sexta-feira, 4 de maio de 2007

O Melhor, o Maior e o Ridículo

Primitivo, pensando das suas, chegara a congeminar uma forma de concorrendo, pôr a despeito O Prémio Nacional do Professor. O caso fez-se até texto, em Janeiro, num qualquer blog que dá pelo nome pouco professoral de Rei dos Leittões!
Não lhe viessem à memória as conversas dos amigos de adolescência, em que sempre se silenciava na sua frágil e imberbe maturidade, e ter-se-ia aventurado - qual maratonista degolando os seus adversários – a tão despudorado concurso. Recordara-se do Pé de Lã teimando o nome do melhor jogador de sempre; o Batuta revelando o maior guitarrista de rock; o Papa Léguas dizendo que lera, embora não o soubesse pronunciar, o nome do homem mais rápido do mundo; o Comuna – sempre com a Vida Soviética na pasta – a mostrar o operário do ano na Ucrânia.
A Primitivo, esses títulos não lhe causavam entusiasmo: os maiores, os melhores de sempre ou do ano, no amor ou na horta, poderiam sempre estar anónimos no longínquo Tibete ou ali mesmo atrás da porta!
Apesar de tudo, punha sempre um olho intenso e apressado quando o Mangueiras divulgava os atributos fotogénicos da coelhinha do ano da Playboy!
Também achou estranho que o governo, sempre apostado em estender as suas medidas democráticas e progressistas a todos os sectores da actividade pública e privada, tivesse reservado um prémio deste significado somente aos professores. Não se lembrou do auxiliar da acção educativa do ano, do polícia do ano ou do juiz do ano, da enfermeira ou do paciente do ano, do deputado, da puta – esta não que era fácil de nomear!
Uma das obras de Kaos - We Have kaos in The Garden

Primitivo desconfiou, esta trazia água no bico! Embora a sua intenção de candidatura emergisse da vontade de ridicularizar a iniciativa, afinal de contas, ele tinha sérias possibilidades de vencer e, se assim acontecesse, poderia perder o pulso à situação e virar-se o feitiço contra o feiticeiro.
Além de tudo isto, tinha-o demovido a existência e o resultado do infeliz concurso do género que dera que falar – o tal “Maior Português de Sempre”, um programa televisivo a que entregou o riso que costumava atirar aos guardas do túmulo do Soldado Desconhecido.
Estava já o prémio esquecido quando recebeu, com zomba satisfação, a notícia que o concurso estava deserto de professores da escola pública!
E eis senão quando a ministra - sub-repticiamente supracitada - recorre ao seu estilo, alarga o prazo de candidaturas e dá indicações para serem pressionadas as direcções das escolas que haviam esquecido a sua génia ideia.
Nessa altura Primitivo fez voto de silêncio. Uma enorme compaixão pelos candidatos-instrumentos a isso o obrigava.

3 comentários:

Anónimo disse...

Acutilante, mas por favor não divulgues este texto pelas escolas de Ourém pois serás obrigado a fazer voto de silêncio e a cara de compaixão não é coisa que te fique bem.

João Rato disse...

Ourém?! Isso não é na Galiza!?

zerui disse...

Sim, Ourém é na Gaiza e Ourense é no Distrito de Santarém.
Estes gajos não percebem nada de Geografia.