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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Prefácio

O destino, caprichoso como é, decidiu mudar a vida de um casal simples, habituado ao pão contado e à vida discreta: ofereceu-lhes aquilo que muitos sonham e quase ninguém alcança – o primeiro prémio do Euromilhões.

O que poderia ser apenas uma história de riqueza fácil e ostentação transforma-se num conturbado enredo de segredos, lorotas e dissimulações. Cada justificação, cada meia palavra, cada aparência mantida é parte de um jogo delicado, em que a ganância alheia é sempre uma ameaça à espreita. Os protagonistas vão descobrindo que não é fácil ser rico às escondidas, ao mesmo tempo que vão mostrando que, por vezes, a maior riqueza não está nos números que brilham num talão premiado, mas na capacidade de reinventar a vida sem deixar rasto.

Este livro não é apenas a crónica de uma sorte improvável: é um retrato da condição humana, das máscaras que vestimos para proteger o que nos pertence, e das ironias que se podem esconder no diário de pessoas do nosso convívio. Um convite ao leitor para espreitar, com cumplicidade, os bastidores de uma vida dupla – simples por fora, literalmente rica por dentro.

Transformador Generativo Pré-treinado

domingo, 21 de setembro de 2025

34- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões

Isto cheira-me a epílogo! Será?

- Obrigado Tintaine, ainda bem que me fazes essas pergunta. 

Sim, acabou. Tudo se precipitou no último capítulo: as personagens pareciam implorar que fossem libertadas da história para viverem a sua vida em paz, o autor interrogava-se no "vale a pena?", a pena começou a estender tudo o que lhe sobrava de ideia, os acontecimentos começaram a suceder-se com extrema rapidez e zás - Fim, Epílogo, Acabou ou como queiramos dizer.

Tinha previsto que o último número do folhetim, fazendo justiça à intenção inicial, tivesse, mais ou menos, o conteúdo que agora teço, mas confesso que se não fosses tu, Tintaine, já não me punha ao teclado.

Agora, entrámos na fase em que os carateres foram copiados para um documento word, e tudo vai ser cozinhado para ser servido como livro. Vão ser retocadas e enriquecidas as personagens, vai ser verificada a coerência do argumento, acrescentam-se reflexões, pensamentos e ideias, enfim, lá para verão, haja saúde, espero ter no prelo mais um objeto livro de papel.

Se para além de ti, alguém deu pelo fim e não se manifestou, é uma pena porque é sempre bom saber que anda alguém do outro lado. Se foste só tu, também valeu a pena. Seguido ou não, tenho sido compensado pelas vendas em papel que, embora poucas, me deixam satisfeito e motivado a continuar.

Vou continuar por aqui. Abraço.

domingo, 7 de setembro de 2025

33- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões

 


17 de junho de 2017 foi um dos dias mais trágicos da história de Portugal. As gentes do Pinhal Interior - que já devia ter mudado de nome para Eucaliptal Interior - há algumas décadas que se habituaram aos incêndios e aos rastos que deixam. Mas, nesse dia, o inferno do fogo matou muita gente e o epicentro da morte, foi a freguesia de Vila Facaia, concelho de Pedrogão Grande.

Depois desta terra ter entrado na história, trazido ao texto este dia, seria de engenho fácil, desemaranhar a corda do argumento e dar o nó final à “incrível história dum casal a quem calhou o euromilhões” com o fim incrível: morreram ambos no incêndio de Pedrogão Grande.

Sim, Jacinto e Francisca viveram a tragédia, faziam parte da vida de alguns dos que morreram, mas não vamos, desrespeitosamente, enfiar aqui o assunto como mero exercício criativo, antes iremos fazer a abordagem como forma de honrar a memória dos que então pereceram e a dor dos que sobreviveram.

Quando viram o fumo a nascer a montes de distância, nunca pensaram que, passadas horas, o iriam cheirar, veriam pousar as primeiras fagulhas, avistariam as chamas vivas a transpôr o horizonte do cume de Sarzedas, sentiriam o estalido infernal dos salgueiros quando atravessaram a Ribeira do Outeiro, sofreriam o pânico de ver o senhor dos infernos a entrar no seu quintal.

Nessas horas de aflição os corações batiam forte, se é que batiam, corria-se muito e, às vezes, era absolutamentente necessário uma pessoa sentar-se numa cadeira, num muro, numa pedra, no chão. Ninguém tinha a roupa lavada e as lágrimas enlameavam os rostos sujos. Todos ralhavam e ninguém se zangava, todos falavam e ninguém acertava, todos amparavam e ninguém sentia amparo. Noutros anos, no fim do fogo sentia-se tristeza mas também alívio mas, desta vez, a tristeza trespassou a terra queimada e matou entes queridos, no lugar de alívio deixou o peso do luto.

Para Jacinto e Francisca, este dia mudou mais a sua vida do que o dia da sorte grande. Jacinto daria todo o dinheiro que tinha para que aqueles montes e vales voltassem a ter o verde que tinham quando era criança. Francisca daria todo o dinheiro que tinha para que aquela gente não tivesse morrido.

Nos dias que se seguiram, diziam estas coisas um ao outro, fizeram voluntariado com os outros, abriram a carteira mais do que quaisquer outros, deram de si o que os outros não tinham.

Até que receberam o telefonema do banco onde tinham a conta mais corrente informando-os que tinham passado um cheque sem cobertura. Bem que sabiam que a notícia do grande incêndio que viveram tinha corrido mundo e, por isso, estranharam a ausência dum telefonema da Lúcia a perguntar-lhes se estavam bem. Percebiam agora porquê. Em poucos dias ela, o italiano ou o italiano e ela, tinham dado o desfalque na conta a que lhes deram acesso, três milhões tinham voado, restavam-lhes apenas cento e vinte e três e restava-lhe também o orgulho do tacto que tiveram ao não abrir toda a verdade à filha única. Esta, nem sequer se atrevera a ligar para saber se os pais estavam bem, porque estava convencida que lhes tinha desviado, ou derretido, todo o valor do prémio.

Descoberto o imperdoável que, podemos concluir, pouco os afetava em termos de extrato, também os pais não telefonaram à filha a pedir explicações, ela um dia haveria de vir pedir batatinhas. Aliás, uns tempos mais tarde, na sequência dum telefonema para o Abílio, viriam a saber que, segundo informações do Paleco, também emigrado no Luxemburgo, a Lúcia, depois dum período pródigo, estava novamente na miséria. Costuma ser assim, os novos gastam tudo como se fossem morrer amanhã e os velhos poupam como se vivessem para sempre.

Ao mesmo tempo que estava provado que o que tinham nos bancos não podia ser confiado à herdeira, era também assumido que não tinham nascido para serem ricos e que não tinham competência para gastar tanto dinheiro, além de que, não o esqueçamos, continuava a ser extremamente perigoso alguém saber da sua fortuna. Foi esse perigo, aliás, que deu o mote a esta história, o medo permanente que as duas personagens principais carregam, de alguém lhes encostar uma faca ao pescoço, uma pistola à cabeça, uma motosserra ao sexo e os ameace com a alternativa:

-…ou o dinheiro!

Encontraram então, por estes dias de notórias necessidades para tantos daqueles que os rodeavam, uma forma altruísta de aliviar a carteira e o coração e fazerem alguma coisa enquanto não morrem, como fizeram os que nesta se foram, acreditemos para conforto nosso, para melhor.

Começaram por um vizinho que tinha ficado rigorosamente sem nada depois do fogo ter passado.

- Joaquim, graças a Deus que temos algum dinheiro que não precisamos e podemos ajudar-te no que precisares, exigimos-te, em troca, apenas duas coisas: que não plantes eucaliptos e que guardes absoluto segredo de que fomos nós que te ajudámos. Nem à tua mulher podes dizer, ouviste Joaquim?

Outros joaquins e joaquinas se seguiram e receberam o que precisavam, sendo que a todos foi exigido igual sigilo, tendo chegado ao ponto de já não haver pedreiro para tanta obra nem plantadores para tanta árvore. O segredo era particular e coletivo ao mesmo tempo. A maior parte dos contemplados teve de inventar mentiras acerca da origem da ajuda e, a certa altura, todos tinham emprestado a todos e ninguém tinha emprestado a ninguém.

Francisca e Jacinto assistiam a tudo isto com um enorme prazer: eram recuperadas casas e anexos, eram plantadas árvores em encostas e charnecas e, no que toca a mentiras sobre origens de dinheiros, já não estavam sós. À medida que o branco do casario renovado se espalhava e o verde da nova floresta se estendia, iam ganhando consciência da dimensão do montante do prémio do euromilhões que tinham recebido e que o melhor destino que lhe podiam dar era distribuí-lo, semeando felicidade e aumentando, desta forma, o seu valor. Comprovava-se assim que o dinheiro, traz felicidade e que foram os ricos que espalharam o dito do contrário para os pobres não os invejarem.

Esqueçam esse bla, bla, bla, que tantas vezes ouvimos, que se me calhasse que dava tanto a este, tanto prá ali e investia o resto. Tretas! 

Burros aqueles que correm a jogar quando há jackpot como se não lhes chegasse o prémio duma semana normal.

Lorpas aqueles que esperavam que a história tivesse um final incrível, com Francisca e Jacinto a dar tudo num gesto registado em pedra de benfeitores duma causa justa, num investimento empreendedor que os tornasse ainda mais ricos, ou a acabarem ainda mais pobres do que eram antes.

Fica provado que saber o que fazer a tanto dinheiro, nem em ficção é fácil. Ficamos portanto assim, na normalidade em que se dão os destinos das vidas que não se contam em livro: o casal Jacinto e Francisca, vivem normalmente a sua pacata vida, com problemas de dinheiro, como toda a gente, apenas com a pequeníssima diferença que o problema de dinheiro deles é dinheiro a mais.

Também não vale a pena estar aqui a moer palavras, à espera que passem anos, para sabermos o que lhes acontecerá futuramente: morrerão.

A Lúcia, se quer vir a tempo de herdar alguma coisa, que venha, peça perdão e, se vir este livro à venda, compre-o e diga-me alguma coisa, dê-me um sinal de que o leu que é a melhor recompensa que quem escreve pode receber, sabendo de experiência que é raro, quando não impossível, as personagens a si próprios se lerem. Ligue-me, ter o meu número é já em si uma prova de que o leu.

Os locais e os nomes das pessoas são verídicos. Também é verdade que saiu o euromilhões a um casal e que foi escrita a história dum casal a quem saiu o euromilhões. Assim sendo, a única coisa que aqui pode ser posta em causa é se esta história foi ou não incrível.

Digamos ainda que, lá por isto ter sido tudo inventado, não quer dizer que não seja auto-biográfico.

07/09/2025

Vila Facaia



domingo, 31 de agosto de 2025

32- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões

 

Jacinto e Francisca viajaram de táxi e só se fizeram anunciar quando já estavam na receção do hotel a registar a entrada. Recordemos que estamos no mesmo hotel onde há uns meses não foram admitidos, sabemos bem porquê, o que vem revelar ao enredo que o nosso casal mudou significativamente o seu visual e passaram a ter um aspeto mais à altura destes ambientes e locais.

Daqui a poucos minutos ligariam à Lúcia e, passados mais uns minutos, teriam a família reunida e iriam almoçar àquele restaurante. Era este o plano. Pelo meio teriam de surgir os esclarecimentos da situação em que se encontravam, esclarecimentos que, estamos de acordo, não podiam conter toda a verdade. Vamos lá a ver se a conversa corre, nos termos combinados durante a noite, já que no caminho não puderam falar disso por causa das orelhas do taxista.

Os hóteis pequenos são como as terras pequenas. O encontro dos cinco deu-se assim: no elevador.

Ouviu-se pelos corredores dos quartos o ruído do baque, saíram do elevador pois claro, ficaram ali a trocar-se de cumprimentos e coincidências, ninguém estava no piso certo, ninguém podia dizer vamos para aqui falar, havia que encontrar portas, em conclusão o primeiro encontro foi curto e embaraçoso.

- Encontramo-nos na receção daqui a um quarto de hora. Depois falamos. Almoçamos.

Nem uma linha se escreveu mais durante estes quinze minutos. Assim que se reencontraram, como seria de esperar, todas as atenções se viraram para a menina, a Céline. Já no exterior, no passeio ventoso da marginal, a questão que não poderia esperar pelo almoço, fez-se, nua e solta:

 - Que história é essa do pai estar preso e de terem dinheiro para hóteis? Calhou-vos o euromilhões?

A pergunta não era para ter resposta imediata, esta informação era para ser dada em cautelosas prestações, aos bocadinhos, aqui e ali com meias verdades, à medida que  a conversa se fosse desenrolando. Mas o dedo intuitivo da filha apanhou-os de surpresa. Como é que ao longo destes meses, de todos os outros que haviam tentado identificar a fonte que alimentava a sua carteira,  não tenha havido ninguém a levantar essa hipótese? E foi assim que uma palavra, pequena, doce e calma, se soltou num voo leve e natural da boca da mãe Francisca:

- Sim!...

A brisa marítima amaciou o ambiente. Afinal foi um parto sem dor. Sim. Sim, é normal quem joga poder receber um prémio. Tão normal, como não se saber o valor do património financeiro da maioria das pessoas, é o montante dos prémios recebidos não ser público.

Durante o almoço seria explicado porque inventaram mentiras e nunca revelaram a verdade em Vale dos Ovos.

- À volta de três milhões!... 

Mentira! Nem a filha podia saber toda a verdade! Continuação da conversa:

 A terra do pai; algum será para ti; o teu companheiro entende o que dizemos; a Céline, está a perceber alguma coisa; se concordarem ficamos aqui uns dias!...

Ao fim de três dias já estavam fartos uns duns outros.

Foi sobre uma conta de três milhões que partilharam a titularidade com a Lúcia, o suficiente para esta presenciar a reverência com que os pais eram tratados pelos funcionários do banco. Assim que se viu com o nome na massa, Lúcia anunciou que regressaria no dia seguinte ao Luxemburgo com a família. Partiu sem saber da missa a metade, inclusivamente sem tomar conhecimento da residência atual dos progenitores, ficou a saber que ea a terra natal do pai e mais nada. A ligação entre pais e filha só ficou mais reforçada porque, desta vez, ficou gravado o contacto telefónico e o indicativo internacional.

O comportamento e os olhos do italiano sofreram bruscas alterações, assim que este percebeu que a companheira passara a ter acesso a uma conta bancária milionária. Francisca e Jacinto perceberam bem isso, assim como perceberam que foi por sua iniciativa que decidiram partir precipitadamente.

Quando se despediu da família migrante, o nosso casal sorriu e um dos dois disse:

- Ainda bem que não lhes falámos dos outros cento e vinte e três.

Morta a curiosidade de quem queria saber quanto, e note-se que fica a saber mais do que os potenciais herdeiros, vamos de novo para Vila Facaia viver a vida como os demais.

Entretanto a mãe de Jacinto ficou com uma doença, que tem um nome de que ela nunca se lembra e foi para um lar. O irmão deficiente de Jacinto, de tão feito que estava à mãe, também foi para o mesmo lar. Outra informação: a casa da Pedra de Ouro foi vendida e o dinheiro da venda foi oferecido ao lar.

Francisca e Jacinto formavam um casal querido na Vila e arredores: falavam pouco da vida dos outros e pouco se sabia da sua vida, davam-se bem com toda a gente, os cordões da sua bolsa desatavam-se para tudo o que era peditório, oferenda, angariação, sorteio, contributo, necessidade.

Está a fazer um ano daquela atribulada viagem ao edifício da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, na Avenida da Liberdade, acabámos de revelar o montante do prémio, vamos agora apontar que no calendário amanhã será o dia 17 de junho de 2017.

domingo, 24 de agosto de 2025

31- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões

 

Digamos que é mesmo muito dinheiro e que, pelo que pensava Francisca quando há pouco a deixámos na sua cama da casa de Pedra de Ouro (Aproveitamos para anunciar que a casa está à venda – 965347974) – a maior parte dele descansará por muitos anos nos cofres virtuais da banca capitalista.

Dentro de dias, Francisca chegará de malas cheias a Vila Facaia, voltará a juntar os trapinhos com Jacinto, viverão como dois emigrantes que regressaram de vez do Canadá ou da Austrália - já nem se recordam de onde disseram que foi! - com um valente pé-de-meia.  Juntos, cuidarão da sogra e do cunhado, viverão.

Para trás, ficará a casa de Vale dos Ovos entregue às silvas, a casa de praia entregue a uma imobiliária, o papa-reformas vendido a um pescador. Para trás, só não ficarão os bancos porque eles, tal como Deus, estão em toda a parte.

Dito e feito, vamos agora viver no Pinhal Interior (digo Eucaliptal Interior), casamento renovado e casa nova com Jacinto, amanhã vamos a Pedrogão ao Registo, no outro dia podemos ir à Sertã comer maranhos, ontem foram à praia fluvial das Rocas, foram a banhos, sempre de táxi, estão bem na vida - vê-se! -  trabalharam para isso toda a vida - pensam os santos da terra! -  temos de ir com a velhota a um médico à Pampilhosa, amanhã vamos à feira a Castanheira comprar um pijama para o teu irmão, ontem foram a um jantar da Associação, deram um generoso contributo, hoje estão numa de descanso, estão bem na vida mas…

Mas, há um erro grave que aqui se cometeu. Se fosse da parte do autor, haveria perdão, mas não, são Francisca e Jacinto que estão a cometer uma falha imperdoável! De tal modo grave que até o próprio autor se está a sentir mal com a situação:

Gaita!Filha é filha! Resumir a relação entre pais e filhos a comunicações telefónicas já é trágico, agora ficar-se por um telefonema pelo Natal, não ter um contacto da filha, não cabe na cabeça de ninguém, não tem perdão, digamos que deita por terra todo o argumento porque se traduz numa história mal contada. Como se não bastasse, estamos a falar da pobre Lúcia, a infeliz que é rica, por afinidade,sem o saber.

Com a consciência avivada por este desvio da narração, o nosso casal abriu a conversa sobre o assunto, com uma seriedade e uma profundidade que nunca lhe tinha dedicado.

- Não tarda estará aí o Natal! E se ela não liga! Ainda nem chegámos ao verão! É muito tempo!

- De certeza que o Abílio do café, que conhece toda a gente, nos há de arranjar o contacto do Paleco ou de outro que por lá ande, no Luxemburgo!

Por falar em Abílio, contrariamente à nossa manifesta intenção, temos de voltar a Vale dos Ovos e ao Café da Estação, porque acaba de entrar nele, em passo diligente, uma jovem mulher visivelmente transtornada.

- O que é que se passa Abílio? Quis fazer uma visita surpresa aos meus pais e cheguei lá a casa e está tudo ao abandono?

Falamos obviamente de Lúcia. No carro estacionado no parque da estação, ficaram a filha adolescente e o marido, adiante-se já, novo marido, que o outro correu com ele, já o devia ter feito há muito tempo, um bêbado que derretia tudo quanto ganhavam, este sim, um italiano que a ajudou a endireitar a vida.

Ao vê-la tão aflita, Abílio atalhou:

- Tem calma cachopa! Eles estão bem! Quer dizer, a tua mãe está!...

- Que aconteceu ao meu pai? Alguma tragédia?

- Tragédia não direi, está preso!

- Está preso onde?

- Na prisão.

- Matou alguém?

- Não, não se sabe bem o que ele fez.

- E a minha mãe?

- Como te disse a tua mãe está bem, parece que está a viver lá para os lados da Vieira! O Jápintas e o Pisca-pisca já lá foram, sabem onde é. Mas o melhor mesmo, é ligares à tua mãe! Sei que ela queria ligar-te mas, como eras sempre tu a ligar-lhe, nunca apontou o teu número. Há muito que aguarda por um telefonema teu.

- Obrigado Abílio, é isso mesmo que vou fazer!

E dizendo isto, Lúcia saiu no passo em que entrou, dirigiu-se ao automóvel e ao condutor:

- Arranca, eu indico-te o caminho, vamos para a praia.

- O quê?!

- Já te explico, agora tenho de fazer uma chamada!

Quando Francisca reconheceu a voz ao telefone, estremeceu de contentamento e, numa expressão contente, fez um aparte para o Jacinto:

- É a Lúcia!...

À medida que a conversa ganhou rumo, Jacinto foi observando, pelo zizaguear das caras que a companheira ia fazendo, que havia surpresas e novidades. Estava em Portugal? Vinha a caminho? Praia, Vale dos Ovos, Abílio, prisão. Novo marido?!...

Na outra ponta da comunicação telefónica, também o novo marido tinha as orelhas erguidas, mantendo calma a condução e espreitando, de quando em vez pelo retrovisor, para sondar a atenção da enteada. Não estava em casa? Então iam para onde? Não estava preso? Uma longa história, segredo, calma, praia, hotel. Está tudo bem?!...

 Francisca não podia esconder à filha que o pai nunca estivera preso. Também não poderia, pelo menos para já, revelar-lhe onde moravam. Era obrigatório que se encontrasse com ela o mais rápido possível, mas não tão rápido que não tivessem tempo para preparar explicações sobre os acontecimentos dos últimos meses. Isto é, Francisca foi desenrascando a situação como pôde. Dizer à Lúcia para se instalar com a família no hotel da Vieira, que não se preocupasse com as despesas, era, ao fim e ao cabo, uma forma de iniciar a grande revelação que teria de acontecer. Obviamente que a filha ficou muito confusa com o discurso da mãe – será que ela está bem? Pensou por várias vezes – e muito ansiosa pelo
reencontro da família. Os emigrantes foram dormir ao hotel da Vieira e aguardariam pelo dia seguinte para se reunirem com o casal. 


domingo, 10 de agosto de 2025

29- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões

 


Quando o Pisca-pisca parou o carro e se apercebeu quem era a cliente, ficou com cara de tomate mas saiu do embaraço como pôde:

- Aquele Abílio vai pagar-mas, porque não me disse ele que eras tu!?

- Fui eu que lhe pedi, sabia que ias gostar desta surpresa!

A cara de tomate diluia-se nas rosáceas associadas ao exagerado consumo de cerveja, vinho e aguardente. No resto do dia, foi-se adaptando ao incómodo de ir ouvindo, em suaves prestações, a história da prisão de Jacinto. Surpreendia-o a naturalidade, para não dizer o prazer, com que Francisca relatava toda a história da prisão e do crime do companheiro de sempre.

A certa altura começou até a ficar convencido de que ela, agora sem o Jacinto, estava a precisar de peso e o desejava. Daí o pretexto do frete excecional, que preencheria toda a tarde e ainda incluiria o percurso até à casa de praia que, não saberia ela, mas ele conhecia.

Sabia, sabia, os videoporteiros modernos com gravador têm destas coisas, coisas de ricos! Ao longo da tarde foi descascando o “tomate”, com informações falsas e pequenas provocações: “sabemos que foi alguém daqui que fez a denúncia”, “como souberam que ele vendia erva de Marrocos e folhas da Colômbia é que eu não sei”, “o Abílio disse-me que não sabe quem foi mas desconfia”, “às tantas estou para aqui com coisas e tu sabes quem foi”, “já pensei no Jápintas!”, “vizinhos para quem ele andou lá a pintar há uns tempos, disseram-me que o viram a rodear a minha casa com outros dois”, “estou-me nas tintas para quem foi, o que interessa é que ganhámos bom dinheiro com o negócio e não tarda muito ele está cá fora outra vez!”

O desgraçado do taxista foi toda a tarde um autêntico farrapo nas mãos da conversa da tagarela reinante. Valeu a Francisca este divertimento oportuno para compensar a tristeza que de outro lado lhe vinha.

A sucessão de pequenos atos e diálogos que envolvem a despedida definitiva dum local onde se viveu por muitos anos, pode provocar transitoriamente estados de profunda tristeza, de choros incontroláveis, de saudade do passado recente ou até do presente. E nem sequer importa se partimos desta para melhor – salvo seja! - passam por isso os soldados quando passam à disponiblidade, os presos quando são libertados, os doentes internados quando têm alta, os emigrantes quando voltam de vez. O arrumar das botas e das malas, o embarque, os abraços, os adeuses, doem sempre muito, mesmo quando se deixam espaços onde não se foi feliz e se sofreu.

Francisca, por história de vida ou pelo menos por aparência, era uma mulher de armas e de sensiblidade robusta e viajou para esta despedida com a predisposição de quem vai ao mercado ou à feira, pelo que, foi apanhada de surpresa pelas lágrimas que por várias vezes, ao longo do dia, sozinha ou em companhia, expostas ou discretas, lhe irrigaram o semblante.

Quando, ao fim da tarde, deu ordem de partida ao Pisca-pisca e o táxi arrancou do largo da estação, correspondeu, através dos vidros do carro, aos acenos de adeus que Abílio desenhava, firmemente posicionado no portal de entrada do seu estabelecimento. Soltou um soluço final e dirigiu o olhar vazio para a estrada que se abria à sua frente, ignorando que ao seu lado havia um condutor que, apesar de todas as contrariedades, apesar de a ter acusado injustamente, ainda sonhava que ela o mandasse entrar quando chegassem à casa rica, que lhe oferecesse uma bebida e lhe abrisse a cama.

Enganou-se bem porque ninguém engana a Francisca. A sensibilidade feminina cheira à distância os desejos dum homem e foi assim que conseguiu um preço muito em conta, ao perguntar por contas antes de chegarem.

- Pode não ser nada, tudo depende do que tiveres em casa para me dares!...

Ela respondeu com um silêncio de desprezo e vingança que bateu com crueldade os intentos do macho.

Chegados ao destino, abriu a porta para ele descarregar na entrada a tralha que trazia, pagou-lhe sem gorjeta, deu-lhe um aperto de mão e, em tom de boa disposição, deixou-o ir com uma frase laminar de despedida:

- Espero que nunca ninguém ligue para a polícia a bufar que andas a conduzir com álcool.

Os candeeiros da rua iluminaram um tomate prestes a rebentar, protegidos da luz, os outros dois tomates desfizeram-se e engelharam as peles, nem sequer teve coragem para sair logo de Pedra de Ouro, desfeita a fezada, estacionou o carro junto a um arvoredo e dorminhicou umas horas para perder umas gramas.

domingo, 3 de agosto de 2025

28- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões


Para despistar eventuais seguidores e baralhar os seus passos, Francisca, viajou de táxi para Pombal e daí apanhou um regional para Vale dos Ovos. No comboio, Francisca projetou com mais detalhe aquela que teria de ser a última e derradeira explicação do desafogo económico que não conseguiam mais camuflar.

Ninguém da terra, ao fim duma longa viagem, sai da estação sem entrar no café do Abílio, e muito menos Francisca desta vez, pelas razões que bem conhecemos.

Pagou-se o que era devido ao balcão e deixou-se ainda mais à confiança do balconista.

- Abílio, este é para fulana a quem devo uns favores, mais este para fulano a quem devo obrigações e mais este para alguém de quem me esteja a esquecer! Se ouvires por aqui alguém queixar-se, que eu ou o Jacinto lhe devemos alguma coisa, paga! Se este que te deixo se esgotar, liga-me que eu transfiro mais!

Fica por pagar um favor que te quero pedir: vou deixar-te as chaves da casa porque nas mãos do Pisca-pisca não estão seguras, nem ele terá arte para a arrendar. Se aparecer alguém interessado, arrenda-a tu e fica com o dinheiro como forma de pagamento para o serviço que me prestas ao tomar conta dela.

- Credo rapariga! Com as mãos assim tão largas ainda vais dar mais corda às vozes que vos invejam a sorte.

Francisca tinha por teoria caseira que, quem consegue para o seu partido o dono do café central, tem proteção dos predadores do burgo. Com esta prova de confiança que dava ao homem do balcão que com todos falava, assegurava que ele os defenderia perante as línguas afiadas e perigosas de certos fregueses.

Depois de tratados os assuntos materiais passou-se ao ponto dois: Jacinto foi preso mas não a deixou tesa.

- Ao menos deixou-me algum dinheiro, passou-se assim e assado, por isto e por aquilo, asneiras, necessidades, azar, vício, os grandes não são presos, os pobres pagam as favas, eu confiava, eu desconfiava, tenho de deixar esta terra, podem cortar-me a casaca que eu tenho dinheiro para outra mas não estou para responder a perguntas nem para reagir a olhares ou dedos indicadores com os meus dedos médios…

E olha que te digo, que foi alguém daqui que fez queixa dele à polícia!

- Daqui, duvido que tenha sido! Há por aqui muita gente que fala de mais mas não tem cantiga nem voz para tanto!

Abílio ouviu, com pena, a confissão da Chiquita e além desta, fez outras observações:

- Não há de ter grande pena, o Jacinto é bom rapaz, toda a gente desta terra sabia que ele fumava disso, ninguém imaginava que andasse metido nesse negócio, tem de pagar por isso, é bom rapaz, tu és forte, vais aguentar, um dia hei de ir visitá-lo!...

Eh lá! – pensou Francisca para consigo – visitá-lo é que não! É melhor passar ao ponto três.

Desconfiada que um dos com qualidades para participar à polícia poderia ter sido o seu próprio taxista e caseiro de ocasião, o Pisca-pisca, para evitar que com receio de a enfrentar, arranjasse desculpas de indisponiblidade para lhe fazer um serviço, pediu mais um favor:

- Oh Abílio, o meu telemóvel está com pouca carga, liga-me se faz favor ao Pisca-pisca, diz que tens aqui um cliente para um frete, mas para ser surpresa, não digas que sou eu! Estou cansada e não me sinto com forças para ir até lá cima a minha casa a pé!

De mais a mais, aquilo não deve estar em condições para eu dormir a noite. Ainda hoje tenho de ir para a Vieira. O Pisca está em dia de sorte, vai ter um dia por minha conta. Aproveito para lhe pedir as chaves para as passar para ti. Tenho lá coisas para levar, do que ficar, põe e dispõe, ainda tenho de me despedir da vizinhança, também tenho de ir às casas da Líria, da Rosa, da Rosália, que sempre foram tão minhas amigas. Depois passo aqui para me despedir e comer alguma coisa para a viagem.

domingo, 27 de julho de 2025

27- Um caso incrível dum casal premiado com o euromilhões.

 

Estavam as coisas neste ponto, já era fim de tarde, Jacinto na terra a fazer obras, Francisca na praia a projetar a ida a Vale dos Ovos e, em Vale dos Ovos, a dupla Jápintas e Pisca-pisca, ressabiada do passeio à Senhora da Asneira, à Pedra de Ouro, de tarde bem regada, especulava sobre a árvore das patacas que alimentaria os fundos da carteira do nosso casal.

- Essas árvores não existem e o dinheiro não nasce, tem de vir de algum lado. Mas de onde? – perguntavam-se enquanto bebiam o sempre adiado último do dia.

- Uma vez fui com ele a tal lado, um dia vi o gajo com um tipo de óculos escuros, havia dias em que não os via senão à noite, uma noite vi um carro que não era daqui à porta deles, faziam de pobres só para disfarçar!...

- Que só fumava umas brocas!... Que só fumava umas brocas! Fumavam ele e ela! Fumavam e vendiam! O que é que eles iam fazer tantas vezes ao Entroncamento e a Fátima? Que eu saiba não negociavam em travessas velhas nem em terços em segunda mão!

A fonte do dinheiro só podia ser uma, o negócio da droga!

Aliás, esta é a explicação a que se chega sempre quando um vizinho ou conhecido começa a passear-se num automóvel novo – no caso um papa reformas – e arranjam uma nova morada. Efabularam tanto as evidências, tomaram de tal modo como certa a conclusão, que deixaram de ver qualquer saída que não fosse denunciar às autoridades competentes o que, rápida e levianamente, passou de simples desconfiança a informação fundamentada e segura.

A polícia recebeu-os e ouvi-os com ávida atenção, assim que percebeu que havia ali caso susceptível de dar gosto ao dedo de servidor do estado. Casa com piscina na primeira linha junto ao mar é indício de peixe graúdo a dar à costa. 

A investigação prosseguiu o seu caminho, baseada nos factos e nos dados fornecidos pelos dois consumidores de drogas legais, a saber, vinho, cerveja e aguardente. Voltaram ao Vale, mantendo cúmplice segredo do ato de velhaca bufaria que haviam levado a cabo. Esperariam uns dias para ver o resultado e, só depois e em função dele, se gabariam que partira deles a iniciativa contra o crime e a bem da segurança das pessoas de bem deste país.

Andou o processo de esquadra em esquadra, de agente em agente, a casa da praia sobre vigilância, de Jacinto nem sinais, Franscisca entrava e saía, o papa-reformas e os táxis eram difíceis de seguir sem se fazerem notar, mas era claro que havia ali fortes suspeitas de ilicitudes, pelo que, um dia a campainha tocou já noite avançada, Francisca foi detida com a roupa que tinha vestida e a malinha, o telemóvel confiscado, entrou, incrédula, no carro da polícia da Marinha Grande.

Foi tratada sem dó nem piedade, como é tolerável e, segundo consta, hábito, nestes locais onde se tratam assuntos com os fora-da-lei. Quando falou do euromilhões, provocou estridentes gargalhadas na sala do interrogatório. Passou a noite na cela e, no dia seguinte, perante a insistência da sua justificação para os sinais exteriores de riqueza e a fragilidade dos elementos de prova, circunscritos ao relato dos dois denunciantes, a inspeção cedeu e viu-se confrontada com a situação inédita de ter de entrar em contacto com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Francisca foi libertada entre mil pedidos de desculpas do chefe da polícia, tendo exigido como reparação dos incómodos causados, sigilo absoluto sobre a origem da sua riqueza e que a levassem a casa de imediato.

Como chegou a casa por volta do meio-dia, optou por ir almoçar no restaurante do costume e, enquanto gozava o prazer do sossego duma refeição a sós consigo, pôs-se a congeminar nos acontecimentos das suas últimas horas. Ele há cada uma! Certo, que para lá da incompetência das autoridades, haveria alguém pouco inteligente que foi picar os simplórios dos polícias para atuarem, alguém que lhes desejava mal, não interessa quem, mas esse alguém, só poderia ser de Vale dos Ovos. Acomodou o enrolar e desenrolar dos pensamentos ao decorrer da refeição e já aguardava a conta quando uma luz se acendeu na sua mente:

- Pela boca morre o peixe, essa gente vai comer do veneno que inventou, não é tarde nem é cedo!

Estava dada a partida para um novo álibi que justificaria a riqueza, aliás modesta, se considerarmos a parte que chegara ao conhecimento dos conterrâneos: uma casa na praia, muita gente tem, viver sem trabalhar não falta quem.

Com este episódio e com esta decisão havia já motivos e motivações de sobra para ligar ao mais ou menos ex-marido e assim fez. Custou a convencê-lo que era verdade que tinha sido presa e quando este acreditou, em vez de ser solidário ou lhe dar consolo ao menos com um “deixa lá”, desatou a rir que nem um desalmado.

Jacinto voltou ao sério quando teve de concordar com a necessidade duma última e derradeira mentira, que ela mesma já estava a tecer e que tornaria pública na terra onde deles se fala, na ida que, nos termos já antes entre ambos combinados, teria de fazer por razões várias e vários fins. Quanto mais não fosse, por pura diversão de rica que era. O mote era este:

- Estás preso por tráfico de droga!

Daí a origem do dinheiro, muito dele posto a salvo das manápulas dos tribunais em bom tempo, ela que o gozava agora, ele que, cumpridos três anos, voltaria para lhe fazer companhia no gozo.

- Engulam! Aceitem! Desta vez, o crime compensou!... E compensou bem!... Pronto! Foi isto que aconteceu!... Nunca tive pai!... Chega? Estão contentes?

- Já estou para tudo! Mente para lá o que quiseres! Antes dares-me como preso do que como morto! Pelo menos se alguém me vir por aí não morre de medo! Eu não faço conta de lá voltar tão depressa e tu, se a coisa voltar a dar para o torto, desenrasca-te que já provaste que tens arte para isso! Eu por aqui estou bem, graças a Deus. Sempre que quiseres cá voltar, a porta estará aberta e a casa será tua!

Ah! E deixa-me dizer só mais uma coisa: a minha mãe achou-te uma rica mulher e o meu irmão está sempre a perguntar por ti.

domingo, 20 de julho de 2025

26- A história incrível dum casal que recebeu o euromilhões.

 


Vamos agora a Vila Facaia, para dar uma mão nos dias de redenção que Jacinto por ali pratica com devida abnegação.

Quando chegou, espantou e revoltou a mãe, babou e avivou o irmão – portador de doença psicomotora, recordemos – e voltou a enterrar o pai quando o soube, felizmente, morto. Tinham passado muitos anos, mas o mano continuava a mesma criança, limitada nos seus passos, com o mesmo sorriso inocente e, por detrás das rugas, pressentiu na mãe a mesma alma, lenta e ferida, conformada com a má sorte e com a frieza com que ele, o filho são, a abandonara ao mau-vinho do, felizmente, falecido.

Não adiantava chorar sobre as lágrimas derramadas, Jacinto tinha, portanto, de trabalhar para conseguir o perdão materno, que sempre se consegue, tornar mais digna a vida do irmão, dar um sentido novo à sua vida, honrar as suas origens, dar um fim honrado ao seu património financeiro.

Ao fim de alguns dias eram visíveis as melhorias nas expressões da mãe e do irmão. Para os outros facaios foi fácil engolir a versão de ter um passado de emigrante na Austrália, de ter agora voltado bem abonado e da mulher andar também na terra dos seus a matar saudades. Passadas semanas tinha fechado negócio e adquirira uma casa, na vizinhança, para remodelar e proporcionar outro conforto à família, dera um contributo apreciável para a Santa Catarina e começava a ser considerado um filho pródigo merecedor de público reconhecimento.

Cuidar dos seus transformou-se num prazer, voltar a viver no seu habitat de criança tornou-se um alimento. Para quem chegou com baixas expetativas, o regresso às raízes, supreendentemente abriu-lhe a porta duma nova vida, apenas perturbada pela sina popular de dar destino ao ditado de “sorte a jogo, azar no amor, traduzida na súbita interrupção da sua relação conjugal.

Não se pense, contudo, que a frequência dos contactos que mantinha com Francisca, se reduzissem à gestão da carteira e do segredo, a sua separação era mútuamente aceite com normalidade, a sua relação era amistosa, o que, por si só, não afastava a hipótese de no próximo encontro físico, renascer o verdadeiro amor, aquele que no fundo não é mais que uma amizade com momentos de sexualidade partilhada.

Estava, portanto, Francisca, inteiramente ao corrente do quotidiano e das emoções de Jacinto e este, preocupado, acompanhava de perto todos os pormenores do desmoronamento do embuste que arquitetaram. Até que ambos chegaram à conclusão que o melhor mesmo era Francisca vir a Vila Facaia para conhecer a sogra e o cunhado, para ver o que Jacinto andava a fazer ao dinheiro e para, presencialmente, combinarem uma estratégia para se desenvencilharem do imbróglio que lhes tinha posto a careca a descoberto.

E assim foi, Francisca chegou, foi bem aceite e aceitou bem. Para não agitar a harmonia familiar e a concórdia, dormiu com o ex-marido, teve um orgasmo e acordou bem, assim como Jacinto e, com tudo entre os dois mais ou menos bem, acordaram que, pelo menos um deles, tinha de ir a Vale dos Ovos pagar contas, esclarecer quem o merecesse, para depois desaparecer sem deixar rasto, abandonando de vez o passado, a casa, o povo e o povoado.

A terra natal de Jacinto parecia a este, o local onde ninguém daria com ele e onde ninguém questionaria a sua vida desafogada.

Seria com noites destas e conversas destas, que aguentariam viva a relação, sem perturbarem o estado de separação por mútuo acordo. Assim se despediram.

Durante a viagem, Francisca, de regresso à Casa da Pedra de Ouro, decidiu que, para já, essa iria continuar a ser a sua morada. Não se lhe oferecia outro lugar ou companhia para desfrutar da boa vida. Arranjar outro homem, ir para outra terra, procurar a filha, aprender a viver só, eram considerações a que atendia, mas a memória da última noite e o olhar pacífico do Jacinto, estavam a fazê-la reconsiderar.

As inseguranças que lhe traziam tantas dúvidas, tão poucas certezas, fizeram-na sentir-se de novo, em fim de adolescência, obrigada a aceitar um modo de vida e a decidir-se por um companheiro, por já ter idade e antes que fosse tarde.

Recordava as amizades que fizera na juventude e que eram para toda a vida, as juras com Jacinto que também eram de amor para toda a vida, o amor de mãe e filha que era inquebrável e para sempre. Refletia na família-ombro-refúgio-âncora-proteção-companhia, talvez tudo. E afinal, passados estes anos, não sabe do paradeiro de uma única amiga da adolescência; a relação com o único amor da sua vida está no estado em que está; a filha Lúcia está praticamente incontactável; o calor da família está quase tão frio como o berço em que o pai a abandonou.

Depois deste parágrafo de a puxar para baixo, alternou com outro de puxar para cima:

Crescera forte porque crescera sem família, a solidão sempre fora a mais fiel das companhias, Jacinto ainda estava ali, assim, mas estava ali, a filha ainda era filha, ausente, mas era a sua filha.

Depois deste pensamento positivo, outro pensamento positivo:

- Dinheiro não é problema!

Isto é o que dá estar sozinha numa casa junto ao mar. Cisma-se, sente-se o prazer da maresia, conforta-nos o poder de estar numa casa junto ao mar, mas vem à superfície a melancolia, a vontade que temos de querer sofrer, a capacidade de juntarmos a alegria e a tristeza a dançar juntas, a consciência e a sabedoria de assim termos de viver.

- Dinheiro não é problema!? O dinheiro é sempre um problema: ou por ser pouco, ou por ser muito!

Tanto assim é que, nos próximos dias, terá que se deslocar a Vale do Ovos para resolver um assunto, relacionado com o problema do dinheiro.

domingo, 13 de julho de 2025

25 - A história dum casal de aldeões a quem calhou o euromilhões

 

Francisca identificou a origem da chamada, atendeu o telefone e teve o primeiro embate quando reconheceu a voz do Jápintas no telemóvel do Pisca-pisca. À medida que este largava as informações, sem meias palavras, num tom indecoroso, surpreendentemente autoritário, portador de direito a pedir explicações, a atirar soluções, Francisca ensabocava-se e contorcia o corpo, alternando-lhe a forma entre o ponto de exclamação e o ponto de interrogação, até que chegou ao ponto em que conseguiu libertar a fala:

- Já estás com os copos, é o que é! Não tens mais nada para fazer senão telefonares a esta hora com uma história dessas?

- Só tenho uma pergunta a fazer:

- O que é que eu faço ao homem? Estou aqui com o Pisca-pisca e ele tem a chave da tua casa. Dizendo ele que é teu pai, já que aqui não há albergue, pode lá passar a noite?

- Meu pai calma aí! Ele que durma em tua casa!

Se se tratasse duma conversa cara a cara, teria de aguentar-se ao confronto, mesmo que virasse costas, era bem provável que o interlocutor a perseguisse a mandar farpas e ganchos de chamada à razão, mas o telefone tem esta vantagem – desliga-se e pronto.

- Esta mulher tem cá um génio! – disse Jápintas de olhos nos botões do telemóvel.

Marçal interrompeu o seu silêncio de velho apático, mas com consciência de personagem principal do momento, e perguntou:

- Então? Que disse a minha filha?

Desenvolveu-se a resposta com a explicação possível. O coração social dos dois resistentes, sentindo o fim do serão, começou a falar:

- Se ao menos a estação estivesse aberta toda a noite como antigamente!...

Não iam abandonar o homem ao orvalho e ao frio, era preciso dar-lhe enxerga e agasalho em algum canto. Coube a Pisca-pisca ceder à compaixão e disponibilizar a solução mais prática: dormiria na sua garagem, no banco de trás do táxi, mas com uma porta aberta para não deixar cheiro.

Jápintas fez o programa do dia seguinte, uma viagem dos três ao palacete de praia dos dois, para um derradeiro confronto entre a verdade e a mentira. No meio de tanto dinheiro, não há de faltar dinheiro para pagar o táxi e, em último caso, para os fazer calar. Pisca-pisca não discordou porque nunca recusava um frete ou a participação num caso com potencial para ser contado. O velho Marçal Marques não disse ai nem ui, como se a sua vida estivesse entregue aos trilhos do acaso ou duma predestinação.

Enquanto esta cena decorria, ocorria uma chamada telefónica duma casa da beira atlântica, para uma casa algures no Pinhal Interior. Um casal discutia, à distância, nos mesmos maus lençóis: a mentira, que os protegia e os alimentava há algum tempo, explodira nas suas mãos. Pressentindo as ideias que à mesma hora andavam a ferver em Vale dos Ovos, os astros aconselhavam que se tomasse de urgência uma decisão. E essa decisão foi Jacinto ficar onde está e Francisca mudar-se para um hotel onde ninguém a reconhecesse ou procurasse.

Retomemos o fio da meada do dia seguinte ao regresso de Marçal Marques às suas origens e viajemos daí até à casa da praia onde, para desilusão da trempe da investida, ninguém atende no vídeo-porteiro, nem nos telemóveis de um ou de outro, apesar das repetidas tentativas do Pisca-pisca e do Jápintas, assessorados pelo silêncio ansioso do pai reaparecido. A tentativa da visita frustada causava irritação, mas só vinha confirmar que, Francisca e Jacinto ao não darem a cara, não estariam de bem com a verdade, nem com os amigos.

Poder-se-ia aceitar, pelos factos passados, que Francisca não quisesse conhecer o verdadeiro pai, mas pelo menos podia atender o telefone! O ter espetado a toda a gente a mentira que o pai era rico, não é crime e, por isso, a malta com o tempo irá perdoar aos dois. A não ser que seja crime a origem dos sinais exteriores de riqueza que vêm timidamente mostrando, sendo que, nesse caso, mais cedo que tarde, as boas polícias que temos farão o seu trabalho e nós cá estaremos para prestar informação, se tal contribuir para que se faça justiça e ajudar ao esclarecimento da verdade.

Voltaram para o Vale, de mãos a abanar, os dois comparsas, discutindo o destino que teriam de arranjar para o passageiro do banco de trás, sendo que o mais acertado seria convencê-lo, ou forçá-lo, a entrar no comboio no cais oposto de onde ontem arribou. Sendo perceptível que dinheiro não tinha, fariam uma vaquinha e pagar-lhe-iam o bilhete de volta para Santa Apolónia.

Entraram no café e informaram o Abílio dessa decisão e, seguidamente, contaram em poucas linhas os passos da sua aventura, ou melhor, da sua boa ação.

Não sabiam era ainda a surpresa que Abílio, um homem maduro, de confiança e sereno, lhes reservava.

Durante a manhã, tinha recebido uma chamada da Francisca que queria confirmar se não era brincadeira de mau gosto, essa história dum homem que aparecera a identificar-se com o nome do seu pai e, se fosse verdade, que lhe contasse o que comentavam as pessoas que reagiam ao acontecimento.

Que desse dinheiro ao suposto pai e o encomendasse para de onde veio, que não tinha qualquer interesse em vê-lo ou conhecê-lo. Pedia-lhe também que, resolvido o assunto, lhe desse conhecimento e lhe apresentasse a despesa, que a conhecia há muito como freguesa de boas contas.

Pisca-pisca e Jápintas ouviam atentamente, entre a arrelia e o espanto, as novidades do homem do balcão, quando se falou do pai, olharam para trás e viram um homem velho e maltrapilho a chorar. Ainda insistiram com o Abílio para que tentasse novo contacto, já que a eles, pelos vistos, não queria atender, mas este abanou em simultâneo a cabeça e o indicador em sinal de negação:

- Ó senhores, não perceberam o que eu disse? É assunto para encerrar e, uma vez que andam com ele, peço-vos ajuda para lhe comprarem um bilhete e o pôr a andar daqui para de onde veio!

Com papas e bolos, ao fim dumas horas, lá se conseguiu despachar no comboio o velho e desorientado Marçal e, encerrado o episódio, Abílio ligou à Francisca dando-lhe nota disso mesmo.

Com as pulsações a voltar à frequência normal, depois duma noite para esquecer, Francisca voltou à sua casa de praia.

Com o azul do mar a amparar os seus pensamentos, dava voltas à piscina abrindo o seu passado. A sua primeira memória de criança era numa instituição, nunca a trataram mal, mas nunca soube o que era um afeto ou um laço familiar. Quando teve idade para perceber que não tinha mãe porque ela morreu, aceitou. O que nunca conseguiu aceitar, quando já crescidita lhe contaram, foi que o seu pai fora um cobarde que a deixou sem ninguém no berço de nascimento. Para isso não existe perdão. Será isso que ele quer agora pedir - perdão? Quererá apenas vê-la? Quererá carinho ou afeto? Procurará ajuda ou dinheiro?

Ou terá vindo apenas, qual enviado do diabo, para destruir a história perfeita que ela e o marido tinham construído para justificar a origem do seu dinheirinho?

Pois que não restem dúvidas, que a maneira abusiva e despudorada como tratou a figura paternal nessa história, diz muito sobre a consideração que conserva por quem a enjeitou! Seja qual for a razão por que agora o suposto pai aparece, só vem confirmar que não tem vergonha na cara, sendo que, tal é tão certo como não ter dúvidas, que nem vivo nem morto, queira alguma vez ver esse homem à sua frente.