quarta-feira, 16 de junho de 2010

Coisas da minha mãe (1)

Levantava-se muito cedo, isso sim, três, quatro, cinco da manhã para ir para a Lisboa, para a Beira Alta, para a Beira Baixa. Chegar tarde era raro. Se tal acontecesse aguardaríamos de orelhas esticadas o apito poderoso da Scania a anunciar a sua entrada na aldeia e a pedir ceia na mesa. No pior dos cenários, a Maria Rosa, do posto de telefone público, a dar o recado de que lhe tinha telefonado a dizer que só viria no dia seguinte porque a camioneta teria ficado atolada nas lamas de Mação.
Mas o vício da sueca, às vezes, também fazia das suas.
- Já que o pai nunca mais chega vamos comer nós, meninos!
Agradecida a refeição ao Pai do Céu, a mulher pôs-se a preparar a do pai da casa. Composto o tacho das migas, aconchegou-o com os frascos de condimentos e utensílios que habitualmente a compunham, a alcofa do almoço para o trabalho.
- Vem comigo João! Guardas-me o medo! Vamos levar a ceia ao teu pai à taberna!
E lá fomos ambos, ladeira abaixo, surpreender os quatro fregueses que, sentados nas únicas quatro cadeiras, à volta da única mesa do estabelecimento, batiam as cartas tão aficionados que nem pela fome davam.
A chegada de mulher e filho, marcou surpresa, concentrou olhares mas não anunciou grandes problemas:
- Ah mulher do diabo! Não me digas que lhe vens bater?!
Quando a alcofa pediu lugar na mesa, as gargalhadas interromperam definitivamente a jogatana mas o esposo não se sentiu troçado, antes se dispôs de imediato à refeição e largou orgulhoso aos companheiros uma cara que perceptivelmente queria dizer “vocês gostavam de ter uma mulher assim!...”
- São servidos?!
- Vamos mas é acabar com isto que se a minha vier traz é a vassoura!
Eis senão quando, depois do entusiasmo das primeiras garfadas se sentiram umas couves cruas entre os dentes para logo de seguida se descobrir que só por cima a comida era de gente. E, sem pensar no que dizia:
- Ah mulher dum cabrão que querias que eu comesse a lavagem do porco!
Com mais um coro de gargalhadas, comentários e impropérios, compôs-se a partida e regressámos ao lar todos bem dispostos.
E era assim que a vida se fazia alegre!

10 comentários:

antonio - o implume disse...

Gostei da tua memória, mas olha que os candidatos têm por memória um avô...

Anónimo disse...

A história valeu.Mas o título / imagem dizem muito.mfm

do Zambujal disse...

E assim te fizeste um home, ó João!

Bem contada estória. Tens talento, pá. Digo-te eu que sou muito lido.

Abraço

opolidor disse...

Rei candidato a republicano...
aqui está mais um texto presidenciavel...
abraço

O Guardião disse...

As estórias da vida contadas por um mestre. Óptimo.
Cumps

MARIA disse...

Já estavamos todos saudosos das suas estórias.
É um texto tão especial, com uma riqueza humana de rara excepção : podia-se dele dizer apenas ternura, mas seria tão pouco.Ficaria tanto por dizer.
Nos nossos dias ninguém ama e se dá como a protagonista desse texto magnífico.
Nada espanta que desse alimento tenha saído a sua grandeza de carácter e humana!


Um beijinho sempre amigo Majestade

Maria

Anónimo disse...

Quando a alcofa pediu lugar à mesa...! Também dei uma gargalhada. Uma maneira inteligente de soltar as palavras.Adoro ler textos desta natureza.Continuação de boa memória. Um beijo com sabor a migas...hummmmmmm adoro migas.
Desabafosdemulhermadura-2010

salvoconduto disse...

Espero que fosse só depois de pagar os copos de tinto que estavam apontados a giz no cu da pipa...

Marreta disse...

Bons velhos tempos. Agora a coisa seria diferente, o marido tinha sacado da sachola e cortado a cabeça da mulher e do filho e de seguida ido a casa buscar a caçadeira, despachado mais 2 ou três e rebentado com os próprios miolos.

Saudações do Marreta.

Compadre Alentejano disse...

Os costumes das Beiras muito parecidos com os do Alentejo... Sinto saudade.
Abraço
Compadre Alentejano