domingo, 21 de setembro de 2008

Poema de morte

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
Governado por um neandertal de nome Zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a nascer e a se pôr
Com a Lua aluada a crescer a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Para tirar a vida aos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Bush entre vacas
Com um qualquer Sócrates entre nós e a moer-nos

Ai a vida é desesperançada
Porque não há nada que mude este mundo e este país
Quis quero quererei
Hei-de morrer

E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia

(Se não existisse a blogosfera eu não escrevia,
Escrever na blogosfera é cobardia!
Cobardia era a rata da vossa orquestra meus punho de êtas rosas! Não somos cobardes por escrever esta outras prosas, somos cobardes porque saímos para a rua de cravo na mão em vez de sairmos com baionetas!)

Este post só será publicado depois de eu morto

14 comentários:

Zé Povinho disse...

Este Zé, que também não gosta do outro zé, também não se conforma com tanta passividade, mas ainda espera que o Sol brilhe e que os vampiros se esfumem, mesmo sabendo que outros virão para os substituir.
Abraço do Zé

Kaotica disse...

É extraordinário, disseste tudo o que havia a ser dito e da melhor maneira.
Qual morrer, qual nada
Três vivas a sua majestade!

VIVA VIVA VIVA

a tua poesia de denúncia e de combate!

Abraço morto de alegria e esperança vã!

MARIA disse...

Deixe lá Majestade...
Não morra assim tão determinada e determinantemente.
Com causa de morte pré- esclarecida
:-)
Não poupe ao Estado a descoberta da sua morte. O Estado nada nos agradece, nada tem que nos ofereça, mas vossa Majestade tem tudo para oferecer e fazer por um melhor Estado. E até vontade tem .
Depois, Vossa Majestade, faz-nos falta. Ainda não é chegada a hora de passar a outrém a sua coroa e o seu ceptro ...
E depois amanhã é domingo ...
Não me diga que já se rendeu à teoria dos sobrinhos do Tio Bin e espera encontrar no Céu outras que não a virgem Maria ?´
Lamento informar mas até essa depois de Cristo, pelo menos com o José já frustou eventual expectativa ...
Melhor é ficar por cá, creia.

Beijinhos

Maria

:-)

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Respondo-te com um poema
virtual,
mas tudo é virtual,
e tudo nos condena
porque ao nosso lado há injustiça e desamor,
e nós fazemos poemas
e esquecemos a dor
que não se compadece de palavras.
A dor quer justiça e, por isso, não morras, Pata Negra.

Lutemos juntos.

A justiça nunca se atingirá
mas o mundo será menos injusto
se não nos acomodarmos à injustiça como a uma fatalidade.

Abraço lutador

Anónimo disse...

Não importa a situação da poesia.

Enquanto ainda houver calor no coração das pessoas e homens dispostos a escrevê-la, a poesia nunca morrerá!

Seu protesto pode ser pequeno, mas ele não passa despercebido!


Soneto

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,Toldam-se os olhos donde corre a vida.Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

José Carlos Ary dos Santos


Força pata negra...ou ñ fosses tu um REI!!!
Um abraço corajoso

Compadre Alentejano disse...

Gostei do poema, especialmente "saímos de cravos na mão, em vez de baionetas". Talvez tivesse sido o nosso grande erro...
Um abraço
Compadre Alentejano

O Guardião disse...

Quem escreve assim está "vivinho da costa" e pronto para dar umas bordoadas, se necessário, nesta corja que nos aflige.
Cumps e boa semana

Tiago R Cardoso disse...

brilhante !

Mariazinha disse...

Não morres não porque a a morte é uma maneira de desistir e tu não és pessoa para isso. A morte, essa que falas,é dar poder a quem, esse sim,deve ser morto,por tanta miséria ter criado!
O azar deles é a nossa vida, mesmo que nos chamem miseráveis.

Grande poeta!

Um grande abraço

Mariazinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
polidor disse...

parabens ao Pata...
de resto, escrever no ecran ou no papel tanto faz, porque o que conta é o que fica para sempre, aquilo que se repete...

samuel disse...

"Entre operários que desceram a rua que era para subir"

É uma frase extraordinária!!!

Abraço

Jorge P.G disse...

Ainda bem que morreste, pois assim foi possível ler este poema de raiva e de amor.

Um abraço, que não temo os que morrem pela paz e a justiça.

Zorze disse...

Muito bom o poema. O País dos poetas.
Talvez seja por isso que estejamos na merda que estamos.

Mas, gostei muito da prosa.

Abraço,
Zorze