segunda-feira, 2 de março de 2009

Manifesto das coisas

A Humanidade, os povos, as sociedades, de vez em quando dão uns tombos, mudam umas agulhas e a vida, a História, como que recuam para tomar balanço. Estamos em tempos de voltar atrás mas não temos direcção apontada para retomar o sentido do progresso.
Faz parte da essência das coisas da vida em sociedade os povos fazerem destas coisas: mudar a vida dos centros das cidades para os centros comerciais; ditar a engenheiros mal formados um projecto de casa em desacordo com o bom gosto; escolher para governo os mais espertos em comunicação; trocar a música dos artistas pelo catapum electrónico; ver novelas brasileiras e filmes americanos e deixar de ler; jogar consola e não saber o que é um pião – mas tudo bem, todo o mundo é composto de mudança, as coisas tomarão o reequilíbrio!
As coisas mudam também um pouco através de movimentos cívicos, de palavras ou mensagens de homens de palco ou de tribuna, de revoluções românticas ou armadas! Mas a história tem-nos dito que, apesar de nada ficar como antes, tudo acaba por ser sol de pouca dura. Por outro lado, está vazio, um certo espaço, deixado pelas religiões e pelas ideologias.
Estes tempos de crise poderiam servir para retomarmos o equilibro, para fazer a nova revolução mas parece que perdemos a consciência da necessidade de uma cultura colectiva que alimente o nosso destino comum.
O Homem inventou a roda e a religião, inventou a máquina a vapor e a cidadania, inventou o transístor e a democracia mas inventou também a web e a escola.
A web é aqui, na escola está a solução. Os professores, por condição, têm a faca e o queijo na mão. Espera-se que sejam os professores uma das classes mais bem informadas e com maior consciência do que se passa à sua volta, espera-se que sejam os professores aqueles que mais devem questionar os decisores e, ao mesmo tempo, aqueles que melhor podem ensinar os mais novos a pensar. Agora que foram acossados na sua dignidade pela face mais vil dos poderosos, espera-se que reajam: a revolução está nas suas mãos. O seu dever, não é servir o poder, é servir um futuro comum mais justo e mais fraterno. Estamos a viver uma oportunidade única – há crises que vêm por bem!

13 comentários:

salvoconduto disse...

Dizes bem, o dever de um professor não é servir o poder, mas muito menos deixarem-se servir por ele.

Zé Povinho disse...

Os professores têm aqui muitas responsabilidades e obrigações, mas todos nós, portugueses, temos a obrigação de saber escolher e decidir o bem para o futuro dos nossos filhos.
Quem senta o traseiro na cadeira do poder para se servir, certamente não deseja de lá sair, a menos que obrigado, pelo voto ou à força.
Ser cidadão responsável implica tomar o destino nas nossas mãos, e não apenas deitar a culpa para ops outros.
Abraço do Zé

antonio - o implume disse...

Sua Majestade pariu aqui um verdadeiro decreto real!

Sim, esperemos que reste a todos nós a força anímica para ver nesta crise uma oportunidade e que todos possamos dizer: Sim, existe alternativa!

Boa!

Camolas disse...

Ensinar a pensar a individualidade e o seu contributo para o colectivo, ou simplesmente ensinar a não pensar.
A escola é um pau de dois bicos.Pode instrumentalizada, mas também pode ajudar a materializar a imensidão de d pensamentos e consciências que a habitam.

Jorge P.G disse...

TODOS OS DIAS TENHO POR PRICIPAL LINHA ORIENTADORA DA MINHA PROFISSÂO ENSINAR A PENSAR, FAZER OS MIÚDOS RACIOCINAR E CHEGAR, POR ELES, ÀS COCLUSÕES.
A MINHA FUNÇÃO È DE LHES COLOCAR PROBLEMAS E APENAS OS AJUDAR A RESOLVÊ-LOS.
Prefiro, no final de cada ano, ter alunos que sinto melhor preparados para a vida do que a saberem muito das matérias mas muito pouco do futuro.

Um abraço.

joshua disse...

Meu amigo, isso exige militância e acção continuada, como soldados no campo de batalha.

Sinto que estou a fazer bem mais que a minha parte. O combate será duro, mas verdade e a transparência, a independência dos sectores profissionais e dos espíritos livres falará mais alto.

O Guardião disse...

Cada um terá a sua tarefa, em casa perante a prole, nos serviços defendendo a dignidade no trabalho e na sociedade, não se eximindo de usar (bem) os direitos que a lei nos confere.
Cidadania é tudo isto, e é pena que muitos não a exerçam embora não hesitem em colher alguma benesse que se consiga.
Cumps

André D'Abô disse...

o papel do professor é fundamental, certamente. o momento da crise e um certo refluxo na volúpia do consumo irrefletido produz um momento propício para que as mentalidades sejam instigadas. os professores podem ser importantes agitadores das conciências.
o lado perverso da crise, porém, deve ser vigiado para que o capital não defina novas fronteiras de privação de acesso aos recursos básicos à cidadania, como a educação...
mas vamos a ver. esperemos e lutemos pelo melhor.

André D'Abô disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Eu acredito na mudança e nas capacidades de regeneração do ser humano. Acredito na consciência colectiva motor dessa mudança.
Acredito na cultura que liberta criando essa tal consciência colectiva.
Por acreditar em tudo isso não abdico da minha migalha de participação nessas transformações. E por não abdicar dessa migalha de participação tenho que exigir uma escola que dê igualdade de oportunidades ao invés de reproduzir as desigualdades. Tenho que exigir uma escola com professores motivados. Porque são eles que prepararão as gerações futuras e farão sair do obscurantismo em que nos afundamos sem mérito, sem felicidade e sem recompensas. Mesmo os "vencedores" neste teatro de competição grotesca não passam de vencidos trajados de riqueza.
Não vamos desistir, Pata Negra.

Abraço persistente

lili canecas disse...

Olá, Pata Negra!
Bonita prosa. O pior nisto tudo é que uns querem e outros não. Os do não refugiam-se no medo, na partidarite, eu sei lá mais o quê.
É preciso não deixar morrer a esperança, a vida é de luta diária.
Haja esperança. Que o POVO saiba escolher o seu caminho, o caminho da dignidade e da verdade.

Nocturna disse...

Majestade,
O medo anda à solta. Mesmo na classe dos professores, que tão martirizada tem sido por esta classe governante que nos calhou em sorte, ter de aturar.A maioria não vai deixar cair os braços, sei-o por amigos que tenho acompanhado nessa luta, bem de perto. Mas tem sido difícil e o pior está , provavelmente, para vir.É estranho como foi possível tornar uma das mais generosas profissões,(a de professor) num sacrifício que está a destruir a saúde de tanta gente que queria apenas fazer bem o seu trabalho, pensando no Portugal futuro, e de repente se viu transformado em espía dos colegas e num burocrata.
Vamos ver como tudo isto acaba, mas para todos os professores realmente sério daqui envio uma vez mais a minha solidariedade
Um abraço nocturno

Zorze disse...

Pata Negra,

Esta crise é um conjunto de várias crises.
A mudança real não será só com revoluções, que são "sol de pouca dura" como muito bem dizes, mas sim, com a crescente conscientização acerca; da cidadania, da ética comportamental nas relações sociais e dos negócios, do respeito pelo o outro, o saber ter a responsabilidade de ter direitos e deveres.
Quanto mais pessoas tenham a consciência de que têm de ser assim para que o Mundo em que vivemos seja melhor, daremos um salto evolutivo como Humanidade.
Apesar de o caminho ser longo e sinuoso.

Abraço,
Zorze