segunda-feira, 17 de março de 2008

Transbordo de memórias

Júlia Bernarda comeu o pão que o diabo amassou quando, no tempo da fome e da segunda guerra, a mãe, viúva, foi levada pela tuberculose e a deixou dona da casa com os seus quatro irmãos às costas, a mais nova com nove anos e o mais velho com dezoito. Os irmãos rapazes acabaram por fugir para o Brasil no final da década e ela ficou unha com carne e harmonia com a mais nova. Nunca entre as duas houve levantar de voz, discordância de fundo, desentendimento e acabaram mesmo por casar com homens irmãos e criar os filhos de ambas à “sociedade”.
Foi nesse destino que ficou minha madrinha, esta mulher de armas que nunca foi de lamechas nem de histórias que, quando não sorria, cantava, quando não trabalhava, dançava, quando via tudo murcho, animava!
Uma inspecção qualquer fechou-lhe, há meses, a taberna que mantinha aberta apenas para ter a companhia dos fregueses. Estes serviam-se e faziam o troco a eles próprios porque as pernas a traíram, de tal forma, que a coisa já quase só dava para estar sempre sentada.
Ontem, fiz a minha visita habitual. Sentada para ali a espreitar o sol dos seus oitenta e poucos anos, irradiou satisfação de me ver chegar. Nestes últimos tempos tem-lhe dado para fazer o transbordo da sua para a minha memória, dos tempos idos, felizes e sofridos. E ficamos ali nesse trabalho, cada um dos dois, com uma lágrima num olho e um sorriso no outro.
Ela foi, com uma velha coxa e solteirinha, a duas léguas dali, comprar cada uma, uma saca de laranjas para vender na feira. Como era para chegar de madrugada, foram de noite, a pé, pela linha de comboio para verem e não se perderem. A coxa não fugiu a tempo e o maquinista, que era de bom sangue, teve de parar. Mandou-as subir e foram à boleia até ao apeadeiro.
Regressadas com a fruta, negócios à parte, a Júlia contou as laranjas para calcular a que preço teria de vender cada uma para ganhar algum. Com tudo vendido, atou o dinheiro no lenço e foi a um feirante comprar uma carteira. Uma carteira custava tanto como um saco de laranjas, comprou a carteira e ficou sem dinheiro.
- Ah! Ah! Ah! Rimo-nos do tempo da miséria.
Rio-me com a minha madrinha e olho-a como se a minha mãe não tivesse morrido completamente e tivesse deixado um pedaço dela na irmã mais velha.

10 comentários:

pé-de-meia disse...

Bonita história, Majestade.
Como é bom ler estas letras da vida real.
Um BEM HAJA, Majestade.

Boris disse...

Pata Negra, Pata Negra,
esta história é como a minha
história de gente humilde
que de seu bem pouco tinha.

Por isso gosto de vir
por aí a caminhar
até chegar a este espaço
onde posso descansar.

A tua alma é a minha
porque ambos filhos do povo
lutamos pela verdade
e por um Portugal novo

onde se possa viver
sem a ASAE a chatear,
onde se possa comer
conviver e fornicar.

Porque neste Portugal
já nada se pode fazer
só o rico tem poder
e o pobre está sempre mal.

samuel disse...

Mais uma "passagem de nível"!
Para ler e guardar.

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
A verdadeira história faz-se de coisas simples. Coisas que se guardam na memória, ricas de vivências e de afectos. Coisas que transbordam cá dentro sempre que as recordamos.
Por isso, quando vejo o interior do país desertificado, o êxodo das populações para os subúrbios das grandes cidades do litoral, onde são proscritas e desenraízados, sinto que, para além doutras injustiças, se está também a arrancar a alma a este povo que tem memórias.
Pata Negra, escreve-as e guarda-as para que não fiquemos espoliados das nossas referências e dos nossos valores já que o estamos a ser dos nossos bens e da nossa dignidade.
Um abraço aldeão

Maria disse...

Que história extraordinária Majestade !
Escrita com excelência, linda, muito linda. Embalada às mais belas notas musicais da alma ...
Adivinham-se vivas a substância e a forma das personagens.
Eu acredito que as pessoas amadas jamais morrem completamente ( a imagem é belíssima ). Vivem, em cada lembrança, em cada objecto, a cada palavra dita ou escrita, a cada traço que as liga às nossas memórias.
E sabe,tenho a certeza,que Vª Majestade está entre esse número de pessoas, mais restrito do que se supõe, que NUNCA morrerão completamente.
Obrigado por partilhar esta história.
Um beijinho amigo
Maria

Alberto Cardoso disse...

Qual Majestade qual quê!
Hoje tive um dia comprido e muito complicado. Há minutos, finalmente, sentei-me em frente do PC, dei uma olhada ao "correio" e fui logo à procura do Rei. E encontrei uma bonita história que me comoveu. Lê-la foi o melhor que me aconteceu hoje. Por isso hoje, amigo, é por amigo que te trato e é um sincero abraço amigo que te envio.
Alberto Cardoso

Mocho-Real disse...

Mais uma bonita história bem contada. Assim se vai conhecendo o nosso povo.

P.S. (salvo seja!) - Fiz uma brincadeira contigo no nº de hoje, 3ª feira-18, lá no Sino. Espero que não te importes!

Um abraço.
Jorge G.

Compadre Alentejano disse...

Bela história. Faz-me lembrar as histórias que o meu avô contava.O lugar e as personagens não diferem muito, mas contadas por ti, tem um cunho especial.
Um abraço
Compadre Alentejano

A. João Soares disse...

Muito bem escrita esta história vivida por dentro, transporta-me à minha terra , afastada do comboio, mas com gente vivendo iguais problemas. Tudo lá vai já muito longe, para lá do horizonte. E os jovens de hoje ao lerem estas realidades não acreditam que não é ficção. Ninguém, jovem, acredita que se viveu sem luz eléctrica, sem água canalizada, sem esgotos, sem telefone, sem rádio e muito menos televisão.
Mas era mesmo assim. Estudar e fazer os trabalhos de casa à luz mortiça do petróleo, não era saudável. Era pior do que hoje são os piercings elevados a problema mais importante para a Assembleia da República.
E assim cresceu gente forte que a tudo resistiu, com anti-corpos eficazes.

Abraço
A. João Soares

joshua disse...

A vida é uma história que se conta alegre na sua tristeza. Bela tia essa tua também mãe. É da cepa das boas velhas da minha vida.

PALAVROSSAVRVS REX