quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A greve é feita de nós


Do outro lado da rua onde moro também há casas com janelas e, como é natural, há uma janela que encaixa mais no ângulo da minha janela. Como é natural,  estando-me nas tintas para que seja observado daquela janela, observo diariamente que atrás  daquela janela vive uma mulher que anda em casa de um lado para o outro, que às vezes fica imóvel e, que às vezes, vem à janela. Como faço esta observação há alguns anos, sei que aquela mulher, tal como eu, vive sozinha, tal como eu tem uma certa idade, que se está nas tintas para que eu espreite a sua intimidade e que também lhe é indiferente a minha. Sei também, do que tenho observado, que aquela mulher não tem gato nem tem cão. 
No fim de contas, tal como eu, aquela mulher é uma das mulheres da rua, uma das mulheres da cidade, uma das mulheres do país, salvaguardando que eu sou tudo isso menos mulher. 
Não tem gato nem cão mas tem um bácoro. Sim, um bácoro! Vive lá para trás da casa mas, de vez em quando, escapule-se do quintal pela porta das traseiras, atravessa a casa e sai pela porta principal. Depois é esperar pela solidariedade da rua para que, cercado, se veja obrigado a fugir pela  única saída, que é  afinal a entrada do número sete. Eu, que vivo no oito, nunca dei um passo para a recolha e limito-me a observar a tourada da minha janela, desconfio que o leitão não é de estimação nem é sempre o mesmo. Se fosse o mesmo já seria um porco! Estou convencido que a mulher o cria para depois o comer.
Aparentemente esta história, esta janela, esta mulher poderiam ser indiferentes a esta rua, a esta cidade, a este país. Acontece que hoje mesmo, véspera do Bolinho, a mulher agitou, da janela dela para a minha, uma chouriça enquanto me inquiria se eu queria uma. Se fosse eu o ofertante poderia ser mal interpretado! Mas uma mulher é uma mulher e, em resposta ao meu aceno positivo, não tardou à minha porta com a oferta, não sem que trouxesse acompanhada uma pergunta:
- O senhor concorda que para o ano se decrete uma greve geral no Dia do Bolinho!?
- Ó minha senhora, o meu bolinho só lhe o posso dar lá para dia 14!
Eu sabia que teria de ter alguma coisa em comum com esta mulher, alguma coisa que muitas outras mulheres e homens têm em comum! Homens e mulheres únicos na sua rua, na sua cidade, no seu país, na sua greve e  que, com outras mulheres e homens únicos, fazem uma rua, fazem uma cidade, fazem um país, fazem uma grande  greve.
- Só por essa o senhor devia convidar-me para lhe ajudar a comer a chouriça!
- Vamos, temos de acertar o amor com que dia 14 vamos tratar os nossos porcos!
Aparentemente esta história não tem sentido. Que importa as histórias não terem sentido se conseguirmos dar aos dias o sentido histórico que eles exigem?

7 comentários:

cid simoes disse...

O sentimento dos que sentem tem sempre sentido.

Olinda disse...

ê uma maneira gira de lembrar a greve anunciada,logo,faz sentido.Feliz dia do bolinho.

M A R I A disse...

Parece-me cheia de sentidos, alguns proibidos, outros prioritários, mas todos a conduzir a um final comum que não ficar à janela.


:-)

Um beijinho amigo

Zé Povinho disse...

A chouriça pode dar jeito no dia 14, porque o protesto tem que ser com a devida força.
Abraço do Zé

Maria disse...

Ai Majestade, majestade, disseram-me toda a vida que legítimo porco só pensa em bolota e essa vizinha só pensa na chouriça. Se deu , deu, agora não tem nada que pedir para comê-la. À chouriça, entenda-se, porque cansada de mal entendidos, estamos todos nós.
E vossa Majestade que não sabe como foi fabricada a peça não arrisque a saúde. Lembre-se do seu colesterol e que nesse dia a que chamou do bolinho precisamos que esteja inteirinho, como inteiros havemos de estar todos nós.

Prometa sem cruzar os dedos atrás das costas s f f.

:-)

Um beijinho amigo

Anónimo disse...

Se a porca tem a chouriça,
E o porco tem a piça,
A porca engole a piça,
E o porco come a chouriça!

Uma poesia digna de uma rainha e de um rei de porcos...

Abraços e beijos chafurdantes do
pai da humanidade.

Miguel Brito disse...

Faço hoje trinta e oito anos de casado e continuo apaixonado pela minha mulher como no primeiro dia.
Miguel