quarta-feira, 21 de junho de 2017

Temos um problema em mãos

Do projeto de vida juntos, juntos os trapinhos, constavam as carreiras, alívios financeiros, meia dúzia de viagens, gozar a vida a dois e, só depois, um filho ou dois, fim comum de qualquer acasalamento.
Evitaram-nos, desde a primeira relação com o "tira antes", camisinhas e pílulas, até que um dia, apesar de por cumprir o projeto inicial, porque a idade da fêmea tem limite para embrionar, decidiram deitar fora os contracetivos e puseram orgãos à obra com muito prazer e muito amor.

Também aqui o projeto veio furado, cinco anos a tentar nada vingava.
Tentaram tudo, especialistas médicos e astrólogos, luas, kamasutras, mistelas e pielas, nem bébé nem meio bébé, barrigas nada!
Ele retirou até o candeeiro do quarto e prendeu no seu lugar duas correias, com comprimento que não chegava à cama, que tinham nas extremidades duas fivelas para atar os artelhos da parceira. Mas não se pense que era para variação de coito, era para que no final do mesmo ela assim permanecesse um tempo, de pernas ao alto, evitando que o caldo se entornasse.
Tentaram de tudo, coisas que não se podem dizer aqui, como aquela de ela se ter arrumado com um colega de trabalho numa arrecadação, traição por razão superior não é traição, se desse só ela saberia, pois que a condição dos homens, nestas coisas, nunca permite averiguar toda a verdade nem fazer coisa parecida: não lhe era possível a ele enganar a mulher, fazendo passar por filho dela, o filho que afinal era dele com outra.

Tentaram tudo e, quando já nada se esperava, uma paragem em Fátima, uma velinha e zás! Milagre ou coincidência?

Para não incomodar o feto, sexo tá quieto! Também, depois de tanto copular, o sexo não lhes interessava nada, agora a vida a dois realizava-se à volta daquela barriga, o climax seria quando se fizesse luz e uma nova vida, a três, desse um menino ou uma menina, o sexo não lhes interessava nada, que cumprisse no futuro as carreiras, os sucessos e as viagens que eles não conseguiram.

A partir daí, toda a vida social e familiar, todo o trabalho e rendimento disponível, foram para servir a felicidade e o bem estar do tão desejado, o príncipe - eu quero o melhor para o meu filho, o meu filho nunca me pediu nada que eu não lhe desse, o meu filho é tudo.
E diga-se que na formação do monstrozinho em crescimento também muito contribuíram os avós - é tão esperto o meu netinho, deixo-lhe fazer tudo o que ele quer, meu neto vai ser doutor.

E então, como é normal, o puto foi para a escola, assim educado e protegido, o maior, o intocável, e dotado dum telemóvel topo de gama.
Os médicos, os polícias, os professores e todos os profissionais que com ele interagiam, além de incompetentes, eram incorretos, não mereciam aquilo que ganhavam,  viviam às custas dos impostos dos pais e dos avós - aprendeu ele em casa desde pequeno.

Não deu o meio familiar por conta que a criatura se marginalizara progressivamente também deles, absorvido pelas consolas, pêcês, têvês e telemóveis e que o seu olhar estava dependente dessas radiações. Deixou de ver o mundo, se é que alguma vez o viu. Nunca reparou numa andorinha, numa folha seca ou num motor de rega. Acordaram os ascendentes quando repararam que a filha da vizinha fazia salivar qualquer um, homem ou mulher e que, embora também princesa e da mesma idade, não fazia tirar a atenção do telemóvel ao príncipezinho.
- Há qualquer coisa que não está bem com o nosso filho!
- Pois não, está ligado à máquina! Temos um problema em mãos! - disse eu e tu e tantos outros, que tantos somos os que temos em mãos um problema destes que é de todos.

- Atão e eu? Que raio estou eu a fazer? Comecei tão bem este texto ontem e hoje derrapei para a vulgaridade! Estou a sair-me mal! Preso aqui à máquina com tantas coisas outras para fazer! Bem sei que temos um problema em mãos com as novas gerações mas como se  costuma dizer "quem os pariu que os ature!" e se não estiverem para isso, é para isso que servem os professores! Não é para fazerem greves!

5 comentários:

Anónimo disse...

E como eu gosto das tuas bacoradas...
Um abraço recalcitrante
Meg

Pata Negra disse...

Recalcritante,
Obrigado pela visita, não esqueço os bons velhos tempos
Um abraço suíno e limpo

Rogerio G. V. Pereira disse...

Bom retrato
caro bácoro

É qué mesmo isso

e não é por acaso
que a natalidade vem
por aí abaixo

Kique disse...

Boa noite

Já algum tempo que venho seguindo este blog-
Tomeia a liberdade de o adicionar ao meu.
http://caminhos-percorridos2017.blogspot.pt
Abraço

Sérgio Ribeiro disse...

Excelente contar!