quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Sábado, o Domingo e a Autoestima

Albertino Rosa e Rosa Albertina conheceram-se por coincidências onosmáticas e daí ao enamoramento e ao casamento foi uma questão de tempo. A Rosa está desempregada. O Rosa opera numa fábrica de pastilhas.
O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.

Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.

A Autoestima é uma empresa que fabrica pastilhas para os travões das rodas dos carros que não têm travões de discos. Acontece que o governo decretou que a velocidade mínima dentro das localidades fosse reduzida para 30 km/hora; os condutores passaram a travar muito mais dentro das localidades; o consumo de pastilhas de travões teve um aumento acentuado; a produção tem de aumentar consideravelmente; tendo em consideração que não há condições para aumentar os custos com o trabalho, considera-se que os trabalhadores e/ou colaboradores têm de trabalhar e/ou colaborar mais. Mais ainda? De segunda a sexta não é possível! Que se trabalhe também ao sábado!

Todos dizem a Albertino Rosa, e Rosa Albertina concorda, que se assim não for, o mais certo é a empresa se deslocalizar e ele perder o emprego. Com um argumento destes não há Albertino nem Albertina que não seja tentado à rendição.

E é aí que Rosa pensa mais longe e põe a questão:
- Então e se se mantiver o número de atropelamentos? O governo irá decretar a velocidade mínima dentro das localidades para 10km/hora, deixaremos de poder ir à missa ao domingo pedir a Deus, unidos como Ele nos uniu,  trabalho e saúde para trabalhar.

Mas não é isso que faz pensar o Albertino, além de não ser judeu para ter que guardar o sábado, como cristão só vai à missa para satisfazer a mulher. O que o preocupa é que, com tanto consumo de pastilhas, os fabricantes de automóveis comecem a fazer só travões com discos! E pensa mais, que isto não vai parar e que mais do que lutar pelo que se tem, é preciso querer mais, como os que detêm os meios de produção.
É a luta de classes, carago!

3 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

É pá tá do carago
dava-te um abraço
se não fosses um bácoro

a sério!

Manuel Veiga disse...



o Rosa demorou, mas chegou lá, carago!

Zambujal disse...

É uma história (e um texto) do caraças! Vivam os Rosas, que até sabem dos espinhos mas descobriram que o importante é a rosa, como cantava o Bécaud! Mas o problema é sempre o mesmo: os cardos e os silvas e os que choramingam por migalhas e que, em momentos cruciais, vêm dar ajudas ao outro lado da luta.
De qualquer modo, o excelente textículo está no seu lugar.