quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quarto 5

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, este quarto não faz sentido)
Todas as manhãs as miúdas saíam para o liceu. A mãe, a meio da manhã, ia para o trabalho no restaurante. Eu, às vezes, também ia às aulas e o Virgolino ficava todo o dia em casa a ver televisão e a emborcar cervejas.
Nas primeiras noites que dormi naquele quarto acordava duas ou três vezes, a horas certas, com o ruído dos comboios da linha da Lousã que passava mesmo ali ao lado. Com o hábito o comboio deixou de me tirar o sono, assim aconteceu também com os sons da mobília e dos corpos que se enrolavam no quarto ao lado.
Muitas vezes, durante o dia, para vencer o tédio de desempregado, Virgolino batia à porta do meu pequeno quarto, entrava com duas cervejas abertas, pousava uma sobre a sebenta e dizia:
- Rapaz, a vida não pode ser só estudar! Bebe, se queres ter força na verga!
Sentávamo-nos um em cada cama, de garrafa na mão e a trocar umas conversas. Perguntava-me das coisas que eu estudava, contava-me a sua vida e a sua terra, disse-me que esteve preso por roubar carros, afiava-me a curiosidade com detalhes das intimidades que travava com a Gracinha, pedia-me uns trocos emprestados para não me cravar mais cigarros, fazia-se o amigo que eu nunca imaginara.
Um dia, à noite, depois duma discussão com a sua Graça, que eu acompanhara pelo soalho do meu quarto de estudante, Virgolino entrou de rompante no meu quarto:
- Tenho de espairecer João, vem comigo! Contigo, talvez ela se descosa com as chaves do carro! Estou farto do cheiro a catinga desta casa!
Sem dizer não, aconcheguei os preparos de sair à rua e descemos as escadas.
- João, vocês podem ir mas vão a pé, no meu Simca é que não!
Virgolino dirigiu-se à despensa, que ficava por debaixo da escada, e saiu com um saco de plástico de supermercado, cheio de quase nada, na mão.
- Vamos João! A noite é nossa!
Como um cordeirinho inocente que acompanha o seu comandante, desci com ele o carreiro que separava o bairro da avenida. Bebemos duas imperiais rápidas na nossa cervejaria e saímos. Cinquenta metros depois, Virgolino abriu o saco que trazia no bolso de dentro do blusão enquanto dizia:
- Esta é a nossa presa! Serve?
Surpreendido com a aventura nem tive tempo para pensar ou reagir:
- Entra aí desse lado!
Disse-me ele já com as mãos nos fios por debaixo do volante para fazer a ligação directa. Aí vamos nós a abrir pelas ruas da cidade, de bar em bar, até à discoteca final!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

21 comentários:

alberto cardoso disse...

Vejam como um jovem ingénuo e imaturo pode ser arrastado para a senda do crime!
Reparem com que facilidade um jovem ingénuo e imaturo pode ser levado a cometer um ilícito criminal!
Só porque este jovem ingénuo e imaturo não teve a coragem de disser NÃO! e voltar para casa.
Os mais novos, principalmente nos tempos conturbados de hoje, têm que aprender a dizer NÃO! quando o que lhes é proposto pelos «amigos» lhes pareça de legalidade duvidosa.

salvoconduto disse...

Olha, olha com o Virgolino na ramboia! Olha co homem não é muito de fiar...e bebe, bebe que vais ver pra onde vai a força na verga.

Lá tenho eu que esperar uma semana para saber por onde andaste com Virgolino. Pelas alminhas tu cuida-te, lembra-te que ele já esteve "dentro"!

Camolas disse...

- Ai que medo que tenho que me roubem o carrinho!!!
Acudam !!! oh da guarda!!!

Pata Negra disse...

Allberto, Virgolino não era um jovem ingénuo e imaturo e eu tinha consciência política suficiente para defender a tese de que os carros eram um bem comum e, por isso, deveriam ser partilhados entre todos.

joshua disse...

João, o Virgolino, de bejeco Quartilho em Quartilho bejeco, era um mestre da insubmissão, alguém muito à frente desses miseráveis códigos sociais individualísticos, tristes e sisudos.

Para ele, Partilhar é que era tudo. Para ele, beber cervejas, dar umas fodas a sério, trepando paredes, abalando as fundações de uma casa inundando de prazer e gozo a sua Africana-Toda-Boa, e ser Feliz, correr a Vila na arte do engatanço e do bebericanço e, mais uma vez, ser FELIZ, para ele, isso era tudo! Era a definição do essencial para si!

A Sociedade é séria de mais e não cuida da felicidade de ninguém. Cuida da morte utilitária de todos vegetantes.

Espero que Virgolino volte a respirar o maravilhoso cheiro da catinga daquela casa, tão excitante e telúrico, mesmo para nós que a vemos transformado em estória de se ler e comentar.

Carpe-Quarto Diem, João! Estou para ler aqui as tuas aventuras no Seminário e mais algumas da Caserna!

E já agora, Rato, da Caatinga brasílico-nordestina, que é outra coisa, tenho eu infinita e indescritível saudade!

PALAVROSSAVRVS REX

joshua disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joshua disse...

Virgolino, o Aviador. De aviar carros, mesmo.

PALAVROSSAVRVS REX

O Guardião disse...

A aventura começou, e diz-se que existe a sorte de principiante. Vamos ver se o estudante não se chamusca...
Cumps

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Há várias espécies de ladrões: os legalizados e os ilegais.
Estes ladrões de carros têm o problema de serem ilegais e por isso maus companheiros para um estudante que quer ser legal.
Abraço roubado

alberto cardoso disse...

Ó pra ele a tentar deturpar o que eu disse. A “fugir com o rabo à seringa” é o que é.
Não sei a idade do Virgolino mas, com aquele «curriculum» não o imagino jovem. De ingénuo não tem nem um cisco. Imaturo, isso não sei porque não tem a ver com a idade.
O jovem ingénuo e imaturo que refiro é o puto que, sem reflectir, obedece ao Virgolino quando este ordena: - Entra aí desse lado! Só um puto ingénuo, imaturo e inconsciente obedeceria a tal ordem.
E não me venham com teorias socialistas básicas para explicar o comportamento do Virgolino. Num país civilizado, seria preso pelo que fez; num país dito socialista de então, com sorte, iria partir parar a um gulag qualquer.
P.S. Vem aqui visitar-te um companheiro (dos blogues) que escreve coisas muito interessantes. Gosto imenso de ler os seus comentários embora, e é com vergonha que o admito, não perceba nada do que ele escreve. Eu, por vocação e formação, estou mais virado para as ditas «ciências exactas»: 2+2=4! E não venham com tretas. 2+2 sempre foi e será igual a 4.
Deve ser por isso que eu não consigo entender as pessoas que, julgo eu, dizem coisas muito importantes mas que se desviam desta lógica matemática elementar.
Faz-me falta formação na área das Humanidades para entender certos escritos. Vou pensar nisso. Vou aproveitar «AS NOVAS OPORTUNIDADES» tão propagandeadas para me doutorar em … depois verei.

joshua disse...

Ó Alberto, toma uma pastilha Renie para a azia.

Nem preto nem branco. Acredito é no Cinzento. Todos querem viver a história do Quarto e, com juízos de valor, crucificar o Virgolino e o narrador de factos de há vinte, trinta ou mais anos: foda-se, curtam e saboreiem! Não fodam a bela história do Rato!

Só me aparecem Cromos Complicativos.

PALAVROSSAVRVS REX

Anónimo disse...

Pata Negra

Deixa que te diga que quem está a ficar preso agora sou eu, esta aventura esta cada vez mais interessante.
É certo que já tinha uma certa admiração por ti, mas esta história do João está a ficar um MUST.
Já não vejo hora de chegar a próxima Quarta.
Beijocas
Cunha de Ouro

sandokan disse...

Pata Negra, concordo inteiramente com o sr. Alberto até porque 2+2=4 ou será 22.
Quanto à história do Virgolino está a ficar muito interessante.
O melhor, Pata Negra, é começares a lançar dois episódios de cada vez,pois, começo a ficar com água na boca..
Que grande telenovela aqui vai.
Um abraço

AJB - martelo disse...

mas, o Virgolino até tinha razão... realmente beber umas bejecas provocam vasodilatação, daí que maior força na verga...
abç

Compadre Alentejano disse...

Quero ver as cenas dos próximos capítulos...A coisa está empolgante...
Um abraço
Compadre Alentejano

alberto cardoso disse...

Fico contente por constatar que ainda há pessoas boas e que me entendem. Agradeço a força que me deram. Agradeço particularmente ao companheiro comentador que me aconselhou a tomar uma Renie. Deu um resultadão: acabaram as azias.
Também aguardo ansiosamente (não como, mal durmo, tenho pesadelos e até alterações intestinais) pelo próximo quarto. Com mil raios! Só agora me apercebi que uma semana demora um tempo danado a passar. Até parece quando estamos com uma dor de dentes insuportável: minutos parecem hoooooraaaaaaaassssss!!!
(E, no entanto, os anos passam a correr, ficamos velhos sem dar-mos por isso.)
Bolas! Distraí-me e entrei num tema que nada tem a ver com o 2+2=4. Dois mais dois e não dois e dois igual a 22! Essa é velha!
Para terminar deixo aqui cumprimentos a todos os que visitam o Rei dos Leittões, particularmente aos que ousam deixar um comentário. O Rei oferece-nos aqui algo diferente, que o distingue da generalidade dos blogues. Que são chatos, repetitivos e politicamente comprometidos. No Rei todos têm cabimento.
Por isso proponho que gritemos em uníssono: VIVA O REI!!! VIVA!!!

Pata Negra disse...

Obrigado pelo forrobodó - que palavra! faltam acentos? - de comentários. O quarto é grande! Caberão todos no meu quarto porque cabem neste reino.
(obs. tratem-me por Pata Negra só os mais próximos, os outros, humildemente, peço-vos que me tratem por Majestade! - Obrigado!
Rei dos Leittões

sol poente disse...

Majestade
Eu não sou próximo mas gosto de vir aqui porque neste espaço não há hipocrisias e, assim sendo, é meio caminho andado para uma maior consciência social.
Deste modo talvez sobrem os ladrões e os honestos possam ter merecimento.
Ao Virgolino faltaram-lhe os recursos do Vale e Azevedo.
Uma vénia, Majestade.

Oliva verde disse...

O que mais gosto neste Quarto é que me divirto tanto a ler as aventuras do João e Companhia como a ler os comentários de quem visita o João e Companhia!
Por isso, vou ficar (em boa companhia!) à espera da próxima Quarta!
Beijinhos

alberto cardoso disse...

Da quarta e do QUARTO!
Também eu.
Quanto aos comentários, Cara Oliva (de Elvas, suponho), julgo que a grande maioria dos «comentadores» se esforçam por criar um ambiente bem-disposto, na linha da maneira como escreve o nosso “hospedeiro”. Que, esse sim, tem graça.

Zé Povinho disse...

Lá vem um pouco de aventura para o João desemburrar...
Abraço do Zé