terça-feira, 31 de julho de 2007

Nos tempos que correm

Não sei se faço bem / Ando muito inseguro mas dispenso forças de segurança / Já não é a primeira vez que o faço / Para o "Rei dos Leittões" não ficar às moscas vou buscar à gaveta uma coisas da adolescência /Às vezes nem acredito que fui esse / Outras vezes sinto que ainda sou o tal/ Hoje mesmo, dia 31 de Julho de 2007, senti que o tempo corria / Senti a estranha desorientação de não perceber se o acompanhava, se ia à frente, ou se ia atrás / Eu devia de ser um rapaz muito estranho em Dezembro de 1985 /Correm agora outros tempos / Mas correm à mesma...

I
Estou lúcido demais para gritar
O sangue dói demais,
Porque é feito de maravilhas e desastres
que os olhos, sempre os olhos, forçam a entrar

Versos?! – Versos não,
que já passou o tempo em que tudo foi dito,
de modo que, NOS TEMPOS QUE CORREM,
não convém falar
II
Se dentro de três dias a Virgem não me aparecer no olival,
eu faço-me sapo,
fumo um mar de charutos
e, rebento...
-Olé! Pelo menos foi o que me disse o Presidente quando lhe contei,
não haver grito nem voz
nem deus que me contente!...
Percebo muito pouco da vida, para entender as palavras dum homem do Poder
mas, o senhor Presidente não me ia enganar!
-Não restam dúvidas, estou tramado! Três dias de vida meu Deus!
Só porque nasci ontem e, entretanto, perdi o norte à minha origem!
- Errar é humano! (diz-se que os astronautas não podem errar)
Mas errar por essas ruas e encontrar um panfleto:

PROCURA-SE BICICLETA DE CORRIDA CINZENTA MGR-12-85
entrar em casa
pôr-se em pelota
não encontrar o sofá
ficar desesperado
fechar-se no quarto de banho
esconder a chave
escrever este texto
dormir no banheiro
acordar afogado
sair pela janela
apresentar-se ao trabalho
- não é humano, aconteceu-me a mim! (logo eu sou um psiconauta)

“-alucinado!...
não há virgens
não há reencarnações,
e embora existam sapos que incham,
não rebentam!...

muda de casa
compra um chapéu
faz-te um homem,
NOS TEMPOS QUE CORREM
os poetas têm que parar,
e cura-te! cura-te, que a vida são três dias!”

- disse-me isto, o Sol...
acendi um charuto e pensei para comigo:
estou são e sóbrio...
estou quase “O HOMEM IDEAL”...

MGR-12-85

5 comentários:

Anónimo disse...

Senão o "homem ideal", ao menos, o ideal de alguém especial
Pois,
tivera a virgem a chave da cancela que dá acesso ao monte do olival e hoje mesmo voltaria a acreditar que a vida, em quaisquer tempos, será o que fizermos dela. Assim ,não nos abandone o discernimento e a vontade...

Zé Povinho disse...

Ena que desassossego por estas bandas. Só não concordo com o facto de não haver virgens. Será que a inocência já não existe?
Vou dar uma volta na bicleta, para ver se me curo das minhas ilusões.
Um grunhido cá do Zé

MARIA disse...

Olá, boa noite, passei em especial para agradecer a simpatia do link, gesto que ,com gosto, retribuí no meu blog.
Ah, lembrei-me, pouco a propósito, que em meus contos de menina, havia sempre alguém predistinado a salvar o sapo do encantamento, quanto mais este que tão cruel destino lhe seria reservado : morte por "rebentamento".
Mas não poderá esquecer que de sapo nada tem , todos nós na blogosfera o sabemos " nosso REI ".

Moriae disse...

Grande veia, João! :)
E boa ideia essa de recuperar escritos antigos! Acho que tb vou dar uma volta aos cadernos tb.
Abraço

João Rato disse...

anónimo
não, na altura era quase ideal, agora sou mesmo.

zé povinho
até com uma bicicleta se pode perder a virgindade!

maria
é verdade, fiz em puto a experiência, o sapo incha, incha, mas não rebenta

moriae
ainda bem que surgiram os blogs para dispensar as gavetas