sexta-feira, 24 de abril de 2015

O furriel da peluda

Quem cumpriu o SMO, no meu caso na EPA, no tempo do M64 e da G3, conhecerá uma infinidade de siglas como estas e, tal como eu, terá muitas histórias que contar, saberá o que foi ser reco, maçarico, da velhice e da peluda.

Talvez pelas minhas manifestações anti-militaristas, pela minha falta de aprumo militar, pelas minhas falhas na ordem unida e quem sabe pela minha mania de cantarolar canções revolucionárias pelas paradas e corredores, finda a recruta passaram-me para a secção de tv e audiovisuais, local para onde arrumavam os prontos com menos qualidades militares. Ainda por cima, calhou-me um furriel, a quem o ar lunático e a postura indisciplinada, devem ter sugerido à hierarquia que ele não devia ter sobre a sua alçada mais do que dois ou três soldados.

Ele dormia parte do santo dia em cima duns cartões, trancado no depósito de material audiovisual. O meu camarada de posto fazia o mesmo mas num colchão de ginástica, na cabine de projeção do pavilhão polivalente e eu, menos dado às causas das ressacas, mais responsável que os dois juntos, ocupava-me entre o urinol e uns cigarros, entre a vassoura e a limpeza com lixívia, entre o expediente e a guarda do edifício.

Era raro o major responsável aparecer por ali mas, naquele dia, apareceu e não sei porque carga d´água queria ver os dados da máquina de projetar do ginásio e da outra, móvel, que utilizávamos para ir passando filmes pelas unidades. Escusado será dizer que uma estava instalada na cabine e a outra guardada no depósito. Com as mãos a tremer, dirigi-me ao chaveiro e, com a voz trémula, invoquei a desculpa mais inteligente:
- Meu major, que estranho! Não encontro aqui as chaves!
- Como não tem aí as chaves?!
- Meu major, talvez o furriel ande com elas no bolso!...
- Mas para que merda anda o furriel com as chaves no bolso?! Para lhe fazerem cócegas aos tomates?!... Onde anda esse furriel?
- Meu major, deve ter ido ao bar! Está cá um calor!!...
- Então eu espero-o aqui!
Pensei: bem pode esperar, como o furriel estava hoje na formatura da manhã, deve dormir até à noite!
- E da régie? Também não tem a chave?

E abri-lhe a porta!... E para meu espanto, partilho com o meu major esta visão aqui documentada! Aquela doida do furriel estava a cantar sozinho e a filmar-se a si próprio!...  Guardei o filme para nunca mais me esquecer daquele cromo. Ei-lo! Se não me engano chamava-se Mestre e era alentejano... ou Neves e era nortenho?!... Pouco importa. 
Se alguém souber do paradeiro desta ave rara, agradeço a informação.

11 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Ave rara?

Tens razão
é um playback
que jamais se esquece

Mar Arável disse...

Memórias vivas

Abraço

JFrade disse...

Ena! Um cabo de arma de Artilharia a cantar um fado que fala de cavalos. Se ele fosse da arma de Cavalaria que raio de fado cantava?
Para mais canta um daqueles fados "ribatejanos" tão queridos da "fidalguia", a classe social que se não mistura com o povo. O tal cabo deve ser, agora, um quadro do PPM ou do CDS. Não sei do paradeiro dele porque não lido com essa gente. Quando vejo algum desta laia na televisão mudo logo de canal e digo para mim: VÁ-DE-RETRO-SATANÁS-ABRENÚNCIO-SARAMAGO-E-ALHO. É uma reza que a minha avó me ensinou para espantar os maus espíritos quando vimos uma pessoa maligna. Nada tem a ver com o Saramago nem, tão pouco, com o Núncio das listas VIP.
Ó Pata Negra, onde estavas há 41 anos? Ah, pois é!

Anónimo disse...

Aguardo o texto de hoje...de hoje

José Lopes disse...

Um playback para agradar a algum oficial com sangue azul? Será que a prosa para hoje foi parar a outros lados?
Cumps

Katiuska disse...

O tema de hoje foi mal escolhido Pata.
Quanto ao furriel não é do norte nem do alentejo. Não será do centro. Penso que conheço um tipo assim, todo jingão.
Viva o 25.

cid simoes disse...

Ca ganda fadista...

vi(zi)nho disse...

Este furriel é munta par'cido c'um gajo q'eu cá conheço.
Eu!, que fui miliciano na EPAM..., olha que tem mais um M, merda!, e era ali o' Lumiar.

Cantas bem mas nã me convences...

A. Marques disse...

Camarada Neves
Grande alembradura do 25 de Abril
Deve ter a ver com o facto de se ter passado numa
das casas mãe do mesmo
Ainda por cima recebeste um louvor
Foram tempos particularmente parvos da nossa vida mas que guardamos principalmente pelos amigos que fizemos
Um abraço e vê lá se tomas a iniciativa de marcar um almoço para nos encontrarmos mais uma vez

A. Marques disse...

Camarada Neves
Grande alembradura do 25 de Abril
Deve ter a ver com o facto de se ter passado numa
das casas mãe do mesmo
Ainda por cima recebeste um louvor
Foram tempos particularmente parvos da nossa vida mas que guardamos principalmente pelos amigos que fizemos
Um abraço e vê lá se tomas a iniciativa de marcar um almoço para nos encontrarmos mais uma vez

Pata Negra disse...

Camarada Marques
aceito a missão! vou começar a trabalhar nisso! e desta vez espero ver-te com aquele fato de treino azul do exército que vestias sempre.
Um abraço com recordação daquele bagaço do Montijo