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domingo, 8 de outubro de 2017

A única vez em que fui eleito


Quando eu andava lá, no seminário, havia uma espécie de associação de estudantes cujos responsáveis eram eleitos nominalmente em assembleia anual. Daquela vez, determinados o presidente e o secretário, entre os mais velhos, chegada a vez de escolher o tesoureiro, viraram-se os olhares para os mais novos e calhou-me a mim ser o escolhido. Eu, pobre puto e pobretanas,  não poderia ter grande experiência de mexer com as mãos na massa mas era o melhor na matemática. Os meus quinze anos não esconderam o nervosismo quando subi ao palco mas também não escondi o orgulho de ter merecido a confiança dos meus amigos.

Quando chegou a hora de apresentar contas, a porca torceu o rabo. Despesas de teatros, torneios, livros, viagens e velas; receitas de quotas, contributos e bilheteiras e... eh lá grande contabilista que faltam quatrocentos e setenta escudos!

Três causas possíveis: engano grave nas contas, alguém que me foi ao baú ou então, coisa que eu acreditava na altura, intervenção divina para me pôr à prova.
Três saídas possíveis: aldrabar as contas para que batessem certas, reconhecer o meu falhanço e confessar ao reitor, ou arranjar o dinheiro em falta. 
Convencido da segunda causa, optei pela terceira saída.

- Mãe, se vais ter um filho padre, seria bom que houvesse uma bíblia em casa. Estão lá, no seminário, à venda umas antigas e de boa encadernação e, diz-me Deus, que uma comporia muito bem a mesa da nossa sala.
- Quatrocentos e setenta escudos? Só falando com o pai!

Lá consegui que a família cristã abrisse a bolsa e cristaneamente avancei para comigo: se roubar para comer não é pecado, roubar livros também não e então, se for "o livro dos livros", "a palavra do Senhor", nem de roubo se poderá falar mas antes de ato louvável de louvor a Deus.

Quatro da manhã, levantei-me no silêncio da camarata, percorri pela calada da noite os longos corredores que levavam à capela mor, enfiei por debaixo do pijama a bíblia sagrada e regressei à cama.

Chegado o final do ano letivo fui expulso do seminário - a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor.

Dias antes, um padre fora a casa dos meus pais averiguar os equilíbrios da família, entre os quais não poderiam escapar os financeiros, ou não estivesse sempre em cima da mesa o espaço para um aumento da mensalidade; padres recebem-se na sala, na mesa da sala estava a bíblia, a minha mãe falou da aquisição, o padre reconheceu a encadernação e não vale a pena contar mais nada: a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor e, tendo o caso corrido os meus pequenos mundos, dado como incompetente, ladrão ou pouco esperto, sempre candidato, nunca mais voltei a ser eleito.

- Esse gajo andou a estudar para padre! Sabe muito, sabe-a toda, se for para lá faz igual aos outros!...
E eu pergunto, se faço igual aos outros, porque raio escolhem os outros e não me escolhem a mim! Porra, eu andei a estudar para padre! 

domingo, 25 de outubro de 2015

Antipático o raio que os parta – e aos fotógrafos também!


O fotógrafo rabeava à minha volta no pequeno estúdio, dando jeitos em suportes e projetores e na minha pessoa: gola, cabelo, cabeça, ombros e o raio que o parta, nunca mais estava tudo bem!  E, na hora do passarinho, nem ele, nem a minha mãe, me conseguiram arrancar a expressão da lei: um tipo para ficar bem na fotografia tem de arreganhar.

Foi assim e assim continou a ser em todas, conforme testemunha um quadro que tenho na sala com cartões de identidade da juventude: de estudante, da JOC, de militar, de sócio da ARCA, passageiro da CP, condutor de velocípedes e músico de cabaré.

Sou, portanto, um fulano sisudo, incapaz de responder com uma gargalhada a uma boa anedota, que só mostra os dentes se tirar a prótese. Mas gosto de ver retratos antigos. Sou também, portanto, um saudosista.

A minha primeira foto tipo-passe foi para tratar da documentação da matrícula no ensino preparatório. A minha mãe lá foi toda contente, comigo de má cara ao lado dela, e só voltou a dar um passo pelos meus estudos quando foi com o meu pai a Coimbra carregar o carro com as minhas gabardines e sebentas. Foi então que me fez a pergunta: “filho, que curso é que tiraste que as pessoas perguntam-me e eu não sei dizer?”.

Tendo iniciado o primeiro ano do ciclo nos primeiros dias de outubro só voltei a casa pelos Santos mas, para espanto meu, a minha mãe não estava. O meu pai foi comigo a Coimbra, de comboio, apanhámos um taxi para a maternidade para eu conhecer o meu primeiro irmão que não nasceu em casa e para tratar duns afetos em falta. Não pude entrar porque poderia ver mamas de mulheres e não tinha idade para isso. Chegaram as lágrimas ao meu pai quando me deixou com o porteiro, voltou passada uma hora, alegremente e com beijinhos da mãe.
- É parecido contigo!..

No início de dezembro, tendo deixado o bébé com a rapariga que a ajudava no regimento, viajou na camioneta da carreira para ver um dos seus filhos que não via há mais de dois meses.  
Manifestou tristeza e preocupação porque não me encontrou entre os outros meninos no recreio. Porque é que eu estava sozinho na sala de estudo, se ainda por cima não estava a estudar, mas a desenhar igrejas de duvidosa arquitetura?!...

Sou, portanto, pouco social. Mas enganou-se a minha mãe, não havia razões para tristeza ou preocupações, eu sentia-me muito bem ali no internato, eu gostava dos meus amigos e eles de mim e da minha cara de poucos amigos.
Eu tinha sempre alguém com quem brincar, dormíamos juntos, comíamos juntos, estudávamos juntos, rezávamos juntos, víamos livros pornográficos juntos, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas juntos, durante cinco anos que tanto marcam a vida dos mortais – dos dez aos quinze.

Quando eu saí, só ficaram dois. Só um chegou a padre mas já não o é. Perdi-os todos de vista, voltei a ver um ou outro furtuitamente. Já lá vão quarenta anos. Este é o almoço que eu desejava há muitos anos. Fiz um esforço, investiguei, procurei contactos, consegui.
Hoje, véspera do Dia de Todos os Santos, um grupo de velhos amigos vai reunir-se. Estou em pulgas para os ver a todos, vou voltar a ser quem fui.
Sou, portanto, um camarada.

(a idade não perdoa, estão aqui a dizer-me que é para a semana!...)


quarta-feira, 28 de março de 2012

O meu primeiro acto subversivo

76, o país acabava de comer a fome de si próprio. Para evitar os manuais escolares saídos da revolução, os padres e irmãos, lentes liceais, ditavam aulas de apontamentos infindáveis.
100 folhas A5 X 10 disciplinas X 14 alunos – 14000 folhas de conhecimento.
Já há alguns meses que, sob o meu entusiasmo liderante, a turma vinha assentando pormenores - a vingança servir-se-ia assim: no final do ano lectivo, realizadas as provas, faríamos de cada folha um barco de papel.
E assim fizemos durante um dia inteiro. Secretamente, dobrámos, redobrámos e acondicionámos a força naval. No dia seguinte avançámos sobre o rio e, num trabalho de horas, lançámos, uma a uma, cada embarcação ao destino da corrente. O efeito pretendido era que a enorme frota surpreendesse os transeuntes do centro da cidade, no troço onde as margens desaparecem amuralhadas para mostrar ao rio o poder do povo e fosse até, quem sabe, notícia da Voz do Domingo.
Cumprido o ritual da partida, num sítio onde o rio ainda era rio de margens verdes, corremos por aí abaixo, até à ponte da imagem dos postais, para apreciar o efeito e o resultado de tão grandioso feito, quer nas pessoas, quer no curso fluvial.
Demorou algum tempo até que chegassem os primeiros e, quando veio o grosso, contabilizámos o efeito do grande feito. A idade e o contentamento deram para uns saltos e uns agitamentos que não disfarçaram a autoria. Um velho que passeava e compreendeu, largou um riso; duas ou três crianças juntaram-se-nos; dois ou três peões sorriram.
Não rendido, um de nós ainda disse “devíamos ter feito antes um telefonema anónimo para o jornal!”
A partir daqui todos os meus actos subversivos foram secretos e consequentes - ou não tivesse eu aprendido com os espaços mentais que deixei livres por tanto conhecimento que deitei ao rio - lamentando apenas a perda daquele que, por ser mais valoroso, acabou por desaguar no oceano.
da história "Todas as manhãs"

domingo, 23 de outubro de 2011

Roubar para comer não é pecado

E tinha passado só um mês; e éramos ainda putos da aldeia de cada um; e sentíamos a falta dos campos e das árvores; e nos prédios da cidade não havia fruta para roubar; e eis que me surgiu o primeiro diferendo com os padres que me queriam formar para eu ser como eles. 
Tínhamos acabado de agradecer ao Senhor o jantar e o padre de serviço estendeu mais umas palavras:
- Amigos, soube hoje que dois de vós cometeram um acto indigno de quem é temente a Deus. Espero que se redimam e que se confessem, o mais rapidamente possível, a fim de ficarem em paz com o Senhor.
- Não é nada comigo!... - pensei.
Já com a malta a sair do refeitório ouvi dum camarada :
- Está a chamar-te a ti e ao Bastos!
...
- Venham comigo!
Atravessámos a cozinha, descemos pelo elevador até à penumbra da cave, passámos pela zona das caldeiras, corremos o corredor até à garagem. O padre à frente, atrás eu e o Bastos trocando expressões interrogativas. A que prestimosa tarefa nos chamaria o padre? O passeio começou a perder graça quando nos mandou entrar no Mini. Eu sentei-me no banco traseiro e o Bastos no pendura. Eu ia de olho na mão das mudanças, sempre a topar se ela se arriscava na perninha do meu amigo, só um motivo desses, ou pior, poderia justificar tão enigmático convite nocturno a moços tão pacatos como nós.
- Sabem que os meninos que cometem actos feios devem ser castigados?

Mau! Mau! Afinal fizemos merda! Foi a merda do Gomes que bufou! Só pode ter sido isso! À medida que a coisa ia azedando ia ficando mais clara. O caso era o seguinte:

No caminho para a escola vimos estacionada uma camioneta carregada de grades de tangerinas, tirámos duas cada um e o Gomes disse que não queria. Nunca me passou pela cabeça que aquilo era “um acto indigno”, logo a mim que nasci a roubar fruta das quintas e quintais, protegido pela astúcia e pela lei de que “roubar para comer não é pecado”.
- É normal, em comunidade, se alguém rouba alguma coisa a alguém deve ser punido por isso!

A meio da Calçada do Bravo cortámos à direita. De tantos em tantos quilómetros o condutor largava uma boca do género dessa aí atrás, sem nunca se ter referido a nós os dois e sem nunca questionar o nosso silêncio ou olhar para apreciar o nosso ar acagaçado. O Bastos nunca se virou para trás mas sentia-se a comunhão de pensamentos.

A que espécie de castigo nos levava o padre justiçoso? Seria aquele o caminho para a prisão das crianças? Nem nos deixou despedir da malta! E quando os nossos pais soubessem da detenção?

Mais um corte à direita, Martinela, nunca ouvi falar em tal terra, é uma aldeia, tem uma capela, parámos.
- Hoje trago aqui uns rapazes lá do seminário para ajudar à missa.
Tremia com as galhetas, sempre à espera que caíssem no altar. Temia estar a pensar noutra coisa no momento do toque da sineta mas, ajudar à missa, era uma penitência adequada ao “acto indigno”.

No final do Santo Sacrifício algumas pessoas vieram dar umas moedas aos acólitos. Regressámos à cidade, durante o caminho não se ouviu palavra. O caso foi encerrado. Nunca mais mostrei os dentes ao padre e comecei a gostar ainda mais de tangerinas. Passados tantos anos gostava de encontrar o padre para lhe atirar à cara as crises de fígado que tenho por abusar de tangerinas.

domingo, 9 de outubro de 2011

Procuro FIAT 600

E, numa tarde de Domingo outonada, lá foram os pais entregar o filho ao clero, acompanhados de uma tia-avó celibatária, octogenária avançada, ex-regente de ensino e poupada, virgem de todos os santos e que, pela causa deles, apostou em investir na vocação do sobrinho querido que era eu. Fomos num FIAT 600, não tão velho como ela mas muito velho, emprestado sem favor por um primo mais abastado que fazia plena confiança nas mãos do meu pai, ou não tivesse sido ele, chofer de ofício, quem lhe dera a sua primeira lição de condução.
A viagem foi um suplício. A velha à frente, pendurada, a tecer cuidados à estrada, a dar-me recados e recomendações, a contar histórias e avé-marias e a minha mãe, atrás, com uma toalha a zelar-me pelos vómitos que me provocavam as curvas e o cheiro a gasolina.
A verdade é que só ela falava, os outros dois deveriam ir pensando em coisas que também, no meu enjoo, pensava:
- Como vou aguentar viver fora de casa sem a minha casa, sem o meu casal, sem o meu ribeiro, sem poder armar as minhas costelas, sem o meu cão, sem os meus amigos, sem as minhas primas, sem o meu irmão? Será que vou aguentar as saudades? Será que me vou largar a chorar no momento da separação?

Mas não! A minha mãe arrumou-me as coisas no armário, fez-me a cama, disse o que tinha a dizer. O meu pai e a tia observaram, encantados, as modernas instalações e trocaram impressões com gentes e meninos de outras terras que estavam ao mesmo.
No final, acompanhei-os à portaria e voltei para junto dos outros meninos que nem um homem! Nem uma lágrima!

Então e os 650$00?! Não me esqueci! Nunca me esquecerei! Por pressão do prior junto da reitoria a mensalidade desceu 50$00. Por pressão do prior junto da tia-avó beata, esta amadrinhava os santos estudos do jovem parente a troco dumas intercessões sacerdotais junto do Altíssimo.

- Se a tua tia ajuda, a conversa é outra! Nesse caso, ainda que nos exija à mesma muito esforço, penso que conseguiremos!... Não nos podemos esquecer que ter um filho formado é sempre um bom investimento!
- Esqueceste que para chegar a padre é preciso estudar muitos anos e a velha não dura muito!
- Pode não durar muito mas tem dentes de ouro!

(esta história de domingo começou com uma coisa que se me meteu na cabeça, comprar um jipe usado, 650$00 e, para a semana, se houver sol, continua)

domingo, 2 de outubro de 2011

650$00

“ Tendo sido admitido ao seminário o vosso filho, depois do estágio que aqui realizou, certamente ides preparar, com todo o cuidado, o que é necessário para a sua entrada no princípio de Outubro, ainda que isso vos vá exigir alguns sacrifícios. Estou certo de que aceitareis esses sacrifícios com alegria pedindo a Deus que vos conceda a graça de terdes um filho sacerdote.

A permanência do vosso filho no seminário vai também custar-vos alguns sacrifícios materiais, mas vós bem sabeis que a vida tem encarecido muito e que é grande a despesa que se faz com a sustentação e educação dos seminaristas.

Como responsável da economia do seminário, venho dar-vos alguns esclarecimentos sobre este assunto e pedir a vossa atenção para o seguinte:

1º - A mensalidade a pagar é de 650$00.
… 2º, 3º, 4º, 5º e
6º- Se algum aluno, por qualquer motivo, abandonar o seminário temporária ou definitivamente, deve liquidar todas as contas antes de sair, sem o que não poderá levantar as suas coisas.

(Em anexo lista do enxoval)
…. O ecónomo auxiliar…"

Leu a carta mas não ma deu a ler e andou toda a tarde calada. À noite, quando chegou o marido, fez a leitura em alto e rematou sobre o silêncio da testa engelhada do ganha-pão da família, ignorando, fingida e inteligentemente, a minha presença:
- Já lá vai o tempo em que se estudava para padre de graça!
- Puta que pariu os padres! Tu queres lá ver?! Isso é um terço do que eu ganho! Ainda só temos dois mas mais meia dúzia deles podem acontecer que a cana ainda incha todos os dias!

E eu, sem perceber por que obra as canas ali eram chamadas, deitei para o meio dos dois um soluço e deixei ver uma lágrima que provocou incómodo no caminho que o diálogo estava a tomar.
- Ó homem deixa de falar assim à frente do pequeno! Amanhã vou falar com o padre e logo se vê! Ou descem o preço ou assim não vai! Quanto à roupa, a tua irmã Carolina, de Lisboa, está cá de férias… o Carlitos muda de roupa todos os dias, é mais gordo do que ele e há-de para lá ter muita roupa que já não usa.
Apeteceu-me fechar o assunto e falar que nem um homem “ Pronto que se lixe! Vou para toureiro ou para acordeonista!”
Mas o orgulho falou mais alto! Não suportaria assumir a desistência perante pedreiros, resineiros, criadores, taberneiros e respectivos descendentes, que há meses me atazanavam a cabeça: “ quando tu fores padre, eu sou bispo!”; “hás-de dar um lindo padre!”; “não te dou nem um mês!”; “queres ter as mulheres todas!”; “vais ser capado!”; “padre nunca!”; “ó padre nunca”.

domingo, 25 de setembro de 2011

Compro jipe usado


Em Julho o padre levou-me no seu carocha - ele de batina à época, eu com a única roupa que tinha sem remendos - ao Seminário Diocesano para fazer estágio e provas que atestassem o jeito e a verdade da minha vocação. Vi-me deitado à noite, numa camarata com mais trinta meninos que estavam ao mesmo e, pela primeira vez, senti o que era não ter mãe para aconchegar as mantas.

O edifício era quase a estrear, dinheiro de esmolas, dinheiro dos santos, dinheiro alemão, projecto alemão, desenho certo para as funções a que estava destinado, tudo pensado, para os mais pequenos, para os quase padres, para os padres, para as criadas, para as freiras, para o culto, para o estudo, para o lazer, conforto, funcionalidade, inteligência! A gente abria uma torneira e corria água vinda sei lá de onde, fria ou quente, era só escolher, adeus banhos de alguidar, adeus mãos sujas do esterco dos currais, adeus pó do pasto, adeus frio, ai tanto livro que há aqui para ler, ai tanto jogo, dois campos de futebol, ai eu tenho de passar!

E para passar tinha a meu favor ter sido o melhor da classe na minha escola - éramos só dois e o Ginado era mais virado para o gado - ser mesmo eu, e isso era importante nos testes psicotécnicos diários que fizeram durante toda a semana; ser devoto, e isso era evidente na atenção que prestava aos oradores, no modo como entoava o Pai Nosso ou erguia as mãos nas práticas religiosas que, obviamente, incluíam o tirocínio. Na entrevista final com o reitor vieram as perguntas principais:
- E diz-me lá filho, de onde te veio esta ideia de quereres ser pastor do Senhor?!
- Foram dois missionários lá à escola, gostei e fiquei com vontade de ser como eles!

Foram dois jovens felizes que falaram alegremente das missões no ultramar e que projectaram slides coloridos com fotografias da cor quente do solo  africano, com grupos de negros sorridentes ao lado de missionários brancos sorridentes, um jipe, mulheres com as mamas à mostra lavando a roupa no rio, uma capela com telhado de colmo - macacos me mordam se eu não hei-de um dia ir também para além mar anunciar a salvação!

Não lhe contei o quadro nem lhe contei que um dia, no fim da catequese, fiquei de espera a uma cachopita de outro lugar para lhe dar umas palavras e mais um beijo. Os amigos do meu lugar não me esperaram e eu tive de regressar a casa sozinho pelo pinhal. A lição do dia tivera uma ilustração do inferno com o Satanás de cornos e forquilha a picar seres metuendos em chamas. Tudo somado, o caminhar sozinho e a pensar, o pecado da luxúria, o medo de me queimarem quando morresse, fez-me lembrar que a melhor forma de me salvar e ter o Céu garantido era ir para padre.

- E quando sentiste o chamamento de Deus, meu filho?!
- Eu vinha da catequese, e lá numa curva onde existem uns carvalhos…

Esperem aí! Compro!... Mas não tenho dinheiro!!



domingo, 18 de setembro de 2011

Uma coisa que se me meteu na cabeça

- Que diabo de ideia que se havia de meter na cabeça do chachopo!
Pensaria minha mãe durante a lida. Para o meu pai ter um filho médico ou padre, era dos maiores orgulhos que um homem pode ter. Como para os mais pobres médico pia fino, só lhes restava o ofício dos altares em que os estudos são bem mais baratos.
- Se lá chegares, dar-te-ei a melhor charneca!
- Não! Eu quero ser missionário e vou fazer voto de pobreza.

Conversariam os dois na minha ausência:
- Que diabo de ideia que se havia de meter na cabeça do chachopo!
- Em vez de invocares o diabo devias era dar graças a Deus!
- Olha tu, agora armado em santo, há mais de cinco anos que não vais à confissão!... O rapaz tem lá feitio para padre! É um corrécio desajuizado!
- Lá por andar sempre à procura de ângulos para espreitar por baixo das saias das mulheres, isso não quer dizer que não tenha jeito para pregar! Uma coisa não impede a outra! Não lhe hão-de faltar oportunidades de molhar o bico ao prego!.. Oh!Oh! Os padres têm as mulheres todas!

Como o caso, raro na aldeia, chegasse ao conhecimento de todos e todos sem excepção já me tratassem por Padre Nunca, não restou à mãe outra coisa senão ir apresentar o menino possesso ao senhor prior.
O homem fez uma longa entrevista a mãe e filho para averiguar a autencidade da vocação e, ao fim de algum tempo, opinou sabiamente:
- Não me parece com perfil para franciscano. Um dia destes combinamos e, eu próprio, o levarei ao seminário diocesano!

O padre ficou contente. Nunca tinha tido seminaristas no seu rebanho! O contentamento expressou-se numa nota de cinquenta escudos que me enfiou no bolso ao sair.

Minha mãe começava a conformar-se, pelo menos estudaria de graça e só aquele dinheiro, já valia bem o caminho que fizeramos do monte até à igreja. E, como tinha uma unha de poeta popular, inventou logo ali uma para eu cantar, que obviamente nunca mais esqueci:

O Senhor Padre Ferreira
Pessoa de altos estudos
Perdeu o amor à carteira
E deu-me cinquenta escudos