domingo, 22 de outubro de 2017

A terra a quem a trabalhar


Quando Leonor voltou à terra já não era a mesma que dali partira nas raias da maioridade. Na capital deveria ter encontrado companheiro com bons abonos, emprego em boa loja ou repartição já que, aos olhos de quem a via, virara fina. Quem a vira e quem a via: óculos de sol, saltos altos, lábios e unhas pintados, permanente, colar, malinha no ante-braço, cuidada no uso da palavra com recurso a termos por ali pouco usados e, a juntar a tudo isto, conduzia ela própria um volkswagen azulinho claro. 

A meio da volta das visitas a que vinha, desceu, com os cuidados que o seu calçado e o seu jeito exigiam, a rampa de acesso à taberna da rua onde nascera, entrou e, naturalmente, toda a gente se calou para a mirar e para a ouvir.
Falou, do posto da autoridade efémera que lhe concederam, não do pedaço de vida que lhe desconheciam pela ausência mas das mudanças que notava na terra e que a surpreendiam.

- Efetivamente, estou chocada, a quantidade de silvas e ruínas que vão por este lugar além! Que desmazelo o desta gente! Hoje em dia ninguém quer trabalhar!
Foi o Zé da Venda, que por sabedoria de ofício ouvia muito mais do que falava, que a pôs no seu lugar:
- Leonor, se ainda sabes distinguir uma foice dum foice, vais ali às minha alfaias e podes começar já naquilo que herdaste dos teus pais!

Meia engasgada, abreviou as despedidas, saiu porta fora e pôs-se ao volante, deixando abafadas pelo ruído do motor algumas gargalhadas. E então não é que na primeira curva por entre o casario, de má visibilidade, diga-se, espeta uma traseirada no carro de bois do Esquim Manel. A junta aliviou a canga por instantes mas os animais nem olharam para trás. Pararam à ordem do boieiro que veio à retaguarda verificar o acidente. O capot do automóvel bem amolgado e coberto de esterco que resvalou da carga, Leonor a sair irada e de voz esganiçada, os clientes da Venda e outras vizinhanças a acudirem ao local convocados pelo estrondo e pela discussão crescente.

- Efetivamente isto não se admite! Não devia ser permitido andar com gado nesta estrada!
- Já por cá andavam muito antes de teres carro!
- Ó Esquim mas tu tens de me pagar efetivamente os estragos no carro!
- Ó cachopa, eu não tenho a carta mas sempre ouvi dizer que quem enfia por trás paga!

A discussão prolongou-se, como é normal, alargou-se ao julgamento dos outros presentes, elevaram-se alguns tons mas, fosse qual fosse o argumento ou a sentença, a todos o Esquim Manel respondia:
- É muito simples, quem enfia por trás paga!

Não tendo corrido muito bem a ida de Leonor à terra, ressabiada, nunca mais voltou mas é ainda recordada por alguns com o "enfia atrás" e "efetivamente". Ou melhor, voltou hoje, já septuagenária, numa passat conduzida por um filho, depois de ter visto na televisão a sua terra em chamas. Não conseguindo localizar as sua propriedades teve de pedir ajuda a um primo residente!
- O que isto era e o que isto é! Isto tinha de acontecer! Esta gente sempre foi muito desmazelada! E depois ninguém quer trabalhar!
- Ó prima, há já aí quem diga que o pessoal que cá vive tem de se unir e fundar uma cooperativa e que as terras abandonadas irão ser propriedade de quem a trabalha!
- Efetivamente estou a ver que também tu viraste comunista! Tu, ouve bem, ai de quem tocar naquilo que os meus paizinhos me deixaram ou que ouse mexer nos meus marcos!
- Efetivamente prima, vou dizer-te uma coisa que nunca te disse: eu quero que tu te... tu te... tu te...

6 comentários:

Manuel Veiga disse...

Majestade

quer parecer.me que Vocência anda a fazer a corte (salvo seja) à prima Porcina

e a mexer-lhe onde não deve, ou seja, nos fundos, como se fora propriedade sua

cuidado com os "procuradores"...

gosto de saber-te em linha, pois as minhas palavras não se deixam "acantonar", pelo menos enquanto a net for um espaço de liberdade...

já noutros espaços nossos conhecidos, não garanto ...

forte abraço

Rogerio G. V. Pereira disse...

vem mesmo a propósito
vou copiar, posso?
é que eu ando aqui às voltas com a intervenção, amanhã, na minha tomada de posse...

AVL Academia Virtual de Letras António Aleixo disse...

Gostei desta bela patada em prosa escorreita!

Maria João

José Lopes disse...

Nada pior que um campónio de espírito, aburguesado pelo ar citadino, neste caso no feminino...
Cumps

O Puma disse...

Ainda Cristas não montava o seu alazão
Abraço sempre

João Miguel Salgueiro Gameiro disse...

Pois é ... quanto mais prima ... mais ....

Abraço