quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não gosto da vossa Europa

Não gosto da vossa Europa. Este é o título. Gostarei de uma Europa que não seque as raízes do meu milho que é só nosso.


- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!
Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo mê ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do mê ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!
Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.

Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!
Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

12 comentários:

antonio - o implume disse...

Esses tempos em que até os burros produziam mesmo andando às voltas...

Meg disse...

Bolas, fizeste-me recordar alguns pedaços da minha infância... milho, regos de água, milho-rei, eiras, desfolhadas, jornaleiros e serandeiros...
Também não gosto desta Europa!

Um abraço saudoso

donatien alphonse françois disse...

Ou então pisaram alguma coisa que habitualmente fazem.

salvoconduto disse...

Afinal o que é que queres? Não gostas da Europa e ao mesmo tempo queixas-te que não tens burro! Fecha os olhos, entra nessa Europa e burros não te faltam.

Irra!

Camolas disse...

Falas do regresso ao simples, falas da irmandade com a natureza, isso agrada-me.Quem sabe um dia possamos usufruir de uma comunidade. Eu levo o burro.

O Guardião disse...

Não gosto desta Europa nem destes dirigentes que nos desgovernam.
Cumps

samuel disse...

Fomos cachopos em "cenários" parecidos... embora eu fosse simples figurante, ou "turista acidental"...
Ah... e também não quero esta Europa!

Abraço

O Guardião disse...

Estão aqui retratados uns quantos trastes em que não confio. Esta não é a minha Europa.
Cumps

Compadre Alentejano disse...

Estes líderes europeus, estão-me a deixar muito eurocéptico...
Pelos vistos, não devo ser o único...
Abraço
Compadre Alentejano

Zorze disse...

Quanto à primeira parte do post, falas de parte, da tua mesologia. Das memórias que ficam gravadas, além dos cheiros, das cores, das coisas, mas também, as sensações e os pensamentos que tivemos nos momentos.

Quanto à temática Merkl, dasss... ainda bem que não tenho sapatos castanhos!
Cáaa nojo...

Abraço.

MARIA disse...

Majestade,

As suas memórias são lindas. O seu texto digno de um verdadeiro Rei.
(As minhas também).
À cautela, apesar de não constar do retrato, eu já descalcei os meus sapatos.
É que ao contrário da beleza do tempo dos alcatruzes da nora, no tempo actual, nunca se sabe o que nos pode acontecer num tal contexto ...
:)
Um beijinho amigo

Maria

opolidor disse...

tambem não gosto desta Europa e com a Merkl piora; é que ela é um grande calhamaço.


abraço