segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sete Pés Catorze ou Quatorze


Subiram ambos ao quarto, largou cada um a sua mochila em sua cama, foi cada um, na sua vez, cuidar do seu banho. Já cuidados de água, inspeccionaram mutuamente o estado dos quatro pés e compararam a bolsa de fármacos de cada um. Estando nos assuntos dos corpos, haveria de chegar a vez das queixas musculares, das pomadas e das massagens e aí, o inevitável aconteceu.

(Há muito tempo que milhares de leitores esperavam este pé da história, muitos a abandonaram pela demora do acontecimento, outros a abandonarão por ela ter acontecido. Receio não ter traquejo para satisfazer as expectativas, esta história é apenas um exercício. O acto de amor a dois, a três, a sete ou a oito é íntimo e não deve ser relatado nem espreitado, a cada um a sua cama. 
- Desculpem lá a interferência do narrador mas deu-me para isto!  Vamos mas é ao acto!…Mas de pano fechado! )

Nem diferença de idades, nem ela ser casada, nem ele ser filho de quem fora! Nada, mesmo nada, poderia obrigar a pensar duas vezes. Quando não se bebe a água cristalina duma fonte que aparece no caminho, não é porque o caminhante não tenha sede, é porque não saboreia a vida.

Para que o amor exista tem de ser feito! Até à hora de jantar não se fez outra coisa! Para que tudo acontecesse naturalmente, como fazem todos os amantes que pela primeira vez se encontram, só um pé teve direito ao fruto – o mais desejoso, o mais forte, o mais atleta. Todos os pés aceitaram que Pé de Atleta, pela sua condição e pelas vontades que vinha manifestando, estaria em condições superiores de abrir caminho para que a todos calhasse a sua vez lá mais para a frente. Conformaram-se no papel de iluminar de velas a cena mas todos eles a roçar os lábios de satisfação. Água Pé até inclinava a vela para que a cera caísse no rabo do Atleta, obrigando-o, desta forma, a melhorar o passo.

Quando desceram Marie sugeriu que o seu rapaz se sentasse nos sofás da recepção e foi ao balcão fazer um telefonema para o marido. Nenhum dos Pés conseguiu perceber alguma coisa do que ela dizia mas não lhes era difícil adivinhar o teor da conversa.
- De certeza que não lhe daria notícias de um jovem com quem acabara de ter uma experiência inesquecível!

Não tirava os olhos dela como se temesse que a poderia perder agora mesmo, acometida por um impulso de arrependimento e fidelidade ou que se sumisse, puxada pelo marido, pelos cabos de comunicações, para França. Tão raros eram os casos de mulheres na sua vida e este, mais do que os outros, tinha contornos para ser mais efémero. A noite ainda era uma criança. Quem sabe se com o apertar de mãos, laços e beijos, não estaria ali, nas formas que nunca idealizara, a relação que sempre sonhou encontrar: alguém que lhe abrisse os olhos, a boca, o coração e as pernas.

A refeição foi no restaurante do hostal e foi farta de marisco grelhado e vinho branco, tudo a apontar na conta da estadia. No final deram uma volta pela noite da pequena cidade animada pela Páscoa. Chegaram até a caminhar de mãos dadas e divertiram-se a molhar os pés na água quente da fonte termal que está na base da origem do nome Caldas.

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro – só o Pé Chato e o Pé Ante Pé não participaram - até o sono os separar já noite avançada.
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

11 comentários:

do Zambujal disse...

Excelente!
Seria só o que tenho para dizer: excelente!
Até o parentese do narrador é muito bem metido... sem meter os pés pelas mãos.
É do melhor que tenho lido. Não estou a fazer favor nenhum e muito já tenho lido.
Qu'é q'hei-de dizer mais?
'Tá tudo dito. Por agora. Como sempre. Porque nunca está tudo dito.

Um grande abraço

do Sérgio Ribeiro

MARIA disse...

Majestade,
:)
Isto é daqueles relatos cinematográficos em muito, muito bom : daqueles apenas insinuados e preenchidos a gosto pelos sentidos de quem vê. No caso, de quem lê...
Excelente, como sempre. Com que então imagina que depois desta noite o pessoal leitor se perde da estória. Que nada, agora é que ficou melhor !
E agora... como é que vai ser se a Marie se apaixonar ?!
Digo ela, porque ´quem tem sete pés, sete mulheres, pelo menos há-de ter :)

Gostei muito. Cá espero a continuação.

Um beijinho amigo.

Maria

Zé Povinho disse...

Bem me parecia que havia outro Pé, o Pé Direito, que passou despercebido até hoje, mas que apareceu quando necessário.
Abraço do Zé

antonio - o implume disse...

Um dia desses vou tentar perceber o teu fascínio pelas mulheres mais velhas. Já no quarto...

E diz ao narrador para se meter na vida dele que nós tratamos das nossas expectativas. Afinal nem só de bolhas vivem os pés de um caminhante. Sim e estava à espera deste momento.

samuel disse...

Muito bem resolvido! Por eles e, sobretudo, pelo autor.
O episódio que, nas mãos de muitos, mataria a estória com um ataque de vulgaridade, foi, afinal, o mais bonito...

Abraço.

A Diletante disse...

Pata,

Não li, mas vou ler.
Tenho estado em fase de transformação, mudança de identidade, sabes... como aqueles criminosos,bla,bla,bla... para - imagina! - não ter dissabores (retaliações) CÁ FORA!
E não sou a autora do que se publica cá em casa!
Agora mais descansada, vou ter tempo para ler os teus pés TODOS!
Prometo.

Um abraço

samuel disse...

Entretanto, o "cantigueiro" evaporou-se da lista de blog... seja nos "fidalgos da corte" (onde acho que não estava), seja nos outros. Foi alguma coisa que eu disse?!... :-)))
Estou a brincar! Alguma outra coisa há-de ser...

Abraço.

O Guardião disse...

A proximidade e a partilha seguem o seu caminho natural, ainda que alguns pensem no certo e no errado, que não é para aqui chamado.
Cumps

opolidor disse...

Pata, como sempre conseguiste suster o avanço do que parecia previsível.Era inevitável, o convívio íntimo tinha que dar em trancada...o "dos pés" não perdoa.

abraço

Anónimo disse...

Fico espera de mais

EStremadouro

Milu disse...

Olá Pata Negra!

Pois! Enfio a carapuça. Na verdade, numa dada altura andei ansiosa para que os "pés" se emaranhassem na francesa, acontece que me divertem essas cenas! Em tempos, quando tinha treze ou catorze anos, li muita literatura policial, tanta que lhe descobri o jeito, até que, por vezes a meio do enredo, já lhe descortinava o desfecho. Mas as cenas de sexo que costumavam abundar nestes livros, pelo menos naqueles que eu costumava ler, com histórias parecidas aos filmes de 007, suscitavam-me uma enorme e estranha curiosidade, precisamente porque ao lê-las me era dada a oportunidade de aferir de como funcionava a imaginação do seu autor, presumindo de que ele era um homem, claro. Mas, a esse respeito, esta sua história foi uma abordagem muito ao de leve. Não dá para fazer análises! Estou a brincar :)

Não tenho vindo, nem tenho comentado as suas intervenções aqui no blog, porque ando absorvida demais. Acontece que voltei a estudar, e como nem sempre o meu horário de trabalho me permite frequentar as aulas, para não perder o fio da meada, tenho de dedicar o meu tempo livre ao estudo. Nos tempos mais próximos não tornarei a ser senhora de mim, isto é, ando a viver como se me tivesse transformado numa máquina, um autómato, sigo em frente, em direcção a uma meta que estabeleci, e não faço intenções de me permitir a cedências seja de que ordem for. Só sei que vivo tempos duros, mas que também já me deram algumas satisfações, espero que muitas mais.
Um abraço.