sábado, 15 de março de 2008

Passagem de nível

O toutiço estava ainda marcado pela historieta do post da passada quinta-treze; lá estava a rapaziada outra vez na bejeca, agora, ao balcão do café da vilória. Numa mesa, consigo próprio, estava um rapaz, por acaso filho do zeloso ferroviário que me toutiçou. A crueldade cobarde e a grosseria da trupe não o pouparam à vingança do acto do pai. Nunca tive ascendência sobre ninguém a não ser sobre os que comigo cresceram na aldeia e ditei – eh pá! isso não!
Levei dois finos para a mesa da vítima e expliquei-lhe entre desculpas a situação, de tal forma explicada, que ficámos amigos com mais três cada um enquanto a minha malta se virou de conversa para futebóis, carros, garinas ou motas, ao caso não interessa.
O filho do ferroviário da estação, era o Nuno do post de terça-quatro. Estava rotulado e bem conhecido, nas redondezas, como inteligentíssimo aluno que perdera o rumo académico com o boi e os ácidos e que se tinha passado. O meu gesto protector depressa foi de encontro à sua solidão e a conversa virou para a situação social da juventude, para os “Doors” e os anos sessenta, para a poesia, para Zaratustra, para o shaman, para os livros – estava eu ainda a sair dos romances para outras leituras e o meu novo amigo estava já tão adiantado em outras reflexões que, no espaço sociológico onde vivia, só podia ser considerado louco ou dar mesmo nisso.
Passadas semanas, com as notáveis diferenças, o Nuno Albuquerque era aceite e querido no grupo e a sua casal 2 começou a ser parte do parque do café da nossa aldeia. A malta começou a estimá-lo embora ele nunca tivesse passado de "passado".
Os seus pais tinham vindo do Alto Alentejo atrás do sustento da "linha". Viviam numa daquelas casas pequeníssimas de guardas de passagem de nível. A sua mãe espalhou alegria quando me viu chegar, o Nuno tinha um amigo com o aspecto que tinha! O quarto minúsculo e com arrumo de filho único de casal ferroviário estava forrado a livros e cassetes de música anglo-americana, estive para aí uma hora a partilhar os escritos do amigo escritor, entre espanto, admiração, compaixão, valorização, bandeiras despregadas, gargalhadas e comboios a passar.
Troquei apenas duas ou três palavras com a guarda da passagem de nível mas ela ficou a gostar muito de mim, troquei uma data de ideias com o filho da guarda de passagem de nível e ele passou a fazer parte do meu grupo de amigos por uma data de anos.

Não sei se será de continuar com a história do Nuno Albuquerque? Já lá vão umas linhas de escrita e eu ainda disse tão pouco, se calhar nada, sobre o Nuno Albuquerque! Se calhar não interessa nada! Se calhar estou a escrever as minhas memórias ainda tão novo! Este blog não tem futuro! Não lhe consigo dar um rumo!

16 comentários:

Moriae disse...

Que rodopio! Quase que se ouve a música!
É de continuar sim senhor! E uns esboços? Pelo texto, passam imagens.
Abraço, Imperial e Amiga Pata!

Alberto Cardoso disse...

Majestade.
Embora saiba que a minha opinião não conte, insisto em contá-la: continue Majestade, continue a contar-nos a história deste e de todos os Nunos que conheceu. Como já disse antes, é sempre com enorme prazer que leio o que “posta” neste espaço.
Alberto Cardoso

Maria disse...

Majestade, não dê "rumo", deixe-o exactamente onde está.
Como vê já me sentei em frente à sua lareira a crepitar bom gosto e imaginação, para escutar absorta as suas palavras naquilo que guardou e ainda não contou do Nuno Albuquerque que adoptou como amigo, apesar do pai ...
Pronto Majestade, estás-se aqui muito bem. O ambiente é agradável e quentinho.
Então, e depois, Majestade , e depois...
conte mais ...
Pode ser ?

Beijinhos amigos

Maria

Mocho-Real disse...

Qual ruo? Rumo bom é não ter rumo, andar ao acaso do tempo e da disposição!

Gostei, como sempre, da maneira de contar a história. Mostra muitas e boas leituras anteriores.

Um abraço, Rei dos Tós!
(Vai um pexinho grelhado ao sal? Um robalo ou um pregado, talvez) :-)

Marreta disse...

É sem dúvida uma bela história. Geralmente esses "cromos" (chamo-lhes cromos não no sentido depreciativo, antes pelo contrário) eram quase sempre apelidados disso mesmo, senão algo pior, porque intelectualmente mais adiantados no trajecto, eram óbviamente incompreendidos pelos menos eruditos e mais práticos da imperial, do caracol e da bancada ao Domingo à tarde. Julgo que em todos os grupos de amigos sempre houve lugar a um ou mais exemplares do género.
No meu, por exemplo, existiu (e ainda existe) um que dá pela graça de Hitler (de alcunha, é claro) e que daria intermináveis posts.
É sempre com saudade e um sorrizinho nos lábios que recordamos esses tempos mágicos.
Para preservarmos a memória dos melhores tempos que a vida nos permite e confraternizarmos, reunimo-nos há cerca de 25 anos, no mesmo dia do mesmo mês, à mesma hora, um grupo de amigos, que actualmente rondará os 12. E assim continuaremos pela vida fora, até que restem pelo menos dois.
Saudações do Marreta.

pé-de-meia disse...

Majestade!
Continue a contar-nos as suas histórias. Estas fazem-nos falta.
Reviver o passado é acreditar no futuro. Acreditar no futuro deste País sem o xóxocrates.
Um abraço para si, Majestade e outro para o Nuno.

joshua disse...

Isto está é Bom e no Bom não se mexe. As histórias do meu irmão Nuno Albuquerque, esse sôfrego de saber e reflexão, esse Além e Extra-Toda-a-Gente lembra-me aspectos da minha infância, adolescência e primeira juventude e algumas pessoas do meu lugar igualmente excêntricas nos gostos ou na intensidade deles. Tarde ou cedo, o íman da amizade acaba por a todos nos atrair.

Ao contrário do Marreta, por aqui, nesta minha cidade cancerosa das relações, duradouras não há dia no mês ou mês no ano em que nos encontremos a fim de comparar as nossas barrigas e os nossos naufrágios. Sempre fomos antes de tudo enormes competidores.

Isto está Bom e no Bom não se mexe!

PALAVROSSAVRVS REX

Robin Hood disse...

O grande rumo da história está na sua autenticidade e na vivência das realidades dum povo que pertence a um Portugal profundo onde as elites não põem os pés.
Não põem os pés para entrar, só para apontar, para dizer que se viu e se conhece.
Estou nas lides da blogosfera há muito pouco tempo e as minhas disponibilidades para escritas e andanças são também muito poucas. No entanto já elegi o Rei dos Leittões como a Taverna do meu Reino.
Aqui podemos vir tomar um copo, fumar um cigarro e falar da vida tal ela é.
Continue amigo

Odysseus disse...

Estive um tempo parado para refrescar as ideias, mas conto agora voltar ao activo com um pouco mais de regularidade. Por isso deixo um obrigado a todos os que me presentearam com visitas ao blog e comentários de apoio nestes meses de ausência, tu incluído.

Cumprimentos do Odysseus.

samuel disse...

Quais rumo!!!
E depois? E depois?

Zé Povinho disse...

Acabado de chegar, comecei a ler e chegado ao fim do post, alguém vem falar de rumo. Então, será que o comboio descarrilou? Fico à espera!
Abraço do Zé

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

As tuas histórias são ricas de vivências. Aquelas vivências sentidas, partilhadas, com raízes que prendem à terra e com convivências autênticas e tranquilas.
Aguardo o próximo post com expectativa.

Um abraço ferroviário

Compadre Alentejano disse...

Como vês, toda a gente está ansiosa pelo desenvolvimento da "estória". Força, venha lá mais um episódio...
Um abraço
Compadre Alentejano

O Guardião disse...

Então ficamos sem saber mais nada sobre o Nuno? Vamos lá a encontrar o fio da meada, que o pessoal ficou curioso.
Cumps

Oliva verde disse...

Pois é! Sabemos ainda pouco do Nuno!
Parece-me que há por aí ainda mto para contar.
Fico à espera!
Um abraço

Pata Negra disse...

Nem sabeis como me reconfortam os vossos comentários. Só a vossa voz poderá impedir que este reino descambe em república.
O passado vai descansar uns dias que o diário promete. Omtem estive com a minha madrinha, depois vem o dia do pai, a semana santa e a Páscoa