sexta-feira, 27 de março de 2009

Leitão à sexta

Os velhos, talvez porque advinhem a morte, perdem a esperança no futuro, agarram-se ao passado contando e repetindo os tempos e as vivências porque passaram. Tornam-se chatos! Talvez eu não seja chato, nem velho, nem pense muito na morte mas é provável que este blogue começe a ser encarado, por alguns, como o sítio de um monarca senil, saudosista, nostálgico e com prosa de homília - é natural, vivemos tempos de desesperança!
Dizem que o PS vai ganhar outra vez as eleições! Como é possível viver com esperança, num país que admite tal facto como hipótese?!
Dizem que estamos protegidos porque já somos europeus! Como é possível ter fé numa Europa que escolhe Durão Barroso entre 300 milhões de indivíduos?!
Do que Júlio Verne adivinhou da ida à Lua, vai uma distância semelhante à de que George Orwell imaginou do Triunfo dos Porcos. Eles estão aí ganhadores, em todas as instâncias nacionais, continentais e internacionais. Sócrattes (é gralha, não tem pinta para ter dois "tês"!) e a sua corja simbolizam um triunfo duro de roer. Talvez, por isso, possesso de uma grisalha jovialidade, vá continuando a refugiar-me no passado.
Eu, Rei dos Leittões. Leitão, o meu prato favorito! Não terá sido este apetite que determinou a designação popularucha deste reino da bolota!

Lá em casa, eu menino, a coisa não dava para ter junta, para ter vaca ou para ter burro! Cão, houve uma vez um mas finou-se no entusiasmo de um dia de matança! Claro que havia capoeira, coelhos e pombal! E existiam, também, quatro ovelhas e a porca! Ora, é na porca que entro eu:
Era eu quem levava a lavagem, tirava o esterco, punha o mato e levava a porca ao porco. Quando a porca era para capar (a porca?!) ou para matar, eu distinguia-me na lide da pega provocando o elogio da malta que, por tal destreza, me começou a alcunhar "João da Porca". A porca fazia-me homem nem que fosse para eu lhe abrir a cova se ela morresse de peste!

A nossa casa não era casa de lavrador de ter parelhas, além das quatro ovelhas, só tínhamos mesmo a porca! O transporte das coisas, para o campo e do campo, era feito pelo atrelado, ora preso à mota, à bicicleta ou às mãos, conforme as habilitações e a condição do tarefeiro! Quando a carga mais pesada ou volumosa o justificava, a troco de meio dia, o carro de rodas de um tio ou vizinho mais solidário cumpria a ajudinha! Sim, porque nós éramos uma família mais moderna! Já não tínhamos sequer burro nem albarda! O meu pai era operário e a minha mãe, mãe e agricultora de subsistência!

Levar a porca, para vender os bácoros, aos 12. A minha mãe com uma saca de milho e um baraço atado à perna traseira da mãe suína e eu, atrás, com uma verga na ninhada! E quando vinha um carro?!... O desembaraço para arredar caminho! Tinha de se ser rápido que o chofer era de outra condição! Depois, no largo, a mãe deixava-me as deixas de preço e o "vem já!" para responder aos bacoreiros e ia fazer a sua volta. E eu ficava ali crescendo com a feira, convencido que o meu futuro passaria sempre por ali. Quando a mãe voltava fechava-se, ou não, a venda. Mas nem que fosse só a porca mãe que, por bom negócio, voltasse a casa, a estrada de regresso era um tormento - fosse um burro e bastaria um "arre!" para que ele compreendesse o alívio que é retornar ao lar!

Virá daqui a minha simpatia por leitões. Depois, a simpatia especial por todos os que se auto-coroam reis de tudo o que é churrasco! Rei dos Leittões. Os dois tês - leiTTões - é só porque é mais chique e para baralhar o Google, incrédulo e a interrogar "Será que quis dizer: rei dos leitões?".
- Fui testar mesmo agora, já não pergunta! Bom sinal! Não tarda muito e ao escrever-se "leitões" o Google pergunta "Será que quis dizer: leittões"?

13 comentários:

Milu disse...

Gosto muito destas histórias! Também a mim me dá para contar os meus tempos de criança, a idade da inocência! Não o faço por nostalgia, dada a passagem do anos, mas, tão-só, porque as outras, aquelas em que eu era mais crescida, já não será muito conveniente contar! :D

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Já sei que não te conformas que alguém diga que o PS vai voltar a ganhar as eleições ainda que perca a maioria absoluta. Não será com o meu voto mas as sondagens ainda o põem à frente. Em tempos eu fazia sondagens e muitas empresas ainda me mandam alguns resultados das que estão efectuando.É nisso que me baseio. Mas não te aflijas porque o PS tem vindo a descer nas intenções de voto e o PSD também não recupera nem o CDS. São os partidos de extrema esquerda BE e PCP) que estão a capitalizar o descontentamento e também os votantes em branco.
Relativamente à outra parte do post eu acho que tiveste uma infância muito rica, muito mais rica que a dos meninos ricos que levam o dia fechados no quarto com ar condicionado a jogar playstation ou no computer.

Abraço

antonio - o implume disse...

Gosto desse teu lado senil, abre o teu lado humano e libertas-nos da deferência devida a sua majestade. Gostamos mais de te ler assim.

E não estamos a ficar velhos por nos lembramos do tempo em que os homens passeavam os porcos e os conduziam.

Hoje somos conduzidos por eles numa imensa agonia!

Marreta disse...

Gostei da apologia suína. Eu próprio quando fazia parte do espectáculo também tinha que contracenar com uma porca, embora um pouco à distância.

A propósito, já não há mais insígnias para atribuir? Não costumava ser à sexta? Se já acabaram os fidalgos da corte que tal começares a distribuir à sexta o título de "fidalgo da javardice" aos elementos que mais se distiguem no intuito de preservar o poleiro político em Portugal. Eu sei que é um bocado complicado até porque seria necessário contratar uma fundição para produzir em série tantas insígnias, mas também aí podia garantir-se que pelo menos essa fundição certamente não fecharia por falta de encomendas.

Saudações do Marreta.

Compadre Alentejano disse...

Todos nós ficámos a conhecer melhor Sua Majestade. Não há dúvida que é (foi) uma infância fascinante, talvez devido ao ambiente campestre...
Gostei imenso deste post. Parabéns.
Um abraço
Compadre Alentejano

samuel disse...

Se o Google "aprender" faz muitíssimo bem!
Mais uma grande pedaço de história...
"E eu ficava ali crescendo com a feira..." valeu a visita de hoje!

Abraço

O Guardião disse...

Noutro continente e bem no meio do mato (o Macúti era então um mato), também eu cresci no meio de galinhas, perus e outros bichos, o que foi um prazer, com algum trabalho mas divertido. Por lá falava-se pouco em monarquia, e o meu melhor amigo, o Tejo (um cão curtido), tinha apenas um "T" no nome, que éramos todos plebeus.
Bom domingo
Cumps

Jorge P.G disse...

Pois eu, vejo o país como uma enorme tenda de circo. Muitos trapezistas, funâmbulos, porcos e palhaços...
E quando o aplahço rico fla sem graça, todos aplaudem e querem mais...
Assim sendo, que outro espectáculo poderemos ter?
--------------

Infância saudável, a tua!

Um abraço ao domingo.

Mário Relvas disse...

Rei dos Leittões,

Não dê como certo o que ainda não é certo.
Gostei muito de ler este seu texto de alto a baixo.

Escrevi uma carta ao PR sobre o autismo; se soubesse teria escrito a Vª. Majestade...

Saudações e um sorriso

Alexa disse...

REI dos LEITÔES
Adorei o texto
mas até eu já penso que estou senil
O PS vai ganhar outra vez as eleições????
A minha esperança que era uma velinha
pequenina vai-se apagar
fiquei depremida.

Com todo o respeito
que tenho por vossa magestade

Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Onde estão os ventos da mudança neste País recessado? Onde está a esperança?
Talvez em qualquer lado
Onde haja gente
capaz de ir em frente.
Vamos à Pala? Ainda não desisti.
Abraço

alberto cardoso disse...

Olá Majestade.
Li o seu texto que achei de TRUZ como, aliás, já nos habituou. Pelos comentários enxerguei que mais comentadores o apreciaram. Para aqueles que se detêm na parte em que Sua Alteza Real conjectura que o PS voltará a ganhar as eleições quero dizer que ainda há uma esperança: o PS ganhará mas não é adquirido que o pseudo engenheiro seja o primeiro-ministro. São tantas e tais as trapalhadas em que está metido que TALVEZ não seja ele o escolhido. TALVEZ!!! Não é muito mas é uma hipótese a considerar.
Os meus respeitos para Sua Majestade e Sua Real Família.
Alberto Cardoso

MARIA disse...

Já havia visto o texto na sexta-feira, Majestade. É esmagador! Tão belo no conteúdo e na escrita que perdi as palavras.
Apenas por isso, fica só o beijinho com a amizade de sempre.
Maria