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sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Sábado, o Domingo e a Autoestima

Albertino Rosa e Rosa Albertina conheceram-se por coincidências onosmáticas e daí ao enamoramento e ao casamento foi uma questão de tempo. A Rosa está desempregada. O Rosa opera numa fábrica de pastilhas.
O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.

Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.

A Autoestima é uma empresa que fabrica pastilhas para os travões das rodas dos carros que não têm travões de discos. Acontece que o governo decretou que a velocidade mínima dentro das localidades fosse reduzida para 30 km/hora; os condutores passaram a travar muito mais dentro das localidades; o consumo de pastilhas de travões teve um aumento acentuado. A produção tem de aumentar consideravelmente; tendo em consideração que não há condições para aumentar os custos com o trabalho, considera-se que os trabalhadores e/ou colaboradores têm de trabalhar e/ou colaborar mais. Mais ainda? De segunda a sexta não é possível! Que se trabalhe também ao sábado!

Todos dizem a Albertino Rosa, e Rosa Albertina concorda, que se assim não for, o mais certo é a empresa se deslocalizar e ele perder o emprego. Com um argumento destes não há Albertino nem Albertina que não seja tentado à rendição.

E é aí que Rosa pensa mais longe e põe a questão:
- Então e se se mantiver o número de atropelamentos? O governo irá decretar a velocidade mínima dentro das localidades para 10km/hora, deixaremos de poder ir à missa ao domingo pedir a Deus, unidos como Ele nos uniu,  trabalho e saúde para trabalhar.

Mas não é isso que faz pensar o Albertino, além de não ser judeu para ter que guardar o sábado, como cristão só vai à missa para satisfazer a mulher. O que o preocupa é que, com tanto consumo de pastilhas, os fabricantes de automóveis comecem a fazer só travões com discos! E pensa mais, que isto não vai parar e que mais do que lutar pelo que se tem, é preciso querer mais, como os que detêm os meios de produção.
É a luta de classes, carago!

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Nos cornos e na pele do touro


Doze quilómetros por maus caminhos de terra batida, entre pinhais, lugares, vinhas e milheirais, o homem ao guião, a mulher pendura na traseira do selim da motorizada, sentada de lado por impedimento da saia justa ao joelho, a criança, essa sim escarrapachada, sobre o depósito da gasolina. Fomos à Praça de Toiros de Abiul à primeira e última tourada a que assisti, ao vivo, na vida.

Trouxe de lá a primeira resposta à questão do que queres ser quando fores grande (?), moço forcado, pois claro e, douto na lide pela experiência, comecei a liderar as pegas ao carneiro grande quando ia guardar as ovelhas com os meus primos. 
Também, no recreio da escola, brincávamos às touradas. Aí, rodavam todos por todos os papéis. O que fazia de touro tinha de rodar o cinto de modo a que a fivela e a ponta ficassem na parte das costas para fazer o rabo. Fazia-se a pega como mandam as regras e, na parte do toureio, as garrochas eram as espigas duma erva daninha que se pegavam às camisolas de lã. Eu era bom na pega, no rabo, como cavaleiro, como touro ou como cavalo.

Quando, já jovem, fui a uma garraiada, diverti-me do lado de fora, dono de juízo para não me pôr nos cornos do touro. Ponho-me agora na pele dele.

"É pá! Porque é que estes humanos, que tratam de mim todos os dias, me carregaram agora para  cima desta camioneta? Porventura vão levar-me para outras pastagens. Estou a gostar do passeio. Mas, espera aí, desapareceram os campos, isto para aqui é só casario! Olha, querem que eu desça! Mas para quê, se aqui não vejo erva que se coma? Pronto, querem que eu vá por este corredor além? Vocês é que mandam! Se querem, eu vou! É lá! Tanta algazarra! Nunca vi um espaço assim sem verde! Pasto também não vejo! Ena pá tanta gente! E se gritam! Será para mim? Deve ser, sinto-me o centro. Olha aquele ali com um pano vermelho! Está a meter-se comigo! Vou correr para ele! Cobarde, fugiu! Outra vez? Anda cá que eu te digo! Na verdade até estou a gostar da brincadeira! E parece-me que todos estes humanos que aqui estão à volta também estão a gostar! Venham, venham todos brincar para a areia, vamos fazer uma festa! Até que enfim que vejo um cavalo! Vou ter com ele! Corro atrás dele! Estou a divertir-me tanto! Ai! Então? O tipo bem cheiroso que ia em cima dele espetou-me qualquer coisa nas costas!? Este tipo merece uma cornada nas pernas! Ai vai levá-las, vai! Não fujas cavalo que eu não te aleijo! Eu quero é apanhar esse empertigado que te cavalga! Ai! Outra? Agora doeu! Desta vez não me escapas! Gaita! Estou cansado! Mas o homem insiste em desafiar-me? Vou lá outra vez? Não vou? Não, que ainda me espeta outra no lombo! Mas o gajo está mesmo a pedi-las! Vou! Não fujas! Este cavalo tem cá uma corrida e faz cá umas fintas! Mas o que eu gostava mesmo era de apanhar uma perna do teu cavaleiro! Ai! Ai! Ai! Outra! Estou a sangrar! Este tipo quer matar-me! Desisto? Não sei que faça! Não confio mais em seres racionais! Vejo-os tão contentes! E o gajo bem vestido que me feriu? Todo ele é cagança! Vão embora? Vão embora vão! Eu também ia, mas não vejo forma de sair daqui! Outra vez o pequenote da capa vermelha. Quer festa? Tenho dores. Agora já não me apetece! Não insistas pá! Pronto já vi, queres uma cornada? Vai, vai, vai, ai que te safaste por pouco. E pronto, não vejo saída! Olha-me agora uma manada deles! Que será que estes querem? Olha que vocês não têm cavalos para fugir de mim! Se vêm por bem deixem-se estar! Olhem que eu já não estou para festas! Estão a chamar-me? Querem tourada chamem os vossos pais! Olhem que eu vou! Vou! Ah! Assim eu gosto! Estão a abraçar-me! Cuidado que eu ainda piso algum! Então? Vão embora? Então e tu? Que é que ficaste aí a fazer agarrado ao meu rabo? Gostas de rabos? Porra, já estou farto de andar à volta! Larga lá isso que eu não corro atrás de ti! Estou é com umas dores do caraças! Estou a ver bem? Gaita! Nunca vi tanta vaca! Agora que estou ferido é que mas trazem? Até que enfim que vejo campinos! Finalmente entre amigos! Querem levar-me convosco? Eu vou! Mas vocês não sabem é as dores com que estou! O melhor será mesmo matarem-me. Não me admira nada que seja para isso que me levam! Adeus humanos! Sei que nasci para morrer mas vocês também não escapam!"

Digamos, portanto, que até podíamos, inclusive os touros, divertirmo-nos muito com as touradas. A crueldade dos que espetam por prazer é que é demais. Porque é que não fazem como na esgrima ou no paintball onde ninguém se aleija? É que toda esta polémica das touradas em que, de um lado estão os que gostam dos touros e lhes espetam ferros, do outro estão os que gostam de touros mas nunca deram uma palha a nenhum, começa a ser ela própria uma tourada em que o touro é o cidadão comum. 

Dizem uns: se deixarmos de comer frango de aviário, acabam os frangos de aviário e os aviários. 
Dizem outros: não faço mal a uma mosca e gosto muito de bife de boi preto mal passado.
Haja paciência!
Animal nunca! Porco sempre! 



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Uma história sem piada


No jardim do Cardal existe um lago circular com uma estátua ao meio, não me lembro se com um peixe a deitar água pela boca, se com um menino a mijar. O lago é rodeado por um passeio com várias ramificações e limitado por um conjunto de colunas de pedra que formam uma pérgula que dá caminho às trepadeiras.

Nós passávamos ali todos os dias a caminho de outros cantos do jardim, com os livros de filosofia e química debaixo do braço e, todos os dias, estava um velho sentado no mesmo banco. Tive intenções de um dia falar com aquele velho mas nunca o cheguei a fazer. Não me lembro se o velho olhava para nós, para o jornal ou para a estátua.

Passou um grupo de jovens de mochila às costas e telemóvel na mão, um deles sorriu-me. 
A esta distância não consigo ver se está um peixe a deitar água pela boca ou um menino a mijar, quanto mais ler um jornal! 

Porra! Mijei-me todo! Provavelmente achei piada a alguma coisa que me passou pela cabeça! O pior é que já não me lembro da piada nem se algum dia passei por este lago e tive intenções de falar com um velho que estava aqui sentado! Não importa! Se não falei então, falo agora! Isto de um tipo falar sozinho dá nestas histórias.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A Grande Manifestação Nacional do Dia 15 é feita de nós


Do outro lado da rua onde moro também há casas com janelas e, como é natural, há uma janela que encaixa mais no ângulo da minha janela. Como é natural,  estando-me nas tintas para que seja observado daquela janela, observo diariamente que atrás  daquela janela vive uma mulher que anda em casa de um lado para o outro, que às vezes fica imóvel e, que às vezes, vem à janela. Como faço esta observação há alguns anos, sei que aquela mulher, tal como eu, vive sozinha, tal como eu tem uma certa idade, que se está nas tintas para que eu espreite a sua intimidade e que também lhe é indiferente a minha. Sei também, do que tenho observado, que aquela mulher não tem gato nem tem cão.

No fim de contas, tal como eu, aquela mulher é uma das mulheres da rua, uma das mulheres da cidade, uma das mulheres do país, salvaguardando que eu sou tudo isso menos mulher. 

Não tem gato nem cão mas tem um bácoro. Sim, um bácoro! Vive lá para trás da casa mas, de vez em quando, escapule-se do quintal pela porta das traseiras, atravessa a casa e sai pela porta principal. Depois é esperar pela solidariedade da rua para que, cercado, se veja obrigado a fugir pela  única saída, que é  afinal a entrada do número sete. Eu, que vivo no oito, nunca dei um passo para a recolha e limito-me a observar a tourada da minha janela, desconfio que o leitão não é de estimação nem é sempre o mesmo. Se fosse o mesmo já seria um porco! Estou convencido que a mulher o cria para depois o comer.

Aparentemente esta história, esta janela, esta mulher poderiam ser indiferentes a esta rua, a esta cidade, a este país. Acontece que hoje mesmo, véspera do Bolinho, a mulher agitou, da janela dela para a minha, um chouriço enquanto me inquiria se eu queria um. Se fosse eu o ofertante poderia ser mal interpretado! Mas uma mulher é uma mulher e, em resposta ao meu aceno positivo, não tardou à minha porta com a oferta, não sem que trouxesse acompanhada uma pergunta:

- O senhor vai à Manifestação Nacional do dia 15?
- Ó minha senhora, nem o Bolinho a 1, nem o São Martinho a 11, o meu próximo grande dia é o dia da Grande Manifestação Nacional do dia 15!

Eu sabia que teria de ter alguma coisa em comum com esta mulher, alguma coisa que muitas outras mulheres e homens têm em comum! Homens e mulheres únicos na sua rua, na sua cidade, no seu país, na sua luta e  que, com outras mulheres e homens únicos, fazem uma rua, fazem uma cidade, fazem um país, fazem uma Grande  Manifestação.

- Só por isso, por ambos irmos, o senhor devia convidar-me para lhe ajudar a comer o chouriço!
- Vamos, temos de acertar o amor com que dia 15 vamos tratar da nossa vida e da Grande Porca!

Aparentemente esta história não tem sentido. Que importa as histórias não terem sentido se conseguirmos dar aos dias o sentido histórico que eles exigem?

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Chouriço do Custódio



Albertina casou tarde e enviuvou cedo sem que lhe tenha vingado prole. Deixou-lhe o falecido, gado e fazenda suficientes para não morrer de fome e trabalho para não ter tempo para encantar outro de companhia.
Eram os dias em que teria de levar a porca ao porco e o porco mais falado daquele ano, era o do Custódio, casado e sem filhos, o qual levava por emprenhamento um chouriço por cria.

Levou, ciosa, o cio da porca aos currais do cobridor, com um baraço, uma verdasca e uma saca de milho para lhe acertar o caminho. Custódio abriu a porta, ajudou a empurrar a porca para dentro e fechou o ferrolho. Ambos ficaram de braços na cerca, de olho no entusiasmo do macho e no jeito da fêmea mas nada acontecia.

- Ó homem vai lá tu! - queria dizer ela encaminhar o porco ou ajeitar o rabo à porca...
 E, quando acabou de insistir pela terceira vez, riu-se de embaraço por ter reparado na asneira que repetira. Reparou também que Custódio desapertara o cinto e rogou-lhe por Deus:
- Ó homem não castigues o animal!
Quando o viu baixar as calças pensou para consigo:
- Ai este raio que me vai dar cabo da porca! Eu nem quero pensar o que ela pode parir!

Albertina resistiu por instinto mas acabou rendida pelo desejo sobre um carro de rodas onde ambos se envolveram em duas valentes...  - faltou-me agora o termo... ou rima!... mas já  agora que, como narrador, pus o bedelho no enredo, aproveito para um conselho:
- Albertina, lá por não os haver, não quer dizer que não te tenhas metido em maus lençóis!

Consumado o ato  humano, ainda em recomposição, espreitaram para o lado de dentro do curral onde, agora sim, os animais faziam a sua parte num infindável coito que ambos classificariam, em pensamento, como invejável.

As coisas aconteceram, as coisas acontecem e, ao fim de doze semanas, a porca pariu doze bácoros. Custódio não reclamou a dúzia de chouriços.
Ao fim de seis meses Albertina foi aos Doze com os leitões. Custódio, encontrou-a e disse-lhe:
- Albertina, que barriga é essa?!
Albertina, cúmplice do seu estado, fez silêncio.
Ao fim de doze meses, tinha o menino, portanto, já três meses, envergonhada por ter copulado com homem casado, Albertina continuava a recusar identificar o nome do pai, o que muito irritava os curiosos e ainda mais o padre que, como ministro da confissão, se achava no direito de tudo saber.

Mas, ao fim de trinta e um meses,  na Festa de Santa Madalena, deu-se o trinta e um:
Custódio, dirigiu-se a ela e referindo-se ao menino que  trazia ao colo:
- Então, como é que se porta o chouriço?!
Albertina, recordando o modo submisso com que se entregou sobre o carro de rodas, insubmissa, atirou de alto e em som para que toda a gente ouvisse
- Não me fodes outra vez! Um grande chouriço me saíste tu! Agarra-o que é teu filho!

Custódio ficou com o menino nos braços e chorou. A mulher dele, dando de caras com a cena, largou-lhe uma deixa de palavras coradas:
- Aí tens nas mãos o que eu, pelos vistos, não te consigo dar!

E o arraial animou-se de tal forma que ninguém foi julgado ou foi juiz, Custódio continuou a viver com a mulher, a mulher continuou amiga de Albertina, o padre renunciou ao celibato e casou com Albertina.

Hoje em dia, na aldeia, já ninguém vai com a porca ao porco, já ninguém vai estudar para padre e toleram-se com mais abertura certas paixões de ocasião. Contudo, mudados os tempos, o puto nunca se livrou de ter como alcunha "O Chouriço do Custódio".


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A ponte sobre o Tejo, a ponte de Salazar e a ponte 25 de Abril


Havia um passadiço para quem não queria molhar a barriga das pernas mas as bestas de carga, os carros de bovinos e equinos e até os automóveis, transpunham a ribeira se não houvesse cheia ou grande lamaçal. Entretanto, já eram tempos de se poder construir uma ponte em cimento armado que unisse as duas margens e o presidente da câmara, nomeado pelo regime, vinha ao lugar para dar nota que a obra iria para a frente assim que houvesse disponibilidade orçamental.

Apareceu então, assessorado, num carro preto de modelo da altura mas, quando já tinha quase vencida a travessia, ficou atascado e, por mais pedras, paus e mato que os naturais enfiassem por debaixo dos rodados era só patinanço, afundanço e enlameanço, de tal forma que a comitiva nem do veículo podia sair, sob pena de dar cabo do lustro dos sapatos e dos fatos finos próprios dos seus ofícios.

Ordenou a autoridade municipal aos aldeões que arranjassem uma saída para o incidente e era se desejavam alguma vez ali ter ponte! Com humilde respeito e obediência, foram uns homens buscar a junta mais possante engatado-a ao carro para o libertar do atoleiro. Não parecia a força da parelha ser a solução, ou porque estranharam a natureza da carga ou porque ela fosse demais, teimosos que nem burros, os bois não se mostraram tão servis como os boieiros.

Por feliz ou infeliz coincidência, quis o destino que o presidente fosse tratado por Engenheiro Falcão e que pelo mesmo nome respondesse um cão, o Falcão, que ali estava acompanhando o dono. Pois não é que, tendo ouvido em tons diversos o vocábulo, o cão se atiçou aos dois animais e estes, espantados, desataram com força incontrolável em incontrolável corrida, arrastando o veículo em balanceante andamento até o fazer tombar na primeira curva!

Acalmou o gado e acalmaram-se os presentes mas não o presidente e os seus que, sentindo o embaraço do ridículo numa visita de onde deveriam ter saído vitoriosos e aclamados, informaram o povo que aquela ponte só seria feita se houvesse uma revolução.

Sentida, a boa gente, pela vingança declarada e pelo mau feitio dos administradores, assim que viram partir o carro mal tratado a bater latas, decidiram logo ali, em informal assembleia popular, que sim, a ponte seria feita, nem que nesse ano não houvesse dinheiro para o andor, nem para a banda, nem para os foguetes, nem esmola para a Santa Ana ou para missas.

Fez-se a ponte com a força, os pedreiros, os serventes e os dinheiros da terra e acharam por bem os voluntários batizá-la de Ponte do Falcão, não para lembrar o autarca não grato mas como sinal de gratidão ao cão Falcão.

Quem não ficou muito contente foi o prior, tendo até ameaçado fazer excomunhões, tendo-se apenas conformado quando alguns, mais tementes aos Céus, levaram a sua avante e foram com ele benzer a obra e gravar nela o nome de Ponte de Santa Ana.

Veio a Revolução e, sendo conhecida a história no concelho, veio o primeiro presidente eleito à povoação e, por justiça da história, quis ressarcir o povo da quantia despendida e mais algum ainda, que era merecido pela coragem demonstrada. Sempre presentes e convidados, os representantes do clero nestas ocasiões, quando chegou a vez do prior dizer as suas, dirigindo-se ao político e aos cristãos, fez a sua proposta de bradar aos céus: que, se o erário estava assim aberto, seria justo reconhecer que a dívida era para com a Igreja, mais particularmente para Santa Ana que quase não teve festa no ano da construção da ponte.

Ao fim de alguma discussão chegou-se a acordo, e acordado foi que, se o dinheiro fosse aplicado no largo da capela, que era do uso de todos, e o padre reconhecesse que já não havia dívida para com a Santa,  poderia ser esse o destino do montante, desde que se mudasse o nome da ponte para Ponte do Povo.

Acontece que hoje, passados tantos anos, coexistem os que a referem como Ponte do Falcão, Ponte de Santana ou Ponte do Povo e, sinais dos tempos, os mais jovens começaram a chamar-lhe a Ponte dos Três Nomes.

domingo, 29 de julho de 2018

A árvore que mais amei

Era uma figueira de porte que excedia a normalidade. Debaixo da sua copa só a hortelã se dava. Roubava espaço ao talho da horta e ao socalco das ervilhas, fazia sombra ao terreiro da nora e ao poço ao qual devia a sua frondosidade. Do seu tronco principal, que junto ao solo não se abraçava, nasciam vários ramos de diâmetro da largura dum tronco de criança, desses derivavam outros com grossura de perna ou braço de homem, desses outros de dedo polegar ou de mindinho, enfim, uma árvore, uma figueira grande.

Segredou-me minha mãe, um certo dia, que, quando eu era mesmo pequeno e ela tinha de ir tratar de coisas à vila, me deixava preso a ela com uma corda das ovelhas, me deixava uns cacos e uns cavacos para eu brincar, um naco de pão com marmelada dentro dum tacho para o guardar das formigas - vinte minutos para lá, vinte minutos lá, vinte minutos para cá, uma hora e eu permanecia sempre entretido sem uma lágrima no olho.
- Ai se fosse agora e alguém soubesse! Vinham os da Protetora e eu seria notícia, crucificada e julgada pelos adeptos das creches de vinte e quatro horas.

Já de idade maior e com habilidade de trepador, tratando da horta, mandava-me com uma saca colher figos. Então eu começava nos troncos principais, uns mesmo à mão, outros esticando-me, outros mais longe, onde um adulto nunca poderia chegar, as pontas da árvore a abanar, mas eu lá ia, recolher mais dois ou três, até onde houvesse ramos com força para me suportar.  Que bom era sentir-me macaco!
E, cheia a saca, descia e ia vitorioso mostrá-la à mãe que abria regos para os feijões.

- Desce a ladeira e vai dá-los à dona Henriqueta que não conheço pessoa que goste mais de figos pingo mel! Mas traz a saca!...
- Ai meu menino! Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Voltava ao quintal e "filho vai encher outra" e "ó mãe já está".
- Filho sobe o monte e vai levá-los à tia Engrácia ela vai ficar muito agradecida! Mas traz  a saca!
- Ai meu menino! Que Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Nova corrida, nova viagem, rica figueira, está carregada, "apanha mais uma para a tua avó! Mas traz a saca! "
Atravessar o Vale da Carreira, sempre a correr, a avó Gracinda:
- Meu santo filho que casou tão bem! Não tenho nada para te dar mas diz à tua mãe que eu lhe agradeço!

- Apanha só mais uma para a senhora Teodora, bate à porta e mostra respeito ao pedir a saca!
- Ó João Trinca Espinhas, a tua mãe é tonta, eu gosto deles é comidos da árvore, mas está bem, dá cá!
- A senhora gostava era de estar escarrapachada nos ramos a roçarem-lhe a crica!
(Há coisas que só se pensam e não se devem dizer ou escrever).

- Agora brinca! Não vás pró pé do poço, não saias da sombra da figueira, quando o sol se for chegará o pai.
Ele, pesado do trabalho, pesado demais para subir à figueira, punha-me às cavalitas, tira este ali, estão mesmo bons, vê se consegues agarrar aquele, ainda tem leite, olha aquele ali, que boa passa. E, já satisfeito, com peito para um bagaço, descia-me dos ombros, punha as mãos ao bolso e dava-me dois rebuçados de meio tostão.

Até que um dia, eu já maiorzito... amanhã vamos cortar a figueira, as raízes estão a dar cabo das paredes do poço, sem a sua sombra podemos ter mais dez regos de feijões e livrarmo-nos do mosquedo de setembro!

Então, com machados, machadas, serras, serrotes e pedoas, nos fizemos ao monstro e o despedaçámos. Custou-me muito, mais do que ver o avô a enterrar, ver o tio embarcar ou matar o porco!
- Esta lenha não vale nada, não chega aos pés do pinho ou do carvalho!
- Se é assim porque carvalho a traçamos e não a damos à cabra da dona Teodora?
- Que raio de ideia a tua, foste logo pensar na única pessoa do lugar que não tem gado e, além disso, as cabras só comeriam as folhas!

As figueiras nunca foram árvores amadas, talvez pela história de Judas, talvez pelas suas raízes atrevidas... mas os figos! ai os figos! chamava-lhe um figo! diz o povo e não por acaso!
E, ainda hoje, passados mais de oitenta anos, quando eu vou à terra para ver se os marcos estão no sítio, abeiro-me do poço para ver a altura da água, sinto o cheiro da hortelã que não sobreviveu à falta que a sombra da figueira lhe deixou e regresso a casa desejoso de figos pingo mel.



terça-feira, 1 de maio de 2018

Vai amanhã a enterrar a minha tia Anselma

Património da terra, a tia Anselma, vai amanhã a enterrar. Do leito da agonia, o mesmo onde dormiu todos os seus sonos desde que se fez moça, nem uma única pernoita fora daquela cama se lhe conta, disse-me isto assim:

- Abre aí essa gaveta, julgo que está aí dinheiro que chegue para não teres de entrar para o meu enterro. Se não chegar... olha, amanha-te! Se sobrar para um ramo de flores, que seja de cravos, acho que os mereço! Sei que não és de missas, por isso, se não houver padre, descansa, não me vou levantar!

Os pequenos, na idade em que se iniciavam na palração, não tendo língua para dobrar o nome Anselma, chamavam-lhe An e, os maiores, corrigiam-nos, completando com acentuação as sílabas em falta: - ... sel-ma! Mas foi assim, como se dum acordo de gerações se tratasse, que acabou por ficar An para os mais novos e para os mais velhos, Selma.

Por condição de solteira, mais tarde solteirinha e, a partir de certa altura, por correção sua quando a referiam nestes termos, assumidamente solteirona, ficou, por herança, com a casa dos pais, meus avós.
Com o andar dos anos, o espaço outrora cheio, foi perdendo a vida, as crianças, os animais, as arcas e as pipas cheias, as vizinhanças, até ficar só ela com mais meia dúzia de velhos enviuvados, os residentes do lugar. Enquanto teve forças, virou a terra, fez a burra carregar a palha que comia, escorou as capoeiras que ameaçavam desabar, substituiu telhas partidas, regou a horta, as hortenses e sardinheiras, caiou os muros, acendeu o forno, fez a sopa e cinco almudes de pinga por ano. 

Aos sete anos, a casa era-me de tal modo familiar que eu entrava cozinha dentro, sentindo os pés pegarem-se às tábuas sebosas, fazendo vistas largas à loiça suja e o nariz estreito ao cheiro a fumo e dizia:
- Tia An, tenho fome!
Então ela arranjava-me um naco de pão com tanta marmelada como se gastava na minha casa numa semana.

Aos doze anos, a tia An solicitava préstimos meus e dava-me em troca uns trocos que me davam jeito para comprar costelas para os pardais e fitas para os punhos da bicicleta.

Aos dezoito anos, comecei a tomar consciência do modo de ser da tia An. Teria sido, mais jovem, bonita e jeitosa, ainda era bonita e jeitosa, mas o vestuário austero, o cabelo sem cuidados, o semblante geométrico, davam-lhe um ar neutro, o ar duma pessoa que nunca surpreendia,  conformada com o destino de apenas ter de trabalhar para sobreviver.

Aos vinte e quatro anos, comecei a interrogar-me acerca da filosofia de vida da tia An. Limitada ao seu quinhão rural, na missa era mulher dos lugares do fundo, não tinha rádio nem televisor, era de conversas limitadas ao essencial, nunca dando largas a assuntos banais, era generosa mas não aprofundava grandes relações e escolhera-me como seu familiar de estimação.

Aos vinte e oito anos, quando a fui convidar para o meu casamento, tivemos a conversa das nossas vidas. Agradecia o gesto, aliás meu dever, mas saberia eu que não iria, não por não ter roupa, não a envergonhava o seu fato domingueiro, não por não ter dinheiro, saberia bem que eu não lhe cobrava a presença, mas porque não lhe apetecia e sabia bem que eu não a julgava, que comprasse eu os sapatos que quisesse que ela os pagaria.

- Ora essa tia An! Trar-lhe-ei o talão! Pena só tenho de não ter ido ao seu!
- Ó rapaz, não penses tu que não tive namorados! Dois! Um sabia bem o que ele queria e o outro o que ele queria sei eu!...
E então, dito isto,  divagou sobre si própria, a sua opção de não viver para satisfazer os caprichos ou desejos dum homem peludo e de hálito vinhateiro, de gostar de viver sozinha, da vida que levava, surpreendendo-me com uma confidência que me fez corar como se de repente se tivesse despido à minha frente:
- Homem?! Eu tenho mãos para ganhar a vida e tenho dedos para me desenrascar!

Até anteontem continuei a visitar regularmente a tia An. Acompanhava-me sempre ao carro com umas batatas ou umas cebolas, uns ovos ou umas maçãs, uma galinha ou um coelho. Falávamos à volta da lareira se fosse inverno, no sobrado se fosse verão:

Foi uma vez a Fátima, jurou para nunca mais. A Coimbra nunca foi, nem sequer para fazer uma colonoscospia. Nos anos sessenta foi uma vez numa excursão à Nazaré. Dos carros tinha medo, a televisão para ela era bruxedo, telefonar só se fosse para os bombeiros, 25 de abril, sempre! votar só uma vez e foi na foice e no martelo, às Festas do Bodo se lá te apanho lá te... e ria, ria...

A tia Anselma vai amanhã a enterrar. Tentei encontrar padre para a encomendar, não consegui mas estou confortado com o facto dela não se importar. Comigo vai estar uma meia dúzia de pessoas. Nem uma lágrima se verterá. Durante uma semana outros saberão da morte dela e é natural que dela se vá falar. Feito o orçamento da agência acho que ainda me vai sobrar algum. Daqui a uns meses aparecerão os meus primos e vai haver desentendimentos sobre montes que nada valem e montantes que deveriam existir. Daqui a uns anos ninguém saberá quem foi a última moradora, nem quem são os donos da casa dos meus avós que estará em ruínas.

Se nunca teve uma causa maior pela qual lutasse, se não era de crenças, se não deixou descendência, se não deixou obra que lhe lembre a vida, se nunca viajou, se nunca partilhou a cama para se dar ou possuir e aos outros disse nada, o que deixou a cidadã Anselma que se diga com humanidade que valeu a pena?

Ela mesmo disse do seu leito de agonia, que foi um instante e não dois dias como é hábito dizer-se, que nem ao padre alguma vez se dobrou ao arrependimento, que foi feliz sem homem e sem outra criação que não fosse as das suas cabeças e tomates e que ficaria morta em paz sem alguém que lhe velasse a sepultura.

E eu mesmo digo, continuar-se-á a respirar o oxigénio das árvores que plantou, comer-se-ão as filhas das filhas das filhas das crias que criou, ninguém poderá assegurar que o cabrito no forno que irá comer um ano destes pelo Natal não teve como antepassado uma cabrão que ela guardou, nem eu sei quando se esvairão no ciberespaço os significados deste texto que dela fala e conta. A sua vida foi tão importante como a de milhões de servos, nobres  e eremitas que já morreram e dos quais não há uma única lembrança. A sua vida valeu tanto e tão pouco como a de qualquer um.

Serena, Anselma, património da terra, vai a enterrar amanhã.


domingo, 25 de março de 2018

Venha um traçado de brexit com russofobia

O Meia Leca tinha uma alcunha que lhe assentava como uma luva e, de pequeno homem ou homem pequenino, outros atributos lhe cairiam como: saco de veneno, coração ao pé da boca, embusteiro, velhaco ou dançarino. Via-se em todos as feiras, arraiais e bailaricos, discussões, desordens e escaramuças.
De pé atrás observava o ambiente e o pendor dos acontecimentos e, na altura certa, cagava a sua pequena sentença ou metia o seu punho pequenino.

Quando a zaragata começava, saltitava silencioso na periferia do rodopio e, só quando o vencido já definido tombasse rendido à força maior, aparecia esquivo por entre a confusão para dar o seu pontapé ou o seu murro.

Isto, se o valentão da contenda não fosse o Enxurrada, o zaragateiro mais famoso da sua freguesia, capaz de dar sozinho a cinco ou sete duma penada. Nesse caso, ele aparecia mais notado ao lado do grandalhão, incentivando o desejado desfecho das vias de facto. 
Se ao lado do Enxurrada  apareciam outros golias da ribeira, subia-lhe ainda mais a coragem e podia até tomar lugar na linha de forcados, acabando sempre a pega atarantado à procura dum rabo que lhe calhasse.

O Enxurrada tinha um respeito frio, recíproco aliás, por Brutamontes, um tipo da sua laia que, nas aldeias da serra, era o rei da porrada. Cada um, no seu território, impunha o seu respeito e a rivalidade só aquecia se algum fazia das suas ou se cruzavam nas terras do sopé. Mas, como se temiam quando se mediam, normalmente os desacatos não iam além duma troca de bocas mais brejeiras acompanhadas pelos coros das respetivas companhias.

Nessas alturas o Meia Leca punha-se em bicos de pés na última fila mas ninguém dava importância à sua voz esganiçada.

Ora, assim contada a história, ninguém compreendeu porque
- tendo aparecido o cão do Marmanjo, um companheiro de armas do Enxurrada, falecido nas escadas da sua casa;
- tendo o Marmanjo concluído que provavelmente só poderia ter sido obra do Brutamontes, até porque havia fortes indícios que fora envenenado com queijo da serra fora de prazo;
- tendo o Enxurrada logo prometido que o serrano não esperaria pela demora;
- tendo todos os grandes da ribeira mostrado apoio ao Marmanjo e ditado ameaças contra a brutalidade do velho inimigo de estimação...
... o Meia Leca continuasse mudo e calado como se fosse seu hábito primeiro averiguar de que lado é que está a razão.



Vá lá, pequeno Marcelo, pequeno Costa, digam alguma coisa ou pelo menos escrevam um declaração para o pequenino Augusto Mateus ler à imprensa e o Paulo Rangel interpretar! Olhem que o caso não pode ser para menos, tentaram matar um russo em Inglaterra e "muito provavelmente" ou "há fortes indícios" que o veneno era russo!



- O traçado do vinho com gasosa tanto pode servir para diminuir o grau da bebida como para disfarçar o pique da pinga.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Limpeza da floresta: está instalada a confusão!


Não sei o que hei-de fazer!
Pelo que me dizem tenho de cortar metade dos pinheiros - estão bastos! Tenho ali uns à beira do caminho, ouvi dizer que também têm de ir. Tenho ali quatro oliveiras encostadas - lenha com elas!
Mas parece que nem lenha guardada posso ter!...
Parece que, de repente tudo está mal. Não sei se posso ter o limoeiro que tenho junto à casa!
Vai ter de ser cortada esta cerejeira que tenho aqui à frente que já vem do meu avô?
E o meu medronheiro que faz sombra à capoeira? E a mimosa que roça no curral? Será que está bem a minha camélia? E a figueira, a pinheira, o castanheiro e o carvalho que os parta?

Ou raio ou porra agora é que eu digo! Mais valia que isto tudo tivesse ardido o verão passado!
Desde que se tivessem salvado as casas e a gente! Talvez me tivesse calhado um lambuzo do Presidente!...

Isto é como eles quando nos mandam parar com a tratorinha ou a furgoneta, se eles quiserem têm sempre alguma coisinha com que implicar! Isto é que vai ser arrecadar dinheiro! Para os valores das multas de que falam, não sei se vão chegar as pensões que tenho até ir para o maneta!
Os que foram para o Brasil e para a França é que tiveram sorte! A esses ninguém vai chatear pela certa!

Só perde quem tem! Eu cortava o mato se tivesse força, eu cultivava a terra se valesse a pena, eu guardava cabras se as houvesse aqui!
Mas estão todos em Lisboa e eu pagava se tivesse a quem! E é em Lisboa que está o dinheiro e eu pagava se tivesse com quê! Esta gente de Lisboa, que decide e põe as leis, devia viver cá! Eles é que podiam resolver isto porque sabem como é que se resolvem as coisas!

Ou raio ou porra agora é que eu digo! Deram cabo disto tudo e agora a gente é que paga!
Com estas leis, folhetos, "diz que dizem", notícias e opiniões, está  instalada a confusão!
Eu não digo nada! Não estudei para tanto!Só me apetece ir para França pró pé dos meus netos!
Ou se calhar não vale a pena, vou-me entretanto!

Não sei o que hei-de fazer! Ou raio ou porra agora é que eu digo! Está instalada a confusão!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Enquanto coisa proibida, bate mais



Alberto Albuquerque de Almeida nasceu em 1821, ano em que foi formalmente extinta a inquisição em Portugal. Alberto sabia que podia falar mas entendia que não valia a pena e, por isso, limitava-se a pensar que, na História, as mudanças no sentido da justiça mais cedo ou mais tarde aconteceriam com o tempo.

E fora assim que a inquisição se fora, que foram vencidos Luís XV e Napoleão e, em Portugal, se entrara no novo regime da monarquia constitucional.

Na realidade, Alberto Albuquerque de Almeida era um homem à frente do seu tempo mas não punha a mão nem adiantava palavra, ficava quieto à espera que as coisas acontecessem.

Religiões? Tinham os séculos contados. Deixaria de ser obrigatório ir à igreja, existiriam funerais sem padres e gente que não batizaria os recém-nascidos.
Monarquia? Cairia dentro de décadas. O futuro era a república e o governo do povo, o voto e a escola seriam um direito universal.
Mulheres de calças? Pode demorar cem anos mas o conforto falará mais alto. Viria até um dia em que as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens.
Dava-se mal com a mulher? Um dia haveria divórcio. Um amigo fora apanhado de calças na mão com outro amigo? Um dia isso haveria de ser entendido como normal. Um dia haveria de até ser permitida a poligamia, fazer sexo sem ser para procriar ou fazer o aborto duma gravidez não desejada.

O filho de Alberto Albuquerque de Almeida, Almeida, assistiu à implantação da República, à Primeira Guerra Mundial e às Aparições de Fátima sem nunca se pronunciar. 
O neto de Alberto Albuquerque de Almeida, Albuquerque, assistiu à aclamação de Salazar, à Segunda Guerra Mundial, aos anos sessenta e nunca se pronunciou.

O trineto de Alberto Albuquerque de Almeida, Alberto, achou o 25 de abril uma coisa normal e encara a religião, a república, os direitos das mulheres, o divórcio, o sexo, a liberdade, como coisas normais.
Na passada quinta feira, de manhã, tomou o pequeno almoço, acendeu um charro, ligou a TV e nem queria acreditar, a esquerda bonita que nunca foi com cachimbos de prata ou mortalhas Águia, parlamentava sobre ciência farmacêutica e queria a merda na forma de drunfos.

Alberto desatou a rir; estes tipos não sabiam o que era uma pedrada,  a diferença entre fumar e tomar, entre cânhamo e boi ou entre um boi e um trator. Aquela merda não o fazia só rir, inspirava-o com pensamentos pouco parlamentares: a liberalização das drogas leves acontecerá depois de  2021, é tudo uma questão de tempo, não tinha pressa, o consumo proibido bate mais.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Crónica cruel em dó maior para três irmãos pelo Natal


As aldeias desaguam nas ribeiras.
Nas margens dos campos das ribeiras ficam os casais dos dois ou três mais abastados das aldeias.

Custódio é um dos dois ou três na sua aldeia, tem parcelas por tudo o que é ribeira, monte ou charneca, de modo que se diz, na aldeia, que não há quem não tenha um talho, pinhal ou olival que não confronte com ele com dois marcos.

Naquela aldeia, em mil novecentos e sessenta e dois, Custódio é o último homem que ainda usa barrete, que tem duas juntas, mula e burro e que vive exclusivamente da terra. Ainda assim, quando a mulher faleceu, em mil novecentos e quarenta e cinco, os filhos foram para Lisboa.

Custódio não teve outro remédio senão casar-se com uma das criadas, a mais lerda, surda que nem uma vaca, que talvez por assim ser, ou por adiantada idade, ou por consanguinidade de filhos incógnitos de antepassados, não lhe deu filhos sãos como os primeiros, os três, foram, saíram com defeito de mentalidade.

Por desgosto, coincidência ou por capricho, Custódio foi a enterrar no mesmo dia de António de Oliveira Salazar, deixando os três faltados aos cuidados da também já faltada e cada vez mais mouca, segunda mulher.

Emília, a mais velha, falava, falava, falava se Deus a dava, falava de mais, falava a toda a gente das coisas que se passavam em casa, fazia correio da aldeia e até falava das suas mesntruações. Dava-se de tal modo ao desrespeito que os rapazes rudes, que a cruzavam, a demandavam a respeito:
- Emília mostra-me a tua crica! Emília, fodes? Emília para que queres a crica se não fodes?

Adriano, o do meio, era pacato, mas tinha desembaraço para tratar do gado e de toda a lavoura, nada que o livrasse da troça das gentes rudes de que era parte: provocavam-no acerca da coisa da irmã, tentavam embebedá-lo sem sucesso e, quando num grupo, a sua boina andava sempre de mão em mão.

Fernando o mais novo, aprendera a ler e a escrever. A loucura só o apoderou já adolescente, talvez por consciência tomada do lar em que nascera, talvez por atos da mãe, talvez por maldição hereditária, o que é certo é que, diferentemente dos irmãos, com ele não se brincava, era violento, rangia dentes e não ria, lia o jornal e depois rasgava-o, não permitia que o atentassem com balolices.

Um dia, zangando-se com o Adriano no meio duma lavoura, deu-lhe com a folha metálica da vara do charrueco num sobrolho, destinando-o ao hospital. A vizinhança deu asas à sua crueldade e, de sua justiça,  amarrou-o durante horas, de cabeça para baixo, a uma oliveira centenária.

(A minha mãe levava-me pela mão, íamos a passar, não teve tempo para me ocultar a tortura, o cenário ficou-me gravado para sempre e nunca mais fui o mesmo. Ainda bem que vi. Não se deve esconder tudo das crianças.)

Os meios sobrinhos de Fernando, Emília e Adriano, entregaram-nos há uns anos anos para uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Tentaram vender a herança dos campos da ribeira, dos pinhais e olivais mas não apareceram compradores.

Um destes dias, deste Natal, fui a um funeral, Fernando, Emília e Adriano, foram os três a enterrar.
- Os três no mesmo dia?
- É verdade! Vá lá a gente saber porquê!


Por aqui, o Natal é sempre tempo de consternação. 
- E que tal leitão?
Filhos da puta|!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Porque se pode gostar mais de gatos do que de cães:


A coisa começou a correr bem ao homem depois de setenta e quatro: menos fiscalização, menos medo, mais liberdade,  mais esperança, revolucionaram a sua atividade de viajante e os seus negócios começaram a prosperar. 

Sabia-se que, para tal sucesso, era necessário untar as mãos a guardas fiscais, republicanos e outros mais. Sabia-se que não trabalhava com letras, nem com cheques, nem com bancos. A massa viva  guardá-la-ia onde só Deus sabia mas, quando os maços começaram a ficar grossos, temendo um diabo que os levasse, começou a dar-lhes caminho fazendo anexos, muros e escadas, latadas, portões e arruamentos, valorizando assim o seu quintal, dando trabalho a alguns e vida à terra.

Pensava numa de noite e de manhã ia falar com o pedreiro, falava a uns jovens estudantes que gostavam de ganhar algum e... mãos à obra. A mim, talvez por me achar um trinca-espinhas, por me ter por contestatário ou por não engraçar comigo, nunca me falou para fazer nada.

Sem nada para fazer, peguei na motorizada para dar uma volta e parei para apreciar os trabalhos e dar um ponto de conversa aos meus amigos. Tinham encanado a valeta com manilhas e feito o alicerce do muro entre esta e o alcatrão, alargando assim a propriedade num metro. Na justificação do homem, também o industrial do sítio fizera o mesmo com o ribeiro, ganhando mais terreno para o estaleiro da fábrica e ninguém o tinha incomodado por isso.

O muro estava praticamente acabado e, como alguns dos serventes já andassem de mãos penduradas e houvesse sobras de blocos, deu-lhes o homem o trabalho de fazerem mais duas fiadas sem cimento - pelo menos ficavam arrumados.

- Ó homem, com a massa fresca e esse peso em cima não tarda muito isso desaba tudo!
- Rapaz, eu não te falei porque já sabia que és uma caga-agoiros, some-te antes que leves uma pazada!

Não tardou nada, o muro tombou sobre a estrada e eu vi-me obrigado a rir. Antes que o homem descarregasse em mim a sua ira, sorte a minha, pára o jipe da GNR e foi com eles que ele desabafou do seu azar, enquanto a malta olhava para o bonito serviço e eu me dirigia para junto da minha motorizada.

Entretanto aproximou-se de mim um guarda e perguntou-me pelos documentos e pelo capacete.
- Mas a mota está parada, o senhor não sabe nem se é minha nem se eu me desloco nela!
- Sou testemunha que a mota é dele e que ele aqui chegou nela sem capacete! 

Para acelerar a alhada que se estava a desenrolar, o filho do homem, que havia ido ao café buscar umas cervejas para o pessoal, chega a acelerar na sua Zundap e, para animar a história, também não trazia capacete.

Bem podia eu animar ainda mais a história,  prolongar o texto com discussões fictícias mas a verdade é que, traído pela memória, pela imaginação, pelo jeito ou pela vontade, por mais voltas que dê pela tecleta (palavra criada agora mesmo da composição de teclado com caneta), não consigo desembaraçar-me da incoerência e chegar com pés e cabeça à frase final:
- Não há gatos polícias.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O adultério tem os anos contados



Trabalhei que nem um louco. Entrei no T2 exausto. Ouço sons ofegantes, suspiros, grunhidos que vêm do meu quarto.
Pensei:
Entro de rompante e armo um chinfrim? - Não, isso seria um ato pouco civilizado.
Bato à porta? -Era o que faltava!
Espreito pelo buraco da fechadura? - E se a cena me desagradar? E se a cena me agradar?
Um cigarro, isso mesmo um cigarro, o cigarro é uma vantagem que, em certas ocasiões, os fumadores têm. Dirigi-me à marquise e à janela, inspirei um cigarro bem pensado.
Ouço a porta de entrada do T2 bater. Alguns instantes depois ela disfarça a surpresa da minha presença e carrega a máquina com roupa da cama.
- Então querido, não ouviste a porta a bater quando entrei?
- Ouvi, ouvi mas não liguei! Até pensei que pudesse ser um assaltante!
- Lá estás tu com o teu humor de homem! Fazes um bifinho para o jantar?
- De boi ou de vaca?
- Credo! Lembras-me o teu pai a falar! Sempre com esse humor machista!
Arranjei um bife de porco, jantámos e fui para o computador!

Religiões vizinhas condenar-me-ão por ser  infiel e comer porco, religiões próximas dirão que sou manso por não ser touro, religiões ateístas contemporâneas chamar-me-ão porco por escrever este texto.
Conforto-me: Deus deve de gostar muito  dos ateus porque não lhe estão sempre a pedir coisas como os crentes.

Publiquei um anúncio num site de classificados: "Procuro parceiro(a) para cometer adultério".
Por segurança não deixei nenhum contacto. Não sei se foi por isso que ainda não recebi nenhuma resposta ou se é pelo facto do meu desejo não se encaixar em nenhuma cultura.

Tenho um trabalho que enlouquece. Só espero que um dia não me condenem por ter enlouquecido.


domingo, 22 de outubro de 2017

A terra a quem a trabalhar


Quando Leonor voltou à terra já não era a mesma que dali partira nas raias da maioridade. Na capital deveria ter encontrado companheiro com bons abonos, emprego em boa loja ou repartição já que, aos olhos de quem a via, virara fina. Quem a vira e quem a via: óculos de sol, saltos altos, lábios e unhas pintados, permanente, colar, malinha no ante-braço, cuidada no uso da palavra com recurso a termos por ali pouco usados e, a juntar a tudo isto, conduzia ela própria um volkswagen azulinho claro. 

A meio da volta das visitas a que vinha, desceu, com os cuidados que o seu calçado e o seu jeito exigiam, a rampa de acesso à taberna da rua onde nascera, entrou e, naturalmente, toda a gente se calou para a mirar e para a ouvir.
Falou, do posto da autoridade efémera que lhe concederam, não do pedaço de vida que lhe desconheciam pela ausência mas das mudanças que notava na terra e que a surpreendiam.

- Efetivamente, estou chocada, a quantidade de silvas e ruínas que vão por este lugar além! Que desmazelo o desta gente! Hoje em dia ninguém quer trabalhar!
Foi o Zé da Venda, que por sabedoria de ofício ouvia muito mais do que falava, que a pôs no seu lugar:
- Leonor, se ainda sabes distinguir uma foice dum foice, vais ali às minha alfaias e podes começar já naquilo que herdaste dos teus pais!

Meia engasgada, abreviou as despedidas, saiu porta fora e pôs-se ao volante, deixando abafadas pelo ruído do motor algumas gargalhadas. E então não é que na primeira curva por entre o casario, de má visibilidade, diga-se, espeta uma traseirada no carro de bois do Esquim Manel. A junta aliviou a canga por instantes mas os animais nem olharam para trás. Pararam à ordem do boieiro que veio à retaguarda verificar o acidente. O capot do automóvel bem amolgado e coberto de esterco que resvalou da carga, Leonor a sair irada e de voz esganiçada, os clientes da Venda e outras vizinhanças a acudirem ao local convocados pelo estrondo e pela discussão crescente.

- Efetivamente isto não se admite! Não devia ser permitido andar com gado nesta estrada!
- Já por cá andavam muito antes de teres carro!
- Ó Esquim mas tu tens de me pagar efetivamente os estragos no carro!
- Ó cachopa, eu não tenho a carta mas sempre ouvi dizer que quem enfia por trás paga!

A discussão prolongou-se, como é normal, alargou-se ao julgamento dos outros presentes, elevaram-se alguns tons mas, fosse qual fosse o argumento ou a sentença, a todos o Esquim Manel respondia:
- É muito simples, quem enfia por trás paga!

Não tendo corrido muito bem a ida de Leonor à terra, ressabiada, nunca mais voltou mas é ainda recordada por alguns com o "enfia atrás" e "efetivamente". Ou melhor, voltou hoje, já septuagenária, numa passat conduzida por um filho, depois de ter visto na televisão a sua terra em chamas. Não conseguindo localizar as sua propriedades teve de pedir ajuda a um primo residente!
- O que isto era e o que isto é! Isto tinha de acontecer! Esta gente sempre foi muito desmazelada! E depois ninguém quer trabalhar!
- Ó prima, há já aí quem diga que o pessoal que cá vive tem de se unir e fundar uma cooperativa e que as terras abandonadas irão ser propriedade de quem a trabalha!
- Efetivamente estou a ver que também tu viraste comunista! Tu, ouve bem, ai de quem tocar naquilo que os meus paizinhos me deixaram ou que ouse mexer nos meus marcos!
- Efetivamente prima, vou dizer-te uma coisa que nunca te disse: eu quero que tu te... tu te... tu te...

domingo, 15 de outubro de 2017

A restauração de Portugal


O puto já foi onde eu nunca fui, Paris, Rio, Londres, Praia mas para ele Portugal é Lisboa e, via A2, Albufeira. 

Gosto de Idanha a Velha porque os naturais, apesar do peso histórico da povoação, ainda não se deixaram intimidar pelos turistas, pelos estudiosos ou pelos projetistas de terra alheia. Nas ruas apertadas vêem-se garrafas de gás com o tubo a entrar na parede de cozinha, tanques de lavar a roupa, estendais  e a venda, que resiste, tem caricas de cervejas e beatas na calçada junto à porta de entrada. Por incrível que possa parecer, isto também me faz gostar desta aldeia.

Voltas dadas por ruínas e muralhas, com o meio dia o puto começou com o "tenho fome" e não se vê sítio de matar a dita e a mulher da venda não tem por negócio servir pratos.
- Mas a senhora não vende aqui latas de atum?
- Vendo.
- Não tem por aí uma cebola?
- Tenho.
- Um pingo de azeite?
- Também.
- Um pão?
- Também se arranja!
Bela refeição, belo o ambiente, bela a mulher da venda. O puto indagou que ela não tinha ar de quem gostava de heavy-metal pelo que não percebia porque se vestia totalmente de preto.

Passar por Fátima para a patroa acender um vela. O puto desconfiado da história e das crenças da avó a fazer perguntas até chatear. 
- Cala-te! Não vês ali escrito "silêncio"?!
A avó a aproximar-se dum orifício com duas notas dobradas. O puto avança comigo.
- Com esse dinheiro bem podíamos ir a um restaurante e estávamos na mesma a ajudar! As gentes daqui são das que mais dão à Santa como forma de agradecer o sucesso dos seus negócios!  

O moço que servia à mesa usava calças pretas e camisa branca!
- Meio viúvo? Morreu-lhe a namorada? 
Perguntou o puto acrescentando que o tipo não tinha pinta de gostar de heavy metal.
O moço era estagiário da Escola de Hotelaria de Fátima e tinha a simpatia e a educação suportadas na utilização abusiva de diminutivos.

- Pretendem uma mesinha? Temos bifinhos, um bacalhauzinho, pãozinho, um vinhinho, a comidinha está boazinha? Uma sobremesinha? E, no final, a continha: quarenta e cinco euros.
Juro que se ele tivesse dito "eurinhos" teria havido maus entendimentos com o pagamento! 

Atum enlatado com cebola é bom. Não formatem o bacalhau, a sopa, os moços e as moças que nos servem e lembrem-se, lá prós lados de Idanha, a Senhora do Almortão também faz milagres: para o ano o puto quer passar as férias com os avós e não quer ir ao Algarve nem a restaurantes com rapazinhos de fatinho.

domingo, 8 de outubro de 2017

A única vez em que fui eleito


Quando eu andava lá, no seminário, havia uma espécie de associação de estudantes cujos responsáveis eram eleitos nominalmente em assembleia anual. Daquela vez, determinados o presidente e o secretário, entre os mais velhos, chegada a vez de escolher o tesoureiro, viraram-se os olhares para os mais novos e calhou-me a mim ser o escolhido. Eu, pobre puto e pobretanas,  não poderia ter grande experiência de mexer com as mãos na massa mas era o melhor na matemática. Os meus quinze anos não esconderam o nervosismo quando subi ao palco mas também não escondi o orgulho de ter merecido a confiança dos meus amigos.

Quando chegou a hora de apresentar contas, a porca torceu o rabo. Despesas de teatros, torneios, livros, viagens e velas; receitas de quotas, contributos e bilheteiras e... eh lá grande contabilista que faltam quatrocentos e setenta escudos!

Três causas possíveis: engano grave nas contas, alguém que me foi ao baú ou então, coisa que eu acreditava na altura, intervenção divina para me pôr à prova.
Três saídas possíveis: aldrabar as contas para que batessem certas, reconhecer o meu falhanço e confessar ao reitor, ou arranjar o dinheiro em falta. 
Convencido da segunda causa, optei pela terceira saída.

- Mãe, se vais ter um filho padre, seria bom que houvesse uma bíblia em casa. Estão lá, no seminário, à venda umas antigas e de boa encadernação e, diz-me Deus, que uma comporia muito bem a mesa da nossa sala.
- Quatrocentos e setenta escudos? Só falando com o pai!

Lá consegui que a família cristã abrisse a bolsa e cristaneamente avancei para comigo: se roubar para comer não é pecado, roubar livros também não e então, se for "o livro dos livros", "a palavra do Senhor", nem de roubo se poderá falar mas antes de ato louvável de louvor a Deus.

Quatro da manhã, levantei-me no silêncio da camarata, percorri pela calada da noite os longos corredores que levavam à capela mor, enfiei por debaixo do pijama a bíblia sagrada e regressei à cama.

Chegado o final do ano letivo fui expulso do seminário - a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor.

Dias antes, um padre fora a casa dos meus pais averiguar os equilíbrios da família, entre os quais não poderiam escapar os financeiros, ou não estivesse sempre em cima da mesa o espaço para um aumento da mensalidade; padres recebem-se na sala, na mesa da sala estava a bíblia, a minha mãe falou da aquisição, o padre reconheceu a encadernação e não vale a pena contar mais nada: a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor e, tendo o caso corrido os meus pequenos mundos, dado como incompetente, ladrão ou pouco esperto, sempre candidato, nunca mais voltei a ser eleito.

- Esse gajo andou a estudar para padre! Sabe muito, sabe-a toda, se for para lá faz igual aos outros!...
E eu pergunto, se faço igual aos outros, porque raio escolhem os outros e não me escolhem a mim! Porra, eu andei a estudar para padre! 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Viva Salazar!


... e estava eu em parte emersa da grande dorsal atlântica e em casa hospitaleira, criando amigos e quando se criam vários há sempre um que mais fica, este à custa da cumplicidade dos cigarros que agora não se fumam à mesa obrigando os que não os dispensam a virem ao luar, conversas que se enleiam no fumo entregue à brisa, Duarte de seu nome, setenta e cinco, cinquenta cinco em Ontário, a primeira vez que regressou à ilha trouxe oito filhos no avião, agora vem sempre ele e a velha em cada Verão, os filhos por lá andam, trabalhou muito e nós falávamos disso e de outras coisas quando deixei cair inadvertidamente um "no tempo de Salazar" logo caçado para ele largar:

- Mas Salazar foi um grande homem!
- Ai, pensei eu, queres ver que tenho aqui mais um dos tais? 

Que quando foi, foi para as minas e que três ficaram numa encurralados, três dias foi o tempo demorado para os salvar, dois não eram portugueses e saíram em mau estado e muito combalidos sem sequer falarem mas o nosso, mal saiu, logo gritou vivas a Salazar.

- Pensei então que o português, embora bem de físico vinha passado da cabeça e perguntei-lhe:
- Homem que é isso? Viva Salazar?
- Sim, devo agradecer a Salazar por me ter habituado a passar fome!

Eu me redimo pela desconfiança, tão perspicaz me julgo e não advinhei a ironia. Duarte continou:
- Puta que pariu o Salazar e os dele que ainda vivem nas cadeiras que ele deixou, os melos, os rebelos e os marcelos, os carneiros, os coelhos e os salgados, era metê-los a todos num bacalhoeiro prós gelos da Terra Nova ou do Canadá e ainda era pouco!

domingo, 9 de julho de 2017

À conversa com o coveiro.


Um coveiro é um homem que não colhe simpatias e é, regra geral, dos homens mais pobres da freguesia. Ele usa um fato sujo onde todos os outros estão de fato domingueiro, ele move a terra enquanto os outros a choram, ele é o que menos ganha e mais trabalha no negócio da morte, ele tem de ser rijo, de olhar esguio e frio. 

A Junta não compra uma máquina porque António Mafra, o Toino, não tem instrução para a manobrar e, por isso, ele continua a abrir as covas à pá e picareta, prestando serviços nos três cemitérios da união de freguesias. Apesar dos seus cinquenta anos, ainda é novo porque vive numa terra de população envelhecida e porque tem muita força. Apesar de haver velhos a dar com um pau também não é todos os dias que morre gente, pelo que Toino dispensa a sua força para outros trabalhos como limpeza de terrenos. Nessas ocasiões, a língua e a expressão dos funerais tranformam-se e soltam-se e ele é outro, conta-me coisas.

Que sabe que lhe pago mas que a outra de Lisboa não o fez e pior que isso:
- Quando a lembrei que me devia da limpeza do quintal dos falecidos, responde-me a puta assim:
- Ó Toino, então não te lembras, paguei-te há uns meses à saída da missa?
- Se me dissesses no café do Costa eu podia já estar com os copos e não me lembrar. Agora à saída da missa? Aí não de certeza porque eu não vou à missa há mais de trinta anos!
- Mas se for preciso eu pago-te outra vez...
- Não! Fica lá com o dinheiro e para a próxima fala a outro!

E outra:
- O padre franciscano que gosta de ver as coisas que o pai lhe deixou muito bem cuidadas falou-me para dar cabo dumas canas. Bem me pus a elas mas tive de falar a um trator para o serviço ficar bem feito. Quando cá veio, perguntou-me quanto era e achou muito:
- Dou só isto e pago-te o resto rezando pela tua alma!
- O cabrão a dizer-me que ia rezar pela minha alma! Então o gajo é muito mais velho do que eu!

- E lembras-te da professora Emília? Tantas que levei dela! E se calhar mereci-as! Aqui há uns tempos veio ter comigo no fim dum enterro.
- Ai Toino, perdoa-me que eu bati-te tanto!...
- Só vejo uma explicação para o arrependimento lhe ter vindo naquela altura. Ela ouviu as pazadas de terra a cair sobre as tábuas do caixão: trum! trum! trum!... trum! trum! trum... e lá deve ter pensado que não tarda é a vez dela e quer que eu seja mais doce.

Isto, para não falar de outras de morte que o seu humor negro solta e que me faz dizer-lhe à moda da canção:
- O coveiro não tem culpa é a sua profissão.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

A minha primeira peregrinação a Fátima


Tinha onze anos, os mesmos que a Lúcia tinha quando começou a ter visões. A minha mãe não era muito devota das coisas de Fátima mas não teve volta a dar-lhe. Perante a minha insistência de querer ir na peregrinação da aldeia a Fátima, antes que o Diabo as tecesse, o melhor seria fazer-me a vontade porque, por detrás da minha vontade, poderiam existir vontades de Deus.

E lá partimos, por volta das cinco da manhã, doze peregrinos sendo eu o único homem. 

A mais velha ia pelo filho que andava na guerra em África e, não sendo mulher de promessas egoístas de prometer à Virgem não sei quantas idas a pé e voltas à capelinha se  o seu rapaz voltasse inteiro, ia para pedir à Senhora que o livrasse dos tiros dos pretos e o trouxesse saudável como ele sempre fora. Como a distância a Fátima a pé não lhe fizesse grande mossa, andar era como ela, muitos quilómetros fazia todos os dias, fez seu compromisso  ir calada, sem abrir pio todo o caminho.

Quando, ao fim de duas léguas andadas, se parou para a bucha, caçoada pelas companheiras com interrogações - vozes do Demónio em bocas de gente de Deus - ora fazendo má cara, ora sorrindo, não caiu em nenhuma provocação, não se lhe ouvindo verbo nem interjeição. Amoleceu bem o sal do pão com toucinho do seu farnel com dois e meio dos sete e meio que levava do seu vinho, dando de vencidas todas a tentações das primas e vizinhas que a queriam, escarnecidamente, ver descair-se com uma palavra.

Levantaram-se as mantas e os panos para continuar na estrada de piso de terra e mal composto e, num passo mal dado, uma  raiz exposta à superfície, despoletou tropeço, fê-la andar três dias a cair e, vai daí, ei-la estatelada no chão enlameado, sem tempo para pensar que tem de estar calada e a exclamar naturalmente, "carvalho  - ou "caralho!"(ao fim de tantos anos não me lembro do termo exato!) - do cachopo que me passou uma rasteira!".
- Eu?! - perguntei na minha inocência.

Ela levantou-se a rir e disse-me "menino, estava a brincar!" E,  invertendo o sentido dos seus passos, disse às demais:
- Rezem por mim que eu vou para casa que tenho por lá mais que fazer do que farei indo convosco. Não há-de ser por causa de uma carvalhada - ou "caralhada", (ao fim de tantos anos não me lembro do termo exato) - da sua mãe que o meu filho não há-de voltar são e valente!

E, virando-se para mim, lembro-me bem, disse-me exatamente assim:
- E tu menino, já que a Santa prefere ouvir meninos, exige-lhe que Ela acabe com a guerra, que Ela tem bem poderes para isso!