Não, não era só uma árvore grande que fazia sombra ao pequeno terraço onde acomodamos almoços, sestas e visitas. Era também a casa do casal de rolas que nos punha a cantar, uma paragem na rota do esquilo que nos visitava regularmente, um espaço de aventura para os homens de Ponte de Sor que todos os anos vinham colher as pinhas, a mãe-árvore do nosso jardim livre e selvagem. E, no entanto, nunca lhe demos nome, era apenas a Pinheira, sombra, verde e tema de tantas conversas feitas à volta de mesa onde já se comeram tantas azeitonas e se abriram ao mundo algumas garrafas.
A árvore da família, a árvore da nossa vida, uma árvore de companhia, uma árvore de estimação, uma árvore por quem se tem amor, uma árvore nascida antes de nós e que era para deixarmos aos vindouros, uma árvore de quem se chora a morte.
Espreitei a medo por entre as persianas para ver a dança do vento, via-a a abanar o tronco, os braços e a copa e pensei para comigo: "abana mas não cai!"
Mas caiu. Nesse momento exacto, cinco e vinte da madrugada, como se algum deus quisesse desfazer as minhas certezas, tombou sobre o leito da terra firme e fria.
Foi chorada! Apenas as lágrimas necessárias e suficientes que soltamos quando num segundo desfazemos o automóvel num acidente, vemos o velho gato morrer atropelado ou uma pessoa que amamos nos diz: acabou!
Um dia, sete motoserras e sete bocas para um almoço no terraço, tranformaram-na em lenha para ser queimada. Agora, há que remover a enorme raiz para plantar outra no vazio que foi deixado.
Se está aqui alguém que alguma vez chorou a morte duma árvore, erga o punho.

1 comentário:
como entendo...
Enviar um comentário