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domingo, 20 de outubro de 2019

Puta que pariu os catalães

Se a história tivesse sido outra.



Não houve o 1 de Dezembro de 1640, Portugal, tal como a Catalunha, continuaram a pertencer à coroa espanhola. Não existiu o 5 de Outubro de 1910, Portugal continuou a estar dependente dum poder de matriz sanguínea.
No início dos anos 30, em alguns povos do reino de Espanha, sobretudo na Catalunha e em Portugal,  começaram a declarar-se alguns movimentos independentistas, libertários, socialistas, republicanos.

A ação desses movimentos progressistas acaba por fazer da Espanha uma república onde se manifestam as vontades de novas repúblicas e por ter um desfecho numa sangrenta guerra civil. Os republicanos são vencidos pelas forças fascistas, lideradas em Portugal pelo general Carmona e, no resto da Espanha, pelo general Franco que impõe uma república ibérica à sua medida.  Este, assumindo-se como generalíssimo, acabou por conceder um poder territorial especial ao seu parceiro de armas português. Fica, no entanto, uma mancha no mapa da sua vitória, a Catalunha resistiu ao seu poder de fogo e conseguiu constituir-se como estado independente, reconhecido por muitos estados e tolerado por Hitler, ou reservado para intervenção futura.

Nos anos 70, adivinhando a morte e o fim do seu reinado, Franco achou por seu poder, deixar a grande Espanha entregue ao rei de coroas, filho da corte a quem permitira, até então, a sobrevivência num palácio maior, da província maior, Portugal, nesses anos vigiada pelo almirante subalterno, Américo Tomás.

Embora ressuscitassem, na altura, algumas manifestações republicanas e independentistas nas quais Portugal se destacava, fantasmas da guerra, apatias ideológicas e promessas de democracia, acabaram por viabilizar a nova monarquia e o filho do rei velho regressou ao palácio, palacianamente aclamado mas, naturalmente, sem votos.

O novo reino de Espanha preparou, entretanto, a sua  entrada na CEE e, travessuras da história, acabou por ter de reconhecer a república da Catalunha e assinar a adesão à comunidade no mesmo dia.

Nos anos 10 do novo século, Portugal - que nunca se sentira bem com a sua consciência nacional por depender de famílias castelhanas - onde as ideias republicanas sempre tiveram expressão popular, onde o direito dos povos à autodeterminação sempre foi um direito querido, entra num processo independentista e proclama unilateralemnte a sua independência. Fortemente condicionado pelo capitalismo, pelo poderio bélico da comunicação social, pelo poder Bruxelas-Madrid, vítima de chantagem generalizada, o país fica suspenso.

Em outubro de de 2019, mais do que a hipocrisia dos senhores da Europa, que intercederam pela formação de novos estados da ex-Jugoslávia à ex-União Soviética, o que irritava mais os portugueses que reclamam a independência são as declarações dos governantes da Catalunha e, sem atenderem que as mesmas não traduzem necessariamente os sentimentos dos cidadãos que se fazem representar, dizem chateados:
-Puta que pariu os catalães!


domingo, 29 de setembro de 2019

Há que chamar os burros pelo nome


Estou aqui, 57 anos, filho de mãe mãe, pai operário. Não me queixo  do que penei, não me vanglorio do que realizei e o meu médico tem-me dito que eu não devia de abusar tanto.
Em abril de 75 eu era um puto adolescente e trazia um autocolante do PPD colado na face duns sapatos que já tinham sido do meu primo, filho do meu tio que tinha um mercedes branco. 
Em 79 votei pela primeira vez.  Já tinha vivência e consciência para não votar nos cabrões que nos têm governado mas os meus parentes, colegas e amigos, sempre votaram ora neste, ora naquele, ora em função de uma promessa específica, ora rejeitando uma medida em particular, consoante a cara de um cartaz, seduzidos por uma boa prestação num debate televisivo, como resposta ao fastio dos que tinham estado, como aposta de experimentar novamente os outros, por eu sei lá?!...

Diga-se, em abono da verdade democrática, que não é por isso que estão melhor ou pior do que eu. Na verdade todos nós usamos sapatos, portugueses ou não, mas em primeira mão, tenho um carro em segunda mão mas é mercedes e pronto, é alemão, tomamos diariamente banhos de água quente e temos em comum o facto de todos estarmos revoltados com a situação.

Tenho contra os governantes que temos tido um dedo médio sempre à mão e continuo a ter sempre um abraço para os meus próximos. Mas nestes últimos tempos tenho-me interrogado bastante sobre a quem devo pedir contas, aos eleitos, ou aos eleitores?
Por diferentes razões, nem a uns nem a outros. Aos primeiros porque nunca acreditei nem acredito neles. Aos  segundos porque lhes leio o arrependimento de terem errado. 
Estou revoltado mas não aposto na revolta, aposto na revolução. Os meus parentes, colegas e amigos não: "isto está mau", "não podemos fazer nada por causa da globalização", "a crise é geral", "já não vamos ter reforma", "são todos iguais", "e o que é que acontece se eu for a uma manifestação?", "greves só se for dum mês", "matar alguns" e entre tantas destas que conhecemos e ouvimos a maioria remata "com o meu voto não contam mais eles!".

... e entretanto as sondagens são deles, os votos são deles, é tudo deles, até a opinião dos meus parentes é feita por eles, a resignação dos meus colegas joga a favor deles, a abstenção dos meus amigos serve-os a eles, eles! eles! nós? quem somos nós?
eu não sou os meus parentes, colegas e amigos e é por eu não ser eles, ou eles eu, que tenho andado triste, 
não lhes posso pedir contas que eles zangam-se! zangam-se com muito! eu zango-me com pouco! como por exemplo pelo facto de estar a escrever um texto e me surgirem sempre rimas vulgares, pelo facto de querer acabar o texto e me surgirem sempre vulgaridades como a presente... mas que se lixe! o importante é que o que digo se torne in-citável! ou então o importante seria que os meus parentes, colegas e amigos pensassem  como eu! mas não! estou fodido!

(este palavrão no fim fica a matar! este meu mau gosto vem-me de ser do povo! quem é o povo?)

quem é o povo? uma cambada de burros? isto é que eu sou um cavalo! não, estou apenas a ser um pouco porco com os meus amigos, que tomam banho todos os dias e sempre votaram nos porcos a quem chamam respeitosamente pelo nome. Agora admiram-se pelo triunfo dos porcos! Estou fodido com eles! Pronto! 

sábado, 21 de julho de 2018

Ebrionário

Ébria pose, ébria postura, olhar ébrio, gestos ébrios, frases ébrias, palavras que se atropelam entre si, ideias sentidas sem sentido, uma irrequietude quieta de quem soletra sílabas que se arrastam nos olhos de quem nos vê e não nos ouve. Versos ébrios? Ah isso não existe! Ah, nenhum tratamento, nenhum vento, nenhuma marcha, nenhuma frente ativa nos poderá trazer a sobriedade com que entrámos na escola com uma sacola de pano, com um caderno e uma pedra de ardósia. Querer conhecer o código dos símbolos do alfabeto, aprender a ler e a escrever, numa ânsia de, vindos à luz, tudo querer saber.

Saber ler, falar corretamente, citar poetas e escrituras, escrever cartas e discutir filosofias de caserna ou academia; interpretar o mundo, as razões dos homens e das mulheres, a história, as religiões, as revoluções, as utopias e dar por ela, ao fim duns longos anos, que em poucos dias a última garrafa  está vazia. E, por incrível que pareça, não é a nossa cabeça que anda à roda, é o mundo que roda à nossa volta, não são os nossos olhos que veem tudo enevoado, é a realidade que é nebulosa. Não, não foi o álcool, nem o fumo da erva dormideira que nos afastou da realidade, o que nos intoxicou foram os fumos dos automóveis que nos guiam, das ondas eletromagnéticas dos telemóveis que nos socializam, da worl wide web que nos ensina tudo em código binário, 101000011100011100010010. 

Impossível voltar à realidade. Tanto que eu gostava de voltar à realidade, reaprender a lucidez, pousar os pés na terra, cheirar o alecrim, ser como o meu avô, embora não dispensando o último livro que li, o banho de água quente, o frigorífico e um blogue de que gosto muito mas que não me lembro agora o nome - esqueço-me muito! - e um bom tinto!

Ébrio! Ou apenas um bocado arrebatado! Sem paciência para a televisão nem para os telespetadores, para os comentadores e para os comentados, para o governo e para os eleitores, para os reformados e para os empregados, para os alunos e para os professores, para os filhos e para os pais, para as crianças e para os anciãos,  para os brigadeiros e para os soldados,  para os juízes e para os julgados, para os exploradores e para os explorados, para os polícias e para os os ladrões, para os patrões e para os sindicatos, para os médicos e para os doentes, para os lúcidos e para os dementes, para os bêbados e para os que só bebem água. 
- Eu, são e lúcido? Seria o homem ideal!  


Assim, sou só um proco.. pcorco.. porco - consegui, apesar da cabra... da ciática!...
Gostava de ficar conhecido como o porco que inventou o termo "ebrionário".

quarta-feira, 28 de março de 2018

A cantiga é uma arma

A minha mãe não era saloia de todo. Viveu três anos em Alfama, como criada, e contou-me que uma vez foi de lá ao hospital de Santa Maria, sozinha e a pé, a uma consulta. Trouxe de Lisboa o gosto pelas marchas populares e pelo fado.
A minha mãe gostava de cantar sozinha ou acompanhada ou, se alguém a desafiava, à desgarrada.
A minha mãe mandou-me ir à fábrica levar uma "casse-cruta" ao meu pai porque o almoço tinha sido fraco. Ficou a encerar a sala porque era a altura da Páscoa e o senhor prior iria lá a casa. Ficou a cantar um fado que encantaria a vizinhança ou qualquer outro freguês que passasse no outeiro.
Desci a vereda e, a meio dela, ouvi cantar a Maria Rosa que guardava as cabras; passei pela almuinha e encantei-me com a cantiga da Maria da Quinta que colhia tomates; cheguei à ribeira e levei no ouvido a canção da Maria da Graça que lavava roupa; segui pela tapada e cantei com o eco das quadras da Maria dos Anjos que regava o milho; às primeiras casas escutei a Maria Natividade a rogar pragas no curral dos porcos; à porta da Maria da Luz só os cães ladravam. Cheguei à fábrica e o Cossa assobiava uma melodia em alta fidelidade; no canto das suas máquinas, o Torneiras entoava as suas canções brejeiras.
O meu pai mandou-me de volta e recomendou-me que fosse a cantar para enganar o medo dos cães da Maria da Luz, dos porcos da Maria Natividade, da tapada da Maria dos Anjos, das cuecas da Maria da Graça, dos colhões da Maria da Quinta, dos cabrões da Maria Rosa.
Ao entrar em casa a minha mãe continuava a moldar o seu fado.

Isto é, era normal cantar. Teria razão o Marceneiro que dizia que as gravações e a rádio iam dar cabo do fado? Hoje quem canta ou assobia - ainda há quem assobie? - uma melodia enquanto trabalha ou caminha não é visto como normal!

Para quê cantar se há quem cante por nós? Dedilham-se os botões do aparelho e ele dá-nos música.

E, já que estou em maré de me virar contra quem não canta, também não perdoo aqueles que cantam aquela palha, sem nunca transportar uma estrofe revolucionária que dê voz à voz do povo. Poetas e cantores que não encontram poesia para um protesto, que não encontram acordes para uma insatisfação, que não musicam um grito para uma revolta (rapazes do rap dou-lhes o meu carinho!).
Nem sequer se pode perdoar a cantores de maio e abril, que foram cantando e tocando cada vez melhor, grandes produções - dizem eles - tão grandes que já não cabem no salão da associação.
Puta que os pariu e ao vosso profissionalismo musical!

Já só canto no carro e no chuveiro quando estou sozinho. Que ninguém cante comigo eu ainda aguento, não suporto é que haja sempre um voz familiar a repreender-me: ó pai, cala-te! ó pai, nem na letra acertas! ó homem, as pessoas vão saber que tu és maluco!...

Não é que eu não cante bem, não tenho é voz e tenho muito medo do sucesso.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Dia das maculadas

Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima, e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Até hoje tenho escapado!


Tanto a minha mãe como o meu pai morreram prematuramente e, obviamente, eu fiquei orfão, também prematuramente! Portanto, de morte, já tenho o meu quinhão, embora tenha de reconhecer que, verdadeiramente, conhecedor do assunto só o serei tardiamente na minha hora, que acontecerá, espero, a partir deste preciso momento, fora de tempo para falar da minha experiência pessoal.

Há três dias para cá, morreram várias pessoas em Lisboa, no Alentejo, em Trás os Montes e Trás dos Matos, que é uma aldeia que fica ali próxima de Vila Cã. Peso igualmente a morte dessas pessoas mas mais pesaria se alguma delas me fosse próxima. Não podem é acusar-me de frieza por não ir no embalo mediático de aqui del preços baixos, aqui del rock, aqui del rei,  tens de chorar votos de pesar de nomes sonantes, sonae-heróis ou punks-heroínas que me dizem ainda menos do que o senhor José, natural de Vila Cã, que eu nunca conheci e de quem nunca ouvi falar.

Na morte somos todos iguais, não é o que dizem? Pois saibam que não verti uma molécula de lágrima nem por um, nem pelo outro, embora tenha consciência que um deles fez mais pelo rock português  e deu muito menos chutos do que o outro pontapés em tudo o que é português. Se o senhor José foi dono duma mercearia, facto que desconheço, terá sido um comerciante sério e terá sempre preferido a música popular portuguesa.

Agora parlamento? Já agora panteão, não?!  Não sei se houve ou não uma coroa de flores do Rei da República, nem isso me interessa. Recordo uma cantilena que o meu pai me contava e a minha mãe me ensinava:

À morte ninguém escapa, nem o rei, nem o cura, nem o papa.
Mas hei-de escapar eu! Tenho aqui um vintém, compro uma panela, meto-me dentro dela, tapo-me muito bem! Vem a morte não me vê. Bons dias meus senhores passem todos muito bem!

domingo, 29 de janeiro de 2017

Texto para a gaveta


Escrever assim, como um homem que caminha sem destino; escrever só por escrever, como um homem que caminha só por gostar de andar mas que sabe que a algum lado há-de ir parar; não escrever coisa com coisa como dizem com "dizer"; escrever como a viúva que monda a vinha sabendo que os filhos só bebem cerveja. 

Talvez na curva dum parágrafo apareça uma ideia a desenvolver, uma história que contribua para fazer mais humana a humanidade. Talvez fosse mais proveitoso ler em vez de escrever, com o conhecimento de que o conhecimento só vale alguma coisa se for para mudar o mundo. Lugar comum dizer-se, que todas as palavras já foram escritas - ou foi o Almada Negreiros? - só falta dizer-se que também os livros já fazem algazarras. 

Escrever só por escrever também não tem sentido. Mas que hei-de fazer então? Os livros novos repetem as ideias e os ideais dos que já foram lidos. 
Em janeiro, na fazenda, não há nada para fazer, ainda é cedo para a poda, o gado está tratado; não vou à igreja e não gosto de futebol; já acendi a lareira; na televisão, uma série americana de fraca qualidade, um programa da tarde, de fraca qualidade, ao vivo numa cidade da província; uma mesa de esnobes conversa sabiamente das consequências da tomada de posse do novo presidente da América, sem nunca falar de índios; tal como quase toda a gente que lê por gosto, já não leio jornais; que coisa esta o tédio de domingo, ao menos que eu pudesse comer e beber uns copos mas o doutor...; ao menos que existissem por aqui pequenos para jogarmos à sardinha - era o único jogo que o meu pai jogava comigo.

Provado, portanto, que estamos perante um texto para enfiar na gaveta; um texto de escrever só por escrever para dizer nada; um texto a não ler; mas olhem que não é só para passar o tempo que o tempo sempre passa, digamos que é uma tentativa gorada de escrever alguma coisa que alguém tivesse gosto em ler. Já sei, vou fazer companhia ao gato a olhar as chamas da lareira.
- Olha, é o melhor que fazes! - disse o eventual leitor apanhado que nem um rato na discorrência da presente prosa.

Peço desculpa mas, quando comecei a escrever, tinha esperanças que algo de novo, alguma ideia, alguma fantasia me tocasse e alguma coisa interessante me assaltasse. Tenho de reconhecer que me perdi, um dia destes hei-de encontrar-me.

Para terminar peço à Nossa Senhora de Fátima que mantenha o Passos Coelho muitos anos à frente do PSD. Lembrei-me também doutra: para muita gente o pluripartidarismo é o melhor sistema desde que os partidos sejam todos iguais, mesmo que passem a vida a queixar-se disso mesmo. Se na TSU, o U é de única, só uma é pouco, devia criar-se outra, a TESA, Taxa Económica Social Absoluta.
Eu até tenho ideias, não são é valiosas. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Para quem gosta de ser filho, mãe não há só uma

Ontem visitei a minha mãe. Já não é a mesma que conheci quando crescia. O alpendre da avó foi com um vento, a eira do tio foi com uma enxurrada, da casa do bisavô não resta nada. E foi morrendo cada geração e ela ficou ali rapando o sol e mastigando o frio. Podia ser pior. Passa um trator com corta-mato e o tratorista acena a tudo o que mexe. A Sagrada Família ainda vai de casa em casa. Podia ser pior!... O doutor de letras restaurou a casa que herdou do pai. Isto vai! Digo que sim respeitando quem o diz mas a minha mãe não tem a mesma alegria. Os filhos tiveram mais partidas que regressos. Vem ver uns marcos e dar algum dinheiro para o andor. Deus Nosso Senhor lá sabe. A minha mãe tem a pele marcada pela ausência das sombras das árvores que o fogo levou. A minha mãe tem os cabelos despenteados pelo fim dos arados que o tempo levou. Já só a visito por ser mãe e folgo em saber que ela está para durar nem que seja só para enterrar os que vão morrendo. Outros destinos traíram-lhe o destino.
É claro que falo da minha terra-mãe que a do ventre já se foi e não viu isto. 



Dizia eu, em tempos, que quem perde as suas raízes, seca. Pois então falei a uma retro e a um camião e trouxe uma carrada de terra lá da terra e fiz um canteiro no meu quintal. Agora estou melhor! Tudo o resto são saudades e remorsos.
Eu devia ter sido pastor ou lavrador como os avós.
Mas não! Fui no engodo de que estudar é que era! Com a certeza de merda que qualquer cidade me daria mais. E olha agora, a minha terra-mãe a morrer e eu longe dela!

Toda a província padece deste mal. É bem feito em quem parte e em quem fica dizendo:
- O meu está muito bem, vive em Aveiro!
- O meu lá está para França e lá fez vida! 
- O meu neto está um homem, foi pró Dubai!
- A minha filha está tão contente desde que o filho arranjou emprego na Inglaterra!

Nas aldeias ninguém cria os filhos com projetos para que eles venham a viver nelas. Uma terra com os campos ao abandono não tem futuro. Um país que abandona as suas aldeias não tem futuro. Um Estado que fecha tudo o que é serviço público nas aldeias, não é um Estado é um bananal!

PS/ Estímulos à natalidade com distribuição de perservativos? Um governo que dizia promover  a natalidade ao mesmo tempo que acabava com o abono de família e aconselhava os seus jovens a emigrarem? D

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A Ceia dos Cardeais

Ainda ontem fiz cinquenta anos, hoje faço noventa - nem todos o poderão vir a dizer.

É fácil recordar aniversários idos. Um exercício mais arriscado será irmos ao futuro e relatar acontecimentos não vividos. E o melhor é fazê-lo já, antes que a consciência nos limite a sua descrição ou que a morte provavél nos impeça de bater no teclado. 

Faço noventa anos. A minha neta teve a ideia de reunir os meus amigos de que lhe costumo falar num restaurante aonde vou há muitos anos. Sabe que não gosto de festas surpresa nem de ter na mesma mesa gente que não pensa ou que pensa que eu penso com interesses segundos. Sou o mais velho na sala, posso dizer e fazer o que me apetece. Estão presentes, a minha companheira, dois colegas com quem trabalhei, três amigos com quem discuto há anos as questões curda e palestiniana,  a  redução da história à história da luta de classes, a adulteração do vinho com novas castas e a necessária abertura da sociedade à poligamia. Os restantes são gente mais nova que me acarinha a idade e me tem como uma espécie em vias de extinção ou, apenas, como um velho rabugento e ressabiado que, apesar de tudo, tem graça e diz umas verdades.

Falo já arrastadamente mas, como falo baixo e raramente, quando falo para um grupo toda a gente se cala ou baixa a voz, não sei se por respeito, se para me tentarem perceber, ou por me admirarem .

E então digo:
- Parece impossível como uma canção de melodia tão pobre e banal, uma letra tão pobre e banal, seja o tema mais universal e mais cantado por toda a humanidade nos últimos noventa anos. Ainda por cima, na versão portuguesa, ela não dispensou o " a você" brasileiro. Detesto essa música! Por favor, não me a cantem!

Começam a filmar.
- E por favor também não me estraguem a festa com câmaras de vídeo. Vivam os momentos, não os guardem para viverem depois ou para mostrarem a outros que estiveram presentes quando, afinal, não participaram neles porque deles se arredaram por detrás de objetivas. Enfiem os telemóveis e as tabletes no reticências com apenas dois pontos, um para cada um dos carateres.
(- Olha! Obedeceram-me!...)

E então, do alto dos meus noventa anos, subo para cima da mesa, parto dois ou três copos - coisa que não acontecia dantes - e começo a recitar a minha versão da Ceia dos Cardeais.

(Os parágrafos seguintes contêm termos impróprios para alguns arredados da linguagem popular mas um homem com noventa anos pode dizer aquilo que lhe apetece sem pedir desculpas a ninguém) 



- E vós cardeal, nunca amastes?
- Amei sim, eminência, uma donzela, pura e bela! Mas o pai dela, esse estupor, casou-a com o labrego dum lavrador!
- E nunca mais a vistes?
- Vi sim, eminência! Um dia, encontrámo-nos a sós num belo jardim! Beijei-a na boca, na testa, no nariz! Eu sei lá o que lhe fiz! Logo ali, sobre um carro de rodas, lhe mandei quatro valentes fodas!

Entretanto, eis que chega o marido - um homem alto, trancudo e sagaz! Que me exclama à bruta:
- Então? Seu filho da puta! Isto é o da Joana? Isto é o que se quer? Chega-se aqui e fode-se-me a mulher?!
E dizendo isto, exclamou:
- Ó Bento, traz cá o jumento!
- E sabeis para quê eminência?... Para me enrabar!... E entre gritos e urros - se lhe parece, ser enrabado por um burro, lá sofri o meu castigo!...
E como se não bastasse mandou que me atassem a um carvalho e, logo ali, me cortam os colhões pendentes... e o caralho.
Justiça de marido: quis foder, fodi, mas fui fodido!...

E, rezada a Ceia, bateram palmas que nem uns desalmados e eu desci da mesa amparado por três deles. Todos acharam muita graça à minha recitação e todos perceberam que só a viveram porque desligaram as máquinas.

No entanto, passados instantes, já todos estavam nas suas mensagens e a reclamar que eu soprasse velas e a oferecerem-me presentes embrulhados.

- Estais preocupados com o ambiente? Então porque gastais papéis em embrulhos? E que prendas são estas que não são livros, nem vinho, nem azeite?! Parem com as fotos! Parem de me tratar como uma relíquia! Eu não sou nem mais velho, nem mais novo do que vós! Sou vosso contemporâneo!

- Irra que o velho é mesmo rabugento!

Puxo duma colher de sobremesa e tento atacar o autor da frase.
- João tem calma! São jovens, não pensam!

A minha neta segreda-me ao ouvido:
Rabugentos são os meus amigos! Avô, quando eu fizer noventa anos, vou fazer qualquer coisa parecido! E quando fizer cem, ainda estou para aprender com o que vais fazer!

E não é que eu ainda durei mais dez anos!...

(o título deste post foi pra facebookiano ver)





domingo, 17 de janeiro de 2016

Passam-se os tempos, passam-se as vontades


No dia em que a estrada foi inaugurada, quando passou a caravana de carros pretos com vidros fumados, dos vizinhos que assistiram  ao acontecimento, ela foi quem mais resmungou.

“Filhos da puta” chama esta gente quando vê passar gente daquela mas ela não se ficou pela expressão maior do desabafo popular e aprofundou outras considerações.

Aiou porque tinha perdido a terra que lhe dava comer para a boca, aiou porque perdera o sossego que era o seu xanax, aiou pelo país que esbanja o nosso dinheiro em obras grandes. Quantos não se encheram à custa disto? Empregos? Eram só espanhóis escuros ou de turbante! É precisa? A mim não, que não saio daqui! Pagaram-me bem o metro quadrado, pagaram! Mas sabemos bem para o que foi! Agora se quero batatas tenho de comprar das deles e o dinheiro que me sobra não sai das suas mãos, o banco é deles!  

Mas pronto! Temos de nos conformar! O pior foi quando soube que me iam expropriar! Ficou a casa que o meu homem me deixou, podia ter sido pior!... E os dois anos de obras?! Ao menos agora acabaram-se os cilindros e o pó!

Entretanto, num instante, a idade avançou tão depressa os carros andam. Sem horta e sem quintal, as pernas começaram a entorpecer. Passou o tempo. Agora a sua vontade é que ele seja lento e se demore ao sol, de que ela faz bom proveito e diz e eu ouço:

- Eu cá digo quanto é a verdade, se não fosse a estrada isto aqui agora era uma tristeza, eu já me habituei, assim uma pessoa sempre se distrai, sento-me aqui neste banco a bronzear e a olhar para a estrada.

Passa a ambulância, os bombeiros e a brigada, passam caminhetas de gado, de eucalipto e da Renova, caravanas, altos carros e motards, apitam, ultrapassam-se e alguns acenam, olha uma velha ali a olhar pra mim, é assim a vida, que jeito me tem dado o dinheiro que eles me deram, olha eu agora a amanhar a terra dura, compro tudo no intermarché, olha eu agora aqui sozinha a olhar para as oliveiras e prós pardais, assim entretenho-me a ver os carros com pessoas dentro a passar e ouço o que eles dizem:

- Zum, brum, zum, brum, brum, bre, bre…
Ah!Ah! Você deve achar que eu estou maluca! Estou velha mas não estou doida! Isto antes de passar aqui a estrada era uma tristeza! Já viu? Se não passassem aqui os carros eu não os via! Pois é, se não passassem aqui os carros eu não os via!....

Julgo que é a primeira vez que me acontece, não consigo rematar a história e, ainda por cima o tema é recorrente - aqui e aqui. Gosto de ouvir esta mulher! Em 75 ela ainda era nova! Confessou-se ao padre uns dias antes das eleiçoes! Guarda, como é de boa católica, o seu segredo! Nunca mais votou noutros! Ela é das setas e o Marcelo também e acabou-se!

Esta história ficou assim, com princípio, meio mas sem fim! Que se lixe, não tem fim mas tem finalidade: a luta continua a ser dura camaradas! 

domingo, 25 de outubro de 2015

Antipático o raio que os parta – e aos fotógrafos também!


O fotógrafo rabeava à minha volta no pequeno estúdio, dando jeitos em suportes e projetores e na minha pessoa: gola, cabelo, cabeça, ombros e o raio que o parta, nunca mais estava tudo bem!  E, na hora do passarinho, nem ele, nem a minha mãe, me conseguiram arrancar a expressão da lei: um tipo para ficar bem na fotografia tem de arreganhar.

Foi assim e assim continou a ser em todas, conforme testemunha um quadro que tenho na sala com cartões de identidade da juventude: de estudante, da JOC, de militar, de sócio da ARCA, passageiro da CP, condutor de velocípedes e músico de cabaré.

Sou, portanto, um fulano sisudo, incapaz de responder com uma gargalhada a uma boa anedota, que só mostra os dentes se tirar a prótese. Mas gosto de ver retratos antigos. Sou também, portanto, um saudosista.

A minha primeira foto tipo-passe foi para tratar da documentação da matrícula no ensino preparatório. A minha mãe lá foi toda contente, comigo de má cara ao lado dela, e só voltou a dar um passo pelos meus estudos quando foi com o meu pai a Coimbra carregar o carro com as minhas gabardines e sebentas. Foi então que me fez a pergunta: “filho, que curso é que tiraste que as pessoas perguntam-me e eu não sei dizer?”.

Tendo iniciado o primeiro ano do ciclo nos primeiros dias de outubro só voltei a casa pelos Santos mas, para espanto meu, a minha mãe não estava. O meu pai foi comigo a Coimbra, de comboio, apanhámos um taxi para a maternidade para eu conhecer o meu primeiro irmão que não nasceu em casa e para tratar duns afetos em falta. Não pude entrar porque poderia ver mamas de mulheres e não tinha idade para isso. Chegaram as lágrimas ao meu pai quando me deixou com o porteiro, voltou passada uma hora, alegremente e com beijinhos da mãe.
- É parecido contigo!..

No início de dezembro, tendo deixado o bébé com a rapariga que a ajudava no regimento, viajou na camioneta da carreira para ver um dos seus filhos que não via há mais de dois meses.  
Manifestou tristeza e preocupação porque não me encontrou entre os outros meninos no recreio. Porque é que eu estava sozinho na sala de estudo, se ainda por cima não estava a estudar, mas a desenhar igrejas de duvidosa arquitetura?!...

Sou, portanto, pouco social. Mas enganou-se a minha mãe, não havia razões para tristeza ou preocupações, eu sentia-me muito bem ali no internato, eu gostava dos meus amigos e eles de mim e da minha cara de poucos amigos.
Eu tinha sempre alguém com quem brincar, dormíamos juntos, comíamos juntos, estudávamos juntos, rezávamos juntos, víamos livros pornográficos juntos, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas juntos, durante cinco anos que tanto marcam a vida dos mortais – dos dez aos quinze.

Quando eu saí, só ficaram dois. Só um chegou a padre mas já não o é. Perdi-os todos de vista, voltei a ver um ou outro furtuitamente. Já lá vão quarenta anos. Este é o almoço que eu desejava há muitos anos. Fiz um esforço, investiguei, procurei contactos, consegui.
Hoje, véspera do Dia de Todos os Santos, um grupo de velhos amigos vai reunir-se. Estou em pulgas para os ver a todos, vou voltar a ser quem fui.
Sou, portanto, um camarada.

(a idade não perdoa, estão aqui a dizer-me que é para a semana!...)


domingo, 31 de maio de 2015

6 de Junho - Dia da mãe

- Acorda João! Vais perder os 3 como eleitor! O pai já votou antes da missa enquanto eu fui comprar sardinhas! Disse que eu podia ir depois do almoço contigo, que nos emprestava a mota! Levanta-te filho do diabo! São três da tarde! O pai já foi para o café jogar às cartas e deixou-te a mota!
Cumprido o dever e o direito e já em casa, a mais de 500 m  da mesa:
- Sei que não são coisas que se perguntem mas como estamos entre mãe e filho e foi a tua primeira vez,  em quem votaste João?
- ....
- Cruzes canhoto filho! Não digas isso a ninguém! Ai se o teu pai sabe! Bem dizia ele que era má política dar-te a liberdade de não ires à missa! Se as pessoas sabem? Já viste João o que vão dizer de nós!?...

Passados 10 anos:
- Acorda João! Hoje é dia de eleições! O pai diz que já não vai votar! Já foi para o café jogar às cartas mas deixou-te as chaves do carro para tu me levares aos votos. Ou tu também já não votas?!
- Eu voto sempre, tenho pena é que não votes como eu!
- Aí é que tu enganas! Por vezes os filhos também nos ensinam algumas coisas! A partir de agora voto sempre nos teus! Não digas é ao pai nem a ninguém! Fica um segredo nosso!

Passados tantos anos, Deus pela morte, tirou o direito de voto à minha mãe - a lei da vida! Só tenho pena de não lhe ter explicado que muito antes de eu, surpreendentemente, a ter levado a votar assim, já ela me tinha ensinado, naturalmente, a votar do mesmo modo.