Retreating MemoriesArshile Gorky (Armenia United States),The Artist and His Mother, ca 1926-1936~
O leito, a derradeira doença, a história da nascença pobre, a orfandade completada aos nove anos, o andar descalço, a bicha do pão, a sardinha para três, o ser criada, as desfolhadas, a azeitona, a resina, o sacho, as cantigas, as desgarradas, os bailes, a pobreza, a alegria e... o leito final...
- Sabes João, a gente era pobre mas parece-me que éramos mais felizes que vocês! Vocês vêm aqui todos asseados, de carro, os meninos tão espertos, mas a vossa expressão é insaciável, eu não sei o que é que vocês veem nos ricos para quererem ser como eles!
Veio aqui a doutora de letras - nem o bacio estava arrumado - vê lá tu que querem umas poesias minhas para um livro que a Junta quer fazer com uns poetas da terra! A professora José, a dona José, o padre José, o doutor José, o José da Venda fazem parte do rol. Tira aí da gaveta do guarda vestidos um bloco de cartas e vê se há para aí rimas que sirvam para livro!
A casa não era casa de segredos para o rol de filhos, o sítio do dinheiro, o dinheiro que havia, os papéis importantes, os papéis de memórias eram assuntos de todos. Não sabia da existência daquele manuscrito, ela teria arrancado da memória os versos idos e, na convalescença, cravou-os no papel com a suas grafias de terceira classe de instrução. Ao filho tido por mais instruído coube-lhe a função de seleccionar!
- Tá bem mãe! Eu levo, vou passar a computador todas mas para publicar eu mandava esta... esta... esta... e esta!...
- Oh rapaz! Essa não!
- Porquê mãe? É tão engraçada!
- Não tem jeito! O teu pai já morreu!
Com a esperteza que dela herdei, entre tentos e argumentos lá a convenci. Essa fez mesmo parte das seis ou sete poesias que registam a mãe poeta no livro "Sopros de Poesia" que a Junta editou fazendo as honras aos poetas populares da freguesia. Coube-me até, na cerimónia do lançamento representar a acamada no estrado do sucesso. Eu que sou tão avesso a essas vaidades, pela mãe, e só pela mãe, sacrifiquei-me aos flashes e posei com duas ou três palavras, com as devidas palmas e o conforto de ter vestidas as únicas calças de ganga e a desgravata da circunstância.
O "éramos mais felizes" de minha mãe duraram pelos sessenta e mais. Nesses anos, a França, aliviava a pobreza extrema e os pais jovens reviviam em festas o sucesso de oferecerem às suas crianças a pobreza não extrema!
Pelos tempos passados, a mãe não surpreendeu - diz a memória do eu pequerrucho - esperou uma volta de tons do acordeão e entrou com o seu fado. A roda de vinte ou de trinta, a voz da gaiteira, uma mão no menino, o marido de frente, as palmas a ritmar e versos ao sucesso.
Essa aldeia, da paródia, das festas sem palco, do espontâneo, da farra, do actor revelação e do actor do costume, de vez em quando, ainda acontece. A minha mãe já não acontece mas acontece que poucos se referem a mim pelo meu nome e mais por um dos filhos dela!
E é assim que eu decidi blogar o dia da mãe, com estas palavras dela que tanto me orgulham:
Como é dia festejado
vou aqui cantar um fado
escutem é divertido
Hoje como estou contente
vou fazer pra esta gente
as queixas do meu marido
vou aqui cantar um fado
escutem é divertido
Hoje como estou contente
vou fazer pra esta gente
as queixas do meu marido
Dá-ma tanta coisa boa
já me levou a Lisboa
e quer-me levar ao Porto
Nunca me deu nem fez falta
uma palavra mais alta
nem um pequenino soco
já me levou a Lisboa
e quer-me levar ao Porto
Nunca me deu nem fez falta
uma palavra mais alta
nem um pequenino soco
E quando vai passear
gosta bem de me levar
seja qual for a jornada
E como toda a gente sabe
pra me levar à vontade
comprou a motorizada
Cá a respeito ao comer
não é do que apetecer
do que se pode também
E a respeito ao trabalho
faço aquilo que quiser
pra ele está tudo bem
não é do que apetecer
do que se pode também
E a respeito ao trabalho
faço aquilo que quiser
pra ele está tudo bem
Ouro deu-me quanto eu quis
uns sapatos de verniz
e uma saia plissada
Uma vez pelo ano "bão"
quis oferecer-me um fogão
não me queria defumada
uns sapatos de verniz
e uma saia plissada
Uma vez pelo ano "bão"
quis oferecer-me um fogão
não me queria defumada
Mais dia sim dia não
vai dar-me uma televisão
não me quer faltar com nada
não me quer faltar com nada
Oh mulher para que te zangas
tens um casaco sem mangas
diz-me ele quando estou zangada
tens um casaco sem mangas
diz-me ele quando estou zangada
Não posso passar sem rir
a zanga pega a fugir
acaba por não ser nada
Deu-me um casaco sem pele
dá-me tudo quanto quero
em casa não falta à hora
Não me irrita com ciúme
não passa pla moraria
nem tem amantes por fora
Quando chega ao fim do dia
se chega com alegria
num beijo só mata a fome
Isto não é só garganta
mas é preciso ser santa
para calhar assim com homem
1964
mas é preciso ser santa
para calhar assim com homem
1964