domingo, 6 de maio de 2018

os dias da minha mãe

Ficou orfã de pai e mãe aos nove anos. Feita a terceira classe, teve de ir "servir" - como se dizia na altura - para ganhar o seu pão. Escreveu assim ( não, não era a minha tia Anselma, essa é de facto uma personagem da ficção!). Tenho consciência do valor literário destas poesias mas... o que é que querem? São da minha mãe. Aqui fica o que, por mais não seja, tem valor por ser autêntico.

desventurada
amargurada
sentia-me eu aos nove anos
p'la hora que vim ao mundo
triste sorte
tão cedo chegou a morte
levou-me o amor profundo
deixou-me orfã neste mundo
perdi chorando
os que não mais encontrei
desde então fiquei limpando
as lágrimas que chorei
e nessa idade
que eu queria amor e carinho
ficou comigo a saudade
daquele calor do ninho

nesse vazio os anos foram passando
eu ao calor e ao frio
o meu pão ia ganhando
e a seguir para a minha sina cumprir
casei pegava o troféu
com a cruz que Deus me deu
deu-me também
rosas criadas com espinhos
o maior tesouro de mãe
com lágrimas e carinhos
e convencida
que sofrer não é pecado
por isso a quem me deu vida
eu rezo e digo obrigado
(1964)

nós os dois, a nossa casa e o Hillman - 1975

2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

A autenticidade
é um valor em desuso
usa-a

e esta comove

do Zambujal disse...

Um abraço com o tamanho do tempo que passou até ser, comovidamente, mandado.