três mil trabalhadores despedidos esta tarde...

— SÓCRATES ESTÁ DESPEDIDO

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nunca minto.


Nunca minto! Posso enlear-me nas teias da ficção, encarnar um suíno, ou dizer que navego em águas turvas quando, na verdade, não sou barco nem peixe, mas nunca minto!


Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, eu não acrescento mais um, mas proponho uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Talvez por ser 19 de março

Não era camionista, era chofer, nesse tempo era o verbo mais corrente. Chofer da fábrica do senhor António. Nos anos cinquenta, para um aldeão, ter a carta de condução era um mestrado. Era o mais letrado e mais remunerado  depois do escriturário. E tinha um ajudante para a cargas e descargas, para as manobras, para perguntar nos cruzamentos por onde é que se ia para onde se queria ir, para enfiar paus nos rodados quando a Scania se atolava, para fazer de rádio na cabine porque não o havia. O Zé era um fiel amigo. Era como se fosse da família.

Conheci o meu pai nos anos sessenta. Raramente o sentia sem ser ao serão e ao domingo. O horário de trabalho começava entre as três e as seis, conforme o itinerário era traçado e o regresso era já noite feita. Conversa e meia a ceia e no final o terço, no qual era sua a lei que o primeiro a abrir a boca, de castigo, ia para a cama - era sempre ele. A cozinha, a roupa, a casa, os filhos, o gado, o mato, as sementeiras e as colheitas eram com a mãe. Com ele era a força de trabalho em troca do salário. Trabalhador, foi assim sempre que olhei para o meu pai.

Rijo e meigo, nervosamente sossegado, riso de não mostrar os dentes, uma humildade de meter respeito, as mãos calejadas, ai e os beijos que encontravam sempre os picos da barba por fazer. Gente dura. Começou aos dez anos como criado na quinta das Caldas do senhor Terrinha. Eu segui-lhe os passos e aos dez anos pus-me a andar. Mostrava vaidade por dizer que tinha um filho que andava a estudar para padre.

Depois veio 74 e tempos novos, horário de trabalho, o respeitinho do patrão por quem trabalha, três meses de vencimento em agosto que isso de gozar férias era para gente da cidade e de pequena prole, a motorizada a dar lugar ao carocha em terceira mão... e a vida continuou. O mesmo pai mas eu já varão e noutros territórios. Uma Scania nova com rádio, o Zé na Suíça, o salário sempre magro, o trabalho sempre pesado, a vida sempre dura, o mesmo riso de lábios encostados, os mesmos olhos verdes claro, a mesma força de trabalho.

Que grande herança: o grande orgulho de pertencer à classe trabalhadora!


sexta-feira, 12 de março de 2021

As figuras do PSD


Já não sei se são as figuras que fazem o PSD ou as figuras que o PSD faz. Anda tudo desorientado.

O Marcelo pensa que é Primeiro Ministro,
O Rio está convencido que é líder do partido,
O Cavaco julga que ainda é vivo,
O Santana já não percebe nada disto.

O Marques Mendes sua por imitar o Marcelo-comentador,
O Passos Coelho espera que o Chega o tome,
A Ferreira Leite acha-se um Senhor
E até o Sá Carneiro, que Deus o tenha, pergunta a Deus por que diabo há tantas ruas com o seu nome!  

- Esqueci-me de alguém? Não, enquanto não cheirar a caldeirada, parecerá não haver ninguém!




segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de março - Dia de Portugal

Dedico àquela que foi encarregada pelo médico de me vigiar um sinal nas costas.
desenho de Álvaro Cunhal


No dia do Pai , lembro-me dos que não têm pai;
No dia da Mãe, lembro-me dos que não têm mãe;
No dia da Mulher, lembro-me dos homens;
No dia dos Animais, lembro-me dos homens;
No dia da Árvore, lembro-me dos homens e dos ninhos;
No dia da Água, lembro-me do vinho;
No dia Sem Carros, lembro-me dos cavalos;
No dia do Não Fumador, lembro-me de fumar;
No dia do Consumidor, lembro-me dos tesos;
No dia da Europa, lembro-me de África;
No dia de Portugal, lembro-me dos que não são portugueses;
No dia de Camões, lembro-me de Bocage;
No dia da Liberdade, lembro-me da prisão:
No dia do Trabalhador, lembro-me dos desempregados;
No dia da Defesa, lembro-me de atacar;
No dia das Mentiras, lembro-me da verdade;
No dia de Todos os Santos, lembro-me de todos os pecadores;
No dia de Natal, lembro-me do Ano Novo.
No dia da República, lembro-me do Rei.
No dia de Reis, lembro-me do Rei dos Leitões
No dia dos namorados, lembro-me dos que não têm namorada.
Mas a verdade é que geralmente não me lembro de nada.
A não ser quando tenho comichão mas costas:
- Ó amor chega aqui!
- Só se me disseres que dia é hoje!...
- Segunda!
- Dia de Portugal!...
- Da mulher!...
- De quem?!...
- Puta que a pariu!
- Quem?
- A idade!
- Que dia é hoje, hem?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Nestes últimos tempos

Nestes últimos tempos
O Serviço Nacional de Saúde tem revelado alguns dos seus defeitos e fragilidades mas tem resistido e tem provado que sem ele a tragédia não teria comparação;
O governo tem errado muito ao sabor de pressões e de agendas de propaganda mas é difícil imaginar como seria gerida a epidemia com qualquer um dos últimos dez ministros da saúde;
A oposição tem feito aproveitamento político da desgraça e do descontentamento mas tem sido, de um modo geral, responsável e demonstrado serenidade nas críticas que faz;
O povo nem sempre tem acatado as indicações das autoridades e tem atirado culpas a tudo o que mexe mas tem revelado compreender a gravidade do momento com muita paciência;
Quem tem estado mesmo muito mal é a comunicação social: a fomentar o pânico e a desinformação, a dar voz a especialistas de garagem, a ser a voz do dono que quer um povo de mão estendida, uma oposição bonita, um governo às direitas e um sistema de saúde nas suas mãos.
Eu calo-me e nem sequer os oiço, sei do ditado que esta é a situação em que todos ralham e ninguém tem razão.




terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Dia das maculadas


Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

dezembro

 Dezembro. Estou completamente dezembrado. Inverno e chuva. Morte aqui e acolá. Dizem que é uma pandemia. A República é um autêntico pandemómio. O presidente da república  é um pândego fascinado pela ereção dos seus próprios mamilos. O primeiro ministro dá-nos as suas palavras de cada dia como um padre que do púlpito interroga a sua própria fé. Há que inventar frutos proibidos para que a populaça se iluda que o que se pode fazer, está a ser feito. É só fumaça. Não encham os hospitais. Crê-se que os cemitérios não esgotarão a sua capacidade.

A televisão não cumpre o seu papel, delira com números, especialistas, estudos, previsões e profecias. Os comentadores choram os que caiem nas margens da pobrezas ao mesmo tempo que batem em tudo o que cheire a organização de trabalhadores. Os capitalistas mudam as agulhas à cata de novos investimentos, os apologistas do privado apelam ao estado.

Os serviços de saúde cumprem o seu papel, profissionais esquecem as humilhações e tratam dos doentes. Os comentadores pedem palmas aos da linha da frente, assim lhe chamam eles, ao mesmo tempo que batem em tudo o que se refira a empregados do estado. Os capitalistas também querem ganhar com a doença mas avançam que o setor privado não existe para tratar pandemias.

Entretanto é-nos anunciado o Natal. Só nos faltava o Natal. Pois eu que não vou de simpatias com os presidentes e ministros da república, com o jornalixo da televisão, com o Natal de paixão pela mesa cheia e compaixão com os pobrezinhos, não me incomodo. E também gosto de ficar em casa a escrever, mesmo que saia um texto sem grande sentido e sem grande razão, como é o caso.


domingo, 29 de novembro de 2020

Dia da Restauração



DIA DA RESTAURAÇÃO.
Não têm clientes mas têm um Dia.
A pandemia, a falta de apetite e os carcanhóis estão a dar cabo do setor da Restauração.
Voltem espanhóis! Mas apenas e só pela comida!...
No dia da Restauração: solidariedade com a Catalunha!