domingo, 30 de agosto de 2015

O Tabaréu


Não era de cá. Terá vindo uma primeira vez para uma jorna, uma segunda vez para duas e terá pernoitado. A pouco e pouco fez desta a sua terra e aqui morreu, talvez de frio, talvez do coração, talvez do vinho, talvez de doença, em gente da sua condição a razão também interessa pouco. Fez-se o que se podia, chamou-se uma ambulância - talvez ainda estivesse vivo - na morgue ninguém reclamou o morto, enterrou-se na mesma.

O Tabaréu, à falta de jeito para outras coisas, era de ofício cavador. Chamava-se o seu serviço para um talho de terra onde não entrava o charrueco, para uma casa onde ele não existia ou onde faltavam homens. O almoço a meio da manhã e o jantar ao meio dia, também estavam incluídos, a ceia já não era necessária porque, a essa hora, já o cavador caíra de bêbado e cansaço num palheiro de família amiga que lhe dispensava mais atenção e alimento nos dias em que o trabalho escasseava.

Como quem lhe falava também não tinha muita comida, mas tinha vinho e o vinho dava força, o Tabaréu acabou por se tornar um alcoólico. Com o passar dos anos foi perdendo forças e humor, as cavas foram ficando cada vez mais aldrabadas e, ainda para mais, mijava em qualquer lado sem se importar que lhe vissem a picha. 

Havia quem não desejasse a sua presença, havia quem lhe desse sopa, havia quem lhe desse vinho, havia quem se divertisse aparecendo-lhe no caminho, noite escura, envolto num lençol para se fazer passar por santa, com cúmplices com lanternas para provocar encadeamento e simular luzes do alto, com vozes doces como as do céu, com ditos assustadores para parecerem coisas do outro mundo. Crédulo como um pastorinho, ébrio que nem um cacho, o pobre desgraçado ajoelhava-se, pedia perdões aos seus falecidos, dava graças à Senhora e prometia para o dia seguinte nunca mais pegar no vinho.

Deixemos estas encenações rudes e blasfémicas e vamos ao motivo da prosa que foi no tempo em que eu ainda não era grande.´

- Vai à nossa almuinha levar esta bucha e esta pinga ao Tabaréu, fica por lá e, quando me ouvires gritar daqui, venham que é para jantar.

O homem pôs o pão à boca e foi um quarto, pôs a garrafa aos queixos e foi metade, enquanto eu olhei para um melro já me estava a passá-la e a dizer:
- Toma, o resto é para ti!

Não era muito, mas deu para ficar tonto e adormecer debaixo da oliveira grande. Quando deu por ela acordou-me aflito, foi buscar água à fontanheira, deu-me a bebê-la, molhou-me a cara, aconchegou-me, não saiu de ao pé de mim, com os seus cuidados dedicados por volta do meio dia já me senti fino - ficou estes anos todos entre nós. Parece que ainda sinto o sabor do segredo ao escutar o tom da minha mãe para a ti Etelvina:

- Aquele Tabaréu está cada vez pior, então em meio dia não conseguiu cavar metade da minha almuinha! Para a próxima que andar pra mim não lhe dou vinho!