quarta-feira, 30 de outubro de 2013

7- A fábrica da aldeia

Canicha, a tia de Laurindo, bateu à porta da minha casa já era noite escura. Surpreendeu porque nunca ali viera e porque trazia uma respiração de quem correra e um ar aflito:
- O meu rapaz não está por aqui!? Ó João, tu não viste o Lindo?!
Ao fim dos nossos “nãos” desatou a explicar-se, nervosa como nunca se vira - que ficara ir ter com ela e a mãe ao Pinhal do Virginho com a bucha da tarde mas que nunca aparecera e que ninguém o vira; que o mais certo era ter-se perdido; ou então que caíra dentro de algum poço do Vale Feto; talvez até tivesse tropeçado para dentro de algum tanque da fábrica; que diabo teria acontecido ao meu Lindinho; que a deixassem chorar…
Com palavras de esperança acompanhámos a inconsolável pelas ruas abaixo perguntando em cada casa por Laurindo e, de cada casa, saiam as famílias solidárias com candeeiros de petróleo e lanternas francesas, de tal forma que, quando chegámos à fábrica, era já a aldeia inteira que se reunia à volta de Laurinda, agora acalorada e boa mãe para toda a gente. Zé Coxo já havia corrido todos os cantos da fábrica e inspeccionado, com um candeeiro preso por um cordel, o interior de todos os tanques pelo que, além da repetição das outras hipóteses já enunciadas por Canicha em minha casa, só havia uma outra, que de tão trágica nem seria averiguada: o rapaz poderia ter caído dentro duma das barcas – assim se chamavam aos dois grandes tanques onde era despejada a resina dos barris que eram descarregados diariamente – e aí não havia maneira de o encontrar senão ao fim de várias dias que seria o tempo necessário para as esvaziar.
Assim sendo, acordou-se que o melhor seria começar a bater os pinheirais em direcção ao Virginho. Organizados os grupos, só os mais pequenos, como eu, ficaram. Recordo viva a imagem de ver desaparecer, na escuridão, a luz das dezenas de candeeiros e lanternas e de ouvir, ao longe, as repetidas chamadas de “ó Laurindo!”.
A busca, sem sucesso, só terminou de madrugada e essa noite ficou para sempre registada na memória do povo de tal modo que, ainda hoje, de quando em vez, a propósito e a despropósito se ouve a expressão “ó Laurindo!”.
No dia seguinte, Domingo, foi um povo ensonado e desacorçoado que entrou na Igreja. O padre deu a bênção inicial da Missa e contou que, só de manhã, soubera que tinha desaparecido um rapaz dum lugar da freguesia; que já ouvira falar da sua família; que não são cá da terra; que não vem à Igreja e que por isso não seria de estranhar que Deus lhe tivesse dado este aviso e este sinal; que, apesar de tudo, Deus é bom e que, por isso, acabara também de receber um telefonema da Aldeia de Santa Cruz dando-lhe conta que tinha por ali aparecido um rapaz que afirmava ser destas bandas. Agradecia pois que, no fim da Missa, passassem a informação aos hereges familiares do desaparecido.
Qual no fim da Missa qual carapuça! O meu pai sussurrou ao ouvido de minha mãe e saiu Igreja fora comigo pela mão.
- Monta!
Percorridos, na Flandria, os três quilómetros que separam a sede da freguesia da Terrinha, numa encruzilhada entre pinhais, parou a motorizada e encomendou-me:
- Vais por aí abaixo ter à fábrica e contas a Laurinda que Laurindo apareceu e eu fui buscá-lo!
Recordo que Laurinda me agarrou pelas mãos e deu três voltas comigo em rodopio; que Canicha me deu um chi no pescoço; que Zé Coxo entrou porta a dentro dizendo “isto merece um copo; o tempo que demorou desde que se ouviu o ruído da Flandria até esta chegar como uma égua, com o meu pai a sorrir vitorioso e sentado, atrás dele e bem agarrado a ele, o amigo que me proporcionou um dos momentos mais emocionantes da minha vida.
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Todas as Quartas há Fábricas
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

6- A fábrica do filho do Senhor António

O filho do senhor António já se tinha safado da tropa. O filho do senhor António não tinha namorada. O filho do senhor António já tomava conta do escritório e era ele que, ao sábado ao fim da tarde, fazia os pagamentos aos operários.
O Laurindo tinha por hábito deslocar-se, entre a sucessão dos seus destinos, sempre em corrida, imitando o som de uma motorizada e com os braços e as mãos em posição que simulavam a condução. Nas suas partidas, raspava com as solas dos tamancos no chão, imitando o patinar dos arranques bruscos desses veículos.
Este comportamento acabava por denunciar a sua passagem pelos meandros da fábrica ou pelas ruas da aldeia. Nos tempos em que a escola não me permitia fazer-lhe companhia, ele acabava por me ir visitar a minha casa. Como eu morava no extremo oposto, na saída do lugar para sede de freguesia, toda a gente sabia da nossa relação.
Muitos eram os que lhe dirigiam a repetida e conhecida pergunta, obrigando-o a meter duas mudanças, para lhe ouvir a resposta de sempre:
- Pra onde vais ó Laurindo?
- Vou ao João!
- De onde vens ó Laurindo?
- Venho do João!
O “motociclista” teria, no mínimo, quatro ou cinco diálogos destes durante cada trajecto largando pelas ruas a sua querida presença, levando de cada inquiridor um pouco de companhia.
Ao sábado, ao fim da tarde, era certo, eu acompanhá-lo-ia, estrada abaixo, também a acelerar. Como era dia de pagamento, a minha mãe apoiava a minha ida para que o meu pai não demorasse. Com dinheiro nos bolsos, os homens saíam do escritório da fábrica para a taberna do Costa e, claro, uma criança podia calar-se com dois rebuçados mas ao terceiro começava a chatear:
- Vamos embora pai! Ó pai! Vamos embora! Ó pai já é de noite! Ó pai já chega!
Naquele dia, ainda os homens andavam pela fábrica, já eu e Laurindo estávamos sentados nos degraus da escada do escritório. O filho do senhor António, dando pela nossa presença, veio à porta e:
- Também vêm receber?! Venham cá!
Mais uns caramelos franceses – pensámos! Mas não, desta vez foram pagamentos de outra massa, uma nota de Santo António a cada um!
E entre respeitosos obrigados – convém recordar que nós também fazíamos algum trabalho produtivo para a firma – saímos, cada um na sua “mota”, sem esperarmos pelos assalariados séniores. O Costa, quando nos viu entrar triunfantes deve ter pensado:
- Aí vem a canalha! Deixem-me preparar os copos que os bons fregueses vêm atrás!
Deve ter mudado de pensamentos e olhares quando nos viu acenar, cada um com a sua nota e, num coro de acaso, a pedir como homens:
- Dois copos de traçado!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

5- A fábrica do senhor António

A fábrica era realmente do dono e mais que dono, do patrão e mais que patrão, do senhor e mais que senhor, senhor António, um homem fino pelo traje, grosso pelas ordens, distante pelas palavras, próximo pelos acontecimentos. Ele era o eixo da fábrica, a fábrica era o eixo da aldeia, a aldeia era o eixo da vida.
O escritório ficava do outro lado da estrada e tinha janelas que lhe permitiam acompanhar de perto a vida da fábrica. Lá passava o seu tempo, com o filho, entre papéis e telefonemas e só de lá saía, duas ou três vezes por dia, para correr a fábrica de uma ponta à outra ou para inspeccionar e anotar o movimento de cargas e descargas.
Encontraria Laurinda raras vezes, talvez numa ida ao pinhal, numa vinda dela à fábrica para tratar de almoços, numa ida dele à fábrica num Domingo de descanso e, de certeza, sempre que ela fazia a limpeza do escritório.
Teria eu idade para levar sozinho o almoço ao pai quando não ia à escola. Teria oito anos, o Laurindo catorze?! O Laurindo não tivera competências nem vontades para ter frequentado a escola mas teria ainda infância para brincar comigo. Ambos teríamos já corpo para fazer um ou outro trabalho de menos responsabilidade – pintar uns tampos de bidões, arrumar uns bidões, mudar uns bidões de lugar – a troco da generosidade que o Senhor António transformava numas moedas que sempre davam para um copo de laranjada ou para um pacote de bolacha baunilha.

Como andávamos sempre por ali, víamos tudo e, um dia, vimos mesmo o que a voz cega do povo há muito via. Os balneários da fábrica, embora modestos, eram um luxo para quem não tinha água corrente em casa e mais, a água quente da omnipotente caldeira da fábrica acabava por criar hábitos de higiene aos operários que nasceram em ambiente de banhos raros.
Pela minha observação, Laurinda regressara do pinhal e entrara naquela porta para tomar um reconfortante banho que a libertasse da sujidade e do cheiro da resina. De repente imaginei-a nua e toda ensaboada.
- Já viste alguma vez a tua mãe nua?
Laurindo riu-se como um macaco e eu, como outro macaco, sugeri:
- Ali, por aqueles buracos na parede talvez dê para ver!

E pregámo-nos um a cada buraco, distantes, um do outro do outro, para aí um metro e vimos. Afinal estava vestida. De costas para a parede, os braços estendidos e recuados pareciam rendidos ou talvez não, talvez fosse apenas para as mãos de resineira não sujarem o fato asseado do senhor António. A cabeça ligeiramente inclinada para trás, a face enfeitada com uma expressão de mulher dada e satisfeita contrastavam com o rosto nervoso e excitado do homem e senhor. Vimos mais, a saia levantada a deixar ver carnes habitualmente ocultas. Virei-me para Laurindo que retirava os olhos do seu buraco, ainda amacacado, atirou-me um sorriso temperado com um piscar de olho e um encolher de ombros. Abandonámos o local e eu, na minha inocência, perguntei-lhe:
- Que raio estavam eles a fazer?!... Aquilo?!...
- Aquilo o quê?! A gente não viu nada! Estavam vestidos!...
Laurindo, por vezes, surpreendia-me com uns rasgos de sabedoria. Ele não viu nada, eu não vi nada embora esse nada nunca mais me tivesse saído da cabeça.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

4- A fábrica de Laurinda

Como é que eu, sendo tão tenro à altura, guardo memória para aqui descrever Laurinda com tanto entusiasmo?! É que Laurinda foi caso, e foi tanto o caso que me foi sendo contado e recordado até eu ser já maior e ter idade para a não esquecer.
Diziam, as más línguas, que Laurindo podia muito bem ser filho do tio e até que, no pequeno espaço que habitavam, não havia remédio senão o homem dormir com as duas irmãs e que o pobre “faltadito” a muito coisa, que não devia, assistiria. Os mais cruéis ou ousados chegavam até a puxar pelo assunto da poligamia, aos visados e, sobretudo, a Laurindo, cuja inocência permitia mais descaramento nas interrogações, cuja ingenuidade poderia largar alguma afirmação que acrescentasse argumentos ao boato.

Também a condição e as qualidades de Laurinda, nas quais se deve incluir a simpatia, o ar divertido e a impudência com que reagia aos rudes cotejos, numa aldeia tão portuguesa, deitavam achas para a fogueira. A imaginação do povo não tem limites e ela foi caindo nas bocas ciosas dos homens que a desejavam e das mulheres que a invejavam como mulher fácil de encantar. Falava-se que certo resineiro fora apanhado com ela em factos, no meio de certos matos. Apareciam, de vez em quando, uns certos gabarolas que, acreditando como reais as suas fantasias, afirmavam terem conseguido, em sítio oportuno, um beijo, um apalpar de mamas, um levantar de saias e alguns até a verdade de terem apanhado uma lambada!

Laurinda revelava-se superior ou desconhecedora da difamação e vivia os seus dias a trabalhar para ganhar para o filho, para quem não adivinhava futuro, sempre com alegria de viver, sempre bonita e bem disposta e, qual era o problema?! Sensual e provocadora também! Não devia nada a ninguém e se teve um filho que tanto amava é porque tinha sido feito com amor! Não desesperava procurando homem mas não era alérgica à masculinidade! Talvez viesse a morrer solteira e tivesse de ser pobre a vida inteira mas morreria de certeza mãe e honrada. Não estava disposta a casar com qualquer um só porque já tinha um filho mas também não era castrada só porque não nascera com tomates.

De tanta fama o boato veio a tornar-se sério quando chegou aos ouvidos do povo que o Senhor António – como patrão que era teria de ter, fora de casa, uma amiga – andava a ter uns apartes com Laurinda. Aliás, já teria sido na base desse encantamento que aquela gente viera da Beira Baixa para tão longe. O senhor António ia longe para negociar a exploração da resina e, numa dessas viagens, teria sido tocado por um misto de compaixão e atracção que determinaram que o seu coração se abrisse e trouxesse os quatro, no carro, para a sua fábrica.
Mais verdade ou menos verdade, o que é certo é que a história acabou por ser falada e imaginada até à exaustão e acabou por chegar aqui à nossa história.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

3- A fábrica de Laurindo

Laurindo, filho de Laurinda, era “um bocado atrasado” – não gosto nada desta expressão - e tinha um porte desajeitado. Vivia com a mãe solteira, a tia Canicha e o tio Zé Coxo, num dos anexos da fábrica. Eram dos lados de Mação e vieram para ali sobreviver. As duas irmãs trabalhavam na recolha da resina nos pinhais, o homem trabalhava no estaleiro onde se descarregavam, pesavam e esvaziavam os barris que iam chegando e Laurindo era um moço de recados multifacetado que fazia circular a informação dentro da fábrica e que ia à venda comprar sete e meio, uma lata de atum ou meio quilo de pregos. Durante a noite e aos domingos os quatro acabavam por fazer guarda à fábrica.
Durante o Inverno, não se almoçava no telheiro que tinha uma mesa comprida onde as mulheres, à medida que iam chegando, abriam a alcofa, estendiam a pequena toalha e retiravam o tacho, a botelha, a broa e outros condimentos, enquanto acertavam as conversas que entretanto seriam estendidas aos maridos. No tempo do frio, junto à fogueira da máquina é que se estava bem e cada um ia inventando o seu lugar, o seu assento e a sua mesa com cilindros de troncos ou com tábuas, na paisagem da lenha que ali era rainha.
Foi neste ambiente que, pela iniciativa e mediação dos trabalhadores, foi assinada, com um abraço público, a reconciliação entre o Laurindo, filho de Laurinda, e eu.
Andámos o resto da tarde por tudo quanto é fábrica e acabei por conhecer o meu novo amigo, não digo todo, porque nunca se conhece ninguém completamente, mas mais de meio porque ele era simplesmente puro e verdadeiramente sincero.
Levou-me à sua espécie de casa. Num pequeno quarto, uma cama, um armário tapado com um pano de cortina, uma cadeira e uma mesinha, tudo mobiliário sem mãos de mestre carpinteiro. Umas mantas de retalhos e alguma roupa, nenhuma com aspecto domingueiro. Na cozinha, um fogão com dois bicos e uma garrafa de gás, uma estante com alguma loiça, uns alguidares, uma mesa tosca com uns bancos toscos, o soalho com ar de nunca ter sido lavado e de ser varrido raramente, a um canto uma lareira com o chão em terra e sem chaminé, a largar conforto, ao lado da lareira um estrado com roupa desarrumada que dava aspecto de servir de cama. Afinal de contas, mesmo sendo-se muito pobre, havendo casa, tinha de haver lareira. O cenário acabou por me ser familiar porque tinha textura e cheiro de resina. Não nos demorámos.
- O que é que vocês andam para aí a fazer?!
O estaleiro ficava ali a vinte metros e o tio de Laurindo, topando a incursão no seu território, era natural que perguntasse. O homem de pequena estatura, de ar pouco ágil porque mancava, um pouco pacato, de poucas palavras, de algum vinho, era, lá no fundo, um grande homem com muito para dar.
A mulher, também gostava da pinga e dava, em tudo o resto, o perfil de que tinha sido feita para ele. Aparentemente, apesar de se estar a acabar a idade para isso, o facto de não conseguirem filhos, não os castigava.
Laurinda, mãe de Laurindo, que os acompanhava na migração – provavelmente fugindo à pena da aldeia que a viu conceber um filho amaldiçoado sem homem que se lhe conhecesse - é que era caso. Laurinda era alta, esbelta, olhos verdes clarinhos, sorriso, riso e conversa de despertar atenções. Laurinda era bonita. Apesar das roupagens a que a obrigavam as condições de vida e a faina da resina, não era mulher com quem se pudesse falar ou passar sem se ficar contente e a pensar. Não admira que o pai do seu filho fosse incógnito, algum ricaço a quem a moral não permitira estragos no nome da família!