domingo, 13 de setembro de 2009

A Crise

De vez em quando (muitas vezes?) dá-me para isto, para a solução fácil: ir rebuscar um post antigo e vênde-lo segunda vez. Assim acontece desta vez (terceiro "vez"?) - vês?! a escrita não está nos meus/seus melhores dias!
Por isso aqui fica um "repostado" que espero que sirva para pensarmos em votos. Faço votos que assim seja!
Alice Serra das Fontes ficou viúva com cinco filhos às costas e fez das tripas coração para chegar aos setenta e cinco anos que ontem completou. Para assinalar o feito convocou os herdeiros, dispensando netos, noras e genros, e fez uma panela de mexudas.
A mais nova, professora, anda revoltada e deprimida com o que está a acontecer nas escolas. Os irmãos acham que ela era uma privilegiada e acham muito bem que a obriguem a não gostar do que faz.
O segundo mais novo é operário e anda preocupado porque é voz corrente que a empresa vai ser deslocalizada. Os irmãos acham natural e que a culpa é dele porque estava acomodado ao dinheirinho certo ao fim do mês e nunca se esforçou por fazer outra coisa.
A do meio tem um “comes e bebes” mas a coisa vai de mal a pior porque a malta não tem dinheiro. Os irmãos sempre acharam que ela escolhera aquela vida porque não dava trabalho e que puxava nos preços quanto queria, e, por isso, as suas dificuldades não os impressionavam.
O segundo mais velho anda na construção e anda desanimado porque a coisa vai torta. Os irmãos acham que ele quase que chegava a rico sem saber ler nem escrever e que é bom que se convença que também tem de saber o que é a crise.
O mais velho é criador de gado e, com as condições que lhe estão a exigir, vai ter de fechar a exploração. Os irmãos concordam porque não lhes agrada o cheiro que, às vezes, anda no ar e porque, além disso, ele dá medicamentos aos porcos.
- Vocês, parece que se esqueceram que precisam uns dos outros! Não foi para ver isto que eu vos andei a criar! Fazem-me lembrar o governo que ataca tudo a torto e a direito como se a única coisa que funciona bem neste país fosse a governação!
Estais todos angustiados porque vos convencestes que o vosso mal era o bem dos outros e que ficarieis bem se os outros ficassem mal!
Pois eu preciso de vós os cinco. Deixei de fazer queijos pelo facto de me exigirem azulejos e fiquei conformada com a reforma de 160 euros. Agora vejo que errei, devia ter lutado contra estes cabrões de Lisboa e acomodei-me! Agora peço-vos que me ajudem, quero 50 euros de cada um como prenda de anos! Em quem vais votar?
- Eu nunca votei!
- Eu nunca mais voto!
- Votar, para quê?
- Com o meu voto, ninguém conte!
- Eu voto na puta que os pariu!
- Puta que os pariu aos cinco! Querem ver que tem de ser a velha a votar por vocês todos! Em trinta anos de votos nunca tive tanta vontade de votar! Vou votar sim! Vou votar contra estes cabrões dos Cavacos e Soares que há trinta anos que nos andam a foder com a crise e não há maneira do povo ver que a crise é esta cambada de adoutorados que andam sempre a cagar sentenças de remédios e não há maneira de acertarem!
De saída, os cinco trocaram entre si umas palavras: se ao menos a gente tivesse dinheiro para a pôr no asilo!

29 comentários:

Raposa Velha disse...

Grande tirada esta, mesmo à Bertolt Brecht!

René disse...

Meu Rei
Assim é que é falar mostrando sem falsos pudores o país que temos.

Um abraço

MARIA disse...

Majestade,

Rendo-me a este texto tão bem escrito, tão bem construído e como se fora pouco, contendo ainda uma crítica social feita de forma poética, mas absolutamente eficaz.
É isso mesmo . Essa é a sociedade que temos, a vários níveis.Não são só os filhos da Ti Alice ...

Uma boa semana
Um beijinho amigo

Maria

Compadre Alentejano disse...

Esta Tia Alice é de todas as tias Alices de Portugal. Dificuldades e mais dificuldades.
Gostei muito do texto. è natural, é legítimo.
Um abraço
Compadre Alentejano

pé-de-salsa disse...

Majestade!
Que belo texto. Actualíssimo.
Não será isto a inveja. Agora até afecta irmãos.
Saudações ao Rei.

O Guardião disse...

A Tia Alice pode ter errado no passado, mas apesar de estar entradota, vê as coisas muito bem e está longe de precisar de ser internada, ao contrário de muitos outros que por aí andam, sempre a morder as canelas aos mais próximos e seus iguais, ao mesmo tempo que deixam passar ao lado os responsáveis dos males que os afectam.
PS - Peço desculpa por utilizar esta sigla, que me faz urticária nos últimos anos, mas venho pedir desculpa pela energia alternativa lá do meu cantinho, mas era só uma brincadeirinha.
Cumps

Anónimo disse...

Nota vinte, cinco Estrelas!
Cada um dos filhos da Tia Alice pensava que os irmãos estavam bem e só ele tinha problemas. Afinal todos estavam mal e todos eles tinham profissões importantes para o povo. Nenhum nascera em berço de ouro, não era politico profissional nem ex-politico, agora gestor de um grande grupo económico.
Alberto Cardoso

joshua disse...

Puta que os pariu à cambada que Governa esta merda há mais de trinta anos: fazem-nos crer que o defeito é nosso, que o problema é nosso, mas a verdade é que sendo eles tão portugueses como nós, são mais chineses que portugueses a partir do momento em que cagam para nós.

O Voto ainda é arma. O voto ainda servirá para dar uma lição a esses filhos da puta de opressores e acalentadores de corruptos.

É pelo Voto que vamos. Eu voto todos os dias no meu ministério de cidadania chamado Blogar.

samuel disse...

Rei

Agora prantaste-me a cantar. Foi bom!
O final da cantiga está escarrapachdo no teu excelente texto.
Abraço.


"Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos - Mãe Coragem"

Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
nascidos do mesmo ventre
um vive de joelhos pr'ó outro passar à frente
e esta velha mãe pr'áqui já no sol poente

Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
seguiram pla estrada fora
um voltou-se pra trás, disse adeus que me vou embora
voltaremos trazendo connosco a vitória

De que vitória falas, disse eu então
da que faz um escravo do teu irmão?
ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?

Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde paravam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
e o silêncio enchia de morte o meu coração

Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
não foi pra isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei

Às vezes rogo pragas de os ver assim
sinto assim uma faca dentro de mim
sei que estou velha e doente
mas para ver o mundo girar dum modo diferente
'inda sei gritar, e arreganhar o dente

Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
não quero dar-te conselhos
mas s'é o teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
doa a quem doer, faz o que tens a fazer

Mocho-Real disse...

Bom retrato da sociedade!

Um abraço.

Robin Hood disse...

Porque é que há-de haver sempre quem seja mais pobre e sacrificado?

quintarantino disse...

... e no fim ainda um resmungou: "nem a velha morre, nem a gente come!"

Ferroadas disse...

É como as cheias, já repararam que as casas dos ricos nunca são atingidas. Porque serão sempre as dos pobres?

Gostei da história, é um dos muitos retratos desta sociedade da treta.

Abraço

29/2 Álgés

Marreta disse...

Para 75 anos, a Ti Alice Serra das Fontes tem uma lucidez e uma visão estratégica de fazer inveja.
Muitos houvera como ela e acabavam-se os mamões num instantinho.
Saudações do Marreta.

Savonarola disse...

Companheiro,
Agradeço-te muito as palavras que me deixaste, como o João Aleixo com Este Livro Que Vos Deixo.
Curiosamente, este teu post que nos deixas, lê-se como Aleixo, com a revolta na alma e na palavra.
Um gand'abraço anarquista

Oliva verde disse...

Tal como ao Samuel, também me fizeste lembrar a cantiga!!!!
O que vale é que algumas Tias Alice vão fazendo com que os filhos tenham vontade de por no asilo quem os DESGOVERNA!!!!!!
O texto é magnífico!

Pata Negra disse...

Ai MARIA, mas os filhos da Tia Alice são tão diferentes são tão diferentes dos outros filhos da sociedade - ou eles não fossem os filhos da Tia Alice
Um beijo de uma semana de crise

Pata Negra disse...

pé de salsa
não gosto da palavra inveja, acho até que a inveja não existe assim tanto, acredito mais no mau-olhado
Um abraço de pouca sorte

martelo disse...

parece-me que a "velha" tem o juízo bem assente no sítio... e tal como esta muitos me impressionam na forma como vivem ou se sacrificam até ao fim...
abç

Zé Povinho disse...

Parece que há quem tenha juízo mesmo quando alguns não querem aceitar as verdades.
Lá no meu cantinho ficou uma comenda para sua majestade.
Abraço do Zé

a casa da mariquinhas disse...

Texto muito bem escrito, que mostra bem a realidade do país em que vivemos.
O desgoverno que nos governa muito tem contribuido para o agravar da situação em que nos encontramos, seja qual for o sector a que cada um pertença.
As tias Alices não precisam de asilo, nem sequer de reforma. Precisam é de agarra na pá, como a padeira de Aljubarrota, e corrê-los a todos.
Quem lá pôr depois...é que não me parece tarefa fácil! Não se vislumbra luz ao fundo do longo túnel!
Mais uma vez obrigada pela visita que me fez.
Um abraço e até breve.
Mariazita

Metralhinha disse...

É, pelo andar da carruagem isto fica mesmo um deserto.
O último a sair que apague a luz e feche a porta.

MARIA disse...

Majestade,
Textos como este são sempre bem vindos.
E no momento actual, de muito grande oportunidade.
Pois é Majestade, já andamos no combate à crise há algum tempo. Tanto que chego a recear que seja a crise a vencer-nos.
Para que isso não aconteça é importante que ninguém deixe de votar.
As sondagens apontam no sentido de haver grande necessidade de tomar partido, pois um voto, ao que tudo indica, poderá fazer muita diferença.

Além do mais, Majestade, gostei de relembrar este texto tão significativo na história deste blogue, neste espaço que sempre soube fazer a diferença e com criatividade e humor dizer não, sempre que se impunha.

Um beijinho amigo

Maria

do Zambujal disse...

Ah! g'andAlice!
Ou G'anda REI.
E a ti, Maria, digo-te que perdeste hoje uma oportunidade de prestar homenagem a Sua Magestade!
Almoçou perto de ti!

Maria disse...

do Zambujal

Vim aqui de propósito. Porque eu sou outra Maria... bem podias ter dito, bolas...
... quem sabe se não vou ao almoço da tomada de posse...


Pata Negra

Desculpa a intromissão, o almoço de hoje estava MESMO bom!!!

Vê lá se ganhas, para eu prestar homenagem e vossa majestade...

Milu disse...

Gostei imenso de ter lido este post e da mensagem que nele está implícita, ainda bem que o Rei decidiu escarafunchar no baú dos arquivos. Só não acredito que a mãe utilizasse aquele português vernáculo. :D

Marreta disse...

Mau! Já é a segunda vez que cá venho e aparece aí em cima um cromossoma a fazer-se passar por mim!
Pois eu só voto se me levarem a urna ao asilo ou se me levarem à urna! Tenho dito!

Saudações do Marreta.

oplidor disse...

"...além disso, ele dá medicamentos aos porcos." esta gostei, drogar os porcos a ver se eles adormecem com os cornos numa pedra...

no final, a "escumalha miúda" tenta safar-se e atirar com a velha ao ar, aliás, parecido com o amparo nacional da velhice.

abraço

Zé Povinho disse...

São muitosos que se resignam, poucos os que se dão ao trabalho e ao incómodo de resistir e de combater o que acham que está errado. Sempre foi assim.
Abraço do Zé