sábado, 26 de novembro de 2011

O meu problema maior é o frigorífico

Sei que vou ser pobre. Estou preparado, já o fui. Não preciso de grandes coisas. Só do básico. De comida e companheiros. Quando eu tinha poucos anos o meu pai regressou de França, não suportava não viver em família. Os meus tios de sangue e os tios de vizinhança continuaram por lá. Os meus primos e a outra putalhada tinham bicicleta, aquecedor eléctrico, lápis caran d’ache, luzes no presépio, calça de bombazina mas não tinham pai nem tantos irmãos – porque o meu pai, como dormia todas as noites com a minha mãe...!

O meu trabalho dos próximos tempos vai ser preparar os meus filhos, que nunca foram pobres, para o que aí vem! Não quero que emigrem! Só tenho uma vida, quero-a viver com eles! Quero-os fazer perceber que um governo que aconselha os nossos jovens a emigrar, não é um governo de uma nação, é o governo de uma coutada! Quero que queiram lutar cá!...

Nos próximos anos, quando já não houver salários e serviços para cortar, quando não for possível escravizar mais ou despedir para sustentar a classe governante, as suas clientelas, os seus escudos policiais e os seus cobradores de impostos, vai ser necessário cobrar mais impostos até chegar ao ponto de nós, pobres contribuintes, termos de escolher entre pagar impostos ou comer.

Nessa altura, eles irão seguir o que há pouco tempo se passou a fazer na Grécia: os impostos serão colectáveis através da factura de electricidade. Quem não pagar fica sem energia eléctrica para o frigorífico.

Em 1975, um primo meu em missão militar em Moçambique, teve a oportunidade daí recolher e despachar um conjunto de electrodomésticos e mobília, abandonado por portugueses em fuga. Distribuiu o espólio pela família e à nossa casa coube um frigorífico e três divãs. Deixámos, nós irmãos, de dormir aos pares e mudaram os hábitos alimentares em casa.

A televisão só viria mais tarde por ser indispensável à frequência do meu ano propedêutico, contra vontade do meu pai, que tinha muito orgulho em mim por ser o único da aldeia com vontades para estudar mas que não aceitava que a televisão pudesse substituir os professores.

Ora eu, que ainda não dei um passo para adaptar o meu televisor à televisão digital terrestre porque me estou nas tintas para que me cortem o sinal; eu, cujo rendimento está vulnerável aos desmandos dum governo, feito para governar para outras classes, às troikas e outras agências do capitalismo mundial; eu, que tenho casa para dormir, curral para porcos e quintal para couves – e, por isso, exposto a impostos sobre a propriedade - declaro solenemente que estou preparado para tudo, menos para ficar sem o meu frigorífico que me guarda a carne de porco e as bebidas frescas.

Se me vierem a cortar a electricidade, talvez eu faça uma sociedade com o vizinho. Fazemos uma ligação da casa dele à minha, ele paga a factura e eu dou-lhe couves e chouriço. Talvez então, com outros como eu e como ele, nós comecemos a fazer um mundo à parte, fora da lei, sem euros, mas felizes como o meu pai e a minha mãe que nunca tiveram dinheiro mas dormiam juntos e trocavam haveres com os vizinhos. Talvez comece a haver outra forma de viver, talvez comece a acontecer uma sociedade socialista dentro desta e esta acabe de uma vez por todas. Não quero este governo, não quero este caminho. Se tenho de voltar a ser pobre que seja para mudar!
(que isto não seja entendido como resignação: eu fiz greve!)

12 comentários:

O Guardião disse...

Pelo andar da carruagem a vida vai ficar insuportável e os deveres de cidadania vão para as urtigas o recurso as esquemas vai transformar-se em normalidade por falta de opções. Nós, portugueses, até somos criativos quando é necessário...
Cumps

Arame Farpado disse...

Que belo testemunho, Pata.
Roubei-o, com as devidas vénias.
Eu também não quero este governo nem quero este caminho. Se tiver de ser pobre, ou continuar pobre, não sei muito bem qual é a fronteira, rico nunca fui, que seja para mudar alguma coisa.
Muito bem.

Abraço.

do Zambujal disse...

Despacho:

Afixe-se em todas as paredes!
Leia-se em todas as rádios e televisões!
Publique-se no Diário da República (por mais Porca que seja)!
Envie-se para os presidentes todos, e para os deputados e para os do putedo!

(quem não souber ler, que aprenda!)

E um grande abraço, muito grato pela amizade por vezes demonstrada.
Ditosos filhos que tais pais têm!

salvoconduto disse...

Também é de ponderar a compra de um a petróleo, ainda por aí os há e deixa que te diga não fora um a petróleo e tinha morrido de sede no mesmo sítio por onde andou o teu primo. Laurentina só no frigorífico, se não sabiam a mijo...

Vai por mim, aposta no petróleo...

Cirrus disse...

Brilhante.

HORIZONTE XXI disse...

Li,identifiquei-me e em solidariedade fiz Link.

Abraço livre

Kruzes Kanhoto disse...

Boa!

JFrade disse...

Que belo texto!
Vou copiá-lo e colá-lo num e-mail que vou enviar para os meus contactos. E juntar um link para o Rei dos Leittões.
Abraço

maceta disse...

Rei Pata
e quem não for solidário vai aprender a sê-lo...
abraço

Anónimo disse...

São textos como este que nos incitam a pontapear quem nos agride.Obrigado!

antonio ganhão disse...

Existe um grande potencial de felicidade na pobreza. Salazar já o tinha percebido. o que nos trama é esta ideia de democracia e de que somos todos iguais.

Fernando Samuel disse...

Resignação?: não há nada disso no teu texto: bem pelo contrário...

Um abraço.