domingo, 25 de maio de 2008

Florbela espanca versos

Aquela espécie de soneto sem regras de soneto mas ainda assim com qualquer coisa de soneto, não era de leitura de janela ou de banco de espera, não era de guardar na gaveta ou de enviar por carta. Um acto de despedida onde não faltasse a poesia, uma última poesia de amante incompreendido. Convidei-a para um petisco no José Manel dos Ossos, saquei do bolso de trás das calças Lois a folha A4 dobrada em quatro, provei o vinho, desdobrei o manuscrito, pousei-o sobre a toalha plástica de padrão ao xadrez e motivos de fruta, pousei-lhe o copo em cima para atenuar o efeito dos vincos, comecei-lha a ler enquanto comia:

FLORBELA

Flor-minha-bela-ser-perdidamente
porquê?! porquê perdidamente
fingindo amor-amar-perdidamente

a porta do nascente abre-se em cio
janela morta e dor
perdida de tanto ser amada

Flor-minha-bela-ser-perdida-a-mente
o moço de recados de prazer
partiu pelos prados férreos do poente
como quem parte esperando sua chegada

Flor-minha-Bela
Partiu! Partiu perdidamente!

Florbela espancou todos os versos, comeu e bebeu tanto quanto eu, retribui-me de igual para igual todos os olhares, pagou a conta e terminou, numa entoação de desprezo, com a expressão:
- Poetas!...

“ E agora estou perdido!
Devo parar?
- Não, se paras estás perdido!” Goethe
Estou perdido! Fui roubado! O roubo evoluiu!

18 comentários:

MARIA disse...

Majestade,
Talvez por sentir o País perdidamente entregue "aos bichos" a Flor, se alguma vez bela, entrasse em desencanto.
Já nem mesmo a poesia diminuí a agonia do estado de coisas a que chegamos neste Estado a que orgulhosamente já chamamos Portugal e hoje não sabemos como chamar...
Um beijinho sempre amigo da
Maria

alberto cardoso disse...

At� acredito que a Flor fosse bela mas era burra pela certa! Quem, num ambiente t�o rom�ntico como a tasca do Z� Manel dos Ossos, com um petisco de alto l� com ele (a carninha tenra presa aos ossos) com o bom �vinho da casa� ouve uma impl�cita declara�o de amor e te despacha com um expl�cito �Poetas!!!� diz tudo. N�o tem um pingo de sensibilidade! Mas, v� l� pagou a sua parte da conta, pelo que o dia n�o foi um completo desastre.
Alberto Cardoso

SILÊNCIO CULPADO disse...

Majestade
Um Rei não se deixa roubar. Um Rei procura junto dos seus súbditos, entre os quais me encontro, o exército necessário para combater os ladrões.
Vossa Majestade é um génio da poesia. Publique que eu compro e apregoarei aos quatro ventos a sua palavra.
Uma vénia, Majestade

Templo do Giraldo disse...

Ca estamos de novo meu amigo.

Depois de terminada a queima das fitas, e aquelas noites bem passadas, e bem regadas, estamos de regresso ao mundo activo do blogger.

Deparei que continuas aqui com o teu "sitio" bem movimentado como ja nos habituas-te.
Em breve voltarei com mais vagar para saber o que aqui se tem passado.

Um abraço.

Joana Dalila Santos disse...

A Florbela é que a sabe toda!

O Guardião disse...

Cuidado com as Florbelas...
Majestade, não se deixe influenciar nem pague a conta a quem espanca os versos, em vez de espancar quem realmente o merece.
Cumps

alberto cardoso disse...

Já agora esperemos que o grande amigo e companheiro que se auto-denomina por "templo do giraldo" cure definitivamente a ressaca a que toda a “Queima das Fitas” obriga e volte aqui. Se possível que dê antes uma espreitadela a uma gramática de Português. Sem pavores, claro! Só que quem já festeja uma “Queima” tem redobradas obrigações de bem falar e bem escrever em Português.
Alberto Cardoso

Pata Negra disse...

Maria,
a poesia rima com agonia.
Agora sim, estou mesmo agoniado com as sobras que me dão.
Nesse tempo, de amor-amar-perdidamente, qualquer osso me satisfazia a ponto de o "transmorfar" em poesia. Nesse tempo tudo o que era mato, era para mim flor, tudo o que era flor era para mim mato.
Agora só amo as árvores e o musgo que as amacia.
Um abraço de mente perdida

Pata Negra disse...

Alberto,
só uma correcção: ela não pagou a sua parte, pagou a conta toda! Este pormenor vira completamente a moral da história.
Um abraço de quem não gosta de histórias com moral

Pata Negra disse...

Silêncio
Combateremos todos os ladrões nem que para isso tenhamos que roubar.
Publicar?! Está publicado: cada blog é um livro sem papel.
Um abraço do bosque real

Pata Negra disse...

Oh Giraldo, deixaste-me desorientado! Eu já estive na praça mas não te vi por lá, nem zorro de capa preta, nem queima tucátulá.
Um abraço de continuar

Pata Negra disse...

Joana
Flor Bela deve ser hoje mãe negra:
- Mãe negra, não sabe nada!
Um abraço sem Paulo e sem Carvalho

Pata Negra disse...

Guardião,
espancou os versos mas pagou a conta! Tal bêbado que parte a loiça do café e paga tudo!
Um abraço feio e sem flores

Pata Negra disse...

Alberto,
tens alguma coisa contra os brasileiros?!

alberto cardoso disse...

Eu, Deus me livre!!! Então as brasileiras... (Ai,ai)
Alberto Cardoso

A. João Soares disse...

O soneto, distorcido na métrica, acrescentado com os comentários que me precedem não dão para rir «perdida-mente», mas ajudam a encarar as tropelias da vida e a continuar a dar pérolas aos ditos, «com sua licença». E as realidades que nos cercam mostram que nem só as perdidas mentem. Há por aí muitos que se acham muito bem e que mentem descaradamente, desculpa eu não sabia que era proibido, mas prometo não mais fazer esta maldade e até vou deixar de jogar ao pião!
Um abraço
A. João Soares

Mary disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mary disse...

Boicote e porrada a quem nos rouba. Unidos espancaremos os vilões.
Bjs