sábado, 5 de dezembro de 2009

Capitalismo solidário?!


- São 34.99 euros! Não quer arredondar a sua conta para 35 para uma campanha de solidariedade?!
- Olhe! O Belmiro que seja solidário!
A minha resposta seca e irreflectida fez corar de surpresa a pobre funcionária da Worten que me deu como troco uma resposta seca e irreflectida.
Trata-se de uma campanha, segundo apurei posteriormente, em que o poderoso grupo de vendas propõe aos clientes que deixem arredondar a conta por excesso, com a garantia de que esse gesto será automaticamente convertido e garantido em solidariedade que a operadora não identificou. Acredito que seja bem encaminhada mas não compactuo com a forma, nem me convence a inocência do altruísmo:
1º - Já lá vão uns anos em que os preços terminados com um 99 em letra pequena,  cumprem os seus objectivos mas já cheiram mal porque, apesar de reconhecidamente a técnica funcionar é, ao mesmo tempo, uma provocação ao funcionamento do nosso cérebro e à passividade do nosso eu "consumidor".
2º- Salazar foi salazarento ao proibir mendicidade. Seria pedir muito ao Sócrates que, ao menos, proibisse que nos fosse estendida a mão pela gaveta do hiper mercado?!
3º- Que estranha forma de distribuir riqueza é esta, em que a boa acção dos mais ricos dos ricos, é disponibilizarem as suas mãos para fazer o transvase de bens, dos - talvez - menos pobres para os - talvez - mais pobres?
4º - A solidariedade devia começar na grande casa dos directamente dependentes do senhor Belmiro. E que tal dar aos seus trabalhadores - colaboradores como, não inocentemente, insistem que se chamem - uma vida digna de não escravidão?
5º Quem tem inteligência para pensar nesta campanha de marketing temperada com tão engenhosa solidariedade terá, certamente, lucidez suficiente para perceber que a funcionária da caixa pode ser muito bem a primeira a precisar dessa solidariedade, se não puder ser em cêntimos que seja ao menos em menos uns minutos de turno de trabalho.
Posso dar, quero dar, darei sempre mas nunca aos balcões dos semeadores da pobreza!
Boas intenções tem o inferno a mais e eu já estou cheio de natais.

21 comentários:

Meg disse...

Meu caro Pata Negra,

Posso assinar por baixo?

Sei de muita gente licenciada a ganhar o ordenado mínimo nas empresas do B.A.
As operadoras de caixa, por exemplo, trabalham quase em regime de escravatura.
Porquê?
Porque, dizem eles, mais vale ganhar pouco que não ganhar!

Que a voz não te doa!

Um abraço

Zé Povinho disse...

Não sei o que dizer disto. Claro que me apetece assinar por baixo, mas também fica muito desprezo por demonstrar, porque pedia-se aos grandes que fossem além da caridadezinha, porque eles sabem bem porque é que há tanta miséria!
Abraço revoltado do Zé

Zé Povinho disse...

Não sei o que dizer disto. Claro que me apetece assinar por baixo, mas também fica muito desprezo por demonstrar, porque pedia-se aos grandes que fossem além da caridadezinha, porque eles sabem bem porque é que há tanta miséria!
Abraço revoltado do Zé

Zorze disse...

Pata Negra,

Vejo com muito agrado, que a consistência blogosférica voltou.
A minha mão, melhora a olhos vistos.
Quanto ao post, posso dizer que trabalhei num grande centro comercial dois anos e pouco, e vi autênticos horrores laborais.

Abraço,
Zorze

Alberto Cardoso disse...

Olá Majestade.
Fazer "caridade" com o dinheiro dos outros é barato e dá prestígio. Já tinha ouvido a publicidade à coisa mas não liguei. Só agora percebi. Temos que reconhecer que imaginação não falta aos Belmiros da nossa praça quando toca a sacar mais uns trocos ao ingénuo ou mais distraído cidadão.
É aqui que entra o Rei: alertar os seus súbditos para as trafulhices dessa gente. Isso é que é um verdadeiro ´serviço público`.
Uma vénia do
Alberto Cardoso

antonio - o implume disse...

Meu caro tiro o chapéu a este texto. A solidariedade dos ricos faz-se com o dinheiro dos mais pobres!

E em calhando deduzem primeiro as despesas com a promoção da campanha...

Manuel Gouveia disse...

Fiz-te uma referência no 2711.

jes disse...

Grande texto, Pata negra. Parabéns

Diogo disse...

Quem dera estar a ouvir um Requiem em Réu maior em memória do saudoso Belmiro, após uma doença prolongada e sofrida, e da fortuna que ele não pode levar para a cova.

Jorge disse...

Assino por baixo, caso v/ majestade assim, me permita e que nos valha o... Pai Natal...

opolidor disse...

absolutamente de acordo, saber para onde vai a ajuda é crucial... aquela coisa dos poucos cêntimos que faltam para arredondar ao euro num preço é antiquado, ridículo...
abraço

MARIA disse...

Apenas perguntaria ao Senhor Belmiro, se pudesse, se faz compras nos seus hipermercados e no caso, quantos cêntimos o orçamento de que dispõe arredonda para "caridade".
E perguntaria também,o que sabe o Senhor Belmiro de necessidades ?
A ideia que tenho é que a sua necessidade é produzir e fazer circular dinheiro.
Não nos atire é areia para os olhos.
Porque mesmo quem não tem dinheiro, têm cérebro. Algo que o Senhor Belmiro não poderá comprar a quem não queira vender ou doar ...

Bem notado Majestade !

Um beijinho com amizade.

Maria

MARIA disse...

Quis dizer "do orçamento"

do zambujal disse...

«É exactamente o que eu penso», disse esta senhora aqui mesmo ao lado.
Eu também!
Boa! E um abraço

lili canecas disse...

Inteiramente de acordo com o Alberto Cardoso.

lili canecas disse...

Inteiramente de acordo com o Alberto Cardoso.

Compadre Alentejano disse...

Este Belmiro sabe-a toda...
Agora quer fazer solidariedade com o dinheiro dos outros! Porque não, com o seu?
E começar a fazer solidariedade com o pessoal das suas empresas...
Um abraço
Compadre Alentejano

samuel disse...

Trau!!!

Abraço.

Camolas disse...

- Manda-os pedir para a porta da igreja, mermão!!!

Milu disse...

No fundo esta é uma forma de fazer publicidade, isto é, de promover uma imagem solidária na consciência colectiva, logo a começar pelos mais novinhos, sem contudo, gastar um tusto! São negócios à Belmiro, que se na verdade fosse muito ciente na questão da solidariedade não poderia ser tão rico, porque então, os milhões o incomodariam tanto como a pior micose possível de ser contraída pelo ser humano. Há pelo menos três anos que deste grupo surgem campanhas que promovem a solidariedade à custa dos clientes. Não tenho a certeza se será assim tão mau, há que pensar em todos aqueles que beneficiaram destas campanhas, mas vindas de quem vêm faz-me desconfiar que tem mais a ganhar com estas iniciativas do que a perder, afinal não é do bolso dele que sai o pilim.

donatien alphonse françois disse...

Ó Rosa arredonda a saia?