Os três quilómetros da ida eram percorridos direitinhos pela estrada de terra batida que atravessava o pinhal e levava à escola primária da vila. Mas o regresso era um tortuoso acontecimento de recreio, que deambulava por veredas de resineiros, caminhos de cabras e regatos sombrios. Demorávamos horas a chegar a casa porque não tínhamos pressa, porque o peso da sacola nos cansava, porque portas travessas se abriam e revelavam novos estímulos, porque uma discussão entre infantes era capaz de dar origem a uma briga demorada, porque éramos crianças com espaço fora do mundo dos adultos.
E, na ausência de um assunto que animasse os caminheiros, surgia sempre um líder espontâneo que recorria à receita de recurso e dava o mote à cantilena:
- Aguardente, aguardente, merda para quem vai à... frente!
Passado o suspense, o grupo inteiro voltava para trás, até que outro cantava:
- Aguarrás, aguarrás, merda para quem vai atrás!
E eram dados mais alguns passos em direção a casa, interrompidos por uma nova ordem:
- Água-pé, água-pé, merda para quem está em... pé!
E ficávamos todos espojados no chão, aguardando nova sugestão:
- Alcatrão, alcatrão, merda para quem está com os pés no... chão!
Não me recordo de outras ordens, mas é provável que outras fossem inventadas ao longo daquele caminho de pequenas passadas. O que sei é que adquirimos, nestas experiências, valiosas competências que a escola não nos dava.

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