sexta-feira, 23 de abril de 2010

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Todos os anos escrevo em Abril, em Maio e no Outono. Se em Maio me dá vontade de escrever porque os campos me põem a cantar e no Outono escrevo a queda das folhas e o Inverno que aí vem, já em Abril é por uma outra razão especial, é por causa do dia 25, que os outros meses também têm mas não é igual. É verdade que já há gente que não vê nada de especial nesse dia e outra gente que pretende que ele não seja especial mas, para nós outros é! É por isso que se escrevem e se leêm coisas, como este post, em Abril e não no Natal que também é um dia 25 especial.

Tenho a infância marcada pela lembrança ténue e breve de um Abril, no tempo em que à volta das crianças se dizia:
- O Mário Soares é um cabrão! Cabrões dos fascistas! Cabrão do Sá Carneiro! Cabrões dos comunistas! Cabrão do Otelo, do Spínola, do Cunhal! Cabrões da PIDE! Cabrão do Salazar!

E no fim, a Gaiola Aberta a rematar:
- E não há ninguém que parta os cornos a estes cabrões?! 

Depois veio o 1º aniversário. Foi uma seca esperar por ti e por ti, oh pai e mãe, para que votassem pela primeira vez e depois fomos para a Venda ver a televisão até altas horas. Depois veio o segundo aniversário e lembro-me do fervilhar das imagens e das canções na rádio e na TV, das sardinhadas, das corridas, dos cartazes, da política que eu começava a perceber. Como era "esperança" ver as pessoas a discutir o amanhã! Depois veio o quarto, o quinto, o sexto e por aí fora e era bom sentir que Abril era sentir, falar, pulsar, razão, cantar, esperança, justiça, futuro, revolução.
Até que começaram a surgir os discursos de embalar, uns trabalhos para a escola sempre com a mesma foto a preto e branco, a artrose a apanhar o braço e o punho esquerdo, a voz oca dos vereadores a cantar "o povo é quem mais ordena" no largo da câmara, e Abril a esvair-se ano após ano, nas políticas de cada dia.

- O que tem Abril e Sócrates em comum?! Ambos são esperança, excepto o Sócrates!

Também! Para escrever isto, mais valia estar quieto! Vou mas é mudar de assunto:
O padre deixava-me ir para o orgão de pedais do salão paroquial e, porque me ouvia do cartório, foi dizer à minha mãe que eu só tocava o "Malhão" e a "Gaivota" e que um bom instrumento para eu estudar era a enxada.
Faço ideia o que pensou quando soube que eu gostava de Doors e ouvia Sex Pistols e que vivia da música naquele conjunto daquela história que faliu por ser sem título!
Mas!... O que tem isto a ver com Abril?!
Cipriano viveu a infância de Abril em França. Nini, meu companheiro de estrada e palco, começou muito novo a tocar. Era Abril, era Paris, eram muitos os emigrantes portugueses e pela pátria-língua era a mesma Gaivota que voava ou se cantava! E era este o filme (com Proud Mary à mistura):

 

10 comentários:

O Guardião disse...

Um longo caminho desde 74, em que uns amoleceram e outros se esqueceram.
Há quem teime em recordar que antes as coisas eram más, mas a memória é demasiado curta e só quando o rabo está a arder é que muitos berram, e pode já ser tarde.
Belo texto, Pata Negra.
Cumps

Milu disse...

Guardo na minha memória algumas lembranças vagas do que aconteceu no dia 25 de Abril de 1974, tinha eu então 13 anos. De repente o rádio a pilhas lá de casa não se cansava de emitir a música Grândola Vila Morena, que apesar de não corresponder propriamente às melodias muito apreciadas pelos adolescentes de então, que por norma achavam a música portuguesa uma grande chatice, ainda assim foi capaz de me provocar uma emoção desusada, que me fez sentir que algo de extremamente importante havia acabado de acontecer. Ouvi os meus pais que entre si trocavam conversas sobre a Pide e o fascismo, percebi que o meu pai estava bastante emocionado, mas eu, nada entendia. Até àquela idade o que tinha interiorizado sobre o Estado eram as grandes fotografias que jaziam penduradas nas paredes das salas de aulas, uma delas era o Marcelo Caetano, da outra já nem me lembro. Só anos mais tarde, quando estudei à noite, pude perceber de quantas mentiras foi construída a nossa História.

Ferroadas disse...

Excelente.

Olha camarada, enquanto houver homens sem palas e sem se vergarem, Abril nunca morrerá e sabes porquê? Porque temos uma coisa que eles não têm, somos LIVRES.

Abraço revolucionário

Sérgio Ribeiro disse...

Excelente, amigo!
Neste curto texto, fizeste-me rir, sorrir, sentir (sentir... até chegar a lagrimita aos olhos). Está lá tudo (excepto o Sócrates, mas não faz lá falta nenhuma).

Um enorme abraço (revolucionário, como diz o vizinho Ferroadas)
Até amanhã, camarada

antonio - o implume disse...

A tua mãe devia ter seguido o conselho do padre...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Como tu sabes dizer as coisas!... Por isso sou apoiante da tua candidatura a Belém. Essa sim dar-me-ia garantias de liberdade. Aquela liberdade de que muitos falam mas que só se sente verdadeiramente ámanhã.

25 de Abril, SEMPRE. Viva a liberdade!

Abraço

Zorze disse...

Pata Negra,

O post é lindo!
Vê lá tu, que eu nasci em Maio de 74, como o tempo passa.
Adorei o vídeo, pena é que o som já não esteja nas melhores condições.
Mas o que importa é o espírito com que se vive estas coisas, que não são, de somenos importância.

Abraço,
Zorze

opolidor disse...

Rei Pata

ainda te levantam uma comissão de inquérito...
abraço

manuel gouveia disse...

Um idiota colocou-te em destaque o 2711.

Marreta disse...

Estou como o Sérgio Ribeiro, este post despertou-me todas essas sensações que também vivi, escusavas era de assassinar o post com um suíno de terceira categoria. Mas, enfim, a perfeição não existe.

Um abraço com a pistola na mão à entrada da porta e a Mary do outro lado.