domingo, 15 de outubro de 2017

A restauração de Portugal


O puto já foi onde eu nunca fui, Paris, Rio, Londres, Praia mas para ele Portugal é Lisboa e, via A2, Albufeira. 

Gosto de Idanha a Velha porque os naturais, apesar do peso histórico da povoação, ainda não se deixaram intimidar pelos turistas, pelos estudiosos ou pelos projetistas de terra alheia. Nas ruas apertadas vêem-se garrafas de gás com o tubo a entrar na parede de cozinha, tanques de lavar a roupa, estendais  e a venda, que resiste, tem caricas de cervejas e beatas na calçada junto à porta de entrada. Por incrível que possa parecer, isto também me faz gostar desta aldeia.

Voltas dadas por ruínas e muralhas, com o meio dia o puto começou com o "tenho fome" e não se vê sítio de matar a dita e a mulher da venda não tem por negócio servir pratos.
- Mas a senhora não vende aqui latas de atum?
- Vendo.
- Não tem por aí uma cebola?
- Tenho.
- Um pingo de azeite?
- Também.
- Um pão?
- Também se arranja!
Bela refeição, belo o ambiente, bela a mulher da venda. O puto indagou que ela não tinha ar de quem gostava de heavy-metal pelo que não percebia porque se vestia totalmente de preto.

Passar por Fátima para a patroa acender um vela. O puto desconfiado da história e das crenças da avó a fazer perguntas até chatear. 
- Cala-te! Não vês ali escrito "silêncio"?!
A avó a aproximar-se dum orifício com duas notas dobradas. O puto avança comigo.
- Com esse dinheiro bem podíamos ir a um restaurante e estávamos na mesma a ajudar! As gentes daqui são das que mais dão à Santa como forma de agradecer o sucesso dos seus negócios!  

O moço que servia à mesa usava calças pretas e camisa branca!
- Meio viúvo? Morreu-lhe a namorada? 
Perguntou o puto acrescentando que o tipo não tinha pinta de gostar de heavy metal.
O moço era estagiário da Escola de Hotelaria de Fátima e tinha a simpatia e a educação suportadas na utilização abusiva de diminutivos.

- Pretendem uma mesinha? Temos bifinhos, um bacalhauzinho, pãozinho, um vinhinho, a comidinha está boazinha? Uma sobremesinha? E, no final, a continha: quarenta e cinco euros.
Juro que se ele tivesse dito "eurinhos" teria havido maus entendimentos com o pagamento! 

Atum enlatado com cebola é bom. Não formatem o bacalhau, a sopa, os moços e as moças que nos servem e lembrem-se, lá prós lados de Idanha, a Senhora do Almortão também faz milagres: para o ano o puto quer passar as férias com os avós e não quer ir ao Algarve nem a restaurantes com rapazinhos de fatinho.

4 comentários:

Sérgio Ribeiro disse...

Três ou quatros aponta mentes sobre a realidade, a mundivivência. Não gosto de adjectivar (e se calhar abuso...) mas apetece-me escrever soberbos! E já escrevi...

Forte e grato abraço

cid simoes disse...

Obrigadinho...

Rogerio G. V. Pereira disse...

Para quem lê
texto "gourmet"
a merecer
cinco estrelas michelin
Hã?!

Zé Povinho disse...

Cada vez se come pior em lugares onde passam turistas... Comida portuguesa dizem eles, mas cá por casa faz-se de outra maneira...
Abraço do Zé