sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Fim do Mundo

Eu sei que me ando a repetir muito - que é que querem? Está tudo dito e hoje era para esta merda toda ter acabado!
O fim do mundo acontecerá um dia, se não for para todos juntos, pelo menos para cada um individualmente. Mas esta história de se repetirem as ameaças de que o mundo acaba, já chateia! Talvez por isso me tenha apetecido chatear-vos com a reposição desta história do Pata Negra. Quem preferir, em vez de lê-la, pode ouvi-la, no youtube abaixo, pela voz do actor Miguel Guilherme no "saudoso" programa História Devida da Antena 1. Ou, se quiserem, também podem fazer as duas coisas conjuntamente.


Eu ainda tinha a idade de me acharem graça pelas graças de menino. Aos serões, dava uma corrida a casa da ti Nini para receber a atenção dela, do tio Jofre e das suas duas filhas. Era uma casa de agricultores pobres que acendiam a candeia de azeite para poupar energia eléctrica e que tinha uma lareira tradicional com gatos e tudo. Às vezes apanhava a hora do terço e, de ave-maria em ave-maria, esperava as cinco últimas contas para depois ouvir, do tio Jofre, lendas e histórias que pareciam ter atravessado os séculos, de boca em boca, sem nunca se venderem ao elitismo da palavra impressa.
O tema daquele dia foi parar a um ponto que mereceu achega da Ti Nini, rara de intervenções por feitio e pelos papéis de dona que não lhe davam tempo para conversas de lareira. Disse ela, num tom apocalíptico, que Jesus havia dito numa qualquer aparição: “a mil chegarás, a dois mil não passarás!”
O tio Jofre, ciente do medo que a profecia poderia causar, a mim e às filhas adolescentes, atalhou:
- Ah! Mas a Nossa Senhora estava ao lado, pegou numa macheia de areia, atirou com ela para o mundo e disse: “e estes dou-os eu”!
Puto esperto, como eu era, fui para a cama descansado com a generosa oferta da Mãe do Criador, uma mão dá uma porrada de grãos de areia que, transformados em anos, dariam para a minha vida e para as daqueles que por cá ficarão com memória para me recordarem.
Já lá vão doze grãos e eu vejo a coisa preta! Será que os tempos corroeram a história, que a Senhora agarrou foi em areão ou brita ou até, azeitonas? É que eu vejo o Fim do Mundo à minha porta, em minha casa, na minha televisão, na minha Internet, no meu país.

O Tiazinha era um pedinte castiço que, naquele tempo, de tempos a tempos, passava na Terrinha.
Tenho pena de não ter letras para descrever o porte, o discurso e a vestimenta! Mas o nome - Tiazinha - já diz muito. Era um vulto santo antoninho, asadinho, de andar beato, de capa rodada e mitra de bandarilheiro, sobre a qual o pescoço afemeado equilibrava uma saca de alqueire com o grão que conseguia nas portas. Todas as portas lhe rendiam a esmola! Porque a humildade extrema com que nos abordava não nos deixava alternativa. Palmeava as léguas – ninguém como ele conhecia a geografia das aldeias - bichanando um rosário interminável de orações e ladainhas e só parava as palavras para respirar. Cheguei a segui-lo e a espreitá-lo pelas bordas do mato, e posso testemunhar que, mesmo onde já ninguém o ouvia, ele continuava debitando preces, sinal de que a sua oração não era para seduzir os pobres beneméritos mas era uma Fé genuína que acreditava que, assim rezando, se salvaria do Fim do Mundo.
Falo dele porque foi dele que adoptei a minha visão do Fim do Mundo, tão diferente de outras aterradoras que me foram contando. Dizia-nos ele:
- Pró Fim do Mundo tudo aparece: é mulheres grávidas, porcos com escagarrinha, reis na miséria, doidos varridos a governar, cães a uivar; cachopos a chorar, é pais abraçados às filhas, homens ameigados com galinhas, sapos nas cozinhas, luzes a acender e a apagar, etc. etc.
Não retive todos os indicadores mas vejo que qualquer coisa de parecido começa a acontecer: tenho uma galinha que é como um cão para mim.

21 comentários:

Louise disse...

Tu tens uma galinha que é como um cão para ti e eu tenho um cão que é como uma galinha.
E temos doidos varridos a governar porque reis na miséria ainda não vi.

Anónimo disse...

Não quererias dizer porco? Uma galinha que é como um porco para mim.
Para o caso tanto faz, só estou a escrever porque esta é mais uma crónica a merecer reacção!
Um abraço,
zerui

Oliva verde disse...

Lá teria a sua razão, o Tiazinha!
Mas como a Senhora lá foi atirando umas areias (que quero crer, fossem mesmo areias finas!)o fim do mundo chegará quando o deixarmos! Até lá, ainda vão aparecendo uns paraísos ( que sei serem cada vez menos) onde é bom encontrar refúgio!

Alberto Cardoso disse...

Mais uma história bonita e bem contada, Majestade. Vossa Alteza Real, prova aqui, mais uma vez, quão bom é a narrar.
Quanto “aos mil chegarás, dos dois mil não passarás” julgo que não foi Jesus quem o disse (isto cheira a um verso de um qualquer poema e Jesus não é tido como poeta) mas talvez Nostradamus, nas suas professias apocalípticas. Um engano de pouca monta do Tio Jofre, que pela descrição, podia ser um dos muitos tios que conheci na minha infância.
Cumprimentos para toda a Corte incluindo, claro, a Vossa galinha que ladra.

Kaotica disse...

Gosto mesmo dessa tua veia de raiz popular. Talvez também tu como o Tiazinha andes a falar pela casa fora e a galinha, que não é nada parva, anda no encalço das tuas sábias palavras. Vê lá não lhe caias em cima, numa noite de desvario!

Um abração

Sheila disse...

Doidos varridos a governar. Como tu escreves bem. Só não percebi bem o papel da galinha.

Marreta disse...

Dêem-me Jofres e Tiazinhas e levem-me por favor as Mayas e os professores Karamba!
Confio mais nos primeiros do que nos segundos. Tinha uma avó que fazia rezas e quebrados e untava testas com azeite, cruzes-canhotos, tirava mau-olhados e afastava todos os satãs, demónios e belzebus. Não previu o fim do mundo mas morreu com 95 anos sem nunca ter consultado um médico e sem nunca ter sequer admitido a instalação de luz eléctrica em casa.
Saudações do Marreta.

Tiago R. Cardoso disse...

De facto a coisa está preta, muito preta.

Aprecie o texto, gosto destas historias que nos levam ao imaginário popular.

ABEL MARQUES disse...

OI fim do mundo pode ser o princípio. Pense nisso.

quintarantino disse...

... e quando essa tal de galinha morrer, será aí que sucederá o fim do mundo? e se assim é, será que depois renasce para, inexoravelmente, caminhar para novo fim?

A. João Soares disse...

Linda descrição de um ambiente de outros tempos em que havia fé e pureza de sentimentos. Hoje, o fim do mundo está mais perto, porque, por definição, tudo se aproxima do fim
e as pessoas são menos sinceras e sociáveis, mas constrangidas em casulos minúsculos em que se asfixiam e deixam de ver as desgraças em que os políticos as envolvem.
E a galinha é a confirmação de que os animais são gratos pelas atenções, como os políticos (!) e sabem reconhecer aos cuidados dos donos. Todo o animal é domável. Até os sábios que defendiam o aeroporto na Ota, se mostravam gratos ao governo pelas benesses recebidas.
Abraços

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Boris disse...

Pata Negra, Pata Negra
o que andas a tramar
com essa galinha meiga
e com cabrões a reinar?

Pata Negra, Pata Negra
não sei o que aconteceu
mas nunca mais amanhece
no teu mundo plebeu

porque a injustiça permanece
e eu continuo a ser ateu
e o Tiazinha a pedir
só qu´em vez dele sou eu.

Pata Negra, Pata Negra,
ameiga lá a galinha
num país onde a morrinha
já os reis ensandeceu.

Pata Negra, Pata Negra
esta miséria de gente
que domina este país
faz o FIM ser de repente.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Gosto da tua sensibilidade poética para estas descrições. Hoje lembraste-me o Gabriel Garcia Marquez e os Cem Anos de Solidão.
Um abraço que não seja de fim do mundo.

NINHO DE CUCO disse...

Majestade
Reis pobres? Ameigado com uma galinha?
O que me valeu foi a história do tiazinha porque vossa Majestade escreve muito bem.
Um abraço não ameigado de galinha

al cardoso disse...

...."doidos varridos a governar"...., sem duvida, o fim do mundo esta ao dobrar da esquina!

Gostei do seu sitio.

Um abraco d'algodrense.

Joseph disse...

Gostei desse Tiazinha castiço. Nos dias de hoje nem os pedintes se aproveitam. Se deres menos dum euro ficam a praguejar.

Joshua disse...

Olha lá, Pata Negra, ADOREI o que escreveste. O Fim está perto. Também tenho uma galinha que me põe em respeito os meus três encorpados gatos: eles só comem quando ela deixa.

O teu Tiazinha está bem vivo graças à tua genial transcrição em Arte.

Como vale a pena cá coochafurdar contigo!

PALAVROSSAVRVS REX

O Guardião disse...

Os sinais estão um pouco por toda a parte. Repare que a lareira e a candeia correm o risco de vir a ser proibidadas, alguns já o preconizam, os néscios já governam o mundo, o que é falta ainda para o Apocalipse?
Está tudo negro, só com substâncias dopantes alguém pode ver algo rosado, como nos querem enfiar pelos olhos dentro.
Cumps

walter disse...

Camarada!
Vamos à luta antes que a galinha morra.

cicerone disse...

Não será isto o princípio do fim.
Já me cheira a arroz de cabidela.

Meg disse...

Ah... mas adorei este texto e estas memórias... estou a ver a lareira a panela de ferro de três pés, os gatos, a luz da candeia e quase ouço as histórias.
Além do mais fala-me de um tempo em que a família era "isto" que descreves tão bem.
Quanto à tua galinha, sorte a tua, acho eu...
Obrigada pelo momento gostoso.

Um abraço