quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Morrer tranquilamente


Antigamente morria-se por tudo e por nada, de praga, de parto, de nascença, de cornada de boi, de beber vinho em cima de melancia, de tosse, de paixão ou de doença mas nunca de cancro, de sida ou de acidente de viação. E um tipo podia morrer tranquilamente em casa rodeado da família, dos vizinhos e amigos e não ligado a tubos, sozinho num hospital cheio de gente. E quando se ia, os pequenos gatinhavam por baixo do caixão e não se chorava muito porque, no fundo, aquilo era apenas um despacho que com meia dúzia de orações se encomendava para o Céu onde, mais cedo ou mais tarde, toda a gente iria parar e gozar livre dos desgostos da criação e da colheita ou da tragédia do mau tempo que derrubou o alpendre do forno.

Quando o candidato a defunto dava em notícia, a malta ia avaliar a situação, se fosse caso para tanto faziam-se as despedidas, davam-se-lhe mais três ou quatro dias e mandava-se chamar o padre.

O meu bisavô chegou a esse ponto e, na preparação do cenário para a extrema unção, duas moças lá do sítio elevaram-se em escadotes ou na mesinha, uma de cada lado do leito, para estender e pregar um lençol branco, de enfeites ao momento, na parede da cabeceira. E não é que o maroto, deitado e no ângulo em que estava, conseguiu mirar partes que noutra condição não veria e não se conteve:
- Oh Maria, que lindas pernas as tuas!
E ainda hoje, quando a família se junta é com esta que se recorda a sua morte… ou a sua vida!

5 comentários:

antonio - o implume disse...

Excelente crónica! Dizem que é na morte que se celebra a vida, mas eu creio que não devemos dar-lhe muita importância e fintá-la no último momento, mirando as pernas da Maria!

Ferroadas disse...

Maroto o teu bisavô, provavelmente na hora da partida, conseguiu ver aquilo com que sonhou toda a vida. Paz à sua alma, que a vida (mesmo uma grandíssima merda) é sempre vida.
Abraço vivinho da silva.

Camolas disse...

Aposto que durou mais cinco anos!
Sim camarada! acredito também que o amor é vida e o trabalho caminho para a morte.
Um brinde às pernas da Maria e ao Maroto do teu Bisa esteja ele onde estiver. Para Ti força no Pau!!!

Zé Povinho disse...

Antigamente acompanhavam-se as pessoas e vivia-se com elas, hoje o individualismo, e do stress da vida, leva a que se condense apenas no momento da morte a atenção que devia ter sido uma constante durante a vida.
Abraço do Zé

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Atão o homem ressuscitou? Ganda malandro!...

Abraço