quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Quarto 1

O quarto era arrendado, aos dois, por dois contos e duzentos a cada um, com dois banhos por semana e cama feita. Ficámos de pensar. Dona Graça fez questão de dar conta da sua situação passional, tinha um amante. Viera de Moçambique, a toque de Independência, arrastada por um colono branco septuagenário de quem tinha duas filhas. O velho morrera e eram as herdeiras que garantiam o direito ao tecto perante a demanda que a viúva branca, que nunca pusera o corpo em África, lhe movia reclamando a posse da vivenda.
As moças, de 17 e 15, a mãe de 35, tinham formas e sorrisos de fazer estremecer a mancebia de tal forma que, já na rua, Zé Maria esfregava as mãos de entusiasmo e dizia para mim:
- Para mim já está pensado, negócio feito!
O espaço exíguo para os dois, dois divãs, uma mesinha, um guarda-fatos, uma pequena mesa, uma cadeira, uma janela de poucas vistas, as paredes pintadas de vermelho…
- Eu reparei lá nisso! Paredes vermelhas? Viva o Benfica!...Viva o comunismo!
Lá abancámos a tralha e diga-se que, passada uma semana, a vida já era familiar. Ao serão jogávamos às cartas com as meninas e com o senhor Carlos que, entretanto, começou a trazer também o filho.
Um dia, o senhor Carlos presenteou com um carro Graça e foram, os cinco, desbundá-lo pela noite. Os tristes hóspedes ficaram e acordaram por volta das sete da manhã com gritos e pancadas de escândalo na porta de entrada. Fomos ao quarto dos amantes espreitar pela janela, duas mulheres possessas diziam das suas para dentro da casa e a vizinhança fazia já roda ou espreitava. Fomos abrir a porta informando com calma que estavam ao engano.
- Que não e não e não!
- Que somos apenas hóspedes e que somos os únicos seres dentro da casa e que não podemos permitir a entrada que a casa não é nossa!
Com a diplomacia possível para o caso lá conseguimos que mãe e nora partissem vencidas mas não convencidas. Talvez tivesse sido falsa a pista, talvez eles tivessem tido um acidente, talvez fossem fantasias e não cornos o que as trouxe ali.
Certo é que, do Senhor Carlos e do seu filho único nunca mais se ouviu falar. A casa virou festa, era música e mais música merengue até a polícia deixar, era a condução do Zé Maria a fazer chiar o Simca 1000 enquanto a Dona Graça não passava na carta, era a beleza da juventude, era a vida!...

22 comentários:

Alberto Cardoso disse...

São muitas as “histórias da vida real” que Vossa Majestade tem, aqui, partilhado com os devotos visitantes deste blogue. E muitas mais ainda haverão para contar. É por isso que eu aqui venho diariamente na esperança de encontrar uma nova história, sempre diferente mas sempre bonita.

NINHO DE CUCO disse...

Excelente, Pata Negra.
É isso a vida. Esse album de recordações sensíveis que tu escreves e descreves com mestria.
Abraço-te

quin[tarantino] disse...

Ó Sodoma, ó Gamorra, ó mestre da palavra... apreciei Vossa erduita dissertação sobre uma existência levada entre quatro paredes vermelhas...

Boris disse...

Pata Negra, Pata Negra
que bem que sabes escrever
quatro paredes vermelhas
são tudo o que queremos ter.

C.Coelho disse...

Majestade
O vermelho fica bem a Sua Realeza. Muito bem mesmo.

Mary disse...

És dos meus e escreves bem.

Marreta disse...

Ai, ai, se eu fosse falar (ou melhor, escrever) de quartos arrendados e de pensões...
E que é feito das moçoilas?...
Saudações do Marreta.

MARIA disse...

Ai, ai ... Vossa Majestade e o vermelho ...

O Guardião disse...

As recordações de uns tempos algo loucos, entre paredes vermelhas e umas moçoilas pelos vistos interessantes...
Cumps

M.M.MENDONÇA disse...

Um bom conto e uma experiência interessante.
Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Bela escrita e bom texto de recordações. Escreves muito bem. Pena é que não gostes da escola.
Abraço

Zé Povinho disse...

Recordar é viver. Um bom exercício de memória e de escrita, naturalmente.
Abraço do Zé

martelo disse...

ao correr da pena se vai soltando o tempo ido...gostei.

Joseph disse...

Sabes o que eu acho? É que devias ser um bom malandreco. E se calhar ainda és.

MARIA disse...

:)

Considerando o seu gosto pelo vermelho deixei no meu blog uma ligação a este reino A VERMELHO para que de lá retire o prémio que lhe foi atribuído.

walter disse...

Ah, vermelho meu vermelhinho, e se desses um salto ao meu Cadeirão para bebermos um copinho?

Louise disse...

Gosto. Escrita de quem viveu, sentiu, sofreu, amou, recorda e é Pata Negra.

sol&mar disse...

A vida é feita de tudo e de nada.
Bons tempos que já não voltam.
Viva o REI.

Jorge Borges disse...

Magnífico! Entre o real e o irreal, para mim fica a dúvida: um conto sobre algo vivido? Uma vivência imaginada posta em escrita? Uma vivência real? ? ? ?

Gostei muito.

Um grande abraço amigo

P.S.: Venho do conto posterior, Quarto 2, que só agora é que vou ler...

Anónimo disse...

Apenas me admiro do seguinte: Naqueles tempos difícies em que a mãe ía para as feiras vender leitões e galinhas, como conseguiria arrajar todos os meses dois contos e duzentos, fora os extras claro...com grande sacrificio concerteza? Gosto imenso do que escreve, parabéns. Deixo uma beijoca

Pata Negra disse...

Meu caro anónimo - anónima! - beijoca!?... não era a mãe nem o pai que arranjavam os dois contos e duzentos, isso é outra história já aqui contada numa J7!
Um abraço e beijocos

M A R I A disse...

Gostei imenso de lê-lo e de relembrar este excelente texto e a sua primeira publicação neste espaço.
Memórias ternas e cheias de graça as suas bordadas com a sua qualidade literária.
Isso é que eram visitas.
Ser hóspede de uma casa assim é uma animação :)

Um beijinho amigo

Maria