domingo, 20 de novembro de 2016

Os benevolentes do ordenado mínimo


Todos os anos é assim, entre a época dos incêndios e a época do Natal aparece a época do Orçamento de Estado. Enfim, o ano é feito de épocas, épocas essas que são a base de sustentamento da comunicação social. Na época das cheias, os jornalistas vão sempre a Reguengo do Alviela, na época dos incêndios organizam sempre debates sobre as suas causas, na época do Natal apresentam sempre a maior árvore do Natal e comentam os montantes dos levantamentos no multibanco e, na época do Orçamento, o que diverte mais a malta são as negociações do ordenado mínimo.

E então aparece sempre o número do governo, o número da  central sindical, o número do representante do patronato e o número do sindicalista de meio bigode que não quer estar de nenhum lado mas no meio. Números de valor, números de teatro ou tão só representações encapotadas  da luta de classes.

Num país onde o ordenado mínimo não assegura condições dignas de sobrevivência, onde milhares de trabalhadores não recebem o ordenado mínimo estabelecido na lei, em que os valores de aumento que se discutem são irrisórios, tanto para assalariados como para patrões, a discussão anual é, portanto, um mero número de entretenimento em que o resultado da ação não passa dum desafio de forças entre uma classe exploradora e uma outra que é explorada.

A expressão de rosto, o tom de voz do patrão dos patrões diz quase tudo e completa-se quando entra na ofensiva com argumentos ofensivos. 

Vejamos então, façamos contas, desmontemos o mito que um aumento de 10 euros tem impacto financeiro na vida das empresas:

1- Um patrão que paga a um único operário o ordenado mínimo tem ao fim do mês um encargo de mais 10 euros - isso mesmo, 10 euros!
2- Um patrão que emprega 10 pessoas com o ordenado mínimo, no final do mês terá de de pagar mais 100 euros - bastará deixar de fazer aquele almoço que costuma fazer ao fim do mês com os amigos.
3- Um patrão que tem 50 empregados a ganhar o ordenado mínimo terá de despender mais 500 euros - e que tal se pensasse em instalar um sistema de poupança energética que lhe compensaria facilmente esse montante?
4- Um patrão que paga 100 ordenados mínimos terá um aumento de despesa de 1000 euros -  como tem por certo um gestor a quem paga 5000 para gerir uma empresa dessa dimensão, que tal se lhe propusesse 4000 em nome duma maior igualdade de vencimentos?
5- Um empresário que emprega mais de 1000 pessoas com o ordenado mínimo, não é um empresário que mereça ser considerado nestas contas e há que o ensinar a poupar noutras coisas como, por exemplo, na vida faustosa que leva e nos donativos que faz ao clube de futebol da sua camisola.

Portanto, a discussão do valor do ordenado mínimo chateia-me tanto como os fartos jantares da caridade natalícia e os avisos de alerta amarelo por cheias ou incêndios. O aumento do ordenado mínimo é tanto mais justo, faz tanto melhor à economia, quanto maior for!

- Diz-me quantos salários mínimos ganhas por mês e eu dir-te-ei a autoridade que tens para falar do assunto!

3 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Minha pensão
é de setecentos e tal

mas diz-se para aí que a culpa é minha

e
eu bato no peito

por minha culpa
por minha culpa
por minha tão grande culpa

Zambujal disse...

Grande patada!

E um abraço máximo.

Manuel Veiga disse...

calo-me e "roubo-te" o cartoon.