Jacinto e
Francisca viajaram de táxi e só se fizeram anunciar quando já estavam na
receção do hotel a registar a entrada. Recordemos que estamos
no mesmo hotel onde há uns meses não foram admitidos, sabemos bem porquê, o que
vem revelar ao enredo que o nosso casal mudou significativamente o seu visual
e passaram a ter um aspeto mais à altura destes ambientes e locais.
Daqui a
poucos minutos ligariam à Lúcia e, passados mais uns minutos, teriam a família
reunida e iriam almoçar àquele restaurante. Era este o plano. Pelo meio teriam
de surgir os esclarecimentos da situação em que se encontravam, esclarecimentos
que, estamos de acordo, não podiam conter toda a verdade. Vamos lá a ver se a
conversa corre, nos termos combinados durante a noite, já que no caminho não
puderam falar disso por causa das orelhas do taxista.
Os hóteis
pequenos são como as terras pequenas. O encontro dos cinco deu-se assim: no
elevador.
Ouviu-se
pelos corredores dos quartos o ruído do baque, saíram do elevador pois claro,
ficaram ali a trocar-se de cumprimentos e coincidências, ninguém estava no piso
certo, ninguém podia dizer vamos para aqui falar, havia que encontrar portas,
em conclusão o primeiro encontro foi curto e embaraçoso.
- Encontramo-nos
na receção daqui a um quarto de hora. Depois falamos. Almoçamos.
Nem uma
linha se escreveu mais durante estes quinze minutos. Assim que se reencontraram,
como seria de esperar, todas as atenções se viraram para a menina, a Céline. Já
no exterior, no passeio ventoso da marginal, a questão que não poderia esperar
pelo almoço, fez-se, nua e solta:
- Que história é essa do pai estar preso e de
terem dinheiro para hóteis? Calhou-vos o euromilhões?
A pergunta
não era para ter resposta imediata, esta informação era para ser dada em cautelosas prestações, aos bocadinhos, aqui e ali com meias verdades, à medida que a conversa se fosse desenrolando. Mas o dedo intuitivo da filha apanhou-os de surpresa. Como é que ao longo destes meses, de todos os outros que haviam tentado identificar a fonte que alimentava a sua carteira, não tenha havido ninguém a levantar essa hipótese? E foi assim que uma palavra, pequena, doce e
calma, se soltou num voo leve e natural da boca da mãe Francisca:
- Sim!...
A brisa
marítima amaciou o ambiente. Afinal foi um parto sem dor. Sim. Sim, é normal
quem joga poder receber um prémio. Tão normal, como não se saber o valor do
património financeiro da maioria das pessoas, é o montante dos prémios
recebidos não ser público.
Durante o
almoço seria explicado porque inventaram mentiras e nunca revelaram a verdade
em Vale dos Ovos.
- À volta
de três milhões!...
Mentira!
Nem a filha podia saber toda a verdade! Continuação da conversa:
A terra do pai; algum será para ti; o teu companheiro
entende o que dizemos; a Céline, está a perceber alguma coisa; se concordarem
ficamos aqui uns dias!...
Ao fim de
três dias já estavam fartos uns duns outros.
Foi sobre
uma conta de três milhões que partilharam a titularidade com a Lúcia, o
suficiente para esta presenciar a reverência com que os pais eram tratados
pelos funcionários do banco. Assim que se viu com o nome na massa, Lúcia
anunciou que regressaria no dia seguinte ao Luxemburgo com a família. Partiu
sem saber da missa a metade, inclusivamente sem tomar conhecimento da residência atual dos progenitores, ficou a saber que ea a terra natal do pai e mais nada. A ligação entre pais e filha só ficou mais
reforçada porque, desta vez, ficou gravado o contacto telefónico e o indicativo
internacional.
O
comportamento e os olhos do italiano sofreram bruscas alterações, assim que este
percebeu que a companheira passara a ter acesso a uma conta bancária
milionária. Francisca e Jacinto perceberam bem isso, assim como perceberam que
foi por sua iniciativa que decidiram partir precipitadamente.
Quando se
despediu da família migrante, o nosso casal sorriu e um dos dois disse:
- Ainda bem
que não lhes falámos dos outros cento e vinte e três.
Morta a
curiosidade de quem queria saber quanto, e note-se que fica a saber mais do que
os potenciais herdeiros, vamos de novo para Vila Facaia viver a vida como os
demais.
Entretanto
a mãe de Jacinto ficou com uma doença, que tem um nome de que ela nunca se lembra e foi para um lar. O irmão deficiente de Jacinto, de
tão feito que estava à mãe, também foi para o mesmo lar. Outra informação: a
casa da Pedra de Ouro foi vendida e o dinheiro da venda foi oferecido ao lar.
Francisca e
Jacinto formavam um casal querido na Vila e arredores: falavam pouco da vida
dos outros e pouco se sabia da sua vida, davam-se bem com toda a gente, os cordões da sua bolsa desatavam-se para tudo o que era peditório, oferenda,
angariação, sorteio, contributo, necessidade.
Está a fazer
um ano daquela atribulada viagem ao edifício da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, na Avenida da Liberdade, acabámos de revelar o montante do prémio, vamos agora apontar que no calendário amanhã será o dia 17 de junho de 2017.
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