domingo, 31 de agosto de 2025

32- A incrível vida do casal ganhador do euromilhões

 

Jacinto e Francisca viajaram de táxi e só se fizeram anunciar quando já estavam na receção do hotel a registar a entrada. Recordemos que estamos no mesmo hotel onde há uns meses não foram admitidos, sabemos bem porquê, o que vem revelar ao enredo que o nosso casal mudou significativamente o seu visual e passaram a ter um aspeto mais à altura destes ambientes e locais.

Daqui a poucos minutos ligariam à Lúcia e, passados mais uns minutos, teriam a família reunida e iriam almoçar àquele restaurante. Era este o plano. Pelo meio teriam de surgir os esclarecimentos da situação em que se encontravam, esclarecimentos que, estamos de acordo, não podiam conter toda a verdade. Vamos lá a ver se a conversa corre, nos termos combinados durante a noite, já que no caminho não puderam falar disso por causa das orelhas do taxista.

Os hóteis pequenos são como as terras pequenas. O encontro dos cinco deu-se assim: no elevador.

Ouviu-se pelos corredores dos quartos o ruído do baque, saíram do elevador pois claro, ficaram ali a trocar-se de cumprimentos e coincidências, ninguém estava no piso certo, ninguém podia dizer vamos para aqui falar, havia que encontrar portas, em conclusão o primeiro encontro foi curto e embaraçoso.

- Encontramo-nos na receção daqui a um quarto de hora. Depois falamos. Almoçamos.

Nem uma linha se escreveu mais durante estes quinze minutos. Assim que se reencontraram, como seria de esperar, todas as atenções se viraram para a menina, a Céline. Já no exterior, no passeio ventoso da marginal, a questão que não poderia esperar pelo almoço, fez-se, nua e solta:

 - Que história é essa do pai estar preso e de terem dinheiro para hóteis? Calhou-vos o euromilhões?

A pergunta não era para ter resposta imediata, esta informação era para ser dada em cautelosas prestações, aos bocadinhos, aqui e ali com meias verdades, à medida que  a conversa se fosse desenrolando. Mas o dedo intuitivo da filha apanhou-os de surpresa. Como é que ao longo destes meses, de todos os outros que haviam tentado identificar a fonte que alimentava a sua carteira,  não tenha havido ninguém a levantar essa hipótese? E foi assim que uma palavra, pequena, doce e calma, se soltou num voo leve e natural da boca da mãe Francisca:

- Sim!...

A brisa marítima amaciou o ambiente. Afinal foi um parto sem dor. Sim. Sim, é normal quem joga poder receber um prémio. Tão normal, como não se saber o valor do património financeiro da maioria das pessoas, é o montante dos prémios recebidos não ser público.

Durante o almoço seria explicado porque inventaram mentiras e nunca revelaram a verdade em Vale dos Ovos.

- À volta de três milhões!... 

Mentira! Nem a filha podia saber toda a verdade! Continuação da conversa:

 A terra do pai; algum será para ti; o teu companheiro entende o que dizemos; a Céline, está a perceber alguma coisa; se concordarem ficamos aqui uns dias!...

Ao fim de três dias já estavam fartos uns duns outros.

Foi sobre uma conta de três milhões que partilharam a titularidade com a Lúcia, o suficiente para esta presenciar a reverência com que os pais eram tratados pelos funcionários do banco. Assim que se viu com o nome na massa, Lúcia anunciou que regressaria no dia seguinte ao Luxemburgo com a família. Partiu sem saber da missa a metade, inclusivamente sem tomar conhecimento da residência atual dos progenitores, ficou a saber que ea a terra natal do pai e mais nada. A ligação entre pais e filha só ficou mais reforçada porque, desta vez, ficou gravado o contacto telefónico e o indicativo internacional.

O comportamento e os olhos do italiano sofreram bruscas alterações, assim que este percebeu que a companheira passara a ter acesso a uma conta bancária milionária. Francisca e Jacinto perceberam bem isso, assim como perceberam que foi por sua iniciativa que decidiram partir precipitadamente.

Quando se despediu da família migrante, o nosso casal sorriu e um dos dois disse:

- Ainda bem que não lhes falámos dos outros cento e vinte e três.

Morta a curiosidade de quem queria saber quanto, e note-se que fica a saber mais do que os potenciais herdeiros, vamos de novo para Vila Facaia viver a vida como os demais.

Entretanto a mãe de Jacinto ficou com uma doença, que tem um nome de que ela nunca se lembra e foi para um lar. O irmão deficiente de Jacinto, de tão feito que estava à mãe, também foi para o mesmo lar. Outra informação: a casa da Pedra de Ouro foi vendida e o dinheiro da venda foi oferecido ao lar.

Francisca e Jacinto formavam um casal querido na Vila e arredores: falavam pouco da vida dos outros e pouco se sabia da sua vida, davam-se bem com toda a gente, os cordões da sua bolsa desatavam-se para tudo o que era peditório, oferenda, angariação, sorteio, contributo, necessidade.

Está a fazer um ano daquela atribulada viagem ao edifício da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, na Avenida da Liberdade, acabámos de revelar o montante do prémio, vamos agora apontar que no calendário amanhã será o dia 17 de junho de 2017.

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